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3 de setembro de 2010

Poemas de Cicero Melo

A poesia está morta *

Cicero Melo

A Poesia está morta
E, por enquanto, a enterro,
Não, numa pequena aorta,
Mas numa paixão de ferro.

De ferro que não enferruja.
Ou será tudo ilusão?
Talvez, um dia me fuja,
Quando acabar a paixão.

Mesmo assim, direi, amado:
A paixão é tudo, sê
Para sempre apaixonado,
O olho da amada lê

Teu poema assassinado.

* Poema escrito por Cícero Melo
em 11 de setenbro de 2010:



O casaco de raposa

Cicero Melo

Tudo tão impertinente:
O sul se casa ao silêncio.

A casa, agora, é acaso.
Um mar espelhado espera.

"O poema a seguir é um retorno,
fiz agora (santa inspiração!)
"

(Cícero Melo):

Aos encantos de Circe

Cicero Melo

Um sonho de salsugem e saudade
Me reconduz ao cais dos meus perigos.
Meus marujos e naves são antigos.
Uns estão mortos, outros sem idade.
Mortos, também, estão meus inimigos:
Morreram todos: tanta crueldade!
Seus nomes decompostos da cidade,
Sem coração, sem armas, sem abrigos.
Mesmo assim os reclamo mar afora,
Ao retorno do encanto já perdido,
Mas pelo qual meu coração implora.
Feiticeira, devolvo, aqui rendido,
O teu segredo, a sedutora flora,
Nas varizes do tempo envelhecido.

"Este poema, que inspirou o anterior,
já faz parte de diversas antologias":


Sob os encantos de Circe

Cicero Melo

Até regresso ao lar me foi negado,
Eu que vivo ancorado no teu porto.
Feiticeira do mar me tens atado
A teus cabelos de onda, vento morto.
Quando o mar abdiquei por tuas ilhas
Não pensava nas celas dos teus seios,
Levava embarcações de azedas quilhas
Que frágeis acolheram teus enleios.
Agora a lamentar-me o continente
Dos feitos que, guerreiro, lavorei,
Salgas-me os olhos de um cantar nubente
Seduções de sereia, o que me sei
É que o amor fendido vou demente
Singrando a solidão de amargo rei.

Enquanto nos apunhalamos

Cicero Melo

O que é a guerra, senão
Um assalto à mão armada?
Toda paixão quando acaba
A mão sedosa da amada?

O que é a guerra, enfim?
Uma ternura viscosa,
Uma neblina sem fim,
A rosa no fim da rosa.

Enquanto o sol desova

Cicero Melo

Mas tudo mesmo se acaba:
O tempo dentro da vida,
O vinho dentro da taça.

É tudo assim como uma página
Faminta na manhã:

As letras devoram
A traça.

Enquanto nos enganamos

Cicero Melo

A mulher nova
Aquece
O coração do homem velho.
E incendeia o seu bolso.

20 comentários:

  1. Grande Poeta Cícero Melo,
    como lhe disse neste sábado, por e-mail,
    este seu último poema da série "Enquanto nos..."
    é um perfeito poema-chiste. risos

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  2. Eu gostei de tudo...

    Grande abraço!

    Zil

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  3. Obrigado, Zil, o Iremar é mesmo um cara chistoso.

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  4. Zil,
    Gostamos juntos!
    A poesia do Cicero Melo tem gosto (estético) especial.

