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18 de novembro de 2012

Poemas de Vera Romariz


Campo minado

Vera Romariz

Campo minado, coração
de mulher
bala explosiva em tempo
de repouso

Pise devagar
ou não pise
erga as mãos em ninho
e segure com dedos
de casca de ovo

Campo minado, coração
de mulher
a fúria do temporal
antes de parir chuvas
nuvens densas
fúria reservada

E atrás dos olhos
na história do antes
das janelas abertas
retrato da fêmea
face fada
varinha de condão
mas - atenção ! -
que muda
e medra
terra em ensaio de terremoto
atenção!
a mina medra
e é rastro na mão
que mexe

Campo minado, coração
de mulher
pise devagar
ou não pise
erga as mãos em ninho
e segure com dedos
de casca de ovo


Sem óculos

Vera Romariz

Na cama te quero
sem óculos
esquadro e régua
sem limites nas dobras
dos lençóis
mais moderno
selvagem
das entradas e bandeiras
petróleo sem surpresas
ciências plataformas
correntes colossais

Na cama te faço
objeto de pesquisa
sem financiamento
externo
materialista dialético
de roucas práxis
rituais
diabólico jeito de ser Deus
sem cruz
cruzando corpos desiguais

Na cama te quero
vivendo papéis profanos
motor ligado
jato de gás em fogo
fósforo que vira tocha
no sair da caixa
e incendeia jardins, plantas, flores
canaviais


Penúltima Edição

Vera Romariz

A linguagem espreita
e ataca
livro é sempre
penúltima edição
da estória da rua

A criança toca o próprio corpo
e constrói poemas sem letra
no proibido desejo
e o diário é parte pequena
do gozo primeiro
que conta sem levar em conta
incontável

A penúltima edição
é mais que a antepenúltima
parcela, apenas, da linguagem
que espreita e ataca
na tela dos loucos
asilados e libertos
que pintam demônios
com as mãos impregnadas
de barbitúricos
no silêncio dos olhos arregalados
da vítima de estupro

Livro é sempre
penúltima edição da estória da rua
e do corpo inteiro
olhos apenas vêem
a edição antiga

VERA ROMARIZ nasceu em Maceió. É Doutora em Letras, professora, pesquisadora e crítica literária. Neta do poeta penedense Sabino Romariz (1873-1913). Vera Romariz tem publicados os livros: "Quase Pássaro" (1986), "Campo Minado" (1986), "Amor aos Cinqüenta" (2004) e "Película" (2008).doença pulmÃo, cÂncer

4 de outubro de 2012

MEUS POEMAS


Golpes/galopes


Iremar Marinho


Uma faca
vertical
(raio
do sol)
parte o dia
em quatro cantos

Bate no peito
(a galope)
o martelo
alagoano

A faca do sol
(a golpes)
parte a vida
em quantos prantos?



Repique 


Iremar Marinho

Para Joana Gajuru, Mestre Eurico e Manoel da Marinheira, artistas do povo

tam-bô-tam-bô-tam-bô-tam-bô-tam-bô-tam 
bô-tam-bô-tam-tam-tam-tam-tam-bô-tam-bô 
tam-bô-tam-bô-tam-bô-tam-bô-tam-bô-tam 
bô-tam-tam-tam-bô-tam-tam-tam-bô-tam-bô 

- Pisa! 

Dona Celsa vive 

e domina o Guerreiro de São José.


Deus vos salve, Mestra Santa.




Dois poetas vão ao Paraíso

Iremar Marinho


Dois poetas foram
a Nova York e Washington,
beber coca-cola
e sentir o cheiro de dólar.

Divertiram-se no Central Park
e correram dos ratos de Manhattan.

Registraram a passagem
nas metrópoles, 
vomitando poemas de êxtase.

Em holocausto,
pularam da Golden Gate.

Foram ignorados
no Time e no Post.

