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1 de agosto de 2012

Meus Poemas


Eu te peço perdão Vaz de Camões

Iremar Marinho

Eu te peço perdão Vaz de Camões
Por te deixar morrer pedindo esmolas.

Eu te agradeço Gênio Luso por salvares
Os Lusíadas do naufrágio
Por salvares do naufrágio Portugal.

Eu te peço perdão Filho de Luso
Por te não socorrer e a Alcmena.

Sou o império português que te exilou  
Sou o rei Dom Dinis que te acolheu
Sou a Igreja que aprovou a Saga Lusa.

Sou o povo lusitano
Sou o vulgo brasilês
Descendo do nobre Henriques.

Por Saturno eu te agradeço
Por existir Portugal
Pelo ouro do Oriente
Pelos mares transportados.

Por Baco eu te agradeço
E o sacrifício de Inês.

E o mouro
Horrendo
Morrendo.

Poema do espanto para Ferreira Gullar

Iremar Marinho

Mundo vasto bate à porta.
Se os ossos me espancam,
O poema não se espanta.

Não vou mais a São Luiz.
Não vou rimar meretriz
Com minha falta de espanto.

Não há poema se o tempo
Retrai do poeta o canto
(a espera do espanto).

Por falta de espanto, faço
Poema vivo na carne,
No osso – a face desnuda.

Crio poema perplexo.
Já não há encanto
Não mais me espanto.


27 de julho de 2012

Poemas de Ubirajara Mello de Almeida


O Mito e a Fenda 

Ubirajara Mello de Almeida 

Por sobre a sombra,
Angústia  de  sopro em  gestação,
Desata-se o nó dos sentidos
Sentimento  próximo  ao pó
Primeira visão única e tardia
Na  decomposição perfumada
De uivos solitários.

                                     Por que a  alucinação
                                     Profética de vozes prematuras
                                     No  espaço tísico de criaturas
                                     Imprevisíveis e passado oco?
                                     Quero o limite da pele
                                     Dos sonhos pervertidos
                                     Na inquietação  rubra

Sobre a proeminência do azul
Na travessia  da  fé em agonia
Intumescida  de paisagens mortas
Na bruma  das manhãs  cinzas,
Dilúvio  de passos,  pedras, pássaros
E imprecisão  de cores.

7 de julho de 2012


Coríntios

Ubirajara Mello de Almeida

Em teu coito apenas, sereia,
volátil poente na mão,
Luna, lúmina, luz de areia
que nas águas dos pelos vão.

Pacto flamejante no céu,
Ruiva urbe láctea das estrelas,
Florais em Vênus no bordel
Das galáxias onde comê-las.

A eternidade num minuto!
Do rubro ardente dissoluto
revelou-se, não o sal, mas o astro.

Por castigo, a gula da ânsia.
A face? Sombra na distância
do éter, rosa de alabastro!

29 de junho de 2012


Cantata para Mario Faustino

Ubirajara Mello de Almeida

Subia, etéreo, estava em desvantagem,
usava toda química do delírio
mesmo sem túnica ia contra a aragem
e seguia em vão o discurso de um rio.

Ao ver-me nesse estado: é desvario...
Ou descompasso suicida da imagem?
Pregado numa cruz, à beira do martírio,
um quadro vivo agônico da paisagem.

Cantava, era o contraponto ao choro
dos fiéis, a duas vozes, em coro
na procissão dos que vão aos céus.

Numa cena perfeita de Brueghel,
o trumpetisdta preferiu um flugel
e a cortejo desfilava já sem véus.

24 de junho de 2012

Inédito de Cícero Melo


Meu último amor


Cicero Melo


Nunca houve  nos caminhos da jornada 
Da vida notação,  me acompanhando 
Estava a Morte, a última da estrada 
Das mulheres que amei, me degolando. 


Mas, antes de morrer, e olhando o nada 
Falei: “Eu que nasci  sempre te amando,  
Por que deceparás o ser amado, 
O que sempre te amou e irá te amando?” 


Agora, a morte é minha amante e amiga 
Dorme sempre nos sonhos:  tão querida  .
Mas, ela , nunca  dorme, sempre a voar


Todo dia me deixa tão sozinho... 
Mas sempre volta a mim com um bom vinho 
Do sangue que acabara de ceifar. 


http://ciceromelo.blogspot.com
http://geracao80.nafoto.net 
http://ciceromelo.zip.net

22 de junho de 2012

Poetas alagoanos


Mar Aberto


Diógenes Tenório Júnior (*)


Diante de ti, diante dessa imagem
Que o teu retrato traz para bem perto,
Meu coração se torna um mar aberto
Onde o navio dos meus sonhos faz viagem.


