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5 de dezembro de 2010

In Nomine Dei

Otávio Cabral

Antes que o sol adormeça
Que a minha fé reacenda
E o teu poema amanheça

Cegai meus olhos poeta
As minhas pernas cortai
Todo meu corpo ulcerai

De Deus livrai-me poeta
De sua fome voraz
Livrai poeta livrai-me

De tudo que em seu nome
É praguejado livrai-me
Do paraíso livrai-me


Soneto de mar e vôo quase pássaro

Gonzaga Leão

Possuis provavelmente repetido
da ave o vôo nas mãos e nos cabelos;
nos teus lábios maduros e vermelhos
há certamente um pássaro ferido

que se refaz, de vôo prometido.
São de asas silenciosas teus artelhos.
E há também um mar que em teus joelhos
repousa, um mar na cor do teu vestido

transparente, finíssimo, de gaze,
quase desfeito ao vento, voando quase.
Um mar pousado em ti, calado e breve.

Digo eu que sei que me perdi no mar
que em ti descansa e que aprendi a voar
sem consequências com teu corpo leve.


No azul de Lorca

Arriete Vilela

As estrelas de Lorca repousam
sobre o azul dormido,
mas nada me dizem de ti.

Saberão os álamos dos rios de Lorca
que passos peregrinos se interpõem
entre os nossos azuis,
impossíveis hoje?

Saberão as águas desnudas de Lorca
quantas luzes hás de atravessar,
em quantos corpos hás de dormir
e que labirintos hás de tecer para lograr o tempo,
antes que assomes na madrugada
da minha rua?

Há as caravelas, sei.
Mas não devo apressar-te. Virás
à época dos frutos maduros,
do trigo e das uvas,
do mel e do amor.

Virás no rastro de Lorca
e nos claros azuis em que testemunhei
os luares ferindo de saudade
a noite profunda.

Virás por veredas que se hão de consumir
em flor e silêncio:
aprenderás a ninar Lorca
para compreender que, como ele,
não sabes teu fim
nem teu destino.


A rua da casa do meu avô

José Geraldo Marques

a rua da casa do meu avô
era ampla e bela
como a aurora
e nela
desaguavam (misturados ao ipanema)
todos os rios da minha esperança

a rua da casa do meu avô
era uma ponte
que ligava à cidadezinha
a mais distante galáxia
e por elas (às tardes das sextas-feiras)
passavam todos os touros da minha raça
aos quais a rude gente chamava gado

a noite da rua da casa do meu avô
era mais quilométrica que a da broadway
(embora anti-luzisse):
é que as constelações pareciam armadas para cair
ao menor sussurro de Deus...

2 de dezembro de 2010

Meus poemas

Réquiem para alma baldia

Iremar Marinho

Divina Pastora guarda
o corpo crivado d’alma
baldada surpreendida
dentro do beco baldio.

Divina Pastora vela
o corpo (saldo esquecido)
na vala da morte balda
(alma de vida evadida).

Divina Pastora guarda
o corpo sem nome d’alma
baldia (vida homônima/
baldada morte sinônima).

Divina Pastora, tende
piedade d’alma baldia
da vida tão descuidada
(baldada vida vadia).


Poema de névoas

Iremar Marinho

Ao meu pai Manoel Marinho

I

- Que divindade reúne
Miasmas desintegrados
E bóreas inomeados
Para formar nebulosas?

- Um deus desmemoriado,
Qual demiurgo deforma
O tempo para em seguida
Refazê-lo como névoa?

- O cosmo não é tecido
Como teia pela aranha,
Mas esculpido ao fogo
Soprado por mil demônios.

II

Ó homem marcado, dai
Lugar a quem, sem sinal,
Passa incólume sob o crivo
Dos detentores da morte.

Atentai ao que está mudo
(Não-falado-aquém-do-som),
Ao quase que nunca é,
Ao rumor de ventos dantes.

Atentai à flor da pedra,
À prostração do vazio,
Ao raio feito delírio,
Aos lírios ensanguentados.

18 de novembro de 2010

Poemas alagoanos

Cuida bem do meu cavalo cor de prata (I)

Agatângelo Vasconcelos *

Cuida bem do meu cavalo cor de prata,
se não queres que eu caia nestes campos.
Que não lhe falte o capim verde e a alfafa,
que os arreios sempre limpos estejam prontos.

Dá-lhe a água da nascente que existe
na encosta que um dia te apontei.
Acolchoa o meu selim aveludado
e atenta que a brida não o corte.

A montaria deve estar ajaezada
pois a viagem pode ser a qualquer hora
e meu regresso vai durar a vida inteira.

Pra meu galope escolhi o teu caminho,
mas se não queres que eu caia nestes prados,
cuida bem do meu cavalo cor de prata.


* Do livro “Sagrado Coração Exposto”, Edufal – Maceió-AL – 1981)

“A linguagem poética de Agatângelo Vasconcelos,
médico-psiquiatra alagoano, se identifica com a voz
que mora dentro de todos os poetas e grita
como se estivesse pedindo socorro,
clamando para que não se deixe matar
nem violentar a poesia”.
(Anilda Leão)


Canais e Lagoas

Paulo Renault

Arrependido e mudo deito-me a céu aberto
sobre as margens quentes e molhadas
que sem nenhum segredo
há pouco as águas da Mãe do Norte cobriam.

Acosto-me e embora ainda confuso,
arruíno as minhas lembranças
com o que não há, nunca mais haverá, jamais.

A insanidade foi tão assoladora,
amou tanto a si mesma que a jaçanã almada
não vislumbrara o seu fim
que a si mesmo causa espanto.
Foi a inundação do nada onde tudo havia.

O anum-preto, que de gaitadeira em gaitadeira
dispunha sua pequena sombra sobre o arisco aratu,
não canta mais, chamando a companheira
para juntos voarem canal afora.

Do Rio das Ciladas e das Pedras ao Pontal,
emergiram duas grandes mães:
a do Norte e a do Sul.
Duas grandes bacias d'água,
animais e plantas, águas de viver.
De jangadas, canoas, vidas, gente.

Viverás de tainhas, carapebas,
camarões, soias, taiobas, sururus...

Oh, Mãe do Norte,
devorai as tristezas nos olhos das crianças
trazidas para as tuas margens
pelos ventos dos canaviais,
palas dobras de Coqueiro Seco,
de Luzia Santa, do Velho Fernão
e da cidade que tapou seus alagadiços.

Oh, Mãe, derrama tuas lágrimas
águas serenas e escuras
sobre a minha alma mestiça.
Quero viver e morrer em ti
mergulhado e envergonhando
nas tuas profundezas.

Quem sabe, minha alma bohêmia e sonhadora,
bêbada e injusta encontre-se novamente com seu hálito
e com os passarinhos que me levarão
para o céu desfeito nas asas da galinha d’água,
da jaçanã, onde dançarei com a caipora,
a musa dos manguezais que te margearam.

14 de novembro de 2010

O mundo impossível dos meninos

Iremar Marinho *


“Ó terra em que nasci e morri,
o seu Mundaú, suas lagoas,
minha mocidade.”
(Jorge de Lima)


Poeta Jorge de Lima,
universal e tão próximo.
Na invenção da infância,
criamos o mesmo mundo
impossível dos meninos.

Nós percorremos a mesma
Cidade da Madalena
(ex-Vila da Imperatriz),
o nosso burgo natal):

Rua da Apertada Hora,
Rua do Jatobazinho;
a Rua da Cachoeira,
a Rua do Virador,

Rua da Matança Velha,
Rua do Boi, do Carvão,
Rego da Guida, Pedreiras,
Rua do Consome Homem.

