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9 de abril de 2017

Poemas de Jorge de Lima

Um monstro flui nesse poema


Jorge de Lima

Um monstro flui nesse poema
feito de úmido sal-gema.

A abóbada estreita mana
a loucura cotidiana.

Pra me salvar da loucura
como sal-gema. Eis a cura.

O ar imenso amadurece,
a água nasce, a pedra cresce.

Mas desde quando esse rio
corre no leito vazio?

Vede que arrasta cabeças,
frontes sumidas, espessas.

E são minhas as medusas,
cabeças de estranhas musas.

Mas nem tristeza e alegria
cindem a noite, do dia.

Se vós não tendes sal-gema,
não entreis nesse poema.


(Invenção de Orfeu, Canto Quarto, Poema I)


Este poema de amor não é lamento


Jorge de Lima


Este poema de amor não é lamento
Nem tristeza distante, nem saudade,
Nem queixume traído nem o lento
Perpassar da paixão ou pranto que há de


Transformar-se em dorido pensamento,
Em tortura querida ou em piedade
Ou simplesmente em mito, doce invento,
E exalta visão da adversidade.


É a memória ondulante da mais pura
E doce face (intérmina e tranquila)
Da eterna bem-amada que eu procuro;


Mas tão real, tão presente criatura
Que é preciso não vê-la nem possuí-la
Mas procurá-la nesse vale obscuro.
                                    

Vereis que o poema cresce independente


Jorge de Lima


Vereis que o poema cresce independente
e tirânico. Ó irmãos, banhistas, brisas,
algas e peixes lívidos sem dentes,
veleiros mortos, coisas imprecisas,

coisas neutras de aspecto suficiente
a evocar afogados, Lúcias, Isas,
Celidônias... Parai sombras e gentes!
Que este poema é poema sem balizas.

Mas que venham de vós perplexidades
entre as noites e os dias, entre as vagas
e as pedras, entre o sonho e a verdade, entre...

Qualquer poema é talvez essas metades:
essas indecisões das coisas vagas
que isso tudo lhe nutre sangue e ventre.


(Livro de Sonetos - 1949)


O cavalo em chamas


Jorge de Lima


Era um cavalo todo feito em chamas
alastrado de insânias esbraseadas;
pelas tardes sem tempo ele surgia
e lia a mesma página que eu lia.

Depois lambia os signos e assoprava
a luz intermitente, destronada,
então a escuridão cobria o rei
Nabucodonosor que eu ressonhei.

Bem se sabia que ele não sabia
a lembrança do sonho subsistido
e transformado em musas sublevadas.

Bem se sabia: a noite que o cobria
era a insânia do rei já transformado
no cavalo de fogo que o seguia.


Era um cavalo todo feito em lavas
recoberto de brasas e de espinhos.
Pelas tardes amenas ele vinha
e lia o mesmo livro que eu folheava.

Depois lambia a página, e apagava
a memória dos versos mais doridos;
então a escuridão cobria o livro,
e o cavalo de fogo se encantava.

Bem se sabia que ele ainda ardia
na salsugem do livro subsistido
e transformado em vagas sublevadas.

Bem se sabia: o livro que ele lia
era a loucura do homem agoniado
em que o íncubo cavalo se nutria.


(Invenção de Orfeu, Canto Quarto, poemas II e IV)

2 de abril de 2017

Melhores poemas que eu li


Noturno do Paraná do Ramos

Thiago de Mello


Antes do mais, viva a vida,
que livre e larga nos seja.
Do ferrão turvo da morte,
afinal sobrevivemos.

É verdade que nem todos.
Ninguém sabe quantos são
os nossos mortos. Talvez
jamais se possa contá-los.
De tantos sequer sabemos
o paradeiro da morte:
são os desaparecidos,
nomes de lista sinistra,
é tudo que nos permitem.

Todos findaram sabendo
que estavam no bom combate.
Alguns morreram gritando
o nome da liberdade.
De cada um de nós depende
que não tenha sido em vão.
Com sua morte, já fazem
parte da vida que um dia
vai florescer neste chão.

