Réquiem para alma baldia
Iremar Marinho
Divina Pastora guarda
o corpo crivado d’alma
baldada surpreendida
dentro do beco baldio.
Divina Pastora vela
o corpo (saldo esquecido)
na vala da morte balda
(alma de vida evadida).
Divina Pastora guarda
o corpo sem nome d’alma
baldia (vida homônima/
baldada morte sinônima).
Divina Pastora, tende
piedade d’alma baldia
da vida tão descuidada
(baldada vida vadia).
Poema de névoas
Iremar Marinho
Ao meu pai Manoel Marinho
I
- Que divindade reúne
Miasmas desintegrados
E bóreas inomeados
Para formar nebulosas?
- Um deus desmemoriado,
Qual demiurgo deforma
O tempo para em seguida
Refazê-lo como névoa?
- O cosmo não é tecido
Como teia pela aranha,
Mas esculpido ao fogo
Soprado por mil demônios.
II
Ó homem marcado, dai
Lugar a quem, sem sinal,
Passa incólume sob o crivo
Dos detentores da morte.
Atentai ao que está mudo
(Não-falado-aquém-do-som),
Ao quase que nunca é,
Ao rumor de ventos dantes.
Atentai à flor da pedra,
À prostração do vazio,
Ao raio feito delírio,
Aos lírios ensanguentados.
2 de dezembro de 2010
18 de novembro de 2010
Poemas alagoanos
Cuida bem do meu cavalo cor de prata (I)
Agatângelo Vasconcelos *
Cuida bem do meu cavalo cor de prata,
se não queres que eu caia nestes campos.
Que não lhe falte o capim verde e a alfafa,
que os arreios sempre limpos estejam prontos.
Dá-lhe a água da nascente que existe
na encosta que um dia te apontei.
Acolchoa o meu selim aveludado
e atenta que a brida não o corte.
A montaria deve estar ajaezada
pois a viagem pode ser a qualquer hora
e meu regresso vai durar a vida inteira.
Pra meu galope escolhi o teu caminho,
mas se não queres que eu caia nestes prados,
cuida bem do meu cavalo cor de prata.
* Do livro “Sagrado Coração Exposto”, Edufal – Maceió-AL – 1981)
“A linguagem poética de Agatângelo Vasconcelos,
médico-psiquiatra alagoano, se identifica com a voz
que mora dentro de todos os poetas e grita
como se estivesse pedindo socorro,
clamando para que não se deixe matar
nem violentar a poesia”. (Anilda Leão)
Canais e Lagoas
Paulo Renault
Arrependido e mudo deito-me a céu aberto
sobre as margens quentes e molhadas
que sem nenhum segredo
há pouco as águas da Mãe do Norte cobriam.
Acosto-me e embora ainda confuso,
arruíno as minhas lembranças
com o que não há, nunca mais haverá, jamais.
A insanidade foi tão assoladora,
amou tanto a si mesma que a jaçanã almada
não vislumbrara o seu fim
que a si mesmo causa espanto.
Foi a inundação do nada onde tudo havia.
O anum-preto, que de gaitadeira em gaitadeira
dispunha sua pequena sombra sobre o arisco aratu,
não canta mais, chamando a companheira
para juntos voarem canal afora.
Do Rio das Ciladas e das Pedras ao Pontal,
emergiram duas grandes mães:
a do Norte e a do Sul.
Duas grandes bacias d'água,
animais e plantas, águas de viver.
De jangadas, canoas, vidas, gente.
Viverás de tainhas, carapebas,
camarões, soias, taiobas, sururus...
Oh, Mãe do Norte,
devorai as tristezas nos olhos das crianças
trazidas para as tuas margens
pelos ventos dos canaviais,
palas dobras de Coqueiro Seco,
de Luzia Santa, do Velho Fernão
e da cidade que tapou seus alagadiços.
Oh, Mãe, derrama tuas lágrimas
águas serenas e escuras
sobre a minha alma mestiça.
Quero viver e morrer em ti
mergulhado e envergonhando
nas tuas profundezas.
Quem sabe, minha alma bohêmia e sonhadora,
bêbada e injusta encontre-se novamente com seu hálito
e com os passarinhos que me levarão
para o céu desfeito nas asas da galinha d’água,
da jaçanã, onde dançarei com a caipora,
a musa dos manguezais que te margearam.
Agatângelo Vasconcelos *
Cuida bem do meu cavalo cor de prata,
se não queres que eu caia nestes campos.
Que não lhe falte o capim verde e a alfafa,
que os arreios sempre limpos estejam prontos.
Dá-lhe a água da nascente que existe
na encosta que um dia te apontei.
Acolchoa o meu selim aveludado
e atenta que a brida não o corte.
A montaria deve estar ajaezada
pois a viagem pode ser a qualquer hora
e meu regresso vai durar a vida inteira.
Pra meu galope escolhi o teu caminho,
mas se não queres que eu caia nestes prados,
cuida bem do meu cavalo cor de prata.
* Do livro “Sagrado Coração Exposto”, Edufal – Maceió-AL – 1981)
“A linguagem poética de Agatângelo Vasconcelos,
médico-psiquiatra alagoano, se identifica com a voz
que mora dentro de todos os poetas e grita
como se estivesse pedindo socorro,
clamando para que não se deixe matar
nem violentar a poesia”. (Anilda Leão)
Canais e Lagoas
Paulo Renault
Arrependido e mudo deito-me a céu aberto
sobre as margens quentes e molhadas
que sem nenhum segredo
há pouco as águas da Mãe do Norte cobriam.
Acosto-me e embora ainda confuso,
arruíno as minhas lembranças
com o que não há, nunca mais haverá, jamais.
A insanidade foi tão assoladora,
amou tanto a si mesma que a jaçanã almada
não vislumbrara o seu fim
que a si mesmo causa espanto.
Foi a inundação do nada onde tudo havia.
O anum-preto, que de gaitadeira em gaitadeira
dispunha sua pequena sombra sobre o arisco aratu,
não canta mais, chamando a companheira
para juntos voarem canal afora.
Do Rio das Ciladas e das Pedras ao Pontal,
emergiram duas grandes mães:
a do Norte e a do Sul.
Duas grandes bacias d'água,
animais e plantas, águas de viver.
De jangadas, canoas, vidas, gente.
Viverás de tainhas, carapebas,
camarões, soias, taiobas, sururus...
Oh, Mãe do Norte,
devorai as tristezas nos olhos das crianças
trazidas para as tuas margens
pelos ventos dos canaviais,
palas dobras de Coqueiro Seco,
de Luzia Santa, do Velho Fernão
e da cidade que tapou seus alagadiços.
Oh, Mãe, derrama tuas lágrimas
águas serenas e escuras
sobre a minha alma mestiça.
Quero viver e morrer em ti
mergulhado e envergonhando
nas tuas profundezas.
Quem sabe, minha alma bohêmia e sonhadora,
bêbada e injusta encontre-se novamente com seu hálito
e com os passarinhos que me levarão
para o céu desfeito nas asas da galinha d’água,
da jaçanã, onde dançarei com a caipora,
a musa dos manguezais que te margearam.
14 de novembro de 2010
O mundo impossível dos meninos
Iremar Marinho *
“Ó terra em que nasci e morri,
o seu Mundaú, suas lagoas,
minha mocidade.” (Jorge de Lima)
Poeta Jorge de Lima,
universal e tão próximo.
Na invenção da infância,
criamos o mesmo mundo
impossível dos meninos.
Nós percorremos a mesma
Cidade da Madalena
(ex-Vila da Imperatriz),
o nosso burgo natal):
Rua da Apertada Hora,
Rua do Jatobazinho;
a Rua da Cachoeira,
a Rua do Virador,
Rua da Matança Velha,
Rua do Boi, do Carvão,
Rego da Guida, Pedreiras,
Rua do Consome Homem.
Sou da Rua do Cangote.
És do Largo da Matriz
(da esquina do Comércio,
olhando a Rua de Cima).
Nós passeamos a esmo
pelos “caminhos que ainda
têm orvalhos e sonâmbulos
bacuraus”, “ninhos suspensos”.
Vagueamos no Cruzeiro
do Século, no Jatobá,
no Sueca, no Bolão,
Tobiba, Terra-Cavada,
lá no Fundo do Surrão,
Brejo do Capim, Muquém,
no Cafuxi, Amolar,
no Caboje, na Jurema,
Várzea Grande, Mão Direita,
Cana Brava, Sapucaia,
no Caípe, no Mocambo,
no Ximenes, no Cajá,
no Riachão, nos Esconsos,
Serra Grande das Canoas,
Serras do Frio, da Laje,
da Barriga (do Quilombo).