Sou da Rua do Cangote.
És do Largo da Matriz
(da esquina do Comércio,
olhando a Rua de Cima).

Nós passeamos a esmo
pelos “caminhos que ainda
têm orvalhos e sonâmbulos
bacuraus”, “ninhos suspensos”.

Vagueamos no Cruzeiro
do Século, no Jatobá,
no Sueca, no Bolão,
Tobiba, Terra-Cavada,

lá no Fundo do Surrão,
Brejo do Capim, Muquém,
no Cafuxi, Amolar,
no Caboje, na Jurema,

Várzea Grande, Mão Direita,
Cana Brava, Sapucaia,
no Caípe, no Mocambo,
no Ximenes, no Cajá,

no Riachão, nos Esconsos,
Serra Grande das Canoas,
Serras do Frio, da Laje,
da Barriga (do Quilombo).

Tomamos banho no mesmo
Mundaú, das “lavadeiras
seminuas “, curiosos
de ver aquelas “mocinhas
nuinhas, de pé... com frio...”

Na mesma feira de sábado
(eu me perdi do meu pai),
fostes guia da menina
cega que pedia esmolas.

Na estrada Great Western
(“balduínas sonolentas”),
os meninos de “alma lírica”
aprenderam ver paisagem.

Nossos mundos impossíveis
unem-se pelas lembranças
indeléveis como nódoas
nas almas destes meninos.

Eu te peço por empréstimo
tuas raízes (são nossas)
para deixá-las plantadas
para sempre na União.

Empresta-me teu sublime
Acendedor de Lampiões.
Empresta-me Santa Dica.
Empresta-me Pai João.

Empresta-me Quichimbi.
Empresta-me Janaína.
Tua Mulher Proletária.
Empresta-me Negra Fulô.

Só não tomo por empréstimo
tua grandeza de poeta
universal. Minha dívida
contigo é muito grande.

Dever-te-ei para sempre.


* Iremar Marinho é jornalista e poeta, conterrâneo do poeta Jorge de Lima.

8 de novembro de 2010

Melhores poemas que eu li

Lufada *

Hans Magnus Enzensberger

Certas palavras
leves
como pólen de álamos

sobem
levadas pelo vento
descem

raramente pegáveis
vagam longe
como pólen de álamos

certas palavas
talvez deixem
a terra porosa

lançando depois sua sombra
uma sombra sombria
quem sabe não

* Tradução de Marcos de Farias Costa, in “Não Tem Tradução – Antologia Poética Universal (Bilíngue)” – Ediculte-Sergasa – 1989 - Maceió-AL


Te espero na curva de qualquer rua *

Camillo Sbarbaro

Te espero na curva de qualquer rua,
Perdição. Te procuro nos olhos
de cada mulher que passa...
Paro nas barracas das feiras
para ver a mulher-serpente
a menina que voa...

Oh volúpia de dar tudo por nada!
de levar à custa de um cigarro
esta vida que é todo nosso bem!

Aquela que todos tiveram, que ri
fácil e não percebe, aquela que
com um sacudir de ombros e um mover de anca
dissolva todo o meu mundo interior,
aquela tão desprezível que ignora
o seu poder,
eu peço que me atravesse o caminho.

Como um mendigo que vindo
pela margem do rio, desdenhoso
joga o único vintém que possui,
por ela eu jogaria a vida sorrindo.

* Tradução de Paulo Malta, na revista Dialética – Ano 7, n. 5 – Março/2001 - Maceió-AL

19 de outubro de 2010

Meus poemas

Poética

Iremar Marinho

"Impactos de amor não são poesia"
(Carlos Drummond de Andrade)

Rilke aconselha
não escrever
poesias de amor.

Seifert vai escrevê-las até o fim.

Riam de Rilke e de Seifert.
Riam de mim.

(Escrito na década de 1980)


Quadra para os Criadores

Iremar Marinho

Criamos pássaros e a madrugada,
O dia branco e a noite espessa.
Criamos tudo; também o vazio.
Fingimos deuses, somos os poetas.


Este Rio Mundaú não é o mesmo

Iremar Marinho

Este Rio Mundaú não é o mesmo
Rio Ganges que banhou Jorge Luiz
Borges cego pela luz de Buenos Aires.

Neste Rio Mundaú dos afogados,
submerge outro Jorge –
de Lima, que Mira-Celi
deixou cego para abrir
os portais de sua fuga
surreal à insanidade.

4 de outubro de 2010

O QUINTO NARIZ DA BESTA

Cícero Melo
(1952 União dos Palmares/Alagoas)


Acidentalmente juntos,
as bombas criam digitais
nas retinas.
Logo mais abaixo,
há rios
e navios voltando do inferno.

CICATRIZ NA VIDRAÇA

Cicero Melo

A luz esconde o dom de ser eterno.
Demônios,
o que se traça sob a farsa,
se quando choves,
é algo assim como uma máscara?

A NONA SERPENTE

Cicero Melo

Isto é a muda dos deuses.
É preciso acender-lhes carnes
e cabelos de harpas.
Dos homens são alheios.
Dos seus banquetes cospem
cães de estrelas.
É lamentável a morte.
Se os dias que procriam
fossem mais longos e doces...

PRIGIONE ÂNTICA

Cicero Melo

Última reimpressão do deus original,
onde todos os amores jazem inacabados.
Apenas um olhar, o último olhar,
antes que se transformem em sal.

EM TODA NOITE MATAMOS

Cicero Melo

Em toda noite matamos
a morte, a antiga irmã;
o antigo pai revelado
nas linhas duplas das unhas;
o antigo suor da mãe,
despojado nos retratos.
Em toda noite matamos
as lembranças e os cavalos.


Fonte:
Poemas da Escuridão
Edições Bagaço
Recife 2001

18 de setembro de 2010

Poetas alagoanos

Tentativa de poema e de tema

Norton Sarmento Filho

Não vou escrever agora o besteirol cotidiano.
Nem o alagoanol cacete e pedante das igrejinhas-rinhas,
Bem à moda do tempo da pedra ultralascada.
Nem tão pouco, ou muito, o provincianol sururuzeiro,
Em exibição cotidiana nos muros e extramuros, que saco!
Da cidadezinha ruidosamente calada
Dormente e blecautizada em pensamentos paralíticos.

Não vou escrever agora o bobo beletrol academicocêntrico.
Não vou me render jamais, mesmo em paz, à paranóia-pinóia,
Do meu torrão venal e caustral.
Mas só por pirraça, meus senhores e minhas senhoras,
uivo, uivo, uivo, uivo, uivo, uivo à verborragia...
Alagoense e sem fim
Da CTI do caos
Do caos da CTI
Tentativa de poema e outros temas,
Por amor – não temas!


Poema 5

Lúcia Guiomar Teixeira

Nas tardes da província
corsária dor afastadas as impotências
um jato um jeito
por tudo que é um gosto
após a posse
um encontro ou já incesto
com a boca toda verde
através dos ossos
através dos ócios
a noite cai
e a calma calma
silêncio
parêntesis
reticente aspa
harpa
interrogante exclamação
todo mar é azul
todo amar é
o olhar do cão azul
elmo azul
segredo


Lostkeeper

Fernando Fiúza

Coincidências, relógios, a morte do rei
carcaça de batel
pedradas nos patos do lago
da ninfa perversa de jeans
gelo, pacífico oceano, cabana ardente
o amor entre marido e mulher
os filhos promíscuos da tinta, tremores e papel
golfe, os buracos do jogo e do mundo
o conto de um conto de um canto de jornal
o tempo que passa entre as rodas dentro de rodas
21 rubis
cinco anos depois
uma noite quente de junho
Escócia
um caco de garrafa de gim
a sagração da primavera
que jamais virá
nem Liverpool
restos de comida no chão
laranjada
uma gota de sangue sequer
e a maneira mais triste
de um traste morrer.

