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10 de abril de 2020


Calvário nas ruas de Maceió


Iremar Marinho


Para que matar o Cristo,
todos os anos, nas ruas
de Maceió, como em Gólgota?
Não bastou a imolação?

Cada esquina, uma estação.
Velhas crentes, moços gaios
acompanham ao Calvário
o Cristo sem Cireneu.

A Rua do Sol é nova
Via Sacra: a turba quer
o Cristo crucificar,
sem dó nem apelação,

no Largo do Livramento
(diante do Bar do Chopp).
Mas o Senhor jaz (é morto!)
entre rubros paramentos.

(Poema do livro "Flores de Cana", que será publicado depois da Pandemia)

5 de fevereiro de 2020



Flores de cana

Iremar Marinho

Flores de cana alastram 
o solo ácido de sangue 
dos mortos do latifúndio. 

O sol forte é testemunha 
dos canaviais-partidos 
(o doce terror dos campos). 

O Mundaú chora mágoas 
de gente amarga habitante 
do doce-mar sem limites. 

O sangue de demerara 
pulsa veia diabética 
de álcool e mel cabaú. 

Sabe da veia o açúcar, 
do sangue sabe o veneno. 
Sabe do clima este sol. 

Os afluentes jorrando, 
a cana se alastrando 
(o doce por ironia). 

A água morre de química, 
no Mundaú, vau de lágrimas 
dos ilhéus/vidas cortadas. 

Os cemitérios, às margens, 
dos mortos de chistosoma, 
de bala e colesterol. 

Por este rio escorre 
o desespero dos mortos 
partidos como os canais. 

Os afogados conspiram 
nas angras, dunas e mangues 
(os enforcados, às margens). 

O rio torto costura 
a mortalha desses náufragos 
das tibornas, das caldeiras. 

A lagoa, estuário 
de mortes (vidas negadas): 
cenário de funeral. 

A barra do mar-represa 
é tumba desses ilhéus 
do Vale da Flor de Cana.

12 de setembro de 2018

O Grande Circo Místico


Jorge de Lima


(União dos Palmares -1893 / Rio de Janeiro - 1953)


O médico de câmara da imperatriz Teresa - Frederico Knieps - 
resolveu que seu filho também fosse médico,
mas o rapaz fazendo relações com a equilibrista Agnes,
com ela se casou, fundando a dinastia de circo Knieps
de que tanto se tem ocupado a imprensa.

Charlote, filha de Frederico, se casou com o clown,
de que nasceram Marie e Oto.
E Oto se casou com Lily Braun a grande deslocadora
que tinha no ventre um santo tatuado.
A filha de Lily Braun - a tatuada no ventre
quis entrar para um convento,
mas Oto Frederico Knieps não atendeu,
e Margarete continuou a dinastia do circo
de que tanto se tem ocupado a imprensa.

Então, Margarete tatuou o corpo
sofrendo muito por amor de Deus,
pois gravou em sua pele rósea
a Via-Sacra do Senhor dos Passos.
E nenhum tigre a ofendeu jamais;
e o leão Nero que já havia comido dois ventríloquos,
quando ela entrava nua pela jaula adentro,
chorava como um recém-nascido.
Seu esposo - o trapezista Ludwig - nunca mais a pôde amar,
pois as gravuras sagradas afastavam
a pele dela o desejo dele.

Então, o boxeur Rudolf que era ateu
e era homem fera derrubou Margarete e a violou.
Quando acabou, o ateu se converteu, morreu.
Margarete pariu duas meninas que são o prodígio do Grande Circo Knieps.
Mas o maior milagre são as suas virgindades
em que os banqueiros e os homens de monóculo têm esbarrado;
são as suas levitações que a platéia pensa ser truque;
é a sua pureza em que ninguém acredita;
são as suas mágicas que os simples dizem que há o diabo;
mas as crianças creem nelas, são seus fiéis, seus amigos, seus devotos.