20 de setembro de 2012

Poemas de Luiz Gonzaga Leão


Soneto à Rosa Acontecida

Gonzaga Leão 

Ela nasceu de abismo e foi rosa
ante o luar - lírio no céu se abrindo
leitoso e virgem, as sombras deglutindo;
lírio que a noite clara e imaginosa
                       
criou para realce dela, a rosa:
chaga de luz e sangue (a estou sentindo
ferir as minhas mãos, a alma ferindo...)
que vem a madrugada silenciosa-

mente solver, e vem ditando rotas
de paisagens pretéritas e ignotas
por que meus olhos tristes e magoados

todos os dias sofrem e adoecem.
Rosa por que jardins mortos florescem,
cambiantes de luz, ressuscitados.



A morte do pássaro

Gonzaga Leão

Voo cego de pássaro no escuro,
de si precipitado, solto no ar,
caindo sobre o chão do bulevar
como um fruto que cai quando maduro.

Suicídio do azul de encontro ao muro,
do azul salino que emigrou do mar,
cansado do poder de viajar.
Suicídio do azul tornado impuro.

Tomba o pássaro: a sombra sobre o rio,
as crianças na praça e o casario
que lhe ditavam voo e itinerário.

E o tempo muda, se desfaz a espera,
a noite pinta o mundo e a primavera
inverna em sua cor no calendário.



Primeiro soneto sobre a casa

Gonzaga Leão

No chão, marcas de pés sujos de lama;
o alpendre para o sonho e para a rede;
janelas para a fuga; na parede
o salto do telhado; a noite e a cama

com destinos iguais para quem ama:
água e fonte servindo à mesma sede.
A casa em construção ainda, que de
suor e barro se edifica, chama

para se completar, seus moradores.
Fumo de chaminé nos arredores
da noite terminada. E no profundo

silêncio com que a vida se cobria,
um galo bate as asas e anuncia
a casa e a manhã dentro do mundo.

Luiz Gonzaga Leão (Gonzaga Leão) nasceu em União dos Palmares, Alagoas, no dia 5 de junho de 1929. Formado pela Faculdade de Direito de Alagoas. Funcionário aposentado do Banco do Brasil. Membro da Academia Alagoana de Letras e da Academia de Letras e Artes do Nordeste Brasileiro. Publicou os livros de poemas: "A Rosa Acontecida" (1955); "Mar de Encanto" (1957) e "Casa Somente Canto/Casa Somente Palavra" (1995). Participou das antologias "14 Poetas Alagoanos" (organizada por Valdemar Cavalcanti -1974) e Artesanias da Palavra" (2001) - com Arriete Vilela - José Geraldo W. Marques - Otávio Cabral - Sidney Wanderley. 

9 de setembro de 2012

Melhores poemas que eu li


Cogito

Torquato Neto

eu sou como eu sou
pronome
pessoal intransferível
do homem que iniciei
na medida do impossível

eu sou como eu sou
agora
sem grandes segredos dantes
sem novos secretos dentes
nesta hora

eu sou como eu sou
presente
desferrolhado indecente
feito um pedaço de mim

eu sou como eu sou
vidente
e vivo tranqüilamente
todas as horas do fim

27 de agosto de 2012

Melhores poemas que eu li

O Barco Bêbado

Arthur Rimbaud

Quando eu atravessava os Rios impassíveis,
Senti-me libertar dos meus rebocadores.
Cruéis peles-vermelhas com uivos terríveis
Os espetaram nus em postes multicores.

Eu era indiferente à carga que trazia,
Gente, trigo flamengo ou algodão inglês.
Morta a tripulação e finda a algaravia,
Os Rios para mim se abriram de uma vez.

Imerso no furor do marulho oceânico,
No inverno, eu, surdo como um cérebro infantil,
Deslizava, enquanto as Penínsulas em pânico
viam turbilhonar marés de verde e anil.

O vento abençoou minhas manhãs marítimas.
Mais leve que uma rolha eu dancei nos lençóis
das ondas a rolar atrás de suas vítimas,
dez noites, sem pensar nos olhos dos faróis!

Mais doce que as maçãs parecem aos pequenos,
A água verde infiltrou-se no meu casco ao léu
E das manchas azulejantes dos venenos
E vinhos me lavou, livre de leme e arpéu.

Então eu mergulhei nas águas do Poema
do Mar, sarcófago de estrelas, latescente,
Devorando os azuis, onde às vezes – dilema
Lívido – um afogado afunda lentamente;

Onde, tingindo azulidades com quebrantos
E ritmos lentos sob o rutilante albor,
Mais fortes que o álcool, mais vastas que os nossos prantos,
fermentam de amargura as rubéolas do amor!