10 de setembro de 2010

Melhores poemas que eu li

O Analfabeto Político

Bertolt Brecht


O pior analfabeto é o analfabeto político.
Ele não ouve, não fala, nem participa dos acontecimentos políticos.
Ele não sabe que o custo de vida, o preço do feijão,
do peixe, da farinha, do aluguel, do sapato e do remédio dependem das decisões políticas.
O analfabeto político é tão burro que se orgulha e estufa o peito dizendo que odeia a política.
Não sabe o imbecil que da sua ignorância política nascem a prostituta, o menor abandonado,
e o pior de todos os bandidos que é o político vigarista,
pilantra, o corrupto e lacaio dos exploradores do povo.


A Aurora

Federico Garcia Lorca

A aurora de Nova York tem
quatro colunas de lodo
e um furacão de negras pombas
que chacoalham as águas podres.

A aurora de Nova York geme pelas imensas escadarias
a buscar entre as arestas
nardos de angústia esboçada.

A aurora chega e ninguém a recebe na boca
porque ali não há manhã nem esperança possível.
Às vezes as moedas em enxames furiosos
traspassam e devoram bebês abandonados.

Os primeiros a sair compreendem com seus ossos
que não haverá paraíso nem amores desfolhados;
sabem que vão ao lodo de números e leis,
a brinquedos sem arte, a suores sem fruto.

A luz é sepultada por correntes e ruídos
em impudico reto de ciência sem raízes.
Pelos bairros há gentes que vacilam insones
como recém-saídas de um naufrágio de sangue.

(De “Romanceiro Gitano e Outros Poemas” -
Tradução de Oscar Mendes – Aguilar – INL - 1973)



A Aurora de Nova York
(Versão para música de Chico Buarque
de Holanda e Raimundo Fagner)


Federico Garcia Lorca

A aurora de nova York tem
Quatro colunas de lodo
E um furacão de pombas
Que explode as águas podres.

A aurora de nova York geme
Nas vastas escadarias
A buscar entre as arestas
Angústias indefinidas.

A aurora chega e ninguém em sua boca a recebe
Porque ali a esperança nem a manhã são possíveis.
E as moedas, como enxames, devoram recém-nascidos.

Os que primeiro se erguem, em seus ossos adivinham:
Não haverá paraíso nem amores desfolhados;
Só números, leis e o lodo de tanto esforço baldado.

A barulheira das ruas sepulta a luz na cidade
E as pessoas pelos bairros vão cambaleando insones
Como se houvessem saído de um naufrágio de sangue.

3 de setembro de 2010

Poemas de Cicero Melo

A poesia está morta *

Cicero Melo

A Poesia está morta
E, por enquanto, a enterro,
Não, numa pequena aorta,
Mas numa paixão de ferro.

De ferro que não enferruja.
Ou será tudo ilusão?
Talvez, um dia me fuja,
Quando acabar a paixão.

Mesmo assim, direi, amado:
A paixão é tudo, sê
Para sempre apaixonado,
O olho da amada lê

Teu poema assassinado.

* Poema escrito por Cícero Melo
em 11 de setenbro de 2010:



O casaco de raposa

Cicero Melo

Tudo tão impertinente:
O sul se casa ao silêncio.

A casa, agora, é acaso.
Um mar espelhado espera.

"O poema a seguir é um retorno,
fiz agora (santa inspiração!)
"

(Cícero Melo):

Aos encantos de Circe

Cicero Melo

Um sonho de salsugem e saudade
Me reconduz ao cais dos meus perigos.
Meus marujos e naves são antigos.
Uns estão mortos, outros sem idade.
Mortos, também, estão meus inimigos:
Morreram todos: tanta crueldade!
Seus nomes decompostos da cidade,
Sem coração, sem armas, sem abrigos.
Mesmo assim os reclamo mar afora,
Ao retorno do encanto já perdido,
Mas pelo qual meu coração implora.
Feiticeira, devolvo, aqui rendido,
O teu segredo, a sedutora flora,
Nas varizes do tempo envelhecido.

"Este poema, que inspirou o anterior,
já faz parte de diversas antologias":


Sob os encantos de Circe

Cicero Melo

Até regresso ao lar me foi negado,
Eu que vivo ancorado no teu porto.
Feiticeira do mar me tens atado
A teus cabelos de onda, vento morto.
Quando o mar abdiquei por tuas ilhas
Não pensava nas celas dos teus seios,
Levava embarcações de azedas quilhas
Que frágeis acolheram teus enleios.
Agora a lamentar-me o continente
Dos feitos que, guerreiro, lavorei,
Salgas-me os olhos de um cantar nubente
Seduções de sereia, o que me sei
É que o amor fendido vou demente
Singrando a solidão de amargo rei.

Enquanto nos apunhalamos

Cicero Melo

O que é a guerra, senão
Um assalto à mão armada?
Toda paixão quando acaba
A mão sedosa da amada?

O que é a guerra, enfim?
Uma ternura viscosa,
Uma neblina sem fim,
A rosa no fim da rosa.

Enquanto o sol desova

Cicero Melo

Mas tudo mesmo se acaba:
O tempo dentro da vida,
O vinho dentro da taça.

É tudo assim como uma página
Faminta na manhã:

As letras devoram
A traça.

Enquanto nos enganamos

Cicero Melo

A mulher nova
Aquece
O coração do homem velho.
E incendeia o seu bolso.

29 de agosto de 2010

Poemas alagoanos

afluente & afluentes*

Ronaldo de Andrade

Cientes calmarias e alagoas
a que porto me destinais?
Causais escândalos no meu peito inflado
de mangues e verde azul.

No entrave das orgias e urubus
negra vocação de mistério e nuvens
é concha calcária este meu corpo ilha.

Foi em jangadas que resolveu dormir
as mundaús
que em mundaú eu vim
filha de afluente – Canhoto
tenho a tiborna do sangue peixe.

Tremendo choro o soluço augusto
- de morte inconsciente usina
- de vida a beleza finda
é nada o nadando ir-se.

(*Do livro "Sombras de Mata e Flecha" -
Coleção Viventes das Alagoas - 1991).



O Gogó-da-Ema

Rosalvo Acioli Júnior*

Ó Gogó-da-Ema dos coqueiros,
o desnaturado – misteriosa e átima
dissimetria que assombra
o vasto coração dos ares.

Em seu ardoroso fetiche vegetal,
ó desnaturado, oprimes as criaturas
(imperador dos pesadelos do estendal),
fluindo transfigurado, dissoluto,
na lúcida memória dos mares.

Ó Gogó-da-Ema, dos coqueiros o desnaturado.
Eterno totem luminoso da Pajuçara.

(*Do livro "Maceió" - Editora Senha - 1987)


Marítimo

Nilton Resende*

O solitário repousa à pedra
o seu corpo de âncora e algas.
Sentindo os dedos das ondas diz
baixo: te peço: me afaga.
Diz baixo e é como se dissessem
a pele, os ossos, a alma.

Já perto vêm uns errantes,
envoltos em capas, em cotas.
O homem levanta um dos braços,
e todo, inteiro, invoca:
meu Deus, salvai-me, cobri-me,
deixa-me liberto da horda.

A tropa, ó talho e gume!,
começa o escárnio, a não dança.
Toma de facas, de maças,
golpeia o que a fúria alcança.
O homem se estende, sorvido,
Tritão destituído da lança.

A ira, agora contida,
contente de seu linguajar,
sorri vendo o homem, seu peso,
que o impede de se levantar.
Também a dele leveza,
levada ao jugo do mar.