Marie e Helene se apresentam nuas,
dançam no arame e deslocam de tal forma os membros
que parece que os membros não são delas.
A platéia bisa coxas, bisa seios, bisa sovacos.
Marie e Helene se repartem todas,
se distribuem pelos homens cínicos,
mas ninguém vê as almas que elas conservam puras.
E quando atiram os membros para a visão dos homens,
atiram a alma para a visão de Deus.

Com a verdadeira história do grande circo Knieps
muito pouco se tem ocupado a imprensa.


                                                          [A Túnica Inconsútil]

20 de agosto de 2018

O Amor

Vladimir Maiakovski - (1893-1930)

Um dia, quem sabe,
ela, que também gostava de bichos,
apareça
numa alameda do zôo,
sorridente,
tal como agora está
no retrato sobre a mesa.
Ela é tão bela,
que, por certo, hão de ressuscitá-la.
Vosso Trigésimo Século
ultrapassará o exame
de mil nadas,
que dilaceravam o coração.
Então,
de todo amor não terminado
seremos pagos
em inumeráveis noites de estrelas.
Ressuscita-me,
nem que seja só porque te esperava
como um poeta,
repelindo o absurdo quotidiano!
Ressuscita-me,
nem que seja só por isso!
Ressuscita-me!
Quero viver até o fim o que me cabe!
Para que o amor não seja mais escravo
de casamentos,
concupiscência,
salários.
Para que, maldizendo os leitos,
saltando dos coxins,
o amor se vá pelo universo inteiro.
Para que o dia,
que o sofrimento degrada,
não vos seja chorado, mendigado.
E que, ao primeiro apelo:
– Camaradas!
Atenta se volte a terra inteira.
Para viver
livre dos nichos das casas.
Para que doravante
a família seja
o pai,
pelo menos o Universo,
a mãe,
pelo menos a Terra.

(Tradução de Augusto de Campos e Boris Schnaiderman)



O Amor

Vladimir Maiakovski 

(Na recriação de Caetano Veloso, em parceria com Ney Costa Santos)

Talvez quem sabe um dia
Por uma alameda do zoológico
Ela também chegará
Ela que também amava os animais
Entrará sorridente assim como está
Na foto sobre a mesa
Ela é tão bonita
Ela é tão bonita que na certa eles a ressuscitarão
O século trinta vencerá
O coração destroçado já
Pelas mesquinharias
Agora vamos alcançar
Tudo o que não podemos amar na vida
Com o estelar das noites inumeráveis
Ressuscita-me ainda que mais não seja
Porque sou poeta
E ansiava o futuro
Ressuscita-me
Lutando contra as misérias do cotidiano
Ressuscita-me por isso
Ressuscita-me
Quero acabar de viver o que me cabe
Minha vida para que não mais existam amores servis
Ressuscita-me para que ninguém mais tenha de sacrificar-se
por uma casa, um buraco
Ressuscita-me
Para que a partir de hoje
A partir de hoje
A família se transforme
E o pai
Seja pelo menos o Universo
E a mãe
Seja no mínimo a Terra
A Terra

28 de julho de 2018

Planta de Maceió


Lêdo Ivo


O vento do mar rói as casas e os homens.
Do nascimento à morte, os que moram aqui
andam sempre cobertos por leve mortalha
de mormaço e salsugem. Os dentes do mar
mordem, dia e noite, os que não procuram
esconder-se no ventre dos navios
e se deixam sugar por um sol de areia.
Penetrada nas pedras, a maresia
cresta o pêlo dos ratos perdulários
que, nos esgotos, ouvem o vômito escuro
do oceano esvaído em bolsões de mangue
e sonham os celeiros dos porões dos cargueiros.
Foi aqui que nasci, onde a luz do farol
cega a noite dos homens e desbota as corujas.
A ventania lambe as dragas podres,
entra pelas persianas das casas sufocadas
e escalavra as dunas mortuárias
onde os beiços dos mortos bebem o mar.
Mesmo os que se amam nesta terra de ódios
são sempre separados pela brisa
que semeia a insônia nas lacraias
e adultera a fretagem dos navios.
Este é o meu lugar, entranhado em meu sangue
como a lama no fundo da noite lacustre.
E por mais que me afaste, estarei sempre aqui
e serei este vento e a luz do farol,
e minha morte vive na cioba encurralada.