Conheço os céus crivados de clarões, as trombas,
Ressacas e marés: conheço o entardecer,
A Aurora em explosão como um bando de pombas,
E algumas vezes vi o que o homem quis ver!

Eu vi o sol baixar, sujo de horrores místicos,
Iluminando os longos glaciais;
Como atrizes senis em palcos cabalísticos,
Ondas rolando ao longe os frêmitos de umbrais!

Sonhei que a noite verde em neves alvacentas
Beijava, lenta, o olhar dos mares com mil coros,
Soube a circulação das seivas suculentas
E o acordar louro e azul dos fósforos canoros!

Por meses eu segui, tropel de vacarias
Histéricas, o mar estuprando as areias,
Sem esperar que aos pés de ouro das Marias
Esmorecesse o ardor dos Oceanos sem peias!

Cheguei a visitar as Flóridas perdidas
Com olhos de jaguar florindo em epidermes
De homens! Arco-íris tensos como bridas
No horizonte do mar de glaucos paquidermes.

Vi fermentarem pântanos imensos, ansas
Onde apodrecem Leviatãs distantes!
O desmoronamento da água nas bonanças
E abismos a se abrir no caos, cataratantes!

Geleiras, sóis de prata, ondas e céus cadentes!
Náufragos abissais na tumba dos negrumes,
Onde, pasto de insetos, tombam as serpentes
Dos curvos cipoais, com pérfidos perfumes!

Ah! se as crianças vissem o dourar das ondas,
Áureos peixes do mar azul, peixes cantantes...
– As espumas em flor ninaram minhas rondas
E as brisas da ilusão me alaram por instantes.

Mártir de pólos e de zonas misteriosas,
O mar a soluçar cobria os meus artelhos
Com flores fantasmais de pálidas ventosas
e eu, como uma mulher, me punha de joelhos...

Quase ilha a balouçar entre borras e brados
De gralhas tagarelas com olhar de gelo,
Eu vogava, e por minha rede os afogados
Passavam, a dormir, descendo a contrapelo.

Mas eu, barco perdido em baías e danças,
Lançado no ar sem pássaros pela torrente,
De quem os Monitores e os arpões das Hansas
Não teriam pescado o casco de água ardente;

Livre, fumando em meio às virações inquietas,
Eu que furava o céu violáceo como um muro
Que mancham, acepipe raro aos bons poetas,
Líquens de sol vômitos de azul escuro;

Prancha louca a correr com lúnulas e faíscas
E hipocampos de breu, numa escolta de espuma,
Quando os sóis estivais estilhaçam em riscas
O céu ultramarino e seus funis de bruma;

Eu que tremia ouvindo, ao longe, a estertorar,
O cio dos Behemóts e dos Maelstroms febris,
Fiandeiro sem fim dos marasmos do mar,
Anseio pela Europa e os velhos peitoris!

Eu vi os arquipélagos astrais! e as ilhas
Que o delírio dos céus desvela ao viajor:
– É nas noites sem cor que te esqueces e te ilhas,
Milhão de aves de ouro, ó futuro Vigor?

Sim, chorar eu chorei! São mornas as Auroras!
Toda lua é cruel e todo sol, engano:
O amargo amor opiou de ócios minhas horas.
Ah! que esta quilha rompa! Ah! que me engula o oceano!

Da Europa a água que eu quero é só o charco
Negro e gelado onde, ao crepúsculo violeta,
Um menino tristonho arremesse o seu barco
trêmulo como a asa de uma borboleta.

No meu torpor, não posso, ó vagas, as esteiras
Ultrapassar das naves cheias de algodões,
Nem vencer a altivez das velas e bandeiras,
Nem navegar sob o olho torvo dos pontões.

(Tradução de Augusto de Campos)


1 de agosto de 2012

Meus Poemas


Eu te peço perdão Vaz de Camões

Iremar Marinho

Eu te peço perdão Vaz de Camões
Por te deixar morrer pedindo esmolas.

Eu te agradeço Gênio Luso por salvares
Os Lusíadas do naufrágio
Por salvares do naufrágio Portugal.

