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5 de dezembro de 2010

In Nomine Dei

Otávio Cabral

Antes que o sol adormeça
Que a minha fé reacenda
E o teu poema amanheça

Cegai meus olhos poeta
As minhas pernas cortai
Todo meu corpo ulcerai

De Deus livrai-me poeta
De sua fome voraz
Livrai poeta livrai-me

De tudo que em seu nome
É praguejado livrai-me
Do paraíso livrai-me


Soneto de mar e vôo quase pássaro

Gonzaga Leão

Possuis provavelmente repetido
da ave o vôo nas mãos e nos cabelos;
nos teus lábios maduros e vermelhos
há certamente um pássaro ferido

que se refaz, de vôo prometido.
São de asas silenciosas teus artelhos.
E há também um mar que em teus joelhos
repousa, um mar na cor do teu vestido

transparente, finíssimo, de gaze,
quase desfeito ao vento, voando quase.
Um mar pousado em ti, calado e breve.

Digo eu que sei que me perdi no mar
que em ti descansa e que aprendi a voar
sem consequências com teu corpo leve.


No azul de Lorca

Arriete Vilela

As estrelas de Lorca repousam
sobre o azul dormido,
mas nada me dizem de ti.

Saberão os álamos dos rios de Lorca
que passos peregrinos se interpõem
entre os nossos azuis,
impossíveis hoje?

Saberão as águas desnudas de Lorca
quantas luzes hás de atravessar,
em quantos corpos hás de dormir
e que labirintos hás de tecer para lograr o tempo,
antes que assomes na madrugada
da minha rua?

Há as caravelas, sei.
Mas não devo apressar-te. Virás
à época dos frutos maduros,
do trigo e das uvas,
do mel e do amor.

Virás no rastro de Lorca
e nos claros azuis em que testemunhei
os luares ferindo de saudade
a noite profunda.

Virás por veredas que se hão de consumir
em flor e silêncio:
aprenderás a ninar Lorca
para compreender que, como ele,
não sabes teu fim
nem teu destino.


A rua da casa do meu avô

José Geraldo Marques

a rua da casa do meu avô
era ampla e bela
como a aurora
e nela
desaguavam (misturados ao ipanema)
todos os rios da minha esperança

a rua da casa do meu avô
era uma ponte
que ligava à cidadezinha
a mais distante galáxia
e por elas (às tardes das sextas-feiras)
passavam todos os touros da minha raça
aos quais a rude gente chamava gado

a noite da rua da casa do meu avô
era mais quilométrica que a da broadway
(embora anti-luzisse):
é que as constelações pareciam armadas para cair
ao menor sussurro de Deus...

18 de novembro de 2010

Poemas alagoanos

Cuida bem do meu cavalo cor de prata (I)

Agatângelo Vasconcelos *

Cuida bem do meu cavalo cor de prata,
se não queres que eu caia nestes campos.
Que não lhe falte o capim verde e a alfafa,
que os arreios sempre limpos estejam prontos.

Dá-lhe a água da nascente que existe
na encosta que um dia te apontei.
Acolchoa o meu selim aveludado
e atenta que a brida não o corte.

A montaria deve estar ajaezada
pois a viagem pode ser a qualquer hora
e meu regresso vai durar a vida inteira.

Pra meu galope escolhi o teu caminho,
mas se não queres que eu caia nestes prados,
cuida bem do meu cavalo cor de prata.


* Do livro “Sagrado Coração Exposto”, Edufal – Maceió-AL – 1981)

“A linguagem poética de Agatângelo Vasconcelos,
médico-psiquiatra alagoano, se identifica com a voz
que mora dentro de todos os poetas e grita
como se estivesse pedindo socorro,
clamando para que não se deixe matar
nem violentar a poesia”.
(Anilda Leão)


Canais e Lagoas

Paulo Renault

Arrependido e mudo deito-me a céu aberto
sobre as margens quentes e molhadas
que sem nenhum segredo
há pouco as águas da Mãe do Norte cobriam.

Acosto-me e embora ainda confuso,
arruíno as minhas lembranças
com o que não há, nunca mais haverá, jamais.

A insanidade foi tão assoladora,
amou tanto a si mesma que a jaçanã almada
não vislumbrara o seu fim
que a si mesmo causa espanto.
Foi a inundação do nada onde tudo havia.

O anum-preto, que de gaitadeira em gaitadeira
dispunha sua pequena sombra sobre o arisco aratu,
não canta mais, chamando a companheira
para juntos voarem canal afora.

Do Rio das Ciladas e das Pedras ao Pontal,
emergiram duas grandes mães:
a do Norte e a do Sul.
Duas grandes bacias d'água,
animais e plantas, águas de viver.
De jangadas, canoas, vidas, gente.

Viverás de tainhas, carapebas,
camarões, soias, taiobas, sururus...

Oh, Mãe do Norte,
devorai as tristezas nos olhos das crianças
trazidas para as tuas margens
pelos ventos dos canaviais,
palas dobras de Coqueiro Seco,
de Luzia Santa, do Velho Fernão
e da cidade que tapou seus alagadiços.

Oh, Mãe, derrama tuas lágrimas
águas serenas e escuras
sobre a minha alma mestiça.
Quero viver e morrer em ti
mergulhado e envergonhando
nas tuas profundezas.

Quem sabe, minha alma bohêmia e sonhadora,
bêbada e injusta encontre-se novamente com seu hálito
e com os passarinhos que me levarão
para o céu desfeito nas asas da galinha d’água,
da jaçanã, onde dançarei com a caipora,
a musa dos manguezais que te margearam.

14 de julho de 2009

Definições para Bestiário

Enciclopédia Itaú Cultural

Em sentido mais estrito, o termo bestiário (do latim bestia, "animal") faz referência a um gênero literário medieval, que se vale da descrição física e de comportamentos de animais, reais ou fantásticos, para a construção de fábulas de caráter moralizante. Em prosa ou verso, esses manuscritos ilustrados tomam a natureza como fonte de ensinamentos úteis ao homem e à sociedade, com uma visão cristã do mundo. A cultura medieval está repleta de animais, em textos e imagens, rituais, folclore, heráldica, canções, provérbios etc. Em geral, esses seres são representados por meio de duas visões distintas: uma mais corrente considera o animal imperfeito e inferior e, nesse sentido, radicalmente diferente do homem; outra, ao contrário, subentende a existência de uma comunidade de seres vivos e um parentesco - não apenas biológico - entre homens e animais. Repletos de sentidos negativos e positivos, representados muitas vezes de forma alegórica e grotesca, o fato é que os animais ocupam o primeiro plano no imaginário medieval cristão: dragões, crocodilos, leões, asnos, porcos, baleias, unicórnios, aves e peixes simbolizam o mal, a imortalidade, a astúcia, o poder etc., de acordo com os atributos de cada um deles.