Tomamos banho no mesmo
Mundaú, das “lavadeiras
seminuas “, curiosos
de ver aquelas “mocinhas
nuinhas, de pé... com frio...”
Na mesma feira de sábado
(eu me perdi do meu pai),
fostes guia da menina
cega que pedia esmolas.
Na estrada Great Western
(“balduínas sonolentas”),
os meninos de “alma lírica”
aprenderam ver paisagem.
Nossos mundos impossíveis
unem-se pelas lembranças
indeléveis como nódoas
nas almas destes meninos.
Eu te peço por empréstimo
tuas raízes (são nossas)
para deixá-las plantadas
para sempre na União.
Empresta-me teu sublime
Acendedor de Lampiões.
Empresta-me Santa Dica.
Empresta-me Pai João.
Empresta-me Quichimbi.
Empresta-me Janaína.
Tua Mulher Proletária.
Empresta-me Negra Fulô.
Só não tomo por empréstimo
tua grandeza de poeta
universal. Minha dívida
contigo é muito grande.
Dever-te-ei para sempre.
* Iremar Marinho é jornalista e poeta, conterrâneo do poeta Jorge de Lima.
“Ó terra em que nasci e morri,
o seu Mundaú, suas lagoas,
minha mocidade.” (Jorge de Lima)
Poeta Jorge de Lima,
universal e tão próximo.
Na invenção da infância,
criamos o mesmo mundo
impossível dos meninos.
Nós percorremos a mesma
Cidade da Madalena
(ex-Vila da Imperatriz),
o nosso burgo natal):
Rua da Apertada Hora,
Rua do Jatobazinho;
a Rua da Cachoeira,
a Rua do Virador,
Rua da Matança Velha,
Rua do Boi, do Carvão,
Rego da Guida, Pedreiras,
Rua do Consome Homem.
Sou da Rua do Cangote.
És do Largo da Matriz
(da esquina do Comércio,
olhando a Rua de Cima).
Nós passeamos a esmo
pelos “caminhos que ainda
têm orvalhos e sonâmbulos
bacuraus”, “ninhos suspensos”.
Vagueamos no Cruzeiro
do Século, no Jatobá,
no Sueca, no Bolão,
Tobiba, Terra-Cavada,
lá no Fundo do Surrão,
Brejo do Capim, Muquém,
no Cafuxi, Amolar,
no Caboje, na Jurema,
Várzea Grande, Mão Direita,
Cana Brava, Sapucaia,
no Caípe, no Mocambo,
no Ximenes, no Cajá,
no Riachão, nos Esconsos,
Serra Grande das Canoas,
Serras do Frio, da Laje,
da Barriga (do Quilombo).
Tomamos banho no mesmo
Mundaú, das “lavadeiras
seminuas “, curiosos
de ver aquelas “mocinhas
nuinhas, de pé... com frio...”
Na mesma feira de sábado
(eu me perdi do meu pai),
fostes guia da menina
cega que pedia esmolas.
Na estrada Great Western
(“balduínas sonolentas”),
os meninos de “alma lírica”
aprenderam ver paisagem.
Nossos mundos impossíveis
unem-se pelas lembranças
indeléveis como nódoas
nas almas destes meninos.
Eu te peço por empréstimo
tuas raízes (são nossas)
para deixá-las plantadas
para sempre na União.
Empresta-me teu sublime
Acendedor de Lampiões.
Empresta-me Santa Dica.
Empresta-me Pai João.
Empresta-me Quichimbi.
Empresta-me Janaína.
Tua Mulher Proletária.
Empresta-me Negra Fulô.
Só não tomo por empréstimo
tua grandeza de poeta
universal. Minha dívida
contigo é muito grande.
Dever-te-ei para sempre.
* Iremar Marinho é jornalista e poeta, conterrâneo do poeta Jorge de Lima.
8 de novembro de 2010
Melhores poemas que eu li
Lufada *
Hans Magnus Enzensberger
Certas palavras
leves
como pólen de álamos
sobem
levadas pelo vento
descem
raramente pegáveis
vagam longe
como pólen de álamos
certas palavas
talvez deixem
a terra porosa
lançando depois sua sombra
uma sombra sombria
quem sabe não
* Tradução de Marcos de Farias Costa, in “Não Tem Tradução – Antologia Poética Universal (Bilíngue)” – Ediculte-Sergasa – 1989 - Maceió-AL
Te espero na curva de qualquer rua *
Camillo Sbarbaro
Te espero na curva de qualquer rua,
Perdição. Te procuro nos olhos
de cada mulher que passa...
Paro nas barracas das feiras
para ver a mulher-serpente
a menina que voa...
Oh volúpia de dar tudo por nada!
de levar à custa de um cigarro
esta vida que é todo nosso bem!
Aquela que todos tiveram, que ri
fácil e não percebe, aquela que
com um sacudir de ombros e um mover de anca
dissolva todo o meu mundo interior,
aquela tão desprezível que ignora
o seu poder,
eu peço que me atravesse o caminho.
Como um mendigo que vindo
pela margem do rio, desdenhoso
joga o único vintém que possui,
por ela eu jogaria a vida sorrindo.
* Tradução de Paulo Malta, na revista Dialética – Ano 7, n. 5 – Março/2001 - Maceió-AL
Hans Magnus Enzensberger
Certas palavras
leves
como pólen de álamos
sobem
levadas pelo vento
descem
raramente pegáveis
vagam longe
como pólen de álamos
certas palavas
talvez deixem
a terra porosa
lançando depois sua sombra
uma sombra sombria
quem sabe não
* Tradução de Marcos de Farias Costa, in “Não Tem Tradução – Antologia Poética Universal (Bilíngue)” – Ediculte-Sergasa – 1989 - Maceió-AL
Te espero na curva de qualquer rua *
Camillo Sbarbaro
Te espero na curva de qualquer rua,
Perdição. Te procuro nos olhos
de cada mulher que passa...
Paro nas barracas das feiras
para ver a mulher-serpente
a menina que voa...
Oh volúpia de dar tudo por nada!
de levar à custa de um cigarro
esta vida que é todo nosso bem!
Aquela que todos tiveram, que ri
fácil e não percebe, aquela que
com um sacudir de ombros e um mover de anca
dissolva todo o meu mundo interior,
aquela tão desprezível que ignora
o seu poder,
eu peço que me atravesse o caminho.
Como um mendigo que vindo
pela margem do rio, desdenhoso
joga o único vintém que possui,
por ela eu jogaria a vida sorrindo.
* Tradução de Paulo Malta, na revista Dialética – Ano 7, n. 5 – Março/2001 - Maceió-AL
19 de outubro de 2010
Meus poemas
Poética
Iremar Marinho
"Impactos de amor não são poesia"
(Carlos Drummond de Andrade)
Rilke aconselha
não escrever
poesias de amor.
Seifert vai escrevê-las até o fim.
Riam de Rilke e de Seifert.
Riam de mim.
(Escrito na década de 1980)
Quadra para os Criadores
Iremar Marinho
Criamos pássaros e a madrugada,
O dia branco e a noite espessa.
Criamos tudo; também o vazio.
Fingimos deuses, somos os poetas.
Este Rio Mundaú não é o mesmo
Iremar Marinho
Este Rio Mundaú não é o mesmo
Rio Ganges que banhou Jorge Luiz
Borges cego pela luz de Buenos Aires.
Neste Rio Mundaú dos afogados,
submerge outro Jorge –
de Lima, que Mira-Celi
deixou cego para abrir
os portais de sua fuga
surreal à insanidade.
Iremar Marinho
"Impactos de amor não são poesia"
(Carlos Drummond de Andrade)
Rilke aconselha
não escrever
poesias de amor.
Seifert vai escrevê-las até o fim.
Riam de Rilke e de Seifert.
Riam de mim.
(Escrito na década de 1980)
Quadra para os Criadores
Iremar Marinho
Criamos pássaros e a madrugada,
O dia branco e a noite espessa.
Criamos tudo; também o vazio.
Fingimos deuses, somos os poetas.
Este Rio Mundaú não é o mesmo
Iremar Marinho
Este Rio Mundaú não é o mesmo
Rio Ganges que banhou Jorge Luiz
Borges cego pela luz de Buenos Aires.
Neste Rio Mundaú dos afogados,
submerge outro Jorge –
de Lima, que Mira-Celi
deixou cego para abrir
os portais de sua fuga
surreal à insanidade.
4 de outubro de 2010
O QUINTO NARIZ DA BESTA
Cícero Melo
(1952 União dos Palmares/Alagoas)
Acidentalmente juntos,
as bombas criam digitais
nas retinas.
Logo mais abaixo,
há rios
e navios voltando do inferno.