Olho em volta e diviso a paisagem:
Ondas revoltas, pedras, rumo incerto.
E um marujo novato, boquiaberto,
Vencendo o medo em busca de coragem.


Minha alma se faz um oceano
Onde, à deriva de mim mesmo, clamo
Pelo que apenas tu podes me dar:


Uma praia tranquila e bem serena,
Que me convença de que vale a pena
Correr todos os riscos p’ra te amar.
.
(*) Diógenes Tenório Júnior é um dos melhores poetas alagoanos. Nascido em Murici, é autor de quatro livros: Murici, Clamor das Pedras, Mar sem Porto e O poeta da saudade: Tito de Barros – Vida e Obra, no qual reverencia a memória de um dos maiores poetas alagoanos. Diógenes Tenório é do Instituto Histórico e Geográfico de Alagoas e da Academia Alagoana de Letras.
Poema (quase) trovadoresco
com sotaque português



Otávio Cabral


Quisera poder abrandar-te
Podar essa imensa tristeza
Deitando marcas no corpo 
Somando fel à beleza


Não sei quantas vezes adeus
nem sei se ou quando ou talvez
insultaste-me a memória
sequestrando o corpo à fala


Só sei quão severo é o tempo
Senhora trançando as rendas
Tecendo as malhas do corpo
Com as penas vossas apenas

5 de dezembro de 2010

In Nomine Dei

Otávio Cabral

Antes que o sol adormeça
Que a minha fé reacenda
E o teu poema amanheça

Cegai meus olhos poeta
As minhas pernas cortai
Todo meu corpo ulcerai

De Deus livrai-me poeta
De sua fome voraz
Livrai poeta livrai-me

De tudo que em seu nome
É praguejado livrai-me
Do paraíso livrai-me


Soneto de mar e vôo quase pássaro

Gonzaga Leão

Possuis provavelmente repetido
da ave o vôo nas mãos e nos cabelos;
nos teus lábios maduros e vermelhos
há certamente um pássaro ferido

que se refaz, de vôo prometido.
São de asas silenciosas teus artelhos.
E há também um mar que em teus joelhos
repousa, um mar na cor do teu vestido

transparente, finíssimo, de gaze,
quase desfeito ao vento, voando quase.
Um mar pousado em ti, calado e breve.

Digo eu que sei que me perdi no mar
que em ti descansa e que aprendi a voar
sem consequências com teu corpo leve.


No azul de Lorca

Arriete Vilela

As estrelas de Lorca repousam
sobre o azul dormido,
mas nada me dizem de ti.

Saberão os álamos dos rios de Lorca
que passos peregrinos se interpõem
entre os nossos azuis,
impossíveis hoje?

Saberão as águas desnudas de Lorca
quantas luzes hás de atravessar,
em quantos corpos hás de dormir
e que labirintos hás de tecer para lograr o tempo,
antes que assomes na madrugada
da minha rua?

Há as caravelas, sei.
Mas não devo apressar-te. Virás
à época dos frutos maduros,
do trigo e das uvas,
do mel e do amor.

Virás no rastro de Lorca
e nos claros azuis em que testemunhei
os luares ferindo de saudade
a noite profunda.

Virás por veredas que se hão de consumir
em flor e silêncio:
aprenderás a ninar Lorca
para compreender que, como ele,
não sabes teu fim
nem teu destino.


A rua da casa do meu avô

José Geraldo Marques

a rua da casa do meu avô
era ampla e bela
como a aurora
e nela
desaguavam (misturados ao ipanema)
todos os rios da minha esperança

a rua da casa do meu avô
era uma ponte
que ligava à cidadezinha
a mais distante galáxia
e por elas (às tardes das sextas-feiras)
passavam todos os touros da minha raça
aos quais a rude gente chamava gado

a noite da rua da casa do meu avô
era mais quilométrica que a da broadway
(embora anti-luzisse):
é que as constelações pareciam armadas para cair
ao menor sussurro de Deus...

2 de dezembro de 2010

Meus poemas

Réquiem para alma baldia

Iremar Marinho

Divina Pastora guarda
o corpo crivado d’alma
baldada surpreendida
dentro do beco baldio.