(*Do livro "A Poesia das Alagoas" - Edições Bagaço,
organizado por Edilma Bomfim e Carlito Lima – 2007)

11 de agosto de 2010

Meus poemas

Cabo das Tormentas

Iremar Marinho

Há um Cabo das Tormentas a passar
Há uma vida de tormentos a vencer
Há esquadras sobrepostas para o mar
Há o tempo para o império perecer

Há um reino que não volta do Alcácer
Há o poeta que espera o rei voltar
Há o nauta que naufraga ao Bojador
Há o império que sucumbe além da dor

Não consigo atravessar o Tenebroso
Mar Atlante. Como Sísifo e sua pedra
eu não passo o Cabo Não de cansaços

14 de julho de 2010


Conchavo para sopro e cordas

Iremar Marinho

Junte o lixo das palavras.
Para o poema vale tanto
quanto ouro vem da lavra.

Junte signos, emblemas.
Valem chaves para o abismo
no desenredar do tema.

Junte ritmos, assonâncias,
o eco das sinfonias.
Tudo serve à orquestração

de toda dessintonia.
Junte o não o nada nem
para fazer poesia.


Silêncio e palavra

Iremar Marinho

Como expressar horror
com palavras? Estão presas
ao papel (palavras sofrem)
à espera do meu grito.

Como alardear a dor
em fonemas, se as palavras,
já cegas, só ferem quando
manejadas, como facas?

Como viver no escrito,
se, já mortas, as palavras
são sepultadas na lápide
do meu sonho derradeiro?

7 de agosto de 2010

Três poemas de Cicero Melo

A Canção do Afogado

Cicero Melo

Para Antônio Botelho


Filha das fontes,
Dos bosques,
Dos rios sagrados,
Que fazes transposta?

Este é lado das brumas,
Dos pântanos e do Estiges.
Que fazes ao meu lado?

Filha dos bosques,
Dos rios e das fontes,
Que fazes transposta
Ao meu lado?

Este é um lado sem bordas,
Sem sombra e sem corpo,
Um lúdico lago.

Filha dos rios,
Que fazes ao lado
Do afogado?


Os malares e as pálpebras

Cicero Melo


O que é realidade para um fauno?

Nós somos o nada sonhando.

Ergo a última taça

Aos olhos de pedra do suicida.


Estado de conservação

Cicero Melo


Bom.

Cara e lombada com manchas do tempo.

Danos nas bordas e nos bordos.

Corte com manchas:

Anotações à mão amada.

Marca de carimbo na folha de rosto.

Miolos em péssimo estado.

Poema de Antônio Botelho

Soneto da antecedência

Antônio Botelho

Meu pai era coluna enlouquecida
Procurando no céu a morte exata.
Meu pai era gravura apodrecida
Ferida a reabrir na mão do nada.
Meu pai então escuna já partida
A saudade de um mar rondando a praia
Levantava, lembrança retorcida,
Da valsa que na carne encarcerara.
Meu pai, rosa de ferro e da loucura,
Transportava em seu corpo a tenra imagem
Do outro que no peito a fera instiga.
Espada ferindo o corpo e a ternura
Corcel azul correndo pela aragem
Meu pai, vitral na morte, já cintila.

Antônio Botelho é um dos maiores poetas do Brasil, hoje. Detentor de vários prêmios e livros publicados, é o mais jovem daquilo que denomino Geração 80. É pernambucano do Recife. Procurador Federal, reside atualmente em Sergipe. (Cicero Melo)

26 de julho de 2010

Poemas de Maurício de Macedo

Kaváfis

Maurício de Macedo

Helênica sensualidade pagã,
abriga do poeta o desterrado coração
que é pequena e pobre a amargura cristã
para a vibração da carne viril
fazendo-se verbo e canção.


Repentista

Maurício de Macedo

De repente,de repente.
O metro e a rima,de repente
- tudo está no ouvido.
Tudo está no diálogo da natureza
no ouvido
e não há espaço para o silêncio do homem
falando consigo mesmo.

A palavra pela cauda
- cavaleiro pegando boi brabo.
E a rima como os cascos do cavalo
percutindo no peito da terra.
De repente,de repente,
a natureza a pulsar
no diálogo dos ouvidos,
antes da queda do homem.

Alagoano de Maceió, onde reside, Maurício de Macedo publicou os seguintes livros de poesia: Cinzel da Língua (1996), Sínteses da Sombra (1997), Aventuras da Negra Fulô (1998), Esfinge Caeté (1999), Onde a vida fere mais fundo (1999), A palavra feito brasa (2000), Canção dos Orixás (2001), A poesia no cordão seguido de Pastoril (2002), A ostra e a pérola (2003), Das Alagoas seguido de Guerreiro (2003), Tear da palavra (2004), Escorial do Açúcar (2004), À Beira do Silêncio (2005), A água e a pedra (2005), Epifania (2006), À sombra das palavras (2006), Fragmento (2007) e Dispnéia (2008)

18 de julho de 2010

Poemas de Arriete Vilela

POEMA N. 21

Arriete Vilela

Hoje farejas indícios
de novas trilhas,
velas o teu coração tornado
ríspido, brumoso,
e vais às praças públicas colher
um súbito rosto.

Hoje tenho nos olhos
somente a dança das
estrelas cadentes
fazendo-se mar e poesia:
a minha melhor
porção diária de vida.


POEMA N. 26

Da janela sobre o mar,
sem saudades eu dou adeus
a mim mesma;

faço-me outra,
e nova.

Quero trazer-me alegre
à luz do dia ou da noite,
sossegar-me nas trovoadas,
evitar as esporas do vento
nos meus cabelos.

Inútil esforço,
Sei. Aos meus olhos
ola-se, diariamente,
uma alma de estopa áspera,
embora rara.


POEMA N. 28

Os meninos de rua
Parecem pardais urbanos:

em ligeiros vôos
acham-se em toda parte,
aproveitam restos de toda sorte.

Tropical
é algazarra de suas vozes,
quando se ajuntam;

seus gestos e jeitos,
de uma graça desavisada,
assustam e comovem.

Atentíssimo dever ser
o anjo da guarda dos meninos de rua,
esses tantos pardais urbanos.

POEMA N. 29

Vou me sabendo sem remansos.
Por vezes o mar estronda
dentro de mim
e tempestades medonhas me obrigam
a descer aos porões, a reconhecer-me
nas escotilhas fechadas da minha
incômoda solidão.

Difícil reconhecimento, porém.
Eu já sou muitas.
Meus olhos, é verdade,
ainda se mantêm amorosamente
indiscretos, e minha alma busca
da palavra as seduções segredosas
que me ardem no peito.

Mas já não me deixo
Possuir.

6 de julho de 2010

Poema de Roberto Piva

Jorge de Lima, panfletário do Caos

Roberto Piva

Foi no dia 31 de dezembro de 1961 que te compreendi Jorge de Lima
enquanto eu caminhava pelas praças agitadas pela melancolia presente
na minha memória devorada pelo azul eu soube decifrar
os teus jogos noturnos indisfarçável entre as flores
uníssonos em tua cabeça de prata e plantas ampliadas
como teus olhos crescem na paisagem Jorge de Lima e como tua boca
palpita nos bulevares oxidados pela névoa
uma constelação de cinza esboroa-se na contemplação inconsútil
de tua túnica
e um milhão de vagalumes trazendo estranhas tatuagens no ventre
se despedaçam contra os ninhos da Eternidade
é neste momento de fermento e agonia que te invoco grande alucinado
querido e estranho professor do Caos sabendo que teu nome deve
estar como uma talismã nos lábios de todos os meninos.