CICATRIZ NA VIDRAÇA
Cicero Melo
A luz esconde o dom de ser eterno.
Demônios,
o que se traça sob a farsa,
se quando choves,
é algo assim como uma máscara?
A NONA SERPENTE
Cicero Melo
Isto é a muda dos deuses.
É preciso acender-lhes carnes
e cabelos de harpas.
Dos homens são alheios.
Dos seus banquetes cospem
cães de estrelas.
É lamentável a morte.
Se os dias que procriam
fossem mais longos e doces...
PRIGIONE ÂNTICA
Cicero Melo
Última reimpressão do deus original,
onde todos os amores jazem inacabados.
Apenas um olhar, o último olhar,
antes que se transformem em sal.
EM TODA NOITE MATAMOS
Cicero Melo
Em toda noite matamos
a morte, a antiga irmã;
o antigo pai revelado
nas linhas duplas das unhas;
o antigo suor da mãe,
despojado nos retratos.
Em toda noite matamos
as lembranças e os cavalos.
Fonte:
Poemas da Escuridão
Edições Bagaço
Recife 2001
(1952 União dos Palmares/Alagoas)
Acidentalmente juntos,
as bombas criam digitais
nas retinas.
Logo mais abaixo,
há rios
e navios voltando do inferno.
CICATRIZ NA VIDRAÇA
Cicero Melo
A luz esconde o dom de ser eterno.
Demônios,
o que se traça sob a farsa,
se quando choves,
é algo assim como uma máscara?
A NONA SERPENTE
Cicero Melo
Isto é a muda dos deuses.
É preciso acender-lhes carnes
e cabelos de harpas.
Dos homens são alheios.
Dos seus banquetes cospem
cães de estrelas.
É lamentável a morte.
Se os dias que procriam
fossem mais longos e doces...
PRIGIONE ÂNTICA
Cicero Melo
Última reimpressão do deus original,
onde todos os amores jazem inacabados.
Apenas um olhar, o último olhar,
antes que se transformem em sal.
EM TODA NOITE MATAMOS
Cicero Melo
Em toda noite matamos
a morte, a antiga irmã;
o antigo pai revelado
nas linhas duplas das unhas;
o antigo suor da mãe,
despojado nos retratos.
Em toda noite matamos
as lembranças e os cavalos.
Fonte:
Poemas da Escuridão
Edições Bagaço
Recife 2001
18 de setembro de 2010
Poetas alagoanos
Tentativa de poema e de tema
Norton Sarmento Filho
Não vou escrever agora o besteirol cotidiano.
Nem o alagoanol cacete e pedante das igrejinhas-rinhas,
Bem à moda do tempo da pedra ultralascada.
Nem tão pouco, ou muito, o provincianol sururuzeiro,
Em exibição cotidiana nos muros e extramuros, que saco!
Da cidadezinha ruidosamente calada
Dormente e blecautizada em pensamentos paralíticos.
Não vou escrever agora o bobo beletrol academicocêntrico.
Não vou me render jamais, mesmo em paz, à paranóia-pinóia,
Do meu torrão venal e caustral.
Mas só por pirraça, meus senhores e minhas senhoras,
uivo, uivo, uivo, uivo, uivo, uivo à verborragia...
Alagoense e sem fim
Da CTI do caos
Do caos da CTI
Tentativa de poema e outros temas,
Por amor – não temas!
Poema 5
Lúcia Guiomar Teixeira
Nas tardes da província
corsária dor afastadas as impotências
um jato um jeito
por tudo que é um gosto
após a posse
um encontro ou já incesto
com a boca toda verde
através dos ossos
através dos ócios
a noite cai
e a calma calma
silêncio
parêntesis
reticente aspa
harpa
interrogante exclamação
todo mar é azul
todo amar é
o olhar do cão azul
elmo azul
segredo
Lostkeeper
Fernando Fiúza
Coincidências, relógios, a morte do rei
carcaça de batel
pedradas nos patos do lago
da ninfa perversa de jeans
gelo, pacífico oceano, cabana ardente
o amor entre marido e mulher
os filhos promíscuos da tinta, tremores e papel
golfe, os buracos do jogo e do mundo
o conto de um conto de um canto de jornal
o tempo que passa entre as rodas dentro de rodas
21 rubis
cinco anos depois
uma noite quente de junho
Escócia
um caco de garrafa de gim
a sagração da primavera
que jamais virá
nem Liverpool
restos de comida no chão
laranjada
uma gota de sangue sequer
e a maneira mais triste
de um traste morrer.
Norton Sarmento Filho
Não vou escrever agora o besteirol cotidiano.
Nem o alagoanol cacete e pedante das igrejinhas-rinhas,
Bem à moda do tempo da pedra ultralascada.
Nem tão pouco, ou muito, o provincianol sururuzeiro,
Em exibição cotidiana nos muros e extramuros, que saco!
Da cidadezinha ruidosamente calada
Dormente e blecautizada em pensamentos paralíticos.
Não vou escrever agora o bobo beletrol academicocêntrico.
Não vou me render jamais, mesmo em paz, à paranóia-pinóia,
Do meu torrão venal e caustral.
Mas só por pirraça, meus senhores e minhas senhoras,
uivo, uivo, uivo, uivo, uivo, uivo à verborragia...
Alagoense e sem fim
Da CTI do caos
Do caos da CTI
Tentativa de poema e outros temas,
Por amor – não temas!
Poema 5
Lúcia Guiomar Teixeira
Nas tardes da província
corsária dor afastadas as impotências
um jato um jeito
por tudo que é um gosto
após a posse
um encontro ou já incesto
com a boca toda verde
através dos ossos
através dos ócios
a noite cai
e a calma calma
silêncio
parêntesis
reticente aspa
harpa
interrogante exclamação
todo mar é azul
todo amar é
o olhar do cão azul
elmo azul
segredo
Lostkeeper
Fernando Fiúza
Coincidências, relógios, a morte do rei
carcaça de batel
pedradas nos patos do lago
da ninfa perversa de jeans
gelo, pacífico oceano, cabana ardente
o amor entre marido e mulher
os filhos promíscuos da tinta, tremores e papel
golfe, os buracos do jogo e do mundo
o conto de um conto de um canto de jornal
o tempo que passa entre as rodas dentro de rodas
21 rubis
cinco anos depois
uma noite quente de junho
Escócia
um caco de garrafa de gim
a sagração da primavera
que jamais virá
nem Liverpool
restos de comida no chão
laranjada
uma gota de sangue sequer
e a maneira mais triste
de um traste morrer.
10 de setembro de 2010
Melhores poemas que eu li
O Analfabeto Político
Bertolt Brecht
O pior analfabeto é o analfabeto político.
Ele não ouve, não fala, nem participa dos acontecimentos políticos.
Ele não sabe que o custo de vida, o preço do feijão,
do peixe, da farinha, do aluguel, do sapato e do remédio dependem das decisões políticas.
O analfabeto político é tão burro que se orgulha e estufa o peito dizendo que odeia a política.
Não sabe o imbecil que da sua ignorância política nascem a prostituta, o menor abandonado,
e o pior de todos os bandidos que é o político vigarista,
pilantra, o corrupto e lacaio dos exploradores do povo.
A Aurora
Federico Garcia Lorca
A aurora de Nova York tem
quatro colunas de lodo
e um furacão de negras pombas
que chacoalham as águas podres.
A aurora de Nova York geme pelas imensas escadarias
a buscar entre as arestas
nardos de angústia esboçada.
A aurora chega e ninguém a recebe na boca
porque ali não há manhã nem esperança possível.
Às vezes as moedas em enxames furiosos
traspassam e devoram bebês abandonados.
Os primeiros a sair compreendem com seus ossos
que não haverá paraíso nem amores desfolhados;
sabem que vão ao lodo de números e leis,
a brinquedos sem arte, a suores sem fruto.
A luz é sepultada por correntes e ruídos
em impudico reto de ciência sem raízes.
Pelos bairros há gentes que vacilam insones
como recém-saídas de um naufrágio de sangue.
(De “Romanceiro Gitano e Outros Poemas” -
Tradução de Oscar Mendes – Aguilar – INL - 1973)
A Aurora de Nova York
(Versão para música de Chico Buarque
de Holanda e Raimundo Fagner)
Federico Garcia Lorca
A aurora de nova York tem
Quatro colunas de lodo
E um furacão de pombas
Que explode as águas podres.
A aurora de nova York geme
Nas vastas escadarias
A buscar entre as arestas
Angústias indefinidas.
A aurora chega e ninguém em sua boca a recebe
Porque ali a esperança nem a manhã são possíveis.
E as moedas, como enxames, devoram recém-nascidos.
