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7 de agosto de 2010

Três poemas de Cicero Melo

A Canção do Afogado

Cicero Melo

Para Antônio Botelho


Filha das fontes,
Dos bosques,
Dos rios sagrados,
Que fazes transposta?

Este é lado das brumas,
Dos pântanos e do Estiges.
Que fazes ao meu lado?

Filha dos bosques,
Dos rios e das fontes,
Que fazes transposta
Ao meu lado?

Este é um lado sem bordas,
Sem sombra e sem corpo,
Um lúdico lago.

Filha dos rios,
Que fazes ao lado
Do afogado?


Os malares e as pálpebras

Cicero Melo


O que é realidade para um fauno?

Nós somos o nada sonhando.

Ergo a última taça

Aos olhos de pedra do suicida.


Estado de conservação

Cicero Melo


Bom.

Cara e lombada com manchas do tempo.

Danos nas bordas e nos bordos.

Corte com manchas:

Anotações à mão amada.

Marca de carimbo na folha de rosto.

Miolos em péssimo estado.

Poema de Antônio Botelho

Soneto da antecedência

Antônio Botelho

Meu pai era coluna enlouquecida
Procurando no céu a morte exata.
Meu pai era gravura apodrecida
Ferida a reabrir na mão do nada.
Meu pai então escuna já partida
A saudade de um mar rondando a praia
Levantava, lembrança retorcida,
Da valsa que na carne encarcerara.
Meu pai, rosa de ferro e da loucura,
Transportava em seu corpo a tenra imagem
Do outro que no peito a fera instiga.
Espada ferindo o corpo e a ternura
Corcel azul correndo pela aragem
Meu pai, vitral na morte, já cintila.

Antônio Botelho é um dos maiores poetas do Brasil, hoje. Detentor de vários prêmios e livros publicados, é o mais jovem daquilo que denomino Geração 80. É pernambucano do Recife. Procurador Federal, reside atualmente em Sergipe. (Cicero Melo)

26 de julho de 2010

Poemas de Maurício de Macedo

Kaváfis

Maurício de Macedo

Helênica sensualidade pagã,
abriga do poeta o desterrado coração
que é pequena e pobre a amargura cristã
para a vibração da carne viril
fazendo-se verbo e canção.


Repentista

Maurício de Macedo

De repente,de repente.
O metro e a rima,de repente
- tudo está no ouvido.
Tudo está no diálogo da natureza
no ouvido
e não há espaço para o silêncio do homem
falando consigo mesmo.

A palavra pela cauda
- cavaleiro pegando boi brabo.
E a rima como os cascos do cavalo
percutindo no peito da terra.
De repente,de repente,
a natureza a pulsar
no diálogo dos ouvidos,
antes da queda do homem.

Alagoano de Maceió, onde reside, Maurício de Macedo publicou os seguintes livros de poesia: Cinzel da Língua (1996), Sínteses da Sombra (1997), Aventuras da Negra Fulô (1998), Esfinge Caeté (1999), Onde a vida fere mais fundo (1999), A palavra feito brasa (2000), Canção dos Orixás (2001), A poesia no cordão seguido de Pastoril (2002), A ostra e a pérola (2003), Das Alagoas seguido de Guerreiro (2003), Tear da palavra (2004), Escorial do Açúcar (2004), À Beira do Silêncio (2005), A água e a pedra (2005), Epifania (2006), À sombra das palavras (2006), Fragmento (2007) e Dispnéia (2008)

18 de julho de 2010

Poemas de Arriete Vilela

POEMA N. 21

Arriete Vilela

Hoje farejas indícios
de novas trilhas,
velas o teu coração tornado
ríspido, brumoso,
e vais às praças públicas colher
um súbito rosto.

Hoje tenho nos olhos
somente a dança das
estrelas cadentes
fazendo-se mar e poesia:
a minha melhor
porção diária de vida.


POEMA N. 26

Da janela sobre o mar,
sem saudades eu dou adeus
a mim mesma;

faço-me outra,
e nova.