Sobrevivos. Mas não completamente.
Um pouco também morremos com eles.
Já não somos os mesmos. Todavia
agora muito mais somos quem somos,
porque a saber de trevas aprendemos
a nos olhar a face e atrás da face.
Encardidos de ciência, resguardamos
o límpido poder do coração.
Cambaio, o nosso andar agora sabe
sentir melhor o sonho e a dor do chão.
Noturnos, mas levando a claridão.

É verdade que as mãos ainda se acanham,
temerosas de gesto solidário.
Nossa ternura, antes canção de relva
orvalhada, estremece agora tímida,
pela pele resvala protegida
de cinza e indiferença.
Já nem sabemos mais olhar fronteiros,
e a vontade de ver, quando já perto,
se vai mudando em medo de enxergar.
O hábito, a que os tempos de temor
nos obrigaram, ainda não perdemos
de esconder o perfil, o canto do olho
espreitando os morcegos escondidos.
Ração de fel diária, a desconfiança
ainda aparece, mais que em nosso prato,
dentro da própria fome, disfarçada
na pressa de engolir, do compromisso
inventado, caminho para a fuga
do simples e fraterno conviver.

Para quem não viveu, convém contar.
A quem já se esqueceu, quero lembrar.
Era um tempo em que o clamor
dos oprimidos se erguia
no duro dizer das dores
em plena praça. Era um tempo
em que a esperança orvalhava
o sonho dos humilhados
e soterradas estrelas
surgiam rasgando rumos
nas consciências amassadas.
Lavradores descobriam
um poder novo nas mãos:
o de arrancar madrugadas
das escurezas do chão.
Contracantos vigilantes
os violões de rua anunciavam
as cores de uma aurora diferente.

Não haverá chegado esse clamor
aos ouvidos do Senhor dos Exércitos,
abafado talvez pelos rosários
dos que do Cristo fazem escudo do ódio.
Ousado foi bastante e cristalino
para, látego justo, amedrontar
os senhores de exércitos, ferir
conquanto levemente e com palavras
a pele dos mais podres privilégios.

Foi quando a grande besta levantou-se
com os números da traição na testa
e na fronte do povo derramou
o fedor do seu hábito de trevas.
De suas fauces viscosas
escorriam sentenças
(algumas com sotaque inconfundível)
proferidas em nome de Deus
(para que o amor pudesse ser negado)
em nome da Família
(para que as casas se dividissem)
e em nome da Pátria
(para que o país pudesse ser empenhado
e para que fosse vendido o nosso sonho).

Por isso, meu amor, somos quem somos.
Tanto tempo vivemos tão vigiados
pelas pupilas vesgas
dos que têm medo da aurora,
que, aos poucos, começamos a esconder
não a foice do orgulho
que nos cala o cântico no peito,
mas a espada de estrelas
que nos defende a esperança.
Até que um dia anoitecemos nos vigiando
a esmeralda do amor, que só brilhava
nos subúrbios da sombra, entre meninos.

É certo que recuperamos a fala.
Mais ainda não aprendemos a pronunciar
o nome das flores que arrebentam na praça.
Como a palavra cristalina queima,
muitos ainda preferem o aconchego dos enigmas
e sobretudo continuamos a nos ouvir
repetindo os compêndios corroídos
pelas traças inexoráveis dos erros.

Recuperamos a fala.
Mas as palavras de brasa,
as terríveis palavras perseguidas,
pelas quais nos amarraram a boca,
hoje entram em todas as casas,
proferidas a cores,
pelos antigos mordaceiros da luz,
mas lavadas por dentro,
esvaziadas de tudo o que nelas
era poder de pássaro e canção.

De mãos encardidas,
de olhos manchados,
sobrevivemos.
Resguardamos o rumo e a esperança.
No caminho do amor ninguém se cansa,
porque se aprende a olhar de frente o sol.

                              Subindo o Paraná do Ramos, 
                              primavera de 1980.