Os que primeiro se erguem, em seus ossos adivinham:
Não haverá paraíso nem amores desfolhados;
Só números, leis e o lodo de tanto esforço baldado.
A barulheira das ruas sepulta a luz na cidade
E as pessoas pelos bairros vão cambaleando insones
Como se houvessem saído de um naufrágio de sangue.
Bertolt Brecht
O pior analfabeto é o analfabeto político.
Ele não ouve, não fala, nem participa dos acontecimentos políticos.
Ele não sabe que o custo de vida, o preço do feijão,
do peixe, da farinha, do aluguel, do sapato e do remédio dependem das decisões políticas.
O analfabeto político é tão burro que se orgulha e estufa o peito dizendo que odeia a política.
Não sabe o imbecil que da sua ignorância política nascem a prostituta, o menor abandonado,
e o pior de todos os bandidos que é o político vigarista,
pilantra, o corrupto e lacaio dos exploradores do povo.
A Aurora
Federico Garcia Lorca
A aurora de Nova York tem
quatro colunas de lodo
e um furacão de negras pombas
que chacoalham as águas podres.
A aurora de Nova York geme pelas imensas escadarias
a buscar entre as arestas
nardos de angústia esboçada.
A aurora chega e ninguém a recebe na boca
porque ali não há manhã nem esperança possível.
Às vezes as moedas em enxames furiosos
traspassam e devoram bebês abandonados.
Os primeiros a sair compreendem com seus ossos
que não haverá paraíso nem amores desfolhados;
sabem que vão ao lodo de números e leis,
a brinquedos sem arte, a suores sem fruto.
A luz é sepultada por correntes e ruídos
em impudico reto de ciência sem raízes.
Pelos bairros há gentes que vacilam insones
como recém-saídas de um naufrágio de sangue.
(De “Romanceiro Gitano e Outros Poemas” -
Tradução de Oscar Mendes – Aguilar – INL - 1973)
A Aurora de Nova York
(Versão para música de Chico Buarque
de Holanda e Raimundo Fagner)
Federico Garcia Lorca
A aurora de nova York tem
Quatro colunas de lodo
E um furacão de pombas
Que explode as águas podres.
A aurora de nova York geme
Nas vastas escadarias
A buscar entre as arestas
Angústias indefinidas.
A aurora chega e ninguém em sua boca a recebe
Porque ali a esperança nem a manhã são possíveis.
E as moedas, como enxames, devoram recém-nascidos.
Os que primeiro se erguem, em seus ossos adivinham:
Não haverá paraíso nem amores desfolhados;
Só números, leis e o lodo de tanto esforço baldado.
A barulheira das ruas sepulta a luz na cidade
E as pessoas pelos bairros vão cambaleando insones
Como se houvessem saído de um naufrágio de sangue.
3 de setembro de 2010
Poemas de Cicero Melo
A poesia está morta *
Cicero Melo
A Poesia está morta
E, por enquanto, a enterro,
Não, numa pequena aorta,
Mas numa paixão de ferro.
De ferro que não enferruja.
Ou será tudo ilusão?
Talvez, um dia me fuja,
Quando acabar a paixão.
Mesmo assim, direi, amado:
A paixão é tudo, sê
Para sempre apaixonado,
O olho da amada lê
Teu poema assassinado.
* Poema escrito por Cícero Melo
em 11 de setenbro de 2010:
O casaco de raposa
Cicero Melo
Tudo tão impertinente:
O sul se casa ao silêncio.
A casa, agora, é acaso.
Um mar espelhado espera.
"O poema a seguir é um retorno,
fiz agora (santa inspiração!)"
(Cícero Melo):
Aos encantos de Circe
Cicero Melo
Um sonho de salsugem e saudade
Me reconduz ao cais dos meus perigos.
Meus marujos e naves são antigos.
Uns estão mortos, outros sem idade.
Mortos, também, estão meus inimigos:
Morreram todos: tanta crueldade!
Seus nomes decompostos da cidade,
Sem coração, sem armas, sem abrigos.
Mesmo assim os reclamo mar afora,
Ao retorno do encanto já perdido,
Mas pelo qual meu coração implora.
Feiticeira, devolvo, aqui rendido,
O teu segredo, a sedutora flora,
Nas varizes do tempo envelhecido.
"Este poema, que inspirou o anterior,
já faz parte de diversas antologias":
Sob os encantos de Circe
Cicero Melo
Até regresso ao lar me foi negado,
Eu que vivo ancorado no teu porto.
Feiticeira do mar me tens atado
A teus cabelos de onda, vento morto.
Quando o mar abdiquei por tuas ilhas
Não pensava nas celas dos teus seios,
Levava embarcações de azedas quilhas
Que frágeis acolheram teus enleios.
Agora a lamentar-me o continente
Dos feitos que, guerreiro, lavorei,
Salgas-me os olhos de um cantar nubente
Seduções de sereia, o que me sei
É que o amor fendido vou demente
Singrando a solidão de amargo rei.
Enquanto nos apunhalamos
Cicero Melo
O que é a guerra, senão
Um assalto à mão armada?
Toda paixão quando acaba
A mão sedosa da amada?
O que é a guerra, enfim?
Uma ternura viscosa,
Uma neblina sem fim,
A rosa no fim da rosa.
Enquanto o sol desova
Cicero Melo
Mas tudo mesmo se acaba:
O tempo dentro da vida,
O vinho dentro da taça.
É tudo assim como uma página
Faminta na manhã:
As letras devoram
A traça.
Enquanto nos enganamos
Cicero Melo
A mulher nova
Aquece
O coração do homem velho.
E incendeia o seu bolso.
Cicero Melo
A Poesia está morta
E, por enquanto, a enterro,
Não, numa pequena aorta,
Mas numa paixão de ferro.
De ferro que não enferruja.
Ou será tudo ilusão?
Talvez, um dia me fuja,
Quando acabar a paixão.
Mesmo assim, direi, amado:
A paixão é tudo, sê
Para sempre apaixonado,
O olho da amada lê
Teu poema assassinado.
* Poema escrito por Cícero Melo
em 11 de setenbro de 2010:
O casaco de raposa
Cicero Melo
Tudo tão impertinente:
O sul se casa ao silêncio.
A casa, agora, é acaso.
Um mar espelhado espera.
"O poema a seguir é um retorno,
fiz agora (santa inspiração!)"
(Cícero Melo):
Aos encantos de Circe
Cicero Melo
Um sonho de salsugem e saudade
Me reconduz ao cais dos meus perigos.
Meus marujos e naves são antigos.
Uns estão mortos, outros sem idade.
Mortos, também, estão meus inimigos:
Morreram todos: tanta crueldade!
Seus nomes decompostos da cidade,
Sem coração, sem armas, sem abrigos.
Mesmo assim os reclamo mar afora,
Ao retorno do encanto já perdido,
Mas pelo qual meu coração implora.
Feiticeira, devolvo, aqui rendido,
O teu segredo, a sedutora flora,
Nas varizes do tempo envelhecido.
"Este poema, que inspirou o anterior,
já faz parte de diversas antologias":
Sob os encantos de Circe
Cicero Melo
Até regresso ao lar me foi negado,
Eu que vivo ancorado no teu porto.
Feiticeira do mar me tens atado
A teus cabelos de onda, vento morto.
Quando o mar abdiquei por tuas ilhas
Não pensava nas celas dos teus seios,
Levava embarcações de azedas quilhas
Que frágeis acolheram teus enleios.
Agora a lamentar-me o continente
Dos feitos que, guerreiro, lavorei,
Salgas-me os olhos de um cantar nubente
Seduções de sereia, o que me sei
É que o amor fendido vou demente
Singrando a solidão de amargo rei.
Enquanto nos apunhalamos
Cicero Melo
O que é a guerra, senão
Um assalto à mão armada?
Toda paixão quando acaba
A mão sedosa da amada?
O que é a guerra, enfim?
Uma ternura viscosa,
Uma neblina sem fim,
A rosa no fim da rosa.
Enquanto o sol desova
Cicero Melo
Mas tudo mesmo se acaba:
O tempo dentro da vida,
O vinho dentro da taça.
É tudo assim como uma página
Faminta na manhã:
As letras devoram
A traça.
Enquanto nos enganamos
Cicero Melo
A mulher nova
Aquece
O coração do homem velho.
E incendeia o seu bolso.
29 de agosto de 2010
Poemas alagoanos
afluente & afluentes*
Ronaldo de Andrade
Cientes calmarias e alagoas
a que porto me destinais?
Causais escândalos no meu peito inflado
de mangues e verde azul.
No entrave das orgias e urubus
negra vocação de mistério e nuvens
é concha calcária este meu corpo ilha.
Foi em jangadas que resolveu dormir
as mundaús
que em mundaú eu vim
filha de afluente – Canhoto
tenho a tiborna do sangue peixe.