O poeta Roberto Piva morreu em São Paulo, no dia 3 de junho de 2010
aos 72 anos. Ele estava internado no Incor (Instituto do Coraçao)
desde o dia 13 de maio. A causa da morte foi falência múltipla
de órgãos em decorrência de uma insuficiência renal.
Piva nasceu em São Paulo, aos 22 anos já era poeta reconhecido.
Foi descoberto pelo editor Massao Ohno e, aos 23 anos,
publicou sua obra-prima, Paranóia (1963).
O livro se esgotou em duas semanas e hoje é artigo de luxo
entre colecionadores. Depois disso, a obra Piazzas (1980),
confirmou seu talento. Quem perdeu aquela edição,
hoje pode encontrar esse e outros livros do poeta
em uma compilação da editora Globo de três volumes.
O último deles, Estranhos Sinais de Saturno, foi lançado em 2008.
O poeta tinha a alma inquieta.
Nadou incansavelmente contra a corrente e por isso é o principal nome -
junto com seu parceiro e amigo Cláudio Willer - da poesia marginal.
Para sobreviver, ele deu aulas de filosofia e produziu shows de rock.

Do Terra

Melhores poemas que eu li

Desmantelo azul

Carlos Pena Filho

Então pintei de azul os meus sapatos
por não poder de azul pintar as ruas
depois vesti meus gestos insensatos
e colori as minhas mãos e as tuas

Para extinguir de nós o azul ausente
e aprisionar o azul nas coisas gratas
Enfim, nós derramamos simplesmente
azul sobre os vestidos e as gravatas

E afogados em nós nem nos lembramos
que no excesso que havia em nosso espaço
pudesse haver de azul também cansaço

E perdidos no azul nos contemplamos
e vimos que entre nós nascia um sul
vertiginosamente azul: azul.


A encantação pelo riso

Velimir Khléblinikov

Ride, ridentes!
Derride, derridentes!
Risonhai aos risos, rimente risandai!
Derride sorrimente!
Risos sobrerrisos - risadas de sorrideiros risores!
Hílare esrir, risos de sobrerridores riseiros!
Sorrisonhos, risonhos,
Sorride, ridiculai, risando, risantes,
Hilariando, riando,
Ride, ridentes!
Derride, derridentes!

1910
(Tradução: Haroldo de Campos)


Subversiva

Ferreira Gullar

A poesia
Quando chega
Não respeita nada.
Nem pai nem mãe.

Quando ela chega
De qualquer de seus abismos
Desconhece o Estado e a Sociedade Civil
Infringe o Código de Águas
Relincha
Como puta
Nova
Em frente ao Palácio da Alvorada.

E só depois
Reconsidera: beija
Nos olhos os que ganham mal
Embala no colo
Os que têm sede de felicidade
E de justiça.

E promete incendiar o país.

20 de junho de 2010

Novos poemas de Cicero Melo

Enquanto nos apunhalamos

Cícero Melo

O que é a guerra, senão
Um assalto à mão armada?
Toda paixão quando acaba
A mão sedosa da amada?

O que é a guerra, enfim?
Uma ternura viscosa,
Uma neblina sem fim,
A rosa no fim da rosa.



O jogo

Cicero Melo

Está se aproximando o último sono.
Aquele que nunca sonhei,
E ninguém quer sonhar.

Mas, uma cama ou qualquer horizontal
Nos fará ir, ir, ir, dormir.

"Mãe, ainda é cedo! Deixe-me jogar mais um pouco!"



Sombra

Cicero Melo

Havia uma mulher fora do espelho
Em que habitava meu corpo esquecido.
Havia uma mulher fora de mim.

Havia, com certeza, uma mulher lá fora.

Não digam que sonhei. Havia uma mulher
Fora de mim. E eu a amava.

Havia uma mulher fora do espelho
E dentro dela outro espelho havia.

9 de junho de 2010

Poemas de Lêdo Ivo

Cemitério dos Navios

Lêdo Ivo

Aqui os navios se escondem para morrer.
Nos porões vazios, só ficaram os ratos
à espera da impossível ressurreição.

E do esplendor do mundo sequer restou
o zarcão nos beiços do tempo.

O vento raspa as letras
dos nomes que os meninos soletravam.

A noite canina lambe
as cordoalhas esfarinhadas
sob o vôo das gaivotas estridentes
que, no cio, se ajuntam no fundo da baía.

Clareando madeiras podres e águas estagnadas,
o dia, com o seu olho cego, devora o gancho
que marca no casco as cicatrizes
do portaló que era um degrau do universo.

E a tarde prenhe de estrelas
inclina-se sobre a cabine onde, antigamente,
um casal aturdido pelo amor mais carnal
erguia no silêncio negras paliçadas.

Ó navios perdidos, velhos surdos
que, dormitando, escutam os seus próprios apitos
varando a neblina, no porto onde os barcos
eram como um rebanho atravessando a treva!


Canto Grande

Lêdo Ivo

Não tenho mais canções de amor.
Joguei tudo pela janela.
Em companhia da linguagem
fiquei, e o mundo se elucida.

Do mar guardei a melhor onda
que é menos móvel que o amor.
E da vida, guardei a dor
de todos os que estão sofrendo.

Sou um homem que perdeu tudo
mas criou a realidade,
fogueira de imagens, depósito
de coisas que jamais explodem.

De tudo quero o essencial:
o aqueduto de uma cidade,
rodovia do litoral,
o refluxo de uma palavra.

Longe dos céus, mesmo dos próximos,
e perto dos confins da terra,
aqui estou. Minha canção
enfrenta o inverno, é de concreto.

Meu coração está batendo
sua canção de amor maior.
Bate por toda a humanidade,
em verdade não estou só.

Posso agora comunicar-me
e sei que o mundo é muito grande.
Pela mão, levam-me as palavras
a geografias absolutas.


Lêdo Ivo, jornalista, poeta, romancista, contista, cronista e ensaísta, nasceu em Maceió, AL, em 18 de fevereiro de 1924. É membro da Academia Brasileira de Letras. Eleito em 13 de novembro de 1986 para a Cadeira n. 10, sucedendo a Orígenes Lessa, foi recebido em 7 de abril de 1987, pelo acadêmico Dom Marcos Barbosa.
Obras: As Imaginações (1944), Ode e Elegia (1945), As Alianças (1947), Acontecimento do Soneto (1948), O Caminho sem Aventura (1948), Ode ao Crepúsculo (1948), Cântico (1949), Linguagem (1951), Lição de Mário de Andrade (1951), Ode Equatorial (1951), Um Brasileiro em Paris e O Rei da Europa (1955), O Preto no Branco (1955), A Cidade e os Dias (1957), Magias (1960), O Girassol às Avessas (1960), Use a Passagem Subterrânea (1961), Paraísos de Papel (1961), Uma Lira dos Vinte Anos (1962), Ladrão de Flor (1963), O Universo Poético de Raul Pompéia (1963), O Sobrinho do General (1964), Estação Central (1964), Poesia Observada (1967), Finisterra (1972), Modernismo e Modernidade (1972), Ninho de Cobras (1973), O Sinal Semafórico (1974), Teoria e Celebração (1976), Alagoas (1976), Confissões de um Poeta (1979), O Soldado Raso (1980), A Ética da Aventura (1982), A Noite Misteriosa (1982), A Morte do Brasil (1984), Calabar (1985), Mar Oceano (1987), Crepúsculo Civil (1990), O Aluno Relapso (1991), A República das Desilusões (1995), Curral de Peixe (1995).