2 de março de 2017

Carl Hamblin

Edgar Lee Masters

A oficina gráfica do Clarion de Spoon River foi destruída
E me besuntaram de alcatrão em mistura com plumas
Por ter publicado, no dia em que enforcaram os
Anarquistas de Chicago, o seguinte:
Vi uma bela mulher com os olhos vendados
Num pedestal, nos degraus de um templo de mármore.
As multidões passavam diante dela
Dirigindo-lhe um olhar de quem implora.
Na mão esquerda ela sustentava uma espada.
Ela brandia a espada
Golpeando ora uma criança, ora um trabalhador,
Ora uma mulher que se esquivava, ora um lunático.
Na mão direita ela sustinha uma balança:
Na balança eram jogadas moedas de ouro
Por aqueles que escapavam ao golpe da espada.
Um homem, com uma toga preta, leu de um manuscrito:
- Ela não respeita as pessoas.
Então um jovem que usava boné vermelho
Pulou para o lado dela e arrebatou-lhe a venda.
Ah, as pestanas haviam sido comidas
Das pálpebras lodosas;
Os olhos estavam cauterizados por um visgo leitoso:
A loucura de uma alma estertorante
Estava gravada em sua face…
Mas a multidão ficou sabendo por que ela usava a venda.”

(Da Antologia da Nova Poesia Norte-Americana, de Jorge Wanderley)

6 de setembro de 2016

Conheça o palmarino Iremar Marinho

Cantar cigano para Garcia Lorca


Iremar Marinho


Eu tenho um nacarado no chapéu,
luzindo no profundo azul do céu.

Luar do sono, e quando acordo,
na viola, da menina me recordo.

Eu vejo um véu de nardos no bordel,
guardo o sonho do poeta no papel.

Aura de estrelas iluminando
o bailado de meninas de aluguel.

Eu vejo dos cavalos o tropel,
as capas negras e o rufar dos tamboris.

Vejo o poeta nas entrelinhas,
beijando a morte na mirada dos fuzis.

Biografia:

Iremar Marinho de Barros
 é natural de União dos Palmares [AL], residente em Maceió. É jornalista, publicitário e advogado, graduado em 1976, pela Universidade Federal de Alagoas. Exerceu a função de editor e repórter de vários jornais e televisão.

Integrante da Coletânea Caeté do Poema Alagoano, publicada em 1987, recebeu do crítico Marçal Calmon a seguinte apreciação: 'Com extraordinário poder de síntese, dizendo muito em poucas palavras, resumindo em poemas concisos um mundo de idéias, Iremar Marinho de Barros é uma agradável surpresa que a coletânea nos revela. Todos os seus poemas impressionam pela maturidade'.

Tem vários poemas publicados na Coletânea Caeté do Poema Alagoano, na seção Mural de Poemas do jornal Extra - AL, e o poema 'No Mar de Cuba', no livro Freitas Neto - Prosa, Verso e Graça, editado pela Casa da Amizade Freitas Neto Cuba-Brasil.

É autor, pela Chama Publicidade, da mensagem da TV Gazeta de Alagoas, comemorativa aos 25 anos da Rede Globo de Televisão, exibida pela emissora em todo o país.

Foi homenageado com a Comenda Jorge de Lima, pela Prefeitura Municipal de União dos Palmares-AL. 


Veja seu blog Bestiário Alagoano


25 de agosto de 2016

Mortos, de Marcondes Costa

Revista de Poesia Alagoana: Mortos, de Marcondes Costa: Os mortos nossos mortos estão sempre dentro de nós os mortos nossos mortos nunca nos deixam a sós (Fonte: http://gazetaweb.globo.com...

23 de junho de 2016

POEMA DE CICERO MELO

MEU ÚLTIMO AMOR

Cicero Melo

Nunca houve nos caminhos da jornada
Da vida notação, me acompanhando
Estava a Morte, a última da estrada
Das mulheres que amei, me degolando.
Mas, antes de morrer, e olhando o nada
Falei: “Eu que nasci sempre te amando,
Por que deceparás o ser amado,
O que sempre te amou e irá te amando.
Agora, a morte é minha amante e amiga
Dorme sempre nos sonhos: tão querida .
Mas, ela , nunca dorme, sempre a voar
Todo dia me deixa tão sozinho...
Mas sempre volta a mim com um bom vinho
Do sangue que acabara de ceifar.