9 de abril de 2018

Melhores poemas que eu li


Ode ao burguês


Mário de Andrade


Eu insulto o burguês! O burguês-níquel,
o burguês-burguês!
A digestão bem-feita de São Paulo!
O homem-curva! o homem-nádegas!
O homem que sendo francês, brasileiro, italiano,
é sempre um cauteloso pouco-a-pouco!

Eu insulto as aristocracias cautelosas!
Os barões lampiões! os condes Joões! os duques zurros!
que vivem dentro de muros sem pulos;
e gemem sangues de alguns mil-réis fracos
para dizerem que as filhas da senhora falam o francês
e tocam os "Printemps" com as unhas!

Eu insulto o burguês-funesto!
O indigesto feijão com toucinho, dono das tradições!
Fora os que algarismam os amanhãs!
Olha a vida dos nossos setembros!
Fará Sol? Choverá? Arlequinal!
Mas à chuva dos rosais
o èxtase fará sempre Sol!

Morte à gordura!
Morte às adiposidades cerebrais!
Morte ao burguês-mensal!
ao burguês-cinema! ao burguês-tílburi!
Padaria Suissa! Morte viva ao Adriano!
"Ai, filha, que te darei pelos teus anos?
Um colar... Conto e quinhentos!!!
Mas nós morremos de fome!"

Come! Come-te a ti mesmo, oh gelatina pasma!
Oh! purée de batatas morais!
Oh! cabelos nas ventas! oh! carecas!
Ódio aos temperamentos regulares!
Ódio aos relógios musculares! Morte à infâmia!
Ódio à soma! Ódio aos secos e molhados!
Ódio aos sem desfalecimentos nem arrependimentos,
sempiternamente as mesmices convencionais!
De mãos nas costas! Marco eu o compasso! Eia!
Dois a dois! Primeira posição! Marcha!
Todos para a Central do meu rancor inebriante
Ódio e insulto! Ódio e raiva! Ódio e mais ódio!
Morte ao burguês de giolhos,
cheirando religião e que não crê em Deus!
Ódio vermelho! Ódio fecundo! Ódio cíclico!
Ódio fundamento, sem perdão!

Fora! Fu! Fora o bom burgês!... 


                               (De Paulicéia desvairada)  - 1922

10 de fevereiro de 2018

Dois poemas de Cicero Melo


RETORNANDO A ÍTACA

Cicero Melo

A nave singra os sonhos nus do mármore,
Cruzando a solidão e sempre célere.
Carrega cuidadosa o nauta célebre,
E aquele transformado em pétrea árvore.

Um lutou, desdobrou a rota bárbara
Dos dias que da vida exigem têmpera;
O outro, tecendo de ondas sua têmpora,
Transmudou-se de mundos, sempre máscara.

O primeiro se fez, de acasos, íntegro;
O segundo buscou, em rumos trôpegos,
Desvendar o inefável do seu íntimo.

Mas, ambos se perderam: mar adúltero.
Hoje, mudo, acompanho, olhos sôfregos,
Ulisses retornando ao mátrio útero.




PENÉLOPE

Cicero Melo

Retornando do mar que me emoldura,
Ancoro em teus segredos, cidadelas.
De desvelos me nutres, me aquartelas
Desnudado do nauta e de procura.

Eternamente desejada e pura,
Em ti repouso rotas, amaino velas.
Dos perigos dos mares me encastelas
Em tuas celas de amor e de ternura.

Maravilhas que, meiga, me compensas
Depois de navegar, aventureiro,
Ocasos aleatórios, vagas densas,

Retorno sempre ao cais do amor primeiro,
Para recomeçar, feridas pensas,
Outras navegações, sempre janeiro.




De "O VERBO SITIADO"
(Edições Bagaço, 1986)