Tremendo choro o soluço augusto
- de morte inconsciente usina
- de vida a beleza finda
é nada o nadando ir-se.
(*Do livro "Sombras de Mata e Flecha" -
Coleção Viventes das Alagoas - 1991).
O Gogó-da-Ema
Rosalvo Acioli Júnior*
Ó Gogó-da-Ema dos coqueiros,
o desnaturado – misteriosa e átima
dissimetria que assombra
o vasto coração dos ares.
Em seu ardoroso fetiche vegetal,
ó desnaturado, oprimes as criaturas
(imperador dos pesadelos do estendal),
fluindo transfigurado, dissoluto,
na lúcida memória dos mares.
Ó Gogó-da-Ema, dos coqueiros o desnaturado.
Eterno totem luminoso da Pajuçara.
(*Do livro "Maceió" - Editora Senha - 1987)
Marítimo
Nilton Resende*
O solitário repousa à pedra
o seu corpo de âncora e algas.
Sentindo os dedos das ondas diz
baixo: te peço: me afaga.
Diz baixo e é como se dissessem
a pele, os ossos, a alma.
Já perto vêm uns errantes,
envoltos em capas, em cotas.
O homem levanta um dos braços,
e todo, inteiro, invoca:
meu Deus, salvai-me, cobri-me,
deixa-me liberto da horda.
A tropa, ó talho e gume!,
começa o escárnio, a não dança.
Toma de facas, de maças,
golpeia o que a fúria alcança.
O homem se estende, sorvido,
Tritão destituído da lança.
A ira, agora contida,
contente de seu linguajar,
sorri vendo o homem, seu peso,
que o impede de se levantar.
Também a dele leveza,
levada ao jugo do mar.
(*Do livro "A Poesia das Alagoas" - Edições Bagaço,
organizado por Edilma Bomfim e Carlito Lima – 2007)
Ronaldo de Andrade
Cientes calmarias e alagoas
a que porto me destinais?
Causais escândalos no meu peito inflado
de mangues e verde azul.
No entrave das orgias e urubus
negra vocação de mistério e nuvens
é concha calcária este meu corpo ilha.
Foi em jangadas que resolveu dormir
as mundaús
que em mundaú eu vim
filha de afluente – Canhoto
tenho a tiborna do sangue peixe.
Tremendo choro o soluço augusto
- de morte inconsciente usina
- de vida a beleza finda
é nada o nadando ir-se.
(*Do livro "Sombras de Mata e Flecha" -
Coleção Viventes das Alagoas - 1991).
O Gogó-da-Ema
Rosalvo Acioli Júnior*
Ó Gogó-da-Ema dos coqueiros,
o desnaturado – misteriosa e átima
dissimetria que assombra
o vasto coração dos ares.
Em seu ardoroso fetiche vegetal,
ó desnaturado, oprimes as criaturas
(imperador dos pesadelos do estendal),
fluindo transfigurado, dissoluto,
na lúcida memória dos mares.
Ó Gogó-da-Ema, dos coqueiros o desnaturado.
Eterno totem luminoso da Pajuçara.
(*Do livro "Maceió" - Editora Senha - 1987)
Marítimo
Nilton Resende*
O solitário repousa à pedra
o seu corpo de âncora e algas.
Sentindo os dedos das ondas diz
baixo: te peço: me afaga.
Diz baixo e é como se dissessem
a pele, os ossos, a alma.
Já perto vêm uns errantes,
envoltos em capas, em cotas.
O homem levanta um dos braços,
e todo, inteiro, invoca:
meu Deus, salvai-me, cobri-me,
deixa-me liberto da horda.
A tropa, ó talho e gume!,
começa o escárnio, a não dança.
Toma de facas, de maças,
golpeia o que a fúria alcança.
O homem se estende, sorvido,
Tritão destituído da lança.
A ira, agora contida,
contente de seu linguajar,
sorri vendo o homem, seu peso,
que o impede de se levantar.
Também a dele leveza,
levada ao jugo do mar.
(*Do livro "A Poesia das Alagoas" - Edições Bagaço,
organizado por Edilma Bomfim e Carlito Lima – 2007)
11 de agosto de 2010
Meus poemas
Cabo das Tormentas
Iremar Marinho
Há um Cabo das Tormentas a passar
Há uma vida de tormentos a vencer
Há esquadras sobrepostas para o mar
Há o tempo para o império perecer
Há um reino que não volta do Alcácer
Há o poeta que espera o rei voltar
Há o nauta que naufraga ao Bojador
Há o império que sucumbe além da dor
Não consigo atravessar o Tenebroso
Mar Atlante. Como Sísifo e sua pedra
eu não passo o Cabo Não de cansaços
14 de julho de 2010
Conchavo para sopro e cordas
Iremar Marinho
Junte o lixo das palavras.
Para o poema vale tanto
quanto ouro vem da lavra.
Junte signos, emblemas.
Valem chaves para o abismo
no desenredar do tema.
Junte ritmos, assonâncias,
o eco das sinfonias.
Tudo serve à orquestração
de toda dessintonia.
Junte o não o nada nem
para fazer poesia.
Silêncio e palavra
Iremar Marinho
Como expressar horror
com palavras? Estão presas
ao papel (palavras sofrem)
à espera do meu grito.
Como alardear a dor
em fonemas, se as palavras,
já cegas, só ferem quando
manejadas, como facas?
Como viver no escrito,
se, já mortas, as palavras
são sepultadas na lápide
do meu sonho derradeiro?
Iremar Marinho
Há um Cabo das Tormentas a passar
Há uma vida de tormentos a vencer
Há esquadras sobrepostas para o mar
Há o tempo para o império perecer
Há um reino que não volta do Alcácer
Há o poeta que espera o rei voltar
Há o nauta que naufraga ao Bojador
Há o império que sucumbe além da dor
Não consigo atravessar o Tenebroso
Mar Atlante. Como Sísifo e sua pedra
eu não passo o Cabo Não de cansaços
14 de julho de 2010
Conchavo para sopro e cordas
Iremar Marinho
Junte o lixo das palavras.
Para o poema vale tanto
quanto ouro vem da lavra.
Junte signos, emblemas.
Valem chaves para o abismo
no desenredar do tema.
Junte ritmos, assonâncias,
o eco das sinfonias.
Tudo serve à orquestração
de toda dessintonia.
Junte o não o nada nem
para fazer poesia.
Silêncio e palavra
Iremar Marinho
Como expressar horror
com palavras? Estão presas
ao papel (palavras sofrem)
à espera do meu grito.
Como alardear a dor
em fonemas, se as palavras,
já cegas, só ferem quando
manejadas, como facas?
Como viver no escrito,
se, já mortas, as palavras
são sepultadas na lápide
do meu sonho derradeiro?
7 de agosto de 2010
Três poemas de Cicero Melo
A Canção do Afogado
Cicero Melo
Para Antônio Botelho
Filha das fontes,
Dos bosques,
Dos rios sagrados,
Que fazes transposta?
Este é lado das brumas,
Dos pântanos e do Estiges.
Que fazes ao meu lado?
Filha dos bosques,
Dos rios e das fontes,
Que fazes transposta
Ao meu lado?
Este é um lado sem bordas,
Sem sombra e sem corpo,
Um lúdico lago.
Filha dos rios,
Que fazes ao lado
Do afogado?
Os malares e as pálpebras
Cicero Melo
O que é realidade para um fauno?
Nós somos o nada sonhando.
Ergo a última taça
Aos olhos de pedra do suicida.
Estado de conservação
Cicero Melo
Bom.
Cara e lombada com manchas do tempo.
Danos nas bordas e nos bordos.
Corte com manchas:
Anotações à mão amada.
Marca de carimbo na folha de rosto.
Miolos em péssimo estado.
Cicero Melo
Para Antônio Botelho
Filha das fontes,
Dos bosques,
Dos rios sagrados,
Que fazes transposta?
Este é lado das brumas,
Dos pântanos e do Estiges.
Que fazes ao meu lado?
Filha dos bosques,
Dos rios e das fontes,
Que fazes transposta
Ao meu lado?
Este é um lado sem bordas,
Sem sombra e sem corpo,
Um lúdico lago.
Filha dos rios,
Que fazes ao lado
Do afogado?
Os malares e as pálpebras
Cicero Melo
O que é realidade para um fauno?
Nós somos o nada sonhando.
Ergo a última taça
Aos olhos de pedra do suicida.
Estado de conservação
Cicero Melo
Bom.
Cara e lombada com manchas do tempo.
Danos nas bordas e nos bordos.
Corte com manchas:
Anotações à mão amada.
Marca de carimbo na folha de rosto.