25 de maio de 2010

Poema para Cícero Melo

A Idade da Carne

Paulo Gustavo

Nunca tivemos nem teremos a idade do ouro.
O que temos é a idade da carne.
Pouco importa chamarmos as estrelas,
A constelação preferida, a luz remota,
Os adjetivos do cosmos.
Nossa gramática é a carne: suas pirâmides, seus desvãos,
Seus súbitos pontos finais.
Nunca teremos ouro no cofre sangrento do coração.
Nosso reino é a carne, nosso governo é a carne,
Nossa miragem é a carne, mais esplêndida
que o ouro dos séculos,
Mais florida que os jardins do Éden.
É só o que temos: a efêmera idade da carne.
É nela que atravessamos a floresta da vida
Até a clareira de nossa morte.

21 de maio de 2010

Meus Poemas

Cidade Atlântica

Iremar Marinho

Uma vazante tardia
alaga a Cidade Atlântica.
Seres anfíbios, acossados,
povoam os bancos de areia.

Maré de caranguejos tortos
(o peso da lama e salsugem)
emerge Brejal adentro.

Os maceioenses,
com a vida torta
dos goiamuns,
entram e saem dos becos, das tocas,
aos encontrões nas ruas tortas.

Entre o mar – a sua cruz –
e as lagoas – a espada
de Dâmocles da tiborna –
Maceió se espreme,
vaporosa e alagadiça.

No embate de mar e água doce,
só os caranguejos sobrevivem,
chafurdando na areia traiçoeira.

A terra prometida –
uma ilha no mapa da restinga –
é dos seres anfíbios afinal.
A redenção é dos caranguejos.


Tapagem do Alagadiço

Iremar Marinho

Maceió tem o seu mapa
traçado num berço de águas.

Entre o mar e a lagoa,
flutua a terra movediça.

Seu povo (seres anfíbios)
afunda e emerge
(afoga-se e revive)

A Cidade Atlântica
é porto de sereias
que aplacam a ira do mar
com orgasmos de sargaços.


Poema a um cão

Iremar Marinho

Ladra o cão na noite,
guardando a entrada
do inferno-horror.

A noite penetra
os cantos escuros
(seus encantos-muros).

O cão irreflexo
(o corpo inflexo)
morde a cauda em círculo.

A noite cai sobre o cão
(os gestos alertas
e negra penugem).

Com o cão na pálpebra,
não espero o dia
de pálida aurora.

Sonho madrugadas
e manhãs perdidas
(encardidos sonhos).

Na noite ferida,
ladra o cão vazio,
rosna vão vadio.

Vaga o cão sem-noite.
Na rua sem-dia,
tomba sob açoites.

14 de maio de 2010

Melhores poemas que eu li

A alma escolhe

Emily Dickinson

A alma escolhe sua companhia
E fecha os portais.
Em sua divina soberania
Não se entra mais.

Impassível, reconhece a carruagem
Parando à entrada;
Impassível, vê um rei que se ajoelha
No seu tapete.

Sei que escolheu de uma grande nação
Um só, a dedo.
Depois fechou as valvas da atenção
Como um rochedo.


Eu vi um homem perseguindo o horizonte

Stephen Crane

Eu vi um homem perseguindo o horizonte;
Giravam e giravam à toa.
Aquilo me perturbou;
Aproximei-me do homem.
“É tolice”, murmurei,
“Você jamais poderá...”
“Você mente”, gritou ele,
E continuou correndo.

(Traduções de Jorge Wanderley, in Antologia da Nova Poesia Norte-Americana)

8 de maio de 2010

Poema de Cícero Melo

Para mamãe fazendo uma omelete

Mamãe, eu te reflito como um lago
A cor do céu estende na água clara.
No teu olhar esconde-se minha alma,
Quando cansado de viver naufrago.

E quando a solidão, à noite, afago,
A noite crespa que me fere a palma,
Meus cabelos de dor teu canto espalma,
E, menino de novo, durmo e vago.

Mamãe – foi tão errada a rota e vã
A batalha tecida em meu afã,
Que de tanto morrer não me sei morto;

Pois, sempre que me vejo ao léu da vida,
Busco-te a vela que não sei perdida,
Ó nau primeira do primeiro porto!

(Este soneto foi escrito em 09/05/87. Minha mãe morreu no Natal do ano passado. C.M.)

4 de maio de 2010

Poemas alagoanos

Preparação da manhã

Gonzaga Leão

É duro dizer, criança
filho do triste operário
do sofrido camponês
que em vez dos belos brinquedos
que te fariam feliz,
dar-te-ei canhões fuzis
e a noite feita de medo;
contar-te-ei em segredo
(não histórias pra dormir)
que neste imenso país
somente o rico é feliz
só o rico tem porvir;
e contar-te-ei também
que o pão que falta em teu prato
sobra no prato de alguém;
que tua roupa nenhuma
não mais serve a quem a tem.

Mas direi no entanto a ti
(rudemente enquanto falo)
que nessa estrada de agora
não muito distante a aurora
já avia seus cavalos
com seu jaezes de fogo
e ardentes ferros nos cascos
com sua fonte de sol
a celebrar-se nos olhos,
que deixarão claridades
de manhãs onde passarem:
- e não haverá mais sede
boca não dessendentada
rios que não tenham ponte
de paz e fraternidade.

E no chão de todo o mundo
transformado em bem comum
rebentarão as sementes
e o pão será permanente
na mesa de qualquer um.

(Maceió/Alagoas - Fevereiro de 1963)


Soneto elegíaco

Francisco Valois

O meu olhar, insone, devassando
o silêncio da sombra refletida:
- no ventre do cristal se congelando
os vestígios da imagem consumida.

Na linguagem das mãos, enclausurando
o momento da morte acontecida,
há, transparente e vaga, modulando
uma canção fugaz e indefinida.

No espelho, formas de luar estáticas
e, no longínquo sono, mãos aquáticas
são o apelo da morta que naufraga.

Supero dimensões de continentes:
- na salsugem dos olhos languescentes,
Envolto o morto amor desfeito em vaga.

23 de abril de 2010

Poemas de Jorge de Lima

A garupa da vaca era palustre e bela

Jorge de Lima

Canto XV - Invenção de Orfeu

A garupa da vaca era palustre e bela,
uma penugem havia em seu queixo formoso;
e na fronte lunada onde ardia uma estrela
pairava um pensamento em constante repouso.

Esta a imagem da vaca, a mais pura e singela
que do fundo do sonho eu às vezes esposo
e confunde-se à noite à outra imagem daquela
que ama me amamentou e jaz no último pouso.

Escuto-lhe o mugido, era o meu acalanto,
e seu olhar tão doce inda sinto no meu:
o seio e o ubre natais irrigam-me em seus veios.

Confundo-os nessa ganga informe que é meu canto:
semblante e leite, a vaca e a mulher que me deu
o leite e a suavidade a manar de dois seios.


Essa infanta

Jorge de Lima

Essa infanta boreal era a defunta
em noturna pavana sempre ungida,
colorida de galos silenciosos,
extrema-ungida de óleos renovados.

Hoje é rosa distante prenunciada,
cujos cabelos de Altair são dela;
dela é a visão dos homens subterrâneos,
consolo como chuva desejada.

Tendo-a a insônia dos tempos despertado,
ontem houve enforcados, hoje guerras,
amanhã surgirão campos mais mortos.

Ó antípodas, ó pólos, somos trégua,
reconciliemo-nos na noite dessa
eterna infanta para sempre amada.


O poeta Jorge Mateus de Lima nasceu há 117 anos (23 de abril de 1893), na então Vila Nova da Imperatriz (hoje, União dos Palmares), no Estado de Alagoas.

20 de abril de 2010

Tradução de Cícero Melo

A FESTA DA NEVE

Derek Mahon

Bashô, vindo
para a cidade de Nagoya,
é convidado para uma festa de neve.

