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19 de novembro de 2013

Três "Poemas Negros" de Jorge de Lima

Ola! Negro 

Jorge de Lima

Os netos de teus mulatos e de teus cafuzos e a quarta e a quinta

gerações de teu sangue sofredor tentarão apagar tua cor!
E as gerações dessas gerações quando apagarem não apagarão 
de suas almas, a tua alma , negro!
Pai-João, Mãe-Negra, Fulo, Zumbi,
negro-fujão, negro cativo, negro rebelde
negro cabinda, negro congo, negro ioruba,
negro que foste para o algodão de U.S.A
para os canaviais do Brasil,
para o tronco, para o colar de ferro, para a canga
de todos os senhores do mundo;
eu melhor compreendo agora os teus blues
nesta hora triste da raça branca, negro!

Olá, Negro! Olá, Negro!

A raça que te enforca, enforca-se de tédio, negro!
E és tu que a alegras ainda com os teus jazzes,
com os teus sons, com os teus lundus!
Os poetas, os libertadores, os que derramaram
babosas torrentes de falsa piedade
não compreendiam que tu ias rir!
E o teu riso, e a tua virgindade e os teus medos e a tua bondade
mudariam a alma branca cansada de todas as ferocidades!

Olá, Negro!

Pai-João, Mã-Negra, Fulo, Zumbi
que traíste as Sinhás nas Casas Grandes,
que cantaste para o sinhô dormir,
que te revoltaste também contra o Sinhô;
quantos séculos há passado
e quantos sobre a tua noite,
sobre as tuas mandingas, sobre os teus medos, sobre tuas alegrias!

Olá, Negro!

negro que foste para o algodão de U.S.A
para os canaviais do Brasil,
quantas vezes as carapinhas hão de embranquecer
para que os canaviais possam dar mais doçura à alma humana?

Olá, Negro!

Negro, ó proletário sem perdão,
proletário, bom,
proletário bom!
Blues
Jazzes,
songs,
lundus…
Apanhavas com vontade de cantar,
choravas com vontade de sorrir
com vontade de fazer mandinga para o branco ficar bom,
para o chicote doer menos,
para o dia acabar e negro dormir!
Não basta iluminares hoje as noites dos brancos com teus jazzes
com tuas danças, com tuas gargalhadas!
Olá, Negro! O dia está nascendo!
O dia está nascendo ou será a tua gargalhada que vem vindo?

Olá, Negro!
Olá, Negro!


História

Jorge de Lima

Era princesa.
Um libata a adquiriu por um caco de espelho.
Veio encangada para o litoral,
arrastada pelos comboieiros
Peça muito boa: não faltava um dente
e era mais bonita que qualquer inglesa.
No tombadilho o capitão deflorou-a.
Em nagô elevou a voz para Oxalá.
Pôs-se a coçar-se porque ele não ouviu.
Navio negreiro? não; navio tumbeiro.
Depois foi ferrada com uma âncora nas ancas,
depois foi possuída pelos marinheiros,
depois passou pela alfândega,
depois saiu do Valongo,
entrou no amor do feitor,
apaixonou o Sinhô,
enciumou a Sinhá,
apanhou, apanhou, apanhou.
Fugiu para o mato.
Capitão do campo a levou.
Pegou-se com os orixás:
fez bobó de inhame
para Sinhô comer,
fez aluá para ele beber;
fez mandinga para o Sinhô a amar.
A Sinhá mandou arrebentar-lhe os dentes:
Fute, Cafute, Pé-de-pato, Não-sei-que-diga,
avança na branca e me vinga.
Exu escangalha ela, amofina ela,
amuxila ela que eu não tenho defesa de homem,
sou só uma mulher perdida neste mundão.
Neste mundão.
Louvado seja Oxalá.
Para sempre seja louvado..


Serra da Barriga

Jorge de Lima

Serra da Barriga!
Barriga de negra-mina!
As outras montanhas se cobrem de neve,
de noiva, de nuvem, de verde!
E tu, de Loanda, de panos-da-costa,
de argolas, de contas, de quilombos!

Serra da Barriga!
Te vejo da casa em que nasci.
Que medo danado de negro fujão!

Serra da Barriga, buchuda, redonda,
de jeito de mama, de anca, de ventre de negra!
Mundaú te lambeu! Mundaú te lambeu!
Cadê teus bumbuns, teus sambas, teus jongos?
Serra da Barriga,
Serra da Barriga, as tuas noites de mandinga,
cheirando a maconha, cheirando a liamba?
Os teus meio-dias: tibum nos peraus!
Tibum nas lagoas!