Miolos em péssimo estado.
Poema de Antônio Botelho
Soneto da antecedência
Antônio Botelho
Meu pai era coluna enlouquecida
Procurando no céu a morte exata.
Meu pai era gravura apodrecida
Ferida a reabrir na mão do nada.
Meu pai então escuna já partida
A saudade de um mar rondando a praia
Levantava, lembrança retorcida,
Da valsa que na carne encarcerara.
Meu pai, rosa de ferro e da loucura,
Transportava em seu corpo a tenra imagem
Do outro que no peito a fera instiga.
Espada ferindo o corpo e a ternura
Corcel azul correndo pela aragem
Meu pai, vitral na morte, já cintila.
Antônio Botelho é um dos maiores poetas do Brasil, hoje. Detentor de vários prêmios e livros publicados, é o mais jovem daquilo que denomino Geração 80. É pernambucano do Recife. Procurador Federal, reside atualmente em Sergipe. (Cicero Melo)
Antônio Botelho
Meu pai era coluna enlouquecida
Procurando no céu a morte exata.
Meu pai era gravura apodrecida
Ferida a reabrir na mão do nada.
Meu pai então escuna já partida
A saudade de um mar rondando a praia
Levantava, lembrança retorcida,
Da valsa que na carne encarcerara.
Meu pai, rosa de ferro e da loucura,
Transportava em seu corpo a tenra imagem
Do outro que no peito a fera instiga.
Espada ferindo o corpo e a ternura
Corcel azul correndo pela aragem
Meu pai, vitral na morte, já cintila.
Antônio Botelho é um dos maiores poetas do Brasil, hoje. Detentor de vários prêmios e livros publicados, é o mais jovem daquilo que denomino Geração 80. É pernambucano do Recife. Procurador Federal, reside atualmente em Sergipe. (Cicero Melo)
26 de julho de 2010
Poemas de Maurício de Macedo
Kaváfis
Maurício de Macedo
Helênica sensualidade pagã,
abriga do poeta o desterrado coração
que é pequena e pobre a amargura cristã
para a vibração da carne viril
fazendo-se verbo e canção.
Repentista
Maurício de Macedo
De repente,de repente.
O metro e a rima,de repente
- tudo está no ouvido.
Tudo está no diálogo da natureza
no ouvido
e não há espaço para o silêncio do homem
falando consigo mesmo.
A palavra pela cauda
- cavaleiro pegando boi brabo.
E a rima como os cascos do cavalo
percutindo no peito da terra.
De repente,de repente,
a natureza a pulsar
no diálogo dos ouvidos,
antes da queda do homem.
Alagoano de Maceió, onde reside, Maurício de Macedo publicou os seguintes livros de poesia: Cinzel da Língua (1996), Sínteses da Sombra (1997), Aventuras da Negra Fulô (1998), Esfinge Caeté (1999), Onde a vida fere mais fundo (1999), A palavra feito brasa (2000), Canção dos Orixás (2001), A poesia no cordão seguido de Pastoril (2002), A ostra e a pérola (2003), Das Alagoas seguido de Guerreiro (2003), Tear da palavra (2004), Escorial do Açúcar (2004), À Beira do Silêncio (2005), A água e a pedra (2005), Epifania (2006), À sombra das palavras (2006), Fragmento (2007) e Dispnéia (2008)
Maurício de Macedo
Helênica sensualidade pagã,
abriga do poeta o desterrado coração
que é pequena e pobre a amargura cristã
para a vibração da carne viril
fazendo-se verbo e canção.
Repentista
Maurício de Macedo
De repente,de repente.
O metro e a rima,de repente
- tudo está no ouvido.
Tudo está no diálogo da natureza
no ouvido
e não há espaço para o silêncio do homem
falando consigo mesmo.
A palavra pela cauda
- cavaleiro pegando boi brabo.
E a rima como os cascos do cavalo
percutindo no peito da terra.
De repente,de repente,
a natureza a pulsar
no diálogo dos ouvidos,
antes da queda do homem.
Alagoano de Maceió, onde reside, Maurício de Macedo publicou os seguintes livros de poesia: Cinzel da Língua (1996), Sínteses da Sombra (1997), Aventuras da Negra Fulô (1998), Esfinge Caeté (1999), Onde a vida fere mais fundo (1999), A palavra feito brasa (2000), Canção dos Orixás (2001), A poesia no cordão seguido de Pastoril (2002), A ostra e a pérola (2003), Das Alagoas seguido de Guerreiro (2003), Tear da palavra (2004), Escorial do Açúcar (2004), À Beira do Silêncio (2005), A água e a pedra (2005), Epifania (2006), À sombra das palavras (2006), Fragmento (2007) e Dispnéia (2008)
18 de julho de 2010
Poemas de Arriete Vilela
POEMA N. 21
Arriete Vilela
Hoje farejas indícios
de novas trilhas,
velas o teu coração tornado
ríspido, brumoso,
e vais às praças públicas colher
um súbito rosto.
Hoje tenho nos olhos
somente a dança das
estrelas cadentes
fazendo-se mar e poesia:
a minha melhor
porção diária de vida.
POEMA N. 26
Da janela sobre o mar,
sem saudades eu dou adeus
a mim mesma;
faço-me outra,
e nova.
Quero trazer-me alegre
à luz do dia ou da noite,
sossegar-me nas trovoadas,
evitar as esporas do vento
nos meus cabelos.
Inútil esforço,
Sei. Aos meus olhos
ola-se, diariamente,
uma alma de estopa áspera,
embora rara.
POEMA N. 28
Os meninos de rua
Parecem pardais urbanos:
em ligeiros vôos
acham-se em toda parte,
aproveitam restos de toda sorte.
Tropical
é algazarra de suas vozes,
quando se ajuntam;
seus gestos e jeitos,
de uma graça desavisada,
assustam e comovem.
Atentíssimo dever ser
o anjo da guarda dos meninos de rua,
esses tantos pardais urbanos.
POEMA N. 29
Vou me sabendo sem remansos.
Por vezes o mar estronda
dentro de mim
e tempestades medonhas me obrigam
a descer aos porões, a reconhecer-me
nas escotilhas fechadas da minha
incômoda solidão.
Difícil reconhecimento, porém.
Eu já sou muitas.
Meus olhos, é verdade,
ainda se mantêm amorosamente
indiscretos, e minha alma busca
da palavra as seduções segredosas
que me ardem no peito.
Mas já não me deixo
Possuir.
Arriete Vilela
Hoje farejas indícios
de novas trilhas,
velas o teu coração tornado
ríspido, brumoso,
e vais às praças públicas colher
um súbito rosto.
Hoje tenho nos olhos
somente a dança das
estrelas cadentes
fazendo-se mar e poesia:
a minha melhor
porção diária de vida.
POEMA N. 26
Da janela sobre o mar,
sem saudades eu dou adeus
a mim mesma;
faço-me outra,
e nova.
Quero trazer-me alegre
à luz do dia ou da noite,
sossegar-me nas trovoadas,
evitar as esporas do vento
nos meus cabelos.
Inútil esforço,
Sei. Aos meus olhos
ola-se, diariamente,
uma alma de estopa áspera,
embora rara.
POEMA N. 28
Os meninos de rua
Parecem pardais urbanos:
em ligeiros vôos
acham-se em toda parte,
aproveitam restos de toda sorte.
Tropical
é algazarra de suas vozes,
quando se ajuntam;
seus gestos e jeitos,
de uma graça desavisada,
assustam e comovem.
Atentíssimo dever ser
o anjo da guarda dos meninos de rua,
esses tantos pardais urbanos.
POEMA N. 29
Vou me sabendo sem remansos.
Por vezes o mar estronda
dentro de mim
e tempestades medonhas me obrigam
a descer aos porões, a reconhecer-me
nas escotilhas fechadas da minha
incômoda solidão.
Difícil reconhecimento, porém.
Eu já sou muitas.
Meus olhos, é verdade,
ainda se mantêm amorosamente
indiscretos, e minha alma busca
da palavra as seduções segredosas
que me ardem no peito.
Mas já não me deixo
Possuir.
6 de julho de 2010
Poema de Roberto Piva
Jorge de Lima, panfletário do Caos
Roberto Piva
Foi no dia 31 de dezembro de 1961 que te compreendi Jorge de Lima
enquanto eu caminhava pelas praças agitadas pela melancolia presente
na minha memória devorada pelo azul eu soube decifrar
os teus jogos noturnos indisfarçável entre as flores
uníssonos em tua cabeça de prata e plantas ampliadas
como teus olhos crescem na paisagem Jorge de Lima e como tua boca
palpita nos bulevares oxidados pela névoa
uma constelação de cinza esboroa-se na contemplação inconsútil
de tua túnica
e um milhão de vagalumes trazendo estranhas tatuagens no ventre
se despedaçam contra os ninhos da Eternidade
é neste momento de fermento e agonia que te invoco grande alucinado
querido e estranho professor do Caos sabendo que teu nome deve
estar como uma talismã nos lábios de todos os meninos.