Há um tilintar de louça fina
e chá na louça fina;
há apresentações.

Então, todo mundo
se amontoa na janela
para olhar a neve caindo.

A neve está caindo em Nagoya
e mais para o sul
nos telhados de Kyoto.

Mais a leste, além de Irago,
ela cai
como folhas no mar frio.

Em algum lugar, estão queimando
feiticeiras e heréticos
nas praças ferventes.

Milhares morreram desde a madrugada
no serviço
de reis bárbaros.

Mas, há silêncio
nas casa de Nagoya
e nas colinas de Ise.
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DEREK MAHON nasceu em Belfast em 1941. É um dos maiores nomes da poesia em língua inglesa. Este poema foi traduzido de The Snow Party (1975), por Cicero Melo.

18 de abril de 2010

Poemas alagoanos

Poema

Jorge Cooper

Fui o auditório de meu pai
Dele ouvi coisas
com que a vida teci
Ele me ensinou a não saber
precipitar amizades
A não viver dentro do círculo de giz
A inverter a ilusão
e a querer bem à humanidade
Sorver o sal e o mel do acaso
Não me procurar esperar-me

- E ainda há quem diga por aí
ser um zero à esquerda do nada
a vida por mim levada


Mundaú (a Lagoa)

Jorge Cooper

Ontem
deu-me de rever a Mundaú
O sol ainda era a metade
no outro lado do mundo
e já nos galhos do mangue
às centenas posava de sangue-de-boi
o aratu
- Mas por lá não vi as canoas
nas coroas de sururu

É que a Mundaú imerge
torna-se quimera
pântano
lamarão da lagoa que era
- Nem sequer continua a ser
o poema à miséria

Lágrima seca nos olhos do povo
esperança enganada
- a Mundaú se faz chão
Mais nada


"Jorge Cooper, pela sua poesia sem arremedos provincianos, destituída de ranços acadêmicos, situa-se no limite entre os “Metaphisical poets” e o lirismo cavalheiresco e palaciano da poesia trovadoresca dos Minnesanger alemães da Idade Média. Isto tudo com pitadas dos goliardos, “poemas proletários”, pois Cooper, em momento algum, sacraliza a oralidade burguesa." (Marcos de Farias Costa – “Jorge Cooper: o Minnesanger Alagoano” – Artigo publicado no Jornal de Alagoas, em 21 de abril de 1987.

3 de abril de 2010

Meus Poemas

Calvário nas ruas de Maceió

Iremar Marinho

Para que matar o Cristo,
todos os anos, nas ruas
de Maceió, como em Gólgota?
Não bastou a imolação?

Cada esquina, uma estação.
Velhas crentes, moços gaios
acompanham ao Calvário
o Cristo sem Cireneu.

A Rua do Sol é nova
Via Sacra: a turba quer
o Cristo crucificar,
sem dó nem apelação,

no Largo do Livramento
(diante do Bar do Chopp).
Mas o Senhor jaz (é morto!)
entre rubros paramentos.


Mourão

Iremar Marinho

Cavalgo potros etéreos,
vaquejando bois postiços,
na fazenda ilusória.

Abro porteiras, mas há
sempre mais terras cercadas
no grande cercado-mundo.

Pastam bois de Vitalino,
passam bois, passa boiada,
passa o cavalo do tempo.

Bate o baque da porteira,
passa o vaqueiro das horas,
passa o destino dos homens.

Minha cidade bovina,
na vaquejada ilusória,
rumina o pasto do gado.

O berro do gado-homem,
no curral do matadouro,
é meu destino cercado.

19 de março de 2010

Melhores poemas que eu li

UIVO

Allen Ginsberg

Para Carl Solomon

(Trecho inicial)

Eu vi os expoentes de minha geração destruídos pela loucura,
morrendo de fome, histéricos, nus, arrastando-se pelas ruas
do bairro negro de madrugada em busca de uma dose violenta
de qualquer coisa, "hipsters" com cabeça de anjo ansiando
pelo antigo contato celestial com o dínamo estrelado
da maquinaria da noite, que pobres, esfarrapados e olheiras fundas,
viajaram fumando sentados na sobrenatural escuridão dos miseráveis
apartamentos sem água quente, flutuando sobre os tetos das cidades
contemplando jazz, que desnudaram seus cérebros ao céu sob o Elevado
e viram anjos maometanos cambaleando iluminados nos telhados
das casas de cômodos, que passaram por universidades
com os olhos frios e radiantes alucinando Arkansas
e tragédias à luz de William Blake entre os estudiosos da guerra,
que foram expulsos das universidades por serem loucos
e publicarem odes obscenas nas janelas do crânio,
que se refugiaram em quartos de paredes de pintura descascada,
em roupa de baixo, queimando seu dinheiro em cestas de papel,
escutando o Terror através da parede, que foram detidos
em suas barbas públicas voltando por Laredo
com um cinturão de marijuana para Nova York,
que comeram fogo em hotéis mal-pintados
ou beberam terebentina em Paradise Alley,
morreram ou flagelaram seus torsos noite após noite


(Tradução: Cláudio Willer)

14 de março de 2010

Meus poemas

Réquiem para alma baldia

Iremar Marinho

Divina Pastora guarda
o corpo crivado d’alma
baldada surpreendida
dentro do beco baldio.

Divina Pastora vela
o corpo (saldo esquecido)
na vala da morte balda
(alma de vida evadida).

Divina Pastora guarda
o corpo sem nome d’alma
baldia (vida homônima/
baldada morte sinônima).

Divina Pastora, tende
piedade d’alma baldia
da vida tão descuidada
(baldada vida vadia).


Discurso das pedras

Iremar Marinho

As pedras livres discursam
o seu sermão de dureza:

parábolas de impenetrável
compreensão - uma retórica
de silêncio assustador

As pedras brutas comandam
a mudez do mundo imóvel

(Estão) estáticas e ferem
com o seu verbo profano


Mars Sojourner ou Embolada Sideral

Iremar Marinho

(Para ser lida ou recitada ao som de
“Liz”, do violonista Marco Pereira)


Pé no tempo
pé na estrada
pé na rota das estrelas
pé na poeira do tempo
pé no rastro dos cometas

REFRÃO CORAL

Conluio de meteoros
abraço de girassóis
aconchego de anos-luz

JOGRAL 1
(HALE-BOPP)


Um catafalco de bólidos
para um funeral de luas

JOGRAL 2
(14 BIS)


Nem deuses nem fantasias
Mero homem (oh! quimeras)
feito máquina de avoar

REFRÃO CORAL

Conluio de meteoros,
abraço de girassóis,
aconchego de anos-luz.

14 de fevereiro de 2010

Poemas Alagoanos - Soneto de Carlos Moliterno

Soneto da Viagem

Carlos Moliterno

Sobre as ondas, afoito, direcionou a quilha
e abriu, venturoso, as velas do veleiro,
que longe havia, além da fantasia, a Ilha
que nele incendiava o astuto timoneiro.

Foi que era Sol na hora da viagem,
pois o poeta, sempre irmão da claridade,
nutria-se, astuto, da luz e da miragem
com as quais teceu a sua eternidade.

Nem tanto o inquietava a hora de chegar:
Antegozava, sim, a vertigem da viagem,
que viver também lhe era parar de navegar,

num dia de tempestade, ou numa noite de luar.
Daí, ter avistado na Ilha uma paragem:
se o continente o entediasse. E precisasse amar!


CARLOS MOLITERNO poeta, jornalista, crítico literário, foi presidente da Academia Alagoana de Letras por seis mandatos consecutivos, autor dos livros Desencontro, Notas Sobre Poesia Moderna em Alagoas e do festejado A Ilha, considerado um clássico da poesia alagoana. Membro do Instituto Histórico e Geográfico de Alagoas, autor da letra do Hino de Maceió, faleceu no dia 19 de maio de 1998, aos 86 anos.