Eu te peço perdão Filho de Luso
Por te não socorrer e a Alcmena.

Sou o império português que te exilou  
Sou o rei Dom Dinis que te acolheu
Sou a Igreja que aprovou a Saga Lusa.

Sou o povo lusitano
Sou o vulgo brasilês
Descendo do nobre Henriques.

Por Saturno eu te agradeço
Por existir Portugal
Pelo ouro do Oriente
Pelos mares transportados.

Por Baco eu te agradeço
E o sacrifício de Inês.

E o mouro
Horrendo
Morrendo.

Poema do espanto para Ferreira Gullar

Iremar Marinho

Mundo vasto bate à porta.
Se os ossos me espancam,
O poema não se espanta.

Não vou mais a São Luiz.
Não vou rimar meretriz
Com minha falta de espanto.

Não há poema se o tempo
Retrai do poeta o canto
(a espera do espanto).

Por falta de espanto, faço
Poema vivo na carne,
No osso – a face desnuda.

Crio poema perplexo.
Já não há encanto
Não mais me espanto.


27 de julho de 2012

Poemas de Ubirajara Mello de Almeida


O Mito e a Fenda 

Ubirajara Mello de Almeida 

Por sobre a sombra,
Angústia  de  sopro em  gestação,
Desata-se o nó dos sentidos
Sentimento  próximo  ao pó
Primeira visão única e tardia
Na  decomposição perfumada
De uivos solitários.

                                     Por que a  alucinação
                                     Profética de vozes prematuras
                                     No  espaço tísico de criaturas
                                     Imprevisíveis e passado oco?
                                     Quero o limite da pele
                                     Dos sonhos pervertidos
                                     Na inquietação  rubra

Sobre a proeminência do azul
Na travessia  da  fé em agonia
Intumescida  de paisagens mortas
Na bruma  das manhãs  cinzas,
Dilúvio  de passos,  pedras, pássaros
E imprecisão  de cores.

7 de julho de 2012


Coríntios

Ubirajara Mello de Almeida

Em teu coito apenas, sereia,
volátil poente na mão,
Luna, lúmina, luz de areia
que nas águas dos pelos vão.

Pacto flamejante no céu,
Ruiva urbe láctea das estrelas,
Florais em Vênus no bordel
Das galáxias onde comê-las.

A eternidade num minuto!
Do rubro ardente dissoluto
revelou-se, não o sal, mas o astro.

Por castigo, a gula da ânsia.
A face? Sombra na distância
do éter, rosa de alabastro!

29 de junho de 2012


Cantata para Mario Faustino

Ubirajara Mello de Almeida

Subia, etéreo, estava em desvantagem,
usava toda química do delírio
mesmo sem túnica ia contra a aragem
e seguia em vão o discurso de um rio.

Ao ver-me nesse estado: é desvario...
Ou descompasso suicida da imagem?
Pregado numa cruz, à beira do martírio,
um quadro vivo agônico da paisagem.

Cantava, era o contraponto ao choro
dos fiéis, a duas vozes, em coro
na procissão dos que vão aos céus.

Numa cena perfeita de Brueghel,
o trumpetisdta preferiu um flugel
e a cortejo desfilava já sem véus.

24 de junho de 2012

Inédito de Cícero Melo


Meu último amor


Cicero Melo


Nunca houve  nos caminhos da jornada 
Da vida notação,  me acompanhando 
Estava a Morte, a última da estrada 
Das mulheres que amei, me degolando. 


Mas, antes de morrer, e olhando o nada 
Falei: “Eu que nasci  sempre te amando,  
Por que deceparás o ser amado, 
O que sempre te amou e irá te amando?” 


Agora, a morte é minha amante e amiga 
Dorme sempre nos sonhos:  tão querida  .
Mas, ela , nunca  dorme, sempre a voar


Todo dia me deixa tão sozinho... 
Mas sempre volta a mim com um bom vinho 
Do sangue que acabara de ceifar. 


http://ciceromelo.blogspot.com
http://geracao80.nafoto.net 
http://ciceromelo.zip.net

22 de junho de 2012

Poetas alagoanos


Mar Aberto


Diógenes Tenório Júnior (*)


Diante de ti, diante dessa imagem
Que o teu retrato traz para bem perto,
Meu coração se torna um mar aberto
Onde o navio dos meus sonhos faz viagem.