O poeta Roberto Piva morreu em São Paulo, no dia 3 de junho de 2010
aos 72 anos. Ele estava internado no Incor (Instituto do Coraçao)
desde o dia 13 de maio. A causa da morte foi falência múltipla
de órgãos em decorrência de uma insuficiência renal.
Piva nasceu em São Paulo, aos 22 anos já era poeta reconhecido.
Foi descoberto pelo editor Massao Ohno e, aos 23 anos,
publicou sua obra-prima, Paranóia (1963).
O livro se esgotou em duas semanas e hoje é artigo de luxo
entre colecionadores. Depois disso, a obra Piazzas (1980),
confirmou seu talento. Quem perdeu aquela edição,
hoje pode encontrar esse e outros livros do poeta
em uma compilação da editora Globo de três volumes.
O último deles, Estranhos Sinais de Saturno, foi lançado em 2008.
O poeta tinha a alma inquieta.
Nadou incansavelmente contra a corrente e por isso é o principal nome -
junto com seu parceiro e amigo Cláudio Willer - da poesia marginal.
Para sobreviver, ele deu aulas de filosofia e produziu shows de rock.
Do Terra
Roberto Piva
Foi no dia 31 de dezembro de 1961 que te compreendi Jorge de Lima
enquanto eu caminhava pelas praças agitadas pela melancolia presente
na minha memória devorada pelo azul eu soube decifrar
os teus jogos noturnos indisfarçável entre as flores
uníssonos em tua cabeça de prata e plantas ampliadas
como teus olhos crescem na paisagem Jorge de Lima e como tua boca
palpita nos bulevares oxidados pela névoa
uma constelação de cinza esboroa-se na contemplação inconsútil
de tua túnica
e um milhão de vagalumes trazendo estranhas tatuagens no ventre
se despedaçam contra os ninhos da Eternidade
é neste momento de fermento e agonia que te invoco grande alucinado
querido e estranho professor do Caos sabendo que teu nome deve
estar como uma talismã nos lábios de todos os meninos.
O poeta Roberto Piva morreu em São Paulo, no dia 3 de junho de 2010
aos 72 anos. Ele estava internado no Incor (Instituto do Coraçao)
desde o dia 13 de maio. A causa da morte foi falência múltipla
de órgãos em decorrência de uma insuficiência renal.
Piva nasceu em São Paulo, aos 22 anos já era poeta reconhecido.
Foi descoberto pelo editor Massao Ohno e, aos 23 anos,
publicou sua obra-prima, Paranóia (1963).
O livro se esgotou em duas semanas e hoje é artigo de luxo
entre colecionadores. Depois disso, a obra Piazzas (1980),
confirmou seu talento. Quem perdeu aquela edição,
hoje pode encontrar esse e outros livros do poeta
em uma compilação da editora Globo de três volumes.
O último deles, Estranhos Sinais de Saturno, foi lançado em 2008.
O poeta tinha a alma inquieta.
Nadou incansavelmente contra a corrente e por isso é o principal nome -
junto com seu parceiro e amigo Cláudio Willer - da poesia marginal.
Para sobreviver, ele deu aulas de filosofia e produziu shows de rock.
Do Terra
Melhores poemas que eu li
Desmantelo azul
Carlos Pena Filho
Então pintei de azul os meus sapatos
por não poder de azul pintar as ruas
depois vesti meus gestos insensatos
e colori as minhas mãos e as tuas
Para extinguir de nós o azul ausente
e aprisionar o azul nas coisas gratas
Enfim, nós derramamos simplesmente
azul sobre os vestidos e as gravatas
E afogados em nós nem nos lembramos
que no excesso que havia em nosso espaço
pudesse haver de azul também cansaço
E perdidos no azul nos contemplamos
e vimos que entre nós nascia um sul
vertiginosamente azul: azul.
A encantação pelo riso
Velimir Khléblinikov
Ride, ridentes!
Derride, derridentes!
Risonhai aos risos, rimente risandai!
Derride sorrimente!
Risos sobrerrisos - risadas de sorrideiros risores!
Hílare esrir, risos de sobrerridores riseiros!
Sorrisonhos, risonhos,
Sorride, ridiculai, risando, risantes,
Hilariando, riando,
Ride, ridentes!
Derride, derridentes!
1910
(Tradução: Haroldo de Campos)
Subversiva
Ferreira Gullar
A poesia
Quando chega
Não respeita nada.
Nem pai nem mãe.
Quando ela chega
De qualquer de seus abismos
Desconhece o Estado e a Sociedade Civil
Infringe o Código de Águas
Relincha
Como puta
Nova
Em frente ao Palácio da Alvorada.
E só depois
Reconsidera: beija
Nos olhos os que ganham mal
Embala no colo
Os que têm sede de felicidade
E de justiça.
E promete incendiar o país.
Carlos Pena Filho
Então pintei de azul os meus sapatos
por não poder de azul pintar as ruas
depois vesti meus gestos insensatos
e colori as minhas mãos e as tuas
Para extinguir de nós o azul ausente
e aprisionar o azul nas coisas gratas
Enfim, nós derramamos simplesmente
azul sobre os vestidos e as gravatas
E afogados em nós nem nos lembramos
que no excesso que havia em nosso espaço
pudesse haver de azul também cansaço
E perdidos no azul nos contemplamos
e vimos que entre nós nascia um sul
vertiginosamente azul: azul.
A encantação pelo riso
Velimir Khléblinikov
Ride, ridentes!
Derride, derridentes!
Risonhai aos risos, rimente risandai!
Derride sorrimente!
Risos sobrerrisos - risadas de sorrideiros risores!
Hílare esrir, risos de sobrerridores riseiros!
Sorrisonhos, risonhos,
Sorride, ridiculai, risando, risantes,
Hilariando, riando,
Ride, ridentes!
Derride, derridentes!
1910
(Tradução: Haroldo de Campos)
Subversiva
Ferreira Gullar
A poesia
Quando chega
Não respeita nada.
Nem pai nem mãe.
Quando ela chega
De qualquer de seus abismos
Desconhece o Estado e a Sociedade Civil
Infringe o Código de Águas
Relincha
Como puta
Nova
Em frente ao Palácio da Alvorada.
E só depois
Reconsidera: beija
Nos olhos os que ganham mal
Embala no colo
Os que têm sede de felicidade
E de justiça.
E promete incendiar o país.
20 de junho de 2010
Novos poemas de Cicero Melo
Enquanto nos apunhalamos
Cícero Melo
O que é a guerra, senão
Um assalto à mão armada?
Toda paixão quando acaba
A mão sedosa da amada?
O que é a guerra, enfim?
Uma ternura viscosa,
Uma neblina sem fim,
A rosa no fim da rosa.
O jogo
Cicero Melo
Está se aproximando o último sono.
Aquele que nunca sonhei,
E ninguém quer sonhar.
Mas, uma cama ou qualquer horizontal
Nos fará ir, ir, ir, dormir.
"Mãe, ainda é cedo! Deixe-me jogar mais um pouco!"
Sombra
Cicero Melo
Havia uma mulher fora do espelho
Em que habitava meu corpo esquecido.
Havia uma mulher fora de mim.
Havia, com certeza, uma mulher lá fora.
Não digam que sonhei. Havia uma mulher
Fora de mim. E eu a amava.
Havia uma mulher fora do espelho
E dentro dela outro espelho havia.
Cícero Melo
O que é a guerra, senão
Um assalto à mão armada?
Toda paixão quando acaba
A mão sedosa da amada?
O que é a guerra, enfim?
Uma ternura viscosa,
Uma neblina sem fim,
A rosa no fim da rosa.
O jogo
Cicero Melo
Está se aproximando o último sono.
Aquele que nunca sonhei,
E ninguém quer sonhar.
Mas, uma cama ou qualquer horizontal
Nos fará ir, ir, ir, dormir.
"Mãe, ainda é cedo! Deixe-me jogar mais um pouco!"
Sombra
Cicero Melo
Havia uma mulher fora do espelho
Em que habitava meu corpo esquecido.
Havia uma mulher fora de mim.
Havia, com certeza, uma mulher lá fora.
Não digam que sonhei. Havia uma mulher
Fora de mim. E eu a amava.
Havia uma mulher fora do espelho
E dentro dela outro espelho havia.
9 de junho de 2010
Poemas de Lêdo Ivo
Cemitério dos Navios
Lêdo Ivo
Aqui os navios se escondem para morrer.