Divina Pastora vela
o corpo (saldo esquecido)
na vala da morte balda
(alma de vida evadida).

Divina Pastora guarda
o corpo sem nome d’alma
baldia (vida homônima/
baldada morte sinônima).

Divina Pastora, tende
piedade d’alma baldia
da vida tão descuidada
(baldada vida vadia).


Poema de névoas

Iremar Marinho

Ao meu pai Manoel Marinho

I

- Que divindade reúne
Miasmas desintegrados
E bóreas inomeados
Para formar nebulosas?

- Um deus desmemoriado,
Qual demiurgo deforma
O tempo para em seguida
Refazê-lo como névoa?

- O cosmo não é tecido
Como teia pela aranha,
Mas esculpido ao fogo
Soprado por mil demônios.

II

Ó homem marcado, dai
Lugar a quem, sem sinal,
Passa incólume sob o crivo
Dos detentores da morte.

Atentai ao que está mudo
(Não-falado-aquém-do-som),
Ao quase que nunca é,
Ao rumor de ventos dantes.

Atentai à flor da pedra,
À prostração do vazio,
Ao raio feito delírio,
Aos lírios ensanguentados.

18 de novembro de 2010

Poemas alagoanos

Cuida bem do meu cavalo cor de prata (I)

Agatângelo Vasconcelos *

Cuida bem do meu cavalo cor de prata,
se não queres que eu caia nestes campos.
Que não lhe falte o capim verde e a alfafa,
que os arreios sempre limpos estejam prontos.

Dá-lhe a água da nascente que existe
na encosta que um dia te apontei.
Acolchoa o meu selim aveludado
e atenta que a brida não o corte.

A montaria deve estar ajaezada
pois a viagem pode ser a qualquer hora
e meu regresso vai durar a vida inteira.

Pra meu galope escolhi o teu caminho,
mas se não queres que eu caia nestes prados,
cuida bem do meu cavalo cor de prata.


* Do livro “Sagrado Coração Exposto”, Edufal – Maceió-AL – 1981)

“A linguagem poética de Agatângelo Vasconcelos,
médico-psiquiatra alagoano, se identifica com a voz
que mora dentro de todos os poetas e grita
como se estivesse pedindo socorro,
clamando para que não se deixe matar
nem violentar a poesia”.
(Anilda Leão)


Canais e Lagoas

Paulo Renault

Arrependido e mudo deito-me a céu aberto
sobre as margens quentes e molhadas
que sem nenhum segredo
há pouco as águas da Mãe do Norte cobriam.

Acosto-me e embora ainda confuso,
arruíno as minhas lembranças
com o que não há, nunca mais haverá, jamais.

A insanidade foi tão assoladora,
amou tanto a si mesma que a jaçanã almada
não vislumbrara o seu fim
que a si mesmo causa espanto.
Foi a inundação do nada onde tudo havia.

O anum-preto, que de gaitadeira em gaitadeira
dispunha sua pequena sombra sobre o arisco aratu,
não canta mais, chamando a companheira
para juntos voarem canal afora.

Do Rio das Ciladas e das Pedras ao Pontal,
emergiram duas grandes mães:
a do Norte e a do Sul.
Duas grandes bacias d'água,
animais e plantas, águas de viver.
De jangadas, canoas, vidas, gente.

Viverás de tainhas, carapebas,
camarões, soias, taiobas, sururus...

Oh, Mãe do Norte,
devorai as tristezas nos olhos das crianças
trazidas para as tuas margens
pelos ventos dos canaviais,
palas dobras de Coqueiro Seco,
de Luzia Santa, do Velho Fernão
e da cidade que tapou seus alagadiços.

Oh, Mãe, derrama tuas lágrimas
águas serenas e escuras
sobre a minha alma mestiça.
Quero viver e morrer em ti
mergulhado e envergonhando
nas tuas profundezas.

Quem sabe, minha alma bohêmia e sonhadora,
bêbada e injusta encontre-se novamente com seu hálito
e com os passarinhos que me levarão
para o céu desfeito nas asas da galinha d’água,
da jaçanã, onde dançarei com a caipora,
a musa dos manguezais que te margearam.

14 de novembro de 2010

O mundo impossível dos meninos

Iremar Marinho *


“Ó terra em que nasci e morri,
o seu Mundaú, suas lagoas,
minha mocidade.”
(Jorge de Lima)


Poeta Jorge de Lima,
universal e tão próximo.
Na invenção da infância,
criamos o mesmo mundo
impossível dos meninos.