Olho em volta e diviso a paisagem:
Ondas revoltas, pedras, rumo incerto.
E um marujo novato, boquiaberto,
Vencendo o medo em busca de coragem.


Minha alma se faz um oceano
Onde, à deriva de mim mesmo, clamo
Pelo que apenas tu podes me dar:


Uma praia tranquila e bem serena,
Que me convença de que vale a pena
Correr todos os riscos p’ra te amar.
.
(*) Diógenes Tenório Júnior é um dos melhores poetas alagoanos. Nascido em Murici, é autor de quatro livros: Murici, Clamor das Pedras, Mar sem Porto e O poeta da saudade: Tito de Barros – Vida e Obra, no qual reverencia a memória de um dos maiores poetas alagoanos. Diógenes Tenório é do Instituto Histórico e Geográfico de Alagoas e da Academia Alagoana de Letras.
Poema (quase) trovadoresco
com sotaque português



Otávio Cabral


Quisera poder abrandar-te
Podar essa imensa tristeza
Deitando marcas no corpo 
Somando fel à beleza


Não sei quantas vezes adeus
nem sei se ou quando ou talvez
insultaste-me a memória
sequestrando o corpo à fala


Só sei quão severo é o tempo
Senhora trançando as rendas
Tecendo as malhas do corpo
Com as penas vossas apenas

5 de dezembro de 2010

In Nomine Dei

Otávio Cabral

Antes que o sol adormeça
Que a minha fé reacenda
E o teu poema amanheça

Cegai meus olhos poeta
As minhas pernas cortai
Todo meu corpo ulcerai

De Deus livrai-me poeta
De sua fome voraz
Livrai poeta livrai-me

De tudo que em seu nome
É praguejado livrai-me
Do paraíso livrai-me


Soneto de mar e vôo quase pássaro

Gonzaga Leão

Possuis provavelmente repetido
da ave o vôo nas mãos e nos cabelos;
nos teus lábios maduros e vermelhos
há certamente um pássaro ferido

que se refaz, de vôo prometido.
São de asas silenciosas teus artelhos.
E há também um mar que em teus joelhos
repousa, um mar na cor do teu vestido

transparente, finíssimo, de gaze,
quase desfeito ao vento, voando quase.
Um mar pousado em ti, calado e breve.

Digo eu que sei que me perdi no mar
que em ti descansa e que aprendi a voar
sem consequências com teu corpo leve.


No azul de Lorca

Arriete Vilela

As estrelas de Lorca repousam
sobre o azul dormido,
mas nada me dizem de ti.

Saberão os álamos dos rios de Lorca
que passos peregrinos se interpõem
entre os nossos azuis,
impossíveis hoje?

Saberão as águas desnudas de Lorca
quantas luzes hás de atravessar,
em quantos corpos hás de dormir
e que labirintos hás de tecer para lograr o tempo,
antes que assomes na madrugada
da minha rua?

Há as caravelas, sei.
Mas não devo apressar-te. Virás
à época dos frutos maduros,
do trigo e das uvas,
do mel e do amor.

Virás no rastro de Lorca
e nos claros azuis em que testemunhei
os luares ferindo de saudade
a noite profunda.

Virás por veredas que se hão de consumir
em flor e silêncio:
aprenderás a ninar Lorca
para compreender que, como ele,
não sabes teu fim
nem teu destino.


A rua da casa do meu avô

José Geraldo Marques

a rua da casa do meu avô
era ampla e bela
como a aurora
e nela
desaguavam (misturados ao ipanema)
todos os rios da minha esperança

a rua da casa do meu avô
era uma ponte
que ligava à cidadezinha
a mais distante galáxia
e por elas (às tardes das sextas-feiras)
passavam todos os touros da minha raça
aos quais a rude gente chamava gado

a noite da rua da casa do meu avô
era mais quilométrica que a da broadway
(embora anti-luzisse):
é que as constelações pareciam armadas para cair
ao menor sussurro de Deus...

2 de dezembro de 2010

Meus poemas

Réquiem para alma baldia

Iremar Marinho

Divina Pastora guarda
o corpo crivado d’alma
baldada surpreendida
dentro do beco baldio.