Nos porões vazios, só ficaram os ratos
à espera da impossível ressurreição.
E do esplendor do mundo sequer restou
o zarcão nos beiços do tempo.
O vento raspa as letras
dos nomes que os meninos soletravam.
A noite canina lambe
as cordoalhas esfarinhadas
sob o vôo das gaivotas estridentes
que, no cio, se ajuntam no fundo da baía.
Clareando madeiras podres e águas estagnadas,
o dia, com o seu olho cego, devora o gancho
que marca no casco as cicatrizes
do portaló que era um degrau do universo.
E a tarde prenhe de estrelas
inclina-se sobre a cabine onde, antigamente,
um casal aturdido pelo amor mais carnal
erguia no silêncio negras paliçadas.
Ó navios perdidos, velhos surdos
que, dormitando, escutam os seus próprios apitos
varando a neblina, no porto onde os barcos
eram como um rebanho atravessando a treva!
Canto Grande
Lêdo Ivo
Não tenho mais canções de amor.
Joguei tudo pela janela.
Em companhia da linguagem
fiquei, e o mundo se elucida.
Do mar guardei a melhor onda
que é menos móvel que o amor.
E da vida, guardei a dor
de todos os que estão sofrendo.
Sou um homem que perdeu tudo
mas criou a realidade,
fogueira de imagens, depósito
de coisas que jamais explodem.
De tudo quero o essencial:
o aqueduto de uma cidade,
rodovia do litoral,
o refluxo de uma palavra.
Longe dos céus, mesmo dos próximos,
e perto dos confins da terra,
aqui estou. Minha canção
enfrenta o inverno, é de concreto.
Meu coração está batendo
sua canção de amor maior.
Bate por toda a humanidade,
em verdade não estou só.
Posso agora comunicar-me
e sei que o mundo é muito grande.
Pela mão, levam-me as palavras
a geografias absolutas.
Lêdo Ivo, jornalista, poeta, romancista, contista, cronista e ensaísta, nasceu em Maceió, AL, em 18 de fevereiro de 1924. É membro da Academia Brasileira de Letras. Eleito em 13 de novembro de 1986 para a Cadeira n. 10, sucedendo a Orígenes Lessa, foi recebido em 7 de abril de 1987, pelo acadêmico Dom Marcos Barbosa.
Obras: As Imaginações (1944), Ode e Elegia (1945), As Alianças (1947), Acontecimento do Soneto (1948), O Caminho sem Aventura (1948), Ode ao Crepúsculo (1948), Cântico (1949), Linguagem (1951), Lição de Mário de Andrade (1951), Ode Equatorial (1951), Um Brasileiro em Paris e O Rei da Europa (1955), O Preto no Branco (1955), A Cidade e os Dias (1957), Magias (1960), O Girassol às Avessas (1960), Use a Passagem Subterrânea (1961), Paraísos de Papel (1961), Uma Lira dos Vinte Anos (1962), Ladrão de Flor (1963), O Universo Poético de Raul Pompéia (1963), O Sobrinho do General (1964), Estação Central (1964), Poesia Observada (1967), Finisterra (1972), Modernismo e Modernidade (1972), Ninho de Cobras (1973), O Sinal Semafórico (1974), Teoria e Celebração (1976), Alagoas (1976), Confissões de um Poeta (1979), O Soldado Raso (1980), A Ética da Aventura (1982), A Noite Misteriosa (1982), A Morte do Brasil (1984), Calabar (1985), Mar Oceano (1987), Crepúsculo Civil (1990), O Aluno Relapso (1991), A República das Desilusões (1995), Curral de Peixe (1995).
Lêdo Ivo
Aqui os navios se escondem para morrer.
Nos porões vazios, só ficaram os ratos
à espera da impossível ressurreição.
E do esplendor do mundo sequer restou
o zarcão nos beiços do tempo.
O vento raspa as letras
dos nomes que os meninos soletravam.
A noite canina lambe
as cordoalhas esfarinhadas
sob o vôo das gaivotas estridentes
que, no cio, se ajuntam no fundo da baía.
Clareando madeiras podres e águas estagnadas,
o dia, com o seu olho cego, devora o gancho
que marca no casco as cicatrizes
do portaló que era um degrau do universo.
E a tarde prenhe de estrelas
inclina-se sobre a cabine onde, antigamente,
um casal aturdido pelo amor mais carnal
erguia no silêncio negras paliçadas.
Ó navios perdidos, velhos surdos
que, dormitando, escutam os seus próprios apitos
varando a neblina, no porto onde os barcos
eram como um rebanho atravessando a treva!
Canto Grande
Lêdo Ivo
Não tenho mais canções de amor.
Joguei tudo pela janela.
Em companhia da linguagem
fiquei, e o mundo se elucida.
Do mar guardei a melhor onda
que é menos móvel que o amor.
E da vida, guardei a dor
de todos os que estão sofrendo.
Sou um homem que perdeu tudo
mas criou a realidade,
fogueira de imagens, depósito
de coisas que jamais explodem.
De tudo quero o essencial:
o aqueduto de uma cidade,
rodovia do litoral,
o refluxo de uma palavra.
Longe dos céus, mesmo dos próximos,
e perto dos confins da terra,
aqui estou. Minha canção
enfrenta o inverno, é de concreto.
Meu coração está batendo
sua canção de amor maior.
Bate por toda a humanidade,
em verdade não estou só.
Posso agora comunicar-me
e sei que o mundo é muito grande.
Pela mão, levam-me as palavras
a geografias absolutas.
Lêdo Ivo, jornalista, poeta, romancista, contista, cronista e ensaísta, nasceu em Maceió, AL, em 18 de fevereiro de 1924. É membro da Academia Brasileira de Letras. Eleito em 13 de novembro de 1986 para a Cadeira n. 10, sucedendo a Orígenes Lessa, foi recebido em 7 de abril de 1987, pelo acadêmico Dom Marcos Barbosa.
Obras: As Imaginações (1944), Ode e Elegia (1945), As Alianças (1947), Acontecimento do Soneto (1948), O Caminho sem Aventura (1948), Ode ao Crepúsculo (1948), Cântico (1949), Linguagem (1951), Lição de Mário de Andrade (1951), Ode Equatorial (1951), Um Brasileiro em Paris e O Rei da Europa (1955), O Preto no Branco (1955), A Cidade e os Dias (1957), Magias (1960), O Girassol às Avessas (1960), Use a Passagem Subterrânea (1961), Paraísos de Papel (1961), Uma Lira dos Vinte Anos (1962), Ladrão de Flor (1963), O Universo Poético de Raul Pompéia (1963), O Sobrinho do General (1964), Estação Central (1964), Poesia Observada (1967), Finisterra (1972), Modernismo e Modernidade (1972), Ninho de Cobras (1973), O Sinal Semafórico (1974), Teoria e Celebração (1976), Alagoas (1976), Confissões de um Poeta (1979), O Soldado Raso (1980), A Ética da Aventura (1982), A Noite Misteriosa (1982), A Morte do Brasil (1984), Calabar (1985), Mar Oceano (1987), Crepúsculo Civil (1990), O Aluno Relapso (1991), A República das Desilusões (1995), Curral de Peixe (1995).
25 de maio de 2010
Poema para Cícero Melo
A Idade da Carne
Paulo Gustavo
Nunca tivemos nem teremos a idade do ouro.
O que temos é a idade da carne.
Pouco importa chamarmos as estrelas,
A constelação preferida, a luz remota,
Os adjetivos do cosmos.
Nossa gramática é a carne: suas pirâmides, seus desvãos,
Seus súbitos pontos finais.
Nunca teremos ouro no cofre sangrento do coração.
Nosso reino é a carne, nosso governo é a carne,
Nossa miragem é a carne, mais esplêndida
que o ouro dos séculos,
Mais florida que os jardins do Éden.
É só o que temos: a efêmera idade da carne.
É nela que atravessamos a floresta da vida
Até a clareira de nossa morte.
Paulo Gustavo
Nunca tivemos nem teremos a idade do ouro.
O que temos é a idade da carne.
Pouco importa chamarmos as estrelas,
A constelação preferida, a luz remota,
Os adjetivos do cosmos.
Nossa gramática é a carne: suas pirâmides, seus desvãos,
Seus súbitos pontos finais.
Nunca teremos ouro no cofre sangrento do coração.
Nosso reino é a carne, nosso governo é a carne,
Nossa miragem é a carne, mais esplêndida
que o ouro dos séculos,
Mais florida que os jardins do Éden.
É só o que temos: a efêmera idade da carne.
É nela que atravessamos a floresta da vida
Até a clareira de nossa morte.
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