29 de agosto de 2009
Meus poemas - O mundo impossível dos meninos
“Ó terra em que nasci e morri,
o seu Mundaú, suas lagoas,
minha mocidade.”
(Jorge de Lima)
Poeta Jorge de Lima,
universal e tão próximo.
Na invenção da infância,
criamos o mesmo mundo
impossível dos meninos.
Nós percorremos a mesma
Cidade da Madalena
(ex-Vila da Imperatriz),
o nosso burgo natal):
Rua da Apertada Hora,
Rua do Jatobazinho;
a Rua da Cachoeira,
a Rua do Virador,
Rua da Matança Velha,
Rua do Boi, do Carvão,
Rego da Guida, Pedreiras,
Rua do Consome Homem.
Sou da Rua do Cangote.
És do Largo da Matriz
(da esquina do Comércio,
olhando a Rua de Cima).
Nós passeamos a esmo
pelos “caminhos que ainda
têm orvalhos e sonâmbulos
bacuraus”, “ninhos suspensos”.
Vagueamos no Cruzeiro
do Século, no Jatobá,
no Sueca, no Bolão,
Tobiba, Terra-Cavada,
lá no Fundo do Surrão,
Brejo do Capim, Muquém,
no Cafuxi, Amolar,
no Caboje, na Jurema,
Várzea Grande, Mão Direita,
Cana Brava, Sapucaia,
no Caípe, no Mocambo,
no Ximenes, no Cajá,
no Riachão, nos Esconsos,
Serra Grande das Canoas,
Serras do Frio, da Laje,
da Barriga (do Quilombo).
Tomamos banho no mesmo
Mundaú, das “lavadeiras
seminuas “, curiosos
de ver aquelas “mocinhas
nuinhas, de pé... com frio...”
Na mesma feira de sábado
(eu me perdi do meu pai),
fostes guia da menina
cega que pedia esmolas.
Na estrada Great Western
(“balduínas sonolentas”),
os meninos de “alma lírica”
aprenderam ver paisagem.
Nossos mundos impossíveis
unem-se pelas lembranças
indeléveis como nódoas
nas almas destes meninos.
Eu te peço por empréstimo
tuas raízes (são nossas)
para deixá-las plantadas
para sempre na União.
Empresta-me teu sublime
Acendedor de Lampiões.
Empresta-me Santa Dica.
Empresta-me Pai João.
Empresta-me Quichimbi.
Empresta-me Janaína.
Tua Mulher Proletária.
Empresta-me Negra Fulô.
Só não tomo por empréstimo
tua grandeza de poeta
universal. Minha dívida
contigo é muito grande.
Dever-te-ei para sempre.
27 de agosto de 2009
Melhores poemas que eu li - O Mal
Enquanto o cuspe vermelho da mitralha
Assobia todo o dia no infinito do céu azul;
Que rubros ou verdes, perto do Rei que ralha
Caem os batalhões em massa na batalha;
Enquanto uma loucura terrível esmaga
E faz de cem mil homens uma chaga;
— Pobres mortos! No verão, na grama, na tua felicidade,
Natureza! Ó tu que fizeste estes homens com santidade!...
— Existe um Deus que ri nos bordados
Dos altares, no incenso, nos grandes cálices dourados;
Que embalado pelos aleluias adormece,
E acorda quando mães entregues ao pé
Da angústia, chorando sob um velho boné
Dão-lhe uma grande moeda como benesse!
26 de agosto de 2009
Poesia alagoana - As Aparições
Um monstro flui nesse poema
feito de úmido sal-gema.
A abóbada estreita mana
a loucura cotidiana.
Pra me salvar da loucura
como sal-gema. Eis a cura.
O ar imenso amadurece,
a água nasce, a pedra cresce.
Mas desde quando esse rio
corre no leito vazio?
Vede que arrasta cabeças,
frontes sumidas, espessas.
E são minhas as medusas,
cabeças de estranhas musas.
Mas nem tristeza e alegria
cindem a noite, do dia.
Se vós não tendes sal-gema,
não entreis nesse poema.
(Invenção de Orfeu/Canto IV)
20 de agosto de 2009
Poesia alagoana - Triste Bothanique
O que em Alagoas remanesce
da floresta tropical
há uma voz que farfalha
pois é carnívora essa flor
que por dentes tem punhal
seus desejos são lupinos
e ferino seu arsenal
ai, "fina flor da canalha"
que devora quem trabalha
e destila o mel do mal
tua grandeza é pequenina
pois teu adubo é a hemoglobina
do jornaleiro braçal
cortar o mal pela raiz
ou a raiz pelo mal?
quem não tem medo desse bicho
desse bicho folharal?
que tira fótons das trevas
desde o tempo do marechal?
ai, "fina flor da canalha"
deixai um rabo-de-palha
na assembleia das gralhas
abrir asas sobre vós
e entre abutres, metralhas
iguanas, surucucus
misturai a vossa voz
ao crocitar dos urubus
ai, triste estado que cumpre
o seu fado de naufrágio
em um mar de canavial
onde as usinas têm nomes doces
e os donos têm bala e sal:
essa sua geografia é da fome
a sua biologia não come
e sua história é canibal
ai, "fina flor da canalha"
para cumprir teu fadário
nesta hora terminal
invoco é uma rasga-mortalha
para cortar o sudário
do teu destino letal
vade retro flor-canalha!
vade retro flor-chacal!
eu te esconjuro flor-navalha!
eu te esconjuro flor-do-mal!