Nós percorremos a mesma
Cidade da Madalena
(ex-Vila da Imperatriz),
o nosso burgo natal):

Rua da Apertada Hora,
Rua do Jatobazinho;
a Rua da Cachoeira,
a Rua do Virador,

Rua da Matança Velha,
Rua do Boi, do Carvão,
Rego da Guida, Pedreiras,
Rua do Consome Homem.

Sou da Rua do Cangote.
És do Largo da Matriz
(da esquina do Comércio,
olhando a Rua de Cima).

Nós passeamos a esmo
pelos “caminhos que ainda
têm orvalhos e sonâmbulos
bacuraus”, “ninhos suspensos”.

Vagueamos no Cruzeiro
do Século, no Jatobá,
no Sueca, no Bolão,
Tobiba, Terra-Cavada,

lá no Fundo do Surrão,
Brejo do Capim, Muquém,
no Cafuxi, Amolar,
no Caboje, na Jurema,

Várzea Grande, Mão Direita,
Cana Brava, Sapucaia,
no Caípe, no Mocambo,
no Ximenes, no Cajá,

no Riachão, nos Esconsos,
Serra Grande das Canoas,
Serras do Frio, da Laje,
da Barriga (do Quilombo).

Tomamos banho no mesmo
Mundaú, das “lavadeiras
seminuas “, curiosos
de ver aquelas “mocinhas
nuinhas, de pé... com frio...”

Na mesma feira de sábado
(eu me perdi do meu pai),
fostes guia da menina
cega que pedia esmolas.

Na estrada Great Western
(“balduínas sonolentas”),
os meninos de “alma lírica”
aprenderam ver paisagem.

Nossos mundos impossíveis
unem-se pelas lembranças
indeléveis como nódoas
nas almas destes meninos.

Eu te peço por empréstimo
tuas raízes (são nossas)
para deixá-las plantadas
para sempre na União.

Empresta-me teu sublime
Acendedor de Lampiões.
Empresta-me Santa Dica.
Empresta-me Pai João.

Empresta-me Quichimbi.
Empresta-me Janaína.
Tua Mulher Proletária.
Empresta-me Negra Fulô.

Só não tomo por empréstimo
tua grandeza de poeta
universal. Minha dívida
contigo é muito grande.

Dever-te-ei para sempre.


* Iremar Marinho é jornalista e poeta, conterrâneo do poeta Jorge de Lima.

8 de novembro de 2010

Melhores poemas que eu li

Lufada *

Hans Magnus Enzensberger

Certas palavras
leves
como pólen de álamos

sobem
levadas pelo vento
descem

raramente pegáveis
vagam longe
como pólen de álamos

certas palavas
talvez deixem
a terra porosa

lançando depois sua sombra
uma sombra sombria
quem sabe não

* Tradução de Marcos de Farias Costa, in “Não Tem Tradução – Antologia Poética Universal (Bilíngue)” – Ediculte-Sergasa – 1989 - Maceió-AL


Te espero na curva de qualquer rua *

Camillo Sbarbaro

Te espero na curva de qualquer rua,
Perdição. Te procuro nos olhos
de cada mulher que passa...
Paro nas barracas das feiras
para ver a mulher-serpente
a menina que voa...

Oh volúpia de dar tudo por nada!
de levar à custa de um cigarro
esta vida que é todo nosso bem!

Aquela que todos tiveram, que ri
fácil e não percebe, aquela que
com um sacudir de ombros e um mover de anca
dissolva todo o meu mundo interior,
aquela tão desprezível que ignora
o seu poder,
eu peço que me atravesse o caminho.

Como um mendigo que vindo
pela margem do rio, desdenhoso
joga o único vintém que possui,
por ela eu jogaria a vida sorrindo.

* Tradução de Paulo Malta, na revista Dialética – Ano 7, n. 5 – Março/2001 - Maceió-AL

19 de outubro de 2010

Meus poemas

Poética

Iremar Marinho

"Impactos de amor não são poesia"
(Carlos Drummond de Andrade)

Rilke aconselha
não escrever
poesias de amor.

Seifert vai escrevê-las até o fim.

Riam de Rilke e de Seifert.
Riam de mim.