19 de junho de 2016

TATARITARITATÁ: MACEIÓ

TATARITARITATÁ: MACEIÓ: 22 ANOS DE MACEIÓ: LAGOA MUNDAÚ – Há vinte e dois anos que estou em Maceió. Por conta disso, vivo como aquela coisa que boia quando s...

20 de maio de 2016

Secult publica edital para o II Concurso de Poesia Jorge de Lima

A Secretaria de Estado da Cultura (Secult) publicou nesta segunda-feira (16), o edital para o II Concurso de Poesia Jorge de Lima no Diário Oficial do Estado (DOE).

Segundo a portaria, o projeto tem o objetivo de estimular a produção literária de poesia entre os estudantes do Ensino Médio matriculados nas escolas públicas e privadas do estado.


A publicação informa que o edital contemplará duas categorias, sendo a primeira destinada aos alunos do Ensino Médio de escolas públicas e privadas, e a segunda, aos poetas alagoanos de todas as idades, a partir dos 18 anos de idade. As inscrições começam nesta segunda-feira (16) e vão até o dia 20 de julho.

Segundo a portaria, as inscrições deverão ser encaminhadas através de envelopes pelos correios ou diretamente na sede da secretaria, localizada na Praça dos Martírios, no antigo Palácio Floriano Peixoto, s/n, localizado no centro de Maceió, no horário das 8h às 14h.

O resultado final será publicado entre os dias 18 e 24 de agosto no site da Secult  e no DOE.

De acordo com o edital, o concurso tem o objetivo de incentivar a criação artística em todas as suas formas de expressão, a pesquisa de novas linguagens, a formação e o aprimoramento da celebração popular mais defendida no país.

I Concurso de Contos Heliôna Ceres

Também foi publicado no DOE desta segunda-feira (16), o edital para o I concurso de Contos Heliônia Ceres, que tem por objetivo estimular a produção literária de contos e estabelecer um intercâmbio com escritores alagoanos.


De acordo com o edital, poderão participar do concurso escritores maiores de 18 anos. O tema para os contos é livre e deverá ser produzido em língua portuguesa. As inscrições também começam nesta segunda-feira (16) e vão até o dia 20 de julho.

As inscrições deverão ser encaminhadas através de envelopes pelos correios ou diretamente na sede da Secretaria de Estado da Cultura, de segunda a sexta-feira, exceto feriados, no horário das 8h às 14 h.

Uma Comissão Julgadora composta por no mínimo três especialistas, de reconhecido prestigio na literatura alagoana julgará os contos. O resultado final do concurso será publicado no DOE e no site da Secult entre os dias 18 e 24 de agosto.

26 de março de 2016

POEMAS DE LUIZ ALBERTO MACHADO



CARTA A MINHA CIDADE


Luiz Alberto Machado


ao meu rincão 
que soletrei sílabas de todos os tons 
deixo o meu desejo provinciano  
foi nas tuas praças que descobri a poesia  
foi na tua noite que desvendei mistérios  
foi no teu dia que morri muitas vezes 
foi no teu canavial  que deixei meu sangue  
foi no teu rio que comunguei com a vida  
dos bairros nobres ao baixo meretrício  
dos bueiros da usina aos estudos da faculdade 
da safra da cana à entressafra da razão 
da incompetência da câmara ao sucesso dos loucos 
dos desvarios comerciais aos crimes impunes  
das damas hipócritas às jovens sedutoras  
das reuniões inúteis às salas de dança 
dos cultores do passado aos artistas malucos  

me completei 
me dizimei 
e me consenti 
com certeza te deixo o meu velório  
e a paz de quem sorri.    



(Da antologia  POETAS DOS PALMARES,
organizada por Juareiz Correya,
em edição eletrônica, pela Panamérica Nordestal Editora, do Recife)




A LÁGRIMA DE NERUDA 



Meus conterrâneos, eis minha missiva: 
Estamos próximos do final do século 
Às portas de uma nova era 
Rogo, portanto, a paz 
Não difiro de nada 
Sou eu procedente do índio botocudo 
De negros escravizados e de brancos degredados de Portugal 

No peito um canto para Neftáli Reyes 
Contra os que se devoram no dia e na noite. 

