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9 de junho de 2010

Poemas de Lêdo Ivo

Cemitério dos Navios

Lêdo Ivo

Aqui os navios se escondem para morrer.
Nos porões vazios, só ficaram os ratos
à espera da impossível ressurreição.

E do esplendor do mundo sequer restou
o zarcão nos beiços do tempo.

O vento raspa as letras
dos nomes que os meninos soletravam.

A noite canina lambe
as cordoalhas esfarinhadas
sob o vôo das gaivotas estridentes
que, no cio, se ajuntam no fundo da baía.

Clareando madeiras podres e águas estagnadas,
o dia, com o seu olho cego, devora o gancho
que marca no casco as cicatrizes
do portaló que era um degrau do universo.

E a tarde prenhe de estrelas
inclina-se sobre a cabine onde, antigamente,
um casal aturdido pelo amor mais carnal
erguia no silêncio negras paliçadas.

Ó navios perdidos, velhos surdos
que, dormitando, escutam os seus próprios apitos
varando a neblina, no porto onde os barcos
eram como um rebanho atravessando a treva!


Canto Grande

Lêdo Ivo

Não tenho mais canções de amor.
Joguei tudo pela janela.
Em companhia da linguagem
fiquei, e o mundo se elucida.

Do mar guardei a melhor onda
que é menos móvel que o amor.
E da vida, guardei a dor
de todos os que estão sofrendo.

Sou um homem que perdeu tudo
mas criou a realidade,
fogueira de imagens, depósito
de coisas que jamais explodem.

De tudo quero o essencial:
o aqueduto de uma cidade,
rodovia do litoral,
o refluxo de uma palavra.

Longe dos céus, mesmo dos próximos,
e perto dos confins da terra,
aqui estou. Minha canção
enfrenta o inverno, é de concreto.

Meu coração está batendo
sua canção de amor maior.
Bate por toda a humanidade,
em verdade não estou só.

Posso agora comunicar-me
e sei que o mundo é muito grande.
Pela mão, levam-me as palavras
a geografias absolutas.


Lêdo Ivo, jornalista, poeta, romancista, contista, cronista e ensaísta, nasceu em Maceió, AL, em 18 de fevereiro de 1924. É membro da Academia Brasileira de Letras. Eleito em 13 de novembro de 1986 para a Cadeira n. 10, sucedendo a Orígenes Lessa, foi recebido em 7 de abril de 1987, pelo acadêmico Dom Marcos Barbosa.
Obras: As Imaginações (1944), Ode e Elegia (1945), As Alianças (1947), Acontecimento do Soneto (1948), O Caminho sem Aventura (1948), Ode ao Crepúsculo (1948), Cântico (1949), Linguagem (1951), Lição de Mário de Andrade (1951), Ode Equatorial (1951), Um Brasileiro em Paris e O Rei da Europa (1955), O Preto no Branco (1955), A Cidade e os Dias (1957), Magias (1960), O Girassol às Avessas (1960), Use a Passagem Subterrânea (1961), Paraísos de Papel (1961), Uma Lira dos Vinte Anos (1962), Ladrão de Flor (1963), O Universo Poético de Raul Pompéia (1963), O Sobrinho do General (1964), Estação Central (1964), Poesia Observada (1967), Finisterra (1972), Modernismo e Modernidade (1972), Ninho de Cobras (1973), O Sinal Semafórico (1974), Teoria e Celebração (1976), Alagoas (1976), Confissões de um Poeta (1979), O Soldado Raso (1980), A Ética da Aventura (1982), A Noite Misteriosa (1982), A Morte do Brasil (1984), Calabar (1985), Mar Oceano (1987), Crepúsculo Civil (1990), O Aluno Relapso (1991), A República das Desilusões (1995), Curral de Peixe (1995).