Pixains que saem secos, cobrindo
sovacos de sucupira,
barrigas de baraúna!
Mundaú te lambeu! Mundaú te lambeu!
De noite: tantãs, curros-curros
e bumbas, batuques e baques!
E bumbas!
E cucas: ô ô!
E bantos: ê ê
Aqui não há cangas, nem troncos, nem banzos!
Aqui é Zumbi!
Barriga da África! Serra da minha terra!
Te vejo bulindo, mexendo, gozando Zumbi!
Depois, minha serra, tu desabando, caindo,
levando nos braços Zumbi!


(De “Poemas Negros”)

7 de novembro de 2013

Poemas de Solange Berard Lages Chalita


Desejos verbais


Solange Berard Lages Chalita


Quisera indisciplinar-se

Contra a sintaxe

E já pela manhã colher

Frases frescas

Feitas com sobras de orvalho


Nessas terras tórridas

Onde até o Amor estorrica

Quisera amolecer-se e render-se à verdura

Certa vez sonhada

Para povoar a linguagem

De símbolos renovados


(De "Canto Mínimo", Editora Scortecci - São Paulo - 2008)




No amanhecer de junho


Solange Berard Lages Chalita


Meu coração desenganado

Clinicamente

Afetivamente

Afetado

Meu coração desnudado

Baudelerianamente

Desesperado



Sem medicamento

Sem afeição

Literariamente

Safenado



Então

Quando a dor

Definitivamente

Quis matar-me



Tua lembrança

Deu-me um beijo

De amor 

De salvação 


(De "Canto Efêmero", Editora Scortecci - São Paulo -  2011) 

15 de outubro de 2013

Poemas de Juareiz Correya

ARTE DO PODER

Juareiz Correya

Os romanos inventaram
com leões e cristãos
o circo com pão.
Os brasileiros bolaram
com samba e com sol
o circo sem pão
                  do futebol.
Hoje o Brasil
descoberto de novo,
inventado de novo,
decretou o Estado de Circo
- sem picadeiro, sem palco
                  e sem pão,
com panos coloridos tapando o céu
um mágico desgovernado no planalto
e uma platéia de 140 milhões
de bestas e de palhaços.



 MENSAGEM DOS QUE VÃO MORRER

Juareiz Correya

Senhores do Mundo,
Irmãos da Guerra,
Deuses do Holocausto,
poderosos proprietários do Arsenal Atômico
que apagará os milênios
e destruirá a Terra cem vezes!
Governantes,
Bestas-feras suicidas,
com os seus Estados Unidos,
as suas Rússias, as suas Chinas,
as suas Organizadas Nações Unidas:
O Apocalipse não tem dia seguinte,
e para que todas as vidas da Terra
- ao alcance de suas maquinações -
sejam destruídas,
basta programar o Fim Nuclear
UMA ÚNICA VEZ
  


INTIMIDADE

Juareiz Correya

eu gosto
do teu cheiro de dentro
de dizer que te mato
de prazer de cansaço
de perder os meus braços
navegando em teu mar
eu gosto
dessa carne que arde
mais cedo e mais tarde
pelos cantos da casa
de fazer minha rede
no vai-vem dessas pernas
(no aconchego das coxas)
de cair de cabeça
nos segredos da gruta
eu gosto
desse gosto mais doce
que o teu corpo oferece
de tanto gozar
do teu longo arrepio
dessas voltas do cio
desse amor sem parar


Juarez Barbosa Correia nasceu em Palmares, Pernambuco, em 1951. Atualmente radicado em Recife. Poeta e editor. Definir Juareiz apenas como poeta e editor seria restringir seu importantíssimo trabalho como agitador cultural no Estado de Pernambuco, a partir da década de 1970, consolidando-se na década seguinte através da sua editora Nordestal, selo pela qual publicou os 10 números da revista Poesia, divulgando autores locais e de outros Estados.