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  5. Excelente espaço. E pra lá de bom encontrar encontrar o meu poetamigo Cicero Melo por aqui.
    Parabens, Iremar amigo. Indicarei seu blog nas minhas páginas, aguarde.
    Abração
    www.luizalbertomachado.com.br

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  6. Amigo poeta Luiz Alberto,
    Este encontro aqui é muito feliz para nós,
    que estamos nos encontrando
    e nos seguindo sempre,
    nas ondas desta vasta internet.
    Você sabe que Cicero (recifense por amor)
    e eu somos conterrâneos de União dos Palmares.
    E você, da vizinha Palmares,
    estamos todos em casa, como dizemos.
    Sua indicação para este Bestiário é da maior valia, pelo seu prestígio.
    Agradeço muito e lhe parabenizo pelo seu excelente trabalho multimídia e multicultural.
    Abraços

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  7. Texto perfeito sobre um grande poeta o qual eu ainda desconhecia. Bela forma de encantar seu leitor! Abraços ;-)

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  8. Pois sim, Michelle,
    Este é o reconhecimento
    que o poeta mais aprecia:
    o de quem lê seus poemas.
    Em Cícero Melo, sem favor,
    a poesia reúne a perfeição técnica
    e a beleza das metáforas.
    Agradeço por sua visita.

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  9. Caro Iremar
    Me preparei psicologicamente para vir ao seu "bestiário" e fiquei pasma com tantas coisas suaves, sutis e inteligentes (as "bestas" evoluíram ou não havia até hoje entendido o seu significado? rss)Adorei tudo que li. Vc escreve bem, com elegância e erudição. Fiquei fã, rsss Quanto ao poema sobre a mulher mais nova, confesso que não entendi muito bem porquanto já vi, tantas vezes, um homem mais velho "incendiar" corações de tantas jovens.
    Um beijo

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  10. rsrsrsrsr Marisa, tenho que começar este "retuíte" assim, com muito bom humor, para você, que demonstra sagacidade, perspicácia e muita boa vontade também, na observação da poesia. Imagine sermos aqui, os poetas de todo canto e eu, elogiados como autores de "tantas coisas suaves, sutis e inteligentes", e que deixaram você pasma.
    Sobre homem mais velho, nos sentimos lisonjeados, mas o poeta Cicero Melo é que responde, ele que deve ter tido o bolso fumegante com tanta paixão!

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  11. Isto significa que ainda não morri. Que Tupã me proteja! E ao meu bolso!

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  12. Meu Deus, quanta beleza, quanta sensibilidade!!!
    Passei tanto tempo se te ler e ao retornar você me faz verter lágrimas diante de poesias tão belas.
    "Um sonho de salsugem e saudade
    Me reconduz ao cais dos meus perigos.
    Meus marujos e naves são antigos.
    Uns estão mortos, outros sem idade."

    Aplausos sinceros e bis com certeza!
    bjos da Sil

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  13. Sil, emociona também ler seu comentário com a citação dos versos do poema belíssimo de Cícero Melo - Aos encantos de Circe. Sou agradecido por sua visita e sua apreciação dos poemas.

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  14. Fiquei aqui pensando.
    Será que teria que pedir clemência "as Circes" por tua sapiência oh! Grande Ulisses?!rss

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  15. Sil, rsrsrsrsrsrs Mas é sério, Homero faz Ulisses encantar mesmo! Agora é Cicero!

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  16. Poeta Cicero,
    Surpreendente.
    Com "A poesia está morta",
    você se supera
    no campo minado
    do metapoema.

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  17. OPINIÕES DE POETAS SOBRE “A POESIA ESTÁ MORTA”
    ----------------------------------------------------------------------------

    Cícero,

    amei

    Cida

    Cida Pedrosa

    para ler poesia clique:
    www.interpoetica.com


    Cicero,

    v. sempre ótimo!

    Beijo.

    Dione Barreto


    Gostei muito, Cícero.Costumo dizer que a poesia é o país que me dá asilo.

    Abraço,

    Maurício Ferreira de Macedo.

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  18. Iremar, maravilhosa a postagem dos poemas do Cícero Melo!
    Excelentes palavras...
    Grande poeta Cícero É!

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  19. Cecília, sua visita traz luzes e encantamentos
    a este Bestiário, pela sua personalidade e por sua cultura. Sobretudo pela apreciação da poesia de Cicero Melo, Grande Poeta que Ele É!
    Abraços

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