Divina Pastora vela
o corpo (saldo esquecido)
na vala da morte balda
(alma de vida evadida).

Divina Pastora guarda
o corpo sem nome d’alma
baldia (vida homônima/
baldada morte sinônima).

Divina Pastora, tende
piedade d’alma baldia
da vida tão descuidada
(baldada vida vadia).


Poema de névoas

Iremar Marinho

Ao meu pai Manoel Marinho

I

- Que divindade reúne
Miasmas desintegrados
E bóreas inomeados
Para formar nebulosas?

- Um deus desmemoriado,
Qual demiurgo deforma
O tempo para em seguida
Refazê-lo como névoa?

- O cosmo não é tecido
Como teia pela aranha,
Mas esculpido ao fogo
Soprado por mil demônios.

II

Ó homem marcado, dai
Lugar a quem, sem sinal,
Passa incólume sob o crivo
Dos detentores da morte.

Atentai ao que está mudo
(Não-falado-aquém-do-som),
Ao quase que nunca é,
Ao rumor de ventos dantes.

Atentai à flor da pedra,
À prostração do vazio,
Ao raio feito delírio,
Aos lírios ensanguentados.

18 de novembro de 2010

Poemas alagoanos

Cuida bem do meu cavalo cor de prata (I)

Agatângelo Vasconcelos *

Cuida bem do meu cavalo cor de prata,
se não queres que eu caia nestes campos.
Que não lhe falte o capim verde e a alfafa,
que os arreios sempre limpos estejam prontos.

Dá-lhe a água da nascente que existe
na encosta que um dia te apontei.
Acolchoa o meu selim aveludado
e atenta que a brida não o corte.

A montaria deve estar ajaezada
pois a viagem pode ser a qualquer hora
e meu regresso vai durar a vida inteira.

Pra meu galope escolhi o teu caminho,
mas se não queres que eu caia nestes prados,
cuida bem do meu cavalo cor de prata.


* Do livro “Sagrado Coração Exposto”, Edufal – Maceió-AL – 1981)

“A linguagem poética de Agatângelo Vasconcelos,
médico-psiquiatra alagoano, se identifica com a voz
que mora dentro de todos os poetas e grita
como se estivesse pedindo socorro,
clamando para que não se deixe matar
nem violentar a poesia”.
(Anilda Leão)


Canais e Lagoas

Paulo Renault

Arrependido e mudo deito-me a céu aberto
sobre as margens quentes e molhadas
que sem nenhum segredo
há pouco as águas da Mãe do Norte cobriam.

Acosto-me e embora ainda confuso,
arruíno as minhas lembranças
com o que não há, nunca mais haverá, jamais.

A insanidade foi tão assoladora,
amou tanto a si mesma que a jaçanã almada
não vislumbrara o seu fim
que a si mesmo causa espanto.
Foi a inundação do nada onde tudo havia.

O anum-preto, que de gaitadeira em gaitadeira
dispunha sua pequena sombra sobre o arisco aratu,
não canta mais, chamando a companheira
para juntos voarem canal afora.

Do Rio das Ciladas e das Pedras ao Pontal,
emergiram duas grandes mães:
a do Norte e a do Sul.
Duas grandes bacias d'água,
animais e plantas, águas de viver.
De jangadas, canoas, vidas, gente.

Viverás de tainhas, carapebas,
camarões, soias, taiobas, sururus...

Oh, Mãe do Norte,
devorai as tristezas nos olhos das crianças
trazidas para as tuas margens
pelos ventos dos canaviais,
palas dobras de Coqueiro Seco,
de Luzia Santa, do Velho Fernão
e da cidade que tapou seus alagadiços.

Oh, Mãe, derrama tuas lágrimas
águas serenas e escuras
sobre a minha alma mestiça.
Quero viver e morrer em ti
mergulhado e envergonhando
nas tuas profundezas.

Quem sabe, minha alma bohêmia e sonhadora,
bêbada e injusta encontre-se novamente com seu hálito
e com os passarinhos que me levarão
para o céu desfeito nas asas da galinha d’água,
da jaçanã, onde dançarei com a caipora,
a musa dos manguezais que te margearam.