Fonte: Interpoética

12 de setembro de 2013

Poemas de Márcia Sanchez Luz

Entre quatro paredes

Márcia Sanchez Luz

Entre quatro paredes
Esqueço-te.
Faço de mim companheira
Guardiã de meus sentidos.
Digo pra mim mesma
Que a ninguém é permitido
Violar o meu silêncio.
Meu espaço é sagrado!
Entre quatro paredes
Não tenho defeitos...
Não sou acusada
Nem fico acuada.
Violar meu santuário
É invadir-me por inteira.
Guardo-me e, portanto
Não tentes me destruir.
Entre quatro paredes
Desvendo quimeras
Transcendo esferas
Estratosferas
Biosferas
Esperas
Eras...


Transformação

Márcia Sanchez  Luz

Vejo em teus passos
Pedaços de um todo
De um tudo jogado
Em cantos, quebrado.
Sinto em teus olhos
O medo do incerto
Do tempo que passa
Da luz que se afasta.
Repassas tua vida
Com ferro em brasa
Ateias fogo, jogas água
Não te bastas.
Procura então
Em meio aos pedaços
Unir-te inteiro.
Teus primeiros passos
Vão te machucar
Vais gritar de dor
Vais querer parar.
Porém continua!
O medo vai cessar
Vais achar teu rumo
Encontrar saída
Pra essa escuridão.
Não ateies fogo
Onde o ar é leve
Onde a tarde deve
Te dar solução.


O ser e a mente

Márcia Sanchez Luz

Profícua mente escancarada
Doce mente estilizada
Elitizada e profanada
Insana e temerosa
Criação do nada
Que se esconde
Em prantos.
Em cantos
Se esgueira
Espreita calada
A cada segundo
Do ser e do mundo
Seu perfeito modo de ser
Atribulada mente... solitária.


(Transcritos de: Blocos Online)

22 de julho de 2013

Para um amor perdido

Ubirajara Mello de Almeida

Desejava apenas a forma
esculturada nas lembranças
pra saciar a sede da memória
quando um corpo sobre outro corpo
desemboca num lago inebriante
de pragas incestuosas.
A visão do espetáculo
acalmava-me na polução
angustiada dos desejos.
Na solidão do copo de wísque
bebo goles desesperados
na diluição sonora dos gemidos.
Agarro-me a sombra molhada nos lençóis
para acalmar os sentidos
que se devoravam na agonia
da volúpia nas últimas tensões.
Decantei em vão o suor
que escorria pelos transes epiléticos
para a embriaguês das manhãs delicadas
de odores alucinatórios.
Escorregava pelas pernas
perfumadas de prazeres onde jaz
o segredo da eternidade
na busca da comédia humana
enclausurada na perversão.
O que fazer com o sentimento
a envenenar-me na medida do desespero?

18 de junho de 2013

ÓRFICO

(Poema para Cicero Melo)

Inaldo Cavalcanti


A teologia aprende contigo.

Os pássaros voam,
Aprendem contigo.

Os anjos, em greve,
Aprendem contigo.

O inferno, chamado palavra,
Aprende contigo.

A dor, prova ou castigo,
Tumor da esperança,
Aprende contigo.

Bailarina louca de cisne
Aprende contigo.

Totem maior da Aurora.

7 de junho de 2013

Melhores poemas que eu li

Si pudiera vivir nuevamente ...

Jorge Luís Borges

"Si pudiera vivir nuevamente mi vida
en la próxima trataría de cometer más errores.
No intentaría ser tan perfecto, me relajaría más.
Sería más tonto de lo que he sido.
De hecho tomaría muy pocas cosas com seriedad.

Sería menos higiénico; correría más riesgos,
haría más viajes, contemplaría más atardeceres,
subiría más montañas, nadaría más rios.
Iría a más lugares a donde nunca he ido,
tendería más problemas reales y menos imaginarios.

Yo fui una de esas personas que vivió sensata y
prolíficamente cada minuto de su vida,
claro que tuve momentos de alegria,
pero si pudiera volver atrás,
trataría de tener solamente buenos momentos.

Pero si no saben, de eso esta hecha la vida,
solo de momentos;  no te pierdas el de ahora.

Yo era uno de esos que nunca van a ninguna parte sin un
termómetro, una bolsa de agua caliente, um paraguas y un
paracaídas; si pudiera volver a vivir, viajaría más liviano.

Si pudiera volver a vivir comenzaría a andar descalzo a
principios de la primavera y seguiría así hasta concluir el otoño.
Daría más vueltas en calesita, contemplaría más amaneceres
y jugaría com más niños, si tuviera outra vez la vida delante.

Pero yá vem, tengo 85 años y sé me estoy muriendo!..."