(Post original JAC VERSO&REVERSO http://jac-versoreverso.blogspot.com)

31 de janeiro de 2010

Melhores poemas que eu li

Os ombros suportam o mundo

Carlos Drummond de Andrade

Chega um tempo em que não se diz mais: meu Deus.
Tempo de absoluta depuração.
Tempo em que não se diz mais: meu amor.
Porque o amor resultou inútil.
E os olhos não choram.
E as mãos tecem apenas o rude trabalho.
E o coração está seco.

Em vão mulheres batem à porta, não abrirás.
Ficaste sozinho, a luz apagou-se,
mas na sombra teus olhos resplandecem enormes.
És todo certeza, já não sabes sofrer.
E nada esperas de teus amigos.

Pouco importa venha a velhice, que é a velhice?
Teus ombros suportam o mundo
e ele não pesa mais que a mão de uma criança.
As guerras, as fomes,
as discussões dentro dos edifícios
provam apenas que a vida prossegue
e nem todos se libertaram ainda.
Alguns, achando bárbaro o espetáculo
prefeririam (os delicados) morrer.
Chegou um tempo em que não adianta morrer.
Chegou um tempo em que a vida é uma ordem.
A vida apenas, sem mistificação.

Melhores poemas que eu li

Procura da Poesia

Carlos Drummond de Andrade

Não faças versos sobre acontecimentos.
Não há criação nem morte perante a poesia.
Diante dela, a vida é um sol estático,
não aquece nem ilumina.
As afinidades, os aniversários,
os incidentes pessoais não contam.
Não faças poesia com o corpo,
esse excelente, completo e confortável corpo,
tão infenso à efusão lírica.
Tua gota de bile, tua careta de gozo
ou de dor no escuro são indiferentes.
Nem me reveles teus sentimentos,
que se prevalecem do equívoco
e tentam a longa viagem.
O que pensas e sentes, isso ainda não é poesia.
Não cantes tua cidade, deixa-a em paz.
O canto não é o movimento das máquinas
nem o segredo das casas.
Não é música ouvida de passagem,
rumor do mar nas ruas junto à linha de espuma.
O canto não é a natureza
nem os homens em sociedade.
Para ele, chuva e noite,
fadiga e esperança nada significam.
A poesia (não tires poesia das coisas)
elide sujeito e objeto.
Não dramatizes, não invoques,
não indagues. Não percas tempo em mentir.
Não te aborreças.
Teu iate de marfim, teu sapato de diamante,
vossas mazurcas e abusões,
vossos esqueletos de família
desaparecem na curva do tempo,
é algo imprestável.
Não recomponhas
tua sepultada e merencória infância.
Não osciles entre o espelho e a
memória em dissipação.
Que se dissipou, não era poesia.
Que se partiu, cristal não era.
Penetra surdamente no reino das palavras.
Lá estão os poemas que esperam ser escritos.
Estão paralisados, mas não há desespero,
há calma e frescura na superfície intata.
Ei-los sós e mudos, em estado de dicionário.
Convive com teus poemas, antes de escrevê-los.
Tem paciência se obscuros. Calma, se te provocam.
Espera que cada um se realize e consume
com seu poder de palavra
e seu poder de silêncio.
Não forces o poema a desprender-se do limbo.
Não colhas no chão o poema que se perdeu.
Não adules o poema. Aceita-o
como ele aceitará sua forma definitiva
e concentrada no espaço.
Chega mais perto e contempla as palavras.
Cada uma tem mil faces secretas sob a face neutra
e te pergunta, sem interesse pela resposta,
pobre ou terrível, que lhe deres:
Trouxeste a chave?
Repara:
ermas de melodia e conceito
elas se refugiaram na noite, as palavras.
Ainda úmidas e impregnadas de sono,
rolam num rio difícil e se transformam em desprezo.

26 de janeiro de 2010

Poema de alagoano

Madorna de Iaiá

Jorge de Lima

Iaiá está na rede de tucum.
A mucama de Iaiá tange os piuns,
Balança a rede,
Canta um lundum
Tão bambo, tão molengo, tão dengoso,
Que Iaiá tem vontade de dormir

Com quem?

Rem-rem.

Que preguiça, que calor!
Iaiá tira a camisa,
Toma aluá
Prende o cocó,
Limpa o suor
Pula pra rede.

Mas que cheiro gostoso tem Iaiá!
Que vontade doida de dormir,,,

Com quem?

Cheiro de mel da casa das caldeiras!
O saguim de Iaiá dorme num coco.

Iaiá ferra no sono
Pende a cabeça,
Abre-se a rede
Como uma ingá.

Para a mucama de cantar,
Tange os piuns,
Cala o ram-rem,
Abre a janela,
Olha o curral:
- um bruto sossego no curral!

Muito longe uma peitica faz si-dó....
Si-dó.....si-dó......si-dó....

Antes que Iaiá corte a madorna
A moleca de Iaiá
Balança a rede,
Tange os piuns,
Canta um lundum
Tão bambo,
Tão molengo,
Tão dengoso,
Que Iaiá sem se acordar,
Se coça,
Se estira
E se abre toda, na rede de tucum.

Sonha com quem?

20 de janeiro de 2010

Meus poemas

Antes que tarde

Iremar Marinho

Antes que tarde
sem alarde
tu vens louca
rouca

Em cada porto
(cada povo
que vistes)
sentistes
a vida
exuberante
como era antes

(Teu pecado
ao lado
do meu perdão -
coração
de gelo)

Apelo
à pedra
deste segredo
(degredo
que vivo e vives):

pela vida
exuberante
como era antes
Antes que tarde

14 de janeiro de 2010

Lamento pelo Haiti

Iremar Marinho

Ai de ti
Haiti
Ai de ti
IT&T


Este micropoma escrevi há 15 anos,
diante da crise política permanente
no país dos tontons macoutes,
e no rescaldo da exploração multinacional
dos países do terceiro mundo.
Publico agora como lamento
pelas vítimas do terremoto, no Hayti.


Nota: A expressão “Ai de ti, Haiti”
não pertence a nenhum poeta
ou a outra qualquer espécie de criador.
Trata-se de expressão oral comum
de lamento e advertência,
tambémm usada em livros e poemas.

3 de janeiro de 2010

Meus poemas

O barqueiro

Iremar Marinho

Sei o perigo que corres, Caronte.
Sei o inevitável do Aqueronte.

Não sei como te salvar.

Um dia não retornarás
do inferno-porto.

Dante perde para sempre Beatriz.


Ofício de Advertência

Iremar Marinho

Cuidado com a bandalheira,
as olheiras!

O poeta revolve o caldo,
o saldo.

O poeta mantém o sentimento,
o pensamento

Contra a máquina que devora
as horas,

Contra o massacre do homem
pelo lobisomem.

O poeta é carbonário,
panfletário.

Cuidado com a cordilheira
da Mantiqueira!

Cuidado com o Santuário
do Rosário!


Cantar cigano para Garcia Lorca

Iremar Marinho

Eu tenho um nacarado no chapéu,
luzindo no profundo azul do céu.

Eu vejo um véu de nardos no bordel,
guardo sonhos do poeta, no papel.

Aura de estrelas iluminando
o bailado de meninas de aluguel.

Luar do sono, quando me acordo,
com a viola, da menina me recordo.

Eu vejo dos cavalos o tropel,
as capas negras, o rufar dos tamboris

Vejo o poeta, nas entrelinhas,
beijando a morte na mirada dos fuzis.