(Escrito na década de 1980)


Quadra para os Criadores

Iremar Marinho

Criamos pássaros e a madrugada,
O dia branco e a noite espessa.
Criamos tudo; também o vazio.
Fingimos deuses, somos os poetas.


Este Rio Mundaú não é o mesmo

Iremar Marinho

Este Rio Mundaú não é o mesmo
Rio Ganges que banhou Jorge Luiz
Borges cego pela luz de Buenos Aires.

Neste Rio Mundaú dos afogados,
submerge outro Jorge –
de Lima, que Mira-Celi
deixou cego para abrir
os portais de sua fuga
surreal à insanidade.

4 de outubro de 2010

O QUINTO NARIZ DA BESTA

Cícero Melo
(1952 União dos Palmares/Alagoas)


Acidentalmente juntos,
as bombas criam digitais
nas retinas.
Logo mais abaixo,
há rios
e navios voltando do inferno.

CICATRIZ NA VIDRAÇA

Cicero Melo

A luz esconde o dom de ser eterno.
Demônios,
o que se traça sob a farsa,
se quando choves,
é algo assim como uma máscara?

A NONA SERPENTE

Cicero Melo

Isto é a muda dos deuses.
É preciso acender-lhes carnes
e cabelos de harpas.
Dos homens são alheios.
Dos seus banquetes cospem
cães de estrelas.
É lamentável a morte.
Se os dias que procriam
fossem mais longos e doces...

PRIGIONE ÂNTICA

Cicero Melo

Última reimpressão do deus original,
onde todos os amores jazem inacabados.
Apenas um olhar, o último olhar,
antes que se transformem em sal.

EM TODA NOITE MATAMOS

Cicero Melo

Em toda noite matamos
a morte, a antiga irmã;
o antigo pai revelado
nas linhas duplas das unhas;
o antigo suor da mãe,
despojado nos retratos.
Em toda noite matamos
as lembranças e os cavalos.


Fonte:
Poemas da Escuridão
Edições Bagaço
Recife 2001

18 de setembro de 2010

Poetas alagoanos

Tentativa de poema e de tema

Norton Sarmento Filho

Não vou escrever agora o besteirol cotidiano.
Nem o alagoanol cacete e pedante das igrejinhas-rinhas,
Bem à moda do tempo da pedra ultralascada.
Nem tão pouco, ou muito, o provincianol sururuzeiro,
Em exibição cotidiana nos muros e extramuros, que saco!
Da cidadezinha ruidosamente calada
Dormente e blecautizada em pensamentos paralíticos.

Não vou escrever agora o bobo beletrol academicocêntrico.
Não vou me render jamais, mesmo em paz, à paranóia-pinóia,
Do meu torrão venal e caustral.
Mas só por pirraça, meus senhores e minhas senhoras,
uivo, uivo, uivo, uivo, uivo, uivo à verborragia...
Alagoense e sem fim
Da CTI do caos
Do caos da CTI
Tentativa de poema e outros temas,
Por amor – não temas!


Poema 5

Lúcia Guiomar Teixeira

Nas tardes da província
corsária dor afastadas as impotências
um jato um jeito
por tudo que é um gosto
após a posse
um encontro ou já incesto
com a boca toda verde
através dos ossos
através dos ócios
a noite cai
e a calma calma
silêncio
parêntesis
reticente aspa
harpa
interrogante exclamação
todo mar é azul
todo amar é
o olhar do cão azul
elmo azul
segredo


Lostkeeper

Fernando Fiúza

Coincidências, relógios, a morte do rei
carcaça de batel
pedradas nos patos do lago
da ninfa perversa de jeans
gelo, pacífico oceano, cabana ardente
o amor entre marido e mulher
os filhos promíscuos da tinta, tremores e papel
golfe, os buracos do jogo e do mundo
o conto de um conto de um canto de jornal
o tempo que passa entre as rodas dentro de rodas
21 rubis
cinco anos depois
uma noite quente de junho
Escócia
um caco de garrafa de gim
a sagração da primavera
que jamais virá
nem Liverpool
restos de comida no chão
laranjada
uma gota de sangue sequer
e a maneira mais triste
de um traste morrer.