No peito o meu canto com a nossa dessemelhança que é o tiro que dizimou Balmaceda fomentando nossas hostilidades.

Nosso suor ainda é vendido a preço vil 
A preço de cadáveres indígenas, negros e marginalizados. 

As mulheres, nossas irmãs, são as mesmas 
Nas favelas do Rio 
Nas callampas do Chile 
Nas jacabes do México 
Nos barrios de Caracas 
Nas barriadas de Lima 
Nas vilas miséria de Buenos Aires 
Nas catagrilles de Montevidéu 
E uma bola de cartola ainda determina o rival nos gramados de Santiago do Chile.

Meus conterrâneos, eis minhas palavras: 
A esperança ainda é o nosso amuleto na estética de Huidobro: a precisão de um armistício e de um sonho maior que o de Bolívar.


(Da antologia PRIMEIRA REUNIÃO,
Edições Bagaço - 1992)

____________________________________________________________
LUIZ ALBERTO MACHADO é palmarense, filho do poeta Rubem de Lima
Machado. Poemas publicados em jornais locais e de diversos Estados
brasileiros. Ainda muito jovem, participou dos movimentos culturais de
Palmares. 

Músico e escritor, é também autor de diversas peças e dirigiu 
grupos teatrais amadores. Participou de vários festivais de música. 
Publicou, entre outros,  os livros de poesia Para viver o personagem
do homem (1982), A intromissão do verbo (1983), Raízes e Frutos
em parceria com Rubem de Lima Machado (1985), Canção da Terra
(1987), Paixão Legendária (1991) e Primeira Reunião (1992). 
 
Publicou vários títulos de literatura infantil.  Atualmente vive em Maceió (AL),
onde dirige a Edições Nascente e edita sites literários e várias páginas virtuais.


24 de março de 2016

27 de janeiro de 2016

Poemas de Fernando Fiúza


ABRIL
Fernando Fiúza
Abril melava o chão da tarde de cajá
e um gato ronronava dentro do meu peito;
as estradas de lama – quase tudo brejo
onde as almas diziam às rãs coisas do mar.

Não se plantava nada, o mato crescia quieto
e era dono de tudo, dono até das telhas;
a chuva disputava os ares com o silêncio
e um barco de papel coloria a correnteza.

O cavalo mancava – cegos pêlo e crina
que a derradeira luz não mais os penteava -,
a roseta com sangue entre os dentes não gira;
era a vez da leitura e palavras cruzadas.

Abril jamais me foi cruel e sim molhado
- quem sabe são meus olhos, restos do naufrágio.

(De: O Vazio e a Rocha)


BRILHANTE BARATO

Fernando Fiúza

É quando uma mulher bonita passa
passa de graça na calçada em frente
muitas vezes pintada outras sem nada
muitas vezes potranca outras serpente.

É quando uma princesa vira amiga
e não lhe cobra títulos nem taras
uma mulata posa rainha
e uma operária lhe faz coisas raras.

É quando meu amor chega de surpresa
um colo de mãe quando a dor lhe parte
uma carta ridícula de amor,

Toda inutilidade que faz da arte
o luxo que sonhava a natureza
o riso de Deus em noite de horror.

(De: O Vazio e a Rocha)


O VAZIO E A ROCHA

Fernando Fiúza

O vazio esconde a rocha das tormentas:
esquenta e molha, esfrega, esfrega e come:
tem fome e sede tem ânsia e arrebenta
com cinquenta mil rochas num ciclone.

A rocha faz a guerra, fez a bomba
e à sombra do vazio, frágil, se esconde
feito um monge que reza, reza e tomba
na lona aos pés do demo que de longe

Acena as asas negras do vazio.
E um rio, também vazio, também de rocha,
desabrocha dos olhos com fastio,

De um deus vazio, também feito de rocha
que não gosta, mas fez mulher vazio
e, doentio, do pobre homem rocha.

(De: O Vazio e a Rocha)
(Transcritos do blog Antonio Miranda)