Quero trazer-me alegre
à luz do dia ou da noite,
sossegar-me nas trovoadas,
evitar as esporas do vento
nos meus cabelos.

Inútil esforço,
Sei. Aos meus olhos
ola-se, diariamente,
uma alma de estopa áspera,
embora rara.


POEMA N. 28

Os meninos de rua
Parecem pardais urbanos:

em ligeiros vôos
acham-se em toda parte,
aproveitam restos de toda sorte.

Tropical
é algazarra de suas vozes,
quando se ajuntam;

seus gestos e jeitos,
de uma graça desavisada,
assustam e comovem.

Atentíssimo dever ser
o anjo da guarda dos meninos de rua,
esses tantos pardais urbanos.

POEMA N. 29

Vou me sabendo sem remansos.
Por vezes o mar estronda
dentro de mim
e tempestades medonhas me obrigam
a descer aos porões, a reconhecer-me
nas escotilhas fechadas da minha
incômoda solidão.

Difícil reconhecimento, porém.
Eu já sou muitas.
Meus olhos, é verdade,
ainda se mantêm amorosamente
indiscretos, e minha alma busca
da palavra as seduções segredosas
que me ardem no peito.

Mas já não me deixo
Possuir.

6 de julho de 2010

Poema de Roberto Piva

Jorge de Lima, panfletário do Caos

Roberto Piva

Foi no dia 31 de dezembro de 1961 que te compreendi Jorge de Lima
enquanto eu caminhava pelas praças agitadas pela melancolia presente
na minha memória devorada pelo azul eu soube decifrar
os teus jogos noturnos indisfarçável entre as flores
uníssonos em tua cabeça de prata e plantas ampliadas
como teus olhos crescem na paisagem Jorge de Lima e como tua boca
palpita nos bulevares oxidados pela névoa
uma constelação de cinza esboroa-se na contemplação inconsútil
de tua túnica
e um milhão de vagalumes trazendo estranhas tatuagens no ventre
se despedaçam contra os ninhos da Eternidade
é neste momento de fermento e agonia que te invoco grande alucinado
querido e estranho professor do Caos sabendo que teu nome deve
estar como uma talismã nos lábios de todos os meninos.


O poeta Roberto Piva morreu em São Paulo, no dia 3 de junho de 2010
aos 72 anos. Ele estava internado no Incor (Instituto do Coraçao)
desde o dia 13 de maio. A causa da morte foi falência múltipla
de órgãos em decorrência de uma insuficiência renal.
Piva nasceu em São Paulo, aos 22 anos já era poeta reconhecido.
Foi descoberto pelo editor Massao Ohno e, aos 23 anos,
publicou sua obra-prima, Paranóia (1963).
O livro se esgotou em duas semanas e hoje é artigo de luxo
entre colecionadores. Depois disso, a obra Piazzas (1980),
confirmou seu talento. Quem perdeu aquela edição,
hoje pode encontrar esse e outros livros do poeta
em uma compilação da editora Globo de três volumes.
O último deles, Estranhos Sinais de Saturno, foi lançado em 2008.
O poeta tinha a alma inquieta.
Nadou incansavelmente contra a corrente e por isso é o principal nome -
junto com seu parceiro e amigo Cláudio Willer - da poesia marginal.
Para sobreviver, ele deu aulas de filosofia e produziu shows de rock.

Do Terra

Melhores poemas que eu li

Desmantelo azul

Carlos Pena Filho

Então pintei de azul os meus sapatos
por não poder de azul pintar as ruas
depois vesti meus gestos insensatos
e colori as minhas mãos e as tuas

Para extinguir de nós o azul ausente
e aprisionar o azul nas coisas gratas
Enfim, nós derramamos simplesmente
azul sobre os vestidos e as gravatas

E afogados em nós nem nos lembramos
que no excesso que havia em nosso espaço
pudesse haver de azul também cansaço

E perdidos no azul nos contemplamos
e vimos que entre nós nascia um sul
vertiginosamente azul: azul.