10 de setembro de 2010

Melhores poemas que eu li

O Analfabeto Político

Bertolt Brecht


O pior analfabeto é o analfabeto político.
Ele não ouve, não fala, nem participa dos acontecimentos políticos.
Ele não sabe que o custo de vida, o preço do feijão,
do peixe, da farinha, do aluguel, do sapato e do remédio dependem das decisões políticas.
O analfabeto político é tão burro que se orgulha e estufa o peito dizendo que odeia a política.
Não sabe o imbecil que da sua ignorância política nascem a prostituta, o menor abandonado,
e o pior de todos os bandidos que é o político vigarista,
pilantra, o corrupto e lacaio dos exploradores do povo.


A Aurora

Federico Garcia Lorca

A aurora de Nova York tem
quatro colunas de lodo
e um furacão de negras pombas
que chacoalham as águas podres.

A aurora de Nova York geme pelas imensas escadarias
a buscar entre as arestas
nardos de angústia esboçada.

A aurora chega e ninguém a recebe na boca
porque ali não há manhã nem esperança possível.
Às vezes as moedas em enxames furiosos
traspassam e devoram bebês abandonados.

Os primeiros a sair compreendem com seus ossos
que não haverá paraíso nem amores desfolhados;
sabem que vão ao lodo de números e leis,
a brinquedos sem arte, a suores sem fruto.

A luz é sepultada por correntes e ruídos
em impudico reto de ciência sem raízes.
Pelos bairros há gentes que vacilam insones
como recém-saídas de um naufrágio de sangue.

(De “Romanceiro Gitano e Outros Poemas” -
Tradução de Oscar Mendes – Aguilar – INL - 1973)



A Aurora de Nova York
(Versão para música de Chico Buarque
de Holanda e Raimundo Fagner)


Federico Garcia Lorca

A aurora de nova York tem
Quatro colunas de lodo
E um furacão de pombas
Que explode as águas podres.

A aurora de nova York geme
Nas vastas escadarias
A buscar entre as arestas
Angústias indefinidas.

A aurora chega e ninguém em sua boca a recebe
Porque ali a esperança nem a manhã são possíveis.
E as moedas, como enxames, devoram recém-nascidos.

Os que primeiro se erguem, em seus ossos adivinham:
Não haverá paraíso nem amores desfolhados;
Só números, leis e o lodo de tanto esforço baldado.

A barulheira das ruas sepulta a luz na cidade
E as pessoas pelos bairros vão cambaleando insones
Como se houvessem saído de um naufrágio de sangue.

3 de setembro de 2010

Poemas de Cicero Melo

A poesia está morta *

Cicero Melo

A Poesia está morta
E, por enquanto, a enterro,
Não, numa pequena aorta,
Mas numa paixão de ferro.

De ferro que não enferruja.
Ou será tudo ilusão?
Talvez, um dia me fuja,
Quando acabar a paixão.

Mesmo assim, direi, amado:
A paixão é tudo, sê
Para sempre apaixonado,
O olho da amada lê

Teu poema assassinado.

* Poema escrito por Cícero Melo
em 11 de setenbro de 2010:



O casaco de raposa

Cicero Melo

Tudo tão impertinente:
O sul se casa ao silêncio.

A casa, agora, é acaso.
Um mar espelhado espera.

"O poema a seguir é um retorno,
fiz agora (santa inspiração!)
"

(Cícero Melo):

Aos encantos de Circe

Cicero Melo

Um sonho de salsugem e saudade
Me reconduz ao cais dos meus perigos.
Meus marujos e naves são antigos.
Uns estão mortos, outros sem idade.
Mortos, também, estão meus inimigos:
Morreram todos: tanta crueldade!
Seus nomes decompostos da cidade,
Sem coração, sem armas, sem abrigos.
Mesmo assim os reclamo mar afora,
Ao retorno do encanto já perdido,
Mas pelo qual meu coração implora.
Feiticeira, devolvo, aqui rendido,
O teu segredo, a sedutora flora,
Nas varizes do tempo envelhecido.

"Este poema, que inspirou o anterior,
já faz parte de diversas antologias":


Sob os encantos de Circe

Cicero Melo

Até regresso ao lar me foi negado,
Eu que vivo ancorado no teu porto.
Feiticeira do mar me tens atado
A teus cabelos de onda, vento morto.
Quando o mar abdiquei por tuas ilhas
Não pensava nas celas dos teus seios,
Levava embarcações de azedas quilhas
Que frágeis acolheram teus enleios.
Agora a lamentar-me o continente
Dos feitos que, guerreiro, lavorei,
Salgas-me os olhos de um cantar nubente
Seduções de sereia, o que me sei
É que o amor fendido vou demente
Singrando a solidão de amargo rei.

