Cuida bem do meu cavalo cor de prata (I)
Agatângelo Vasconcelos *
Cuida bem do meu cavalo cor de prata,
se não queres que eu caia nestes campos.
Que não lhe falte o capim verde e a alfafa,
que os arreios sempre limpos estejam prontos.
Dá-lhe a água da nascente que existe
na encosta que um dia te apontei.
Acolchoa o meu selim aveludado
e atenta que a brida não o corte.
A montaria deve estar ajaezada
pois a viagem pode ser a qualquer hora
e meu regresso vai durar a vida inteira.
Pra meu galope escolhi o teu caminho,
mas se não queres que eu caia nestes prados,
cuida bem do meu cavalo cor de prata.
* Do livro “Sagrado Coração Exposto”, Edufal – Maceió-AL – 1981)
“A linguagem poética de Agatângelo Vasconcelos,
médico-psiquiatra alagoano, se identifica com a voz
que mora dentro de todos os poetas e grita
como se estivesse pedindo socorro,
clamando para que não se deixe matar
nem violentar a poesia”. (Anilda Leão)
Canais e Lagoas
Paulo Renault
Arrependido e mudo deito-me a céu aberto
sobre as margens quentes e molhadas
que sem nenhum segredo
há pouco as águas da Mãe do Norte cobriam.
Acosto-me e embora ainda confuso,
arruíno as minhas lembranças
com o que não há, nunca mais haverá, jamais.
A insanidade foi tão assoladora,
amou tanto a si mesma que a jaçanã almada
não vislumbrara o seu fim
que a si mesmo causa espanto.
Foi a inundação do nada onde tudo havia.
O anum-preto, que de gaitadeira em gaitadeira
dispunha sua pequena sombra sobre o arisco aratu,
não canta mais, chamando a companheira
para juntos voarem canal afora.
Do Rio das Ciladas e das Pedras ao Pontal,
emergiram duas grandes mães:
a do Norte e a do Sul.
Duas grandes bacias d'água,
animais e plantas, águas de viver.
De jangadas, canoas, vidas, gente.
Viverás de tainhas, carapebas,
camarões, soias, taiobas, sururus...
Oh, Mãe do Norte,
devorai as tristezas nos olhos das crianças
trazidas para as tuas margens
pelos ventos dos canaviais,
palas dobras de Coqueiro Seco,
de Luzia Santa, do Velho Fernão
e da cidade que tapou seus alagadiços.
Oh, Mãe, derrama tuas lágrimas
águas serenas e escuras
sobre a minha alma mestiça.
Quero viver e morrer em ti
mergulhado e envergonhando
nas tuas profundezas.
Quem sabe, minha alma bohêmia e sonhadora,
bêbada e injusta encontre-se novamente com seu hálito
e com os passarinhos que me levarão
para o céu desfeito nas asas da galinha d’água,
da jaçanã, onde dançarei com a caipora,
a musa dos manguezais que te margearam.