A encantação pelo riso

Velimir Khléblinikov

Ride, ridentes!
Derride, derridentes!
Risonhai aos risos, rimente risandai!
Derride sorrimente!
Risos sobrerrisos - risadas de sorrideiros risores!
Hílare esrir, risos de sobrerridores riseiros!
Sorrisonhos, risonhos,
Sorride, ridiculai, risando, risantes,
Hilariando, riando,
Ride, ridentes!
Derride, derridentes!

1910
(Tradução: Haroldo de Campos)


Subversiva

Ferreira Gullar

A poesia
Quando chega
Não respeita nada.
Nem pai nem mãe.

Quando ela chega
De qualquer de seus abismos
Desconhece o Estado e a Sociedade Civil
Infringe o Código de Águas
Relincha
Como puta
Nova
Em frente ao Palácio da Alvorada.

E só depois
Reconsidera: beija
Nos olhos os que ganham mal
Embala no colo
Os que têm sede de felicidade
E de justiça.

E promete incendiar o país.

20 de junho de 2010

Novos poemas de Cicero Melo

Enquanto nos apunhalamos

Cícero Melo

O que é a guerra, senão
Um assalto à mão armada?
Toda paixão quando acaba
A mão sedosa da amada?

O que é a guerra, enfim?
Uma ternura viscosa,
Uma neblina sem fim,
A rosa no fim da rosa.



O jogo

Cicero Melo

Está se aproximando o último sono.
Aquele que nunca sonhei,
E ninguém quer sonhar.

Mas, uma cama ou qualquer horizontal
Nos fará ir, ir, ir, dormir.

"Mãe, ainda é cedo! Deixe-me jogar mais um pouco!"



Sombra

Cicero Melo

Havia uma mulher fora do espelho
Em que habitava meu corpo esquecido.
Havia uma mulher fora de mim.

Havia, com certeza, uma mulher lá fora.

Não digam que sonhei. Havia uma mulher
Fora de mim. E eu a amava.

Havia uma mulher fora do espelho
E dentro dela outro espelho havia.

9 de junho de 2010

Poemas de Lêdo Ivo

Cemitério dos Navios

Lêdo Ivo

Aqui os navios se escondem para morrer.
Nos porões vazios, só ficaram os ratos
à espera da impossível ressurreição.

E do esplendor do mundo sequer restou
o zarcão nos beiços do tempo.

O vento raspa as letras
dos nomes que os meninos soletravam.

A noite canina lambe
as cordoalhas esfarinhadas
sob o vôo das gaivotas estridentes
que, no cio, se ajuntam no fundo da baía.

Clareando madeiras podres e águas estagnadas,
o dia, com o seu olho cego, devora o gancho
que marca no casco as cicatrizes
do portaló que era um degrau do universo.

E a tarde prenhe de estrelas
inclina-se sobre a cabine onde, antigamente,
um casal aturdido pelo amor mais carnal
erguia no silêncio negras paliçadas.

Ó navios perdidos, velhos surdos
que, dormitando, escutam os seus próprios apitos
varando a neblina, no porto onde os barcos
eram como um rebanho atravessando a treva!


Canto Grande

Lêdo Ivo

Não tenho mais canções de amor.
Joguei tudo pela janela.
Em companhia da linguagem
fiquei, e o mundo se elucida.

Do mar guardei a melhor onda
que é menos móvel que o amor.
E da vida, guardei a dor
de todos os que estão sofrendo.

Sou um homem que perdeu tudo
mas criou a realidade,
fogueira de imagens, depósito
de coisas que jamais explodem.

De tudo quero o essencial:
o aqueduto de uma cidade,
rodovia do litoral,
o refluxo de uma palavra.

Longe dos céus, mesmo dos próximos,
e perto dos confins da terra,
aqui estou. Minha canção
enfrenta o inverno, é de concreto.

Meu coração está batendo
sua canção de amor maior.
Bate por toda a humanidade,
em verdade não estou só.

Posso agora comunicar-me