Enquanto nos apunhalamos

Cicero Melo

O que é a guerra, senão
Um assalto à mão armada?
Toda paixão quando acaba
A mão sedosa da amada?

O que é a guerra, enfim?
Uma ternura viscosa,
Uma neblina sem fim,
A rosa no fim da rosa.

Enquanto o sol desova

Cicero Melo

Mas tudo mesmo se acaba:
O tempo dentro da vida,
O vinho dentro da taça.

É tudo assim como uma página
Faminta na manhã:

As letras devoram
A traça.

Enquanto nos enganamos

Cicero Melo

A mulher nova
Aquece
O coração do homem velho.
E incendeia o seu bolso.

29 de agosto de 2010

Poemas alagoanos

afluente & afluentes*

Ronaldo de Andrade

Cientes calmarias e alagoas
a que porto me destinais?
Causais escândalos no meu peito inflado
de mangues e verde azul.

No entrave das orgias e urubus
negra vocação de mistério e nuvens
é concha calcária este meu corpo ilha.

Foi em jangadas que resolveu dormir
as mundaús
que em mundaú eu vim
filha de afluente – Canhoto
tenho a tiborna do sangue peixe.

Tremendo choro o soluço augusto
- de morte inconsciente usina
- de vida a beleza finda
é nada o nadando ir-se.

(*Do livro "Sombras de Mata e Flecha" -
Coleção Viventes das Alagoas - 1991).



O Gogó-da-Ema

Rosalvo Acioli Júnior*

Ó Gogó-da-Ema dos coqueiros,
o desnaturado – misteriosa e átima
dissimetria que assombra
o vasto coração dos ares.

Em seu ardoroso fetiche vegetal,
ó desnaturado, oprimes as criaturas
(imperador dos pesadelos do estendal),
fluindo transfigurado, dissoluto,
na lúcida memória dos mares.

Ó Gogó-da-Ema, dos coqueiros o desnaturado.
Eterno totem luminoso da Pajuçara.

(*Do livro "Maceió" - Editora Senha - 1987)


Marítimo

Nilton Resende*

O solitário repousa à pedra
o seu corpo de âncora e algas.
Sentindo os dedos das ondas diz
baixo: te peço: me afaga.
Diz baixo e é como se dissessem
a pele, os ossos, a alma.

Já perto vêm uns errantes,
envoltos em capas, em cotas.
O homem levanta um dos braços,
e todo, inteiro, invoca:
meu Deus, salvai-me, cobri-me,
deixa-me liberto da horda.

A tropa, ó talho e gume!,
começa o escárnio, a não dança.
Toma de facas, de maças,
golpeia o que a fúria alcança.
O homem se estende, sorvido,
Tritão destituído da lança.

A ira, agora contida,
contente de seu linguajar,
sorri vendo o homem, seu peso,
que o impede de se levantar.
Também a dele leveza,
levada ao jugo do mar.

(*Do livro "A Poesia das Alagoas" - Edições Bagaço,
organizado por Edilma Bomfim e Carlito Lima – 2007)

11 de agosto de 2010

Meus poemas

Cabo das Tormentas

Iremar Marinho

Há um Cabo das Tormentas a passar
Há uma vida de tormentos a vencer
Há esquadras sobrepostas para o mar
Há o tempo para o império perecer

Há um reino que não volta do Alcácer
Há o poeta que espera o rei voltar
Há o nauta que naufraga ao Bojador
Há o império que sucumbe além da dor

Não consigo atravessar o Tenebroso
Mar Atlante. Como Sísifo e sua pedra
eu não passo o Cabo Não de cansaços

14 de julho de 2010


Conchavo para sopro e cordas

Iremar Marinho

Junte o lixo das palavras.
Para o poema vale tanto
quanto ouro vem da lavra.

Junte signos, emblemas.
Valem chaves para o abismo
no desenredar do tema.

Junte ritmos, assonâncias,
o eco das sinfonias.
Tudo serve à orquestração

de toda dessintonia.
Junte o não o nada nem
para fazer poesia.


Silêncio e palavra

Iremar Marinho

Como expressar horror
com palavras? Estão presas
ao papel (palavras sofrem)
à espera do meu grito.

Como alardear a dor
em fonemas, se as palavras,
já cegas, só ferem quando
manejadas, como facas?

Como viver no escrito,
se, já mortas, as palavras
são sepultadas na lápide
do meu sonho derradeiro?