In Dialética, ano 7. no 5. Maceió,
Ed. Linear B, março de 2001, p. 103.
27 de julho de 2009
Meus poemas - Novíssimas Cartas Chilenas *
Para Tomás Antônio Gonzaga e José Paulo Paes
No Pacífico chileno, lembro-me
e velejo naus que me guiam
a Pindorama vista desde as caravelas.
Eu era um rosto na armada
(Cabral não sabia
que as Índias de Pindorama
tinham a minha cara).
A Nau Capitânia vai
descobrir o que existe
(Europasiáfrica está nas cartas).
Outro mundo descobri,
quando Pindorama me resgatou
(não estava no Gênesis e no Corão).
Disperso-me? São os ventos do oeste.
Eu não estava no mapa
nem na capa das Metamorfoses.
Ovídio me ignorou e Pérdix,
quando me viu, não cantou
para mostrar sua alegria.
Os canaviais que ainda vão crescer
esmagam a minha esperança
de salvar as matas de Jatiúca.
Agora, sob as estrelas de Cão,
a calmaria me conduz
ao cabeço da praia (terra à vista).
Meu sangue diz que em Pindorama
ferve o mesmo sangue meu
de antigas guerras e degredos.
Na Serra da Naceia
(o porto depois da calmaria),
meu rosto ficou, quando a armada
singrou a rota tupiniquim.
Entre os Caetés, não vislumbro
a destruição que ainda alcançaria,
com os moinhos da Holanda,
a barriga negra engravidada
pelo discurso de Platão.
(Tupã, deus como Júpiter,
não está na mitologia)
Netuno e Minerva não sabem
de Jaci e de Coaraci
nem da mitologia de Zâmbi
que Jorge de Lima arremessa
dos ancoradouros do Muquém e do Amolar.
Ovídio não saberia (nem Prometeu)
que Pindorama criaria outra mitologia
(o Mundaú, de olho cego,
não é o mais limpo dos rios).
O Paraíba do Meio, com olho cego
de Manguaba, não tem,
como o Paraibuna, a reverência
de Murilo Mendes ao Guadalete.
(Disperso-me nas calmarias)
Cabral não sabe que as Índias
estão na minha tribo Caeté,
e começaria ali a destruição
das crenças mitológicas.
Ovídio Nasão nem desconfia
(“tudo o que escrevia era verso”).
O libertino assoma ao Fórum,
mas seus dotes de advogado
não servem para defender
meus Caetés do holocausto.
Pindorama (pé-de-página da carta de navegação)
é anotação aleatória na viagem da armada ao Oriente.
O Cabo das Tormentas (Cabo Não
de todos os transes) preocupa
mais que as perdidas perdizes
(as minhas naus desgarradas).
Cabral quer o Oriente longínquo
(está no mapa, não há dúvidas),
mas não transpõe as tormentas.
As caravelas desabam
em Pindorama das Índias.
Eu alcançaria o Oriente,
se minha nau dispersa rompesse
a calmaria dos abrolhos de Jatiúca.
Agora em Santiago (18 de março de 2000),
minha carta começa e não terá fim.
A vida cumpre a metamorfose mítica
de Públio Ovídio Nasão.
Prometeu leva, pela 2.001ª vez,
sua pedra morro acima.
*Publicado na seção Mural de Poemas do jornal Extra Alagoas (nº 240), de 5 de outubro de 2003
14 de julho de 2009
Definições para Bestiário
Enciclopédia Itaú Cultural
Em sentido mais estrito, o termo bestiário (do latim bestia, "animal") faz referência a um gênero literário medieval, que se vale da descrição física e de comportamentos de animais, reais ou fantásticos, para a construção de fábulas de caráter moralizante. Em prosa ou verso, esses manuscritos ilustrados tomam a natureza como fonte de ensinamentos úteis ao homem e à sociedade, com uma visão cristã do mundo. A cultura medieval está repleta de animais, em textos e imagens, rituais, folclore, heráldica, canções, provérbios etc. Em geral, esses seres são representados por meio de duas visões distintas: uma mais corrente considera o animal imperfeito e inferior e, nesse sentido, radicalmente diferente do homem; outra, ao contrário, subentende a existência de uma comunidade de seres vivos e um parentesco - não apenas biológico - entre homens e animais. Repletos de sentidos negativos e positivos, representados muitas vezes de forma alegórica e grotesca, o fato é que os animais ocupam o primeiro plano no imaginário medieval cristão: dragões, crocodilos, leões, asnos, porcos, baleias, unicórnios, aves e peixes simbolizam o mal, a imortalidade, a astúcia, o poder etc., de acordo com os atributos de cada um deles.