14 de novembro de 2010

O mundo impossível dos meninos

Iremar Marinho *


“Ó terra em que nasci e morri,
o seu Mundaú, suas lagoas,
minha mocidade.”
(Jorge de Lima)


Poeta Jorge de Lima,
universal e tão próximo.
Na invenção da infância,
criamos o mesmo mundo
impossível dos meninos.

Nós percorremos a mesma
Cidade da Madalena
(ex-Vila da Imperatriz),
o nosso burgo natal):

Rua da Apertada Hora,
Rua do Jatobazinho;
a Rua da Cachoeira,
a Rua do Virador,

Rua da Matança Velha,
Rua do Boi, do Carvão,
Rego da Guida, Pedreiras,
Rua do Consome Homem.

Sou da Rua do Cangote.
És do Largo da Matriz
(da esquina do Comércio,
olhando a Rua de Cima).

Nós passeamos a esmo
pelos “caminhos que ainda
têm orvalhos e sonâmbulos
bacuraus”, “ninhos suspensos”.

Vagueamos no Cruzeiro
do Século, no Jatobá,
no Sueca, no Bolão,
Tobiba, Terra-Cavada,

lá no Fundo do Surrão,
Brejo do Capim, Muquém,
no Cafuxi, Amolar,
no Caboje, na Jurema,

Várzea Grande, Mão Direita,
Cana Brava, Sapucaia,
no Caípe, no Mocambo,
no Ximenes, no Cajá,

no Riachão, nos Esconsos,
Serra Grande das Canoas,
Serras do Frio, da Laje,
da Barriga (do Quilombo).

Tomamos banho no mesmo
Mundaú, das “lavadeiras
seminuas “, curiosos
de ver aquelas “mocinhas
nuinhas, de pé... com frio...”

Na mesma feira de sábado
(eu me perdi do meu pai),
fostes guia da menina
cega que pedia esmolas.

Na estrada Great Western
(“balduínas sonolentas”),
os meninos de “alma lírica”
aprenderam ver paisagem.

Nossos mundos impossíveis
unem-se pelas lembranças
indeléveis como nódoas
nas almas destes meninos.

Eu te peço por empréstimo
tuas raízes (são nossas)
para deixá-las plantadas
para sempre na União.

Empresta-me teu sublime
Acendedor de Lampiões.
Empresta-me Santa Dica.
Empresta-me Pai João.

Empresta-me Quichimbi.
Empresta-me Janaína.
Tua Mulher Proletária.
Empresta-me Negra Fulô.

Só não tomo por empréstimo
tua grandeza de poeta
universal. Minha dívida
contigo é muito grande.

Dever-te-ei para sempre.


* Iremar Marinho é jornalista e poeta, conterrâneo do poeta Jorge de Lima.

8 de novembro de 2010

Melhores poemas que eu li

Lufada *

Hans Magnus Enzensberger

Certas palavras
leves
como pólen de álamos

sobem
levadas pelo vento
descem

raramente pegáveis
vagam longe
como pólen de álamos

certas palavas
talvez deixem
a terra porosa

lançando depois sua sombra
uma sombra sombria
quem sabe não

* Tradução de Marcos de Farias Costa, in “Não Tem Tradução – Antologia Poética Universal (Bilíngue)” – Ediculte-Sergasa – 1989 - Maceió-AL


Te espero na curva de qualquer rua *

Camillo Sbarbaro

Te espero na curva de qualquer rua,
Perdição. Te procuro nos olhos
de cada mulher que passa...
Paro nas barracas das feiras
para ver a mulher-serpente
a menina que voa...

Oh volúpia de dar tudo por nada!
de levar à custa de um cigarro
esta vida que é todo nosso bem!

Aquela que todos tiveram, que ri
fácil e não percebe, aquela que
com um sacudir de ombros e um mover de anca
dissolva todo o meu mundo interior,
aquela tão desprezível que ignora
o seu poder,
eu peço que me atravesse o caminho.

Como um mendigo que vindo
pela margem do rio, desdenhoso
joga o único vintém que possui,
por ela eu jogaria a vida sorrindo.

* Tradução de Paulo Malta, na revista Dialética – Ano 7, n. 5 – Março/2001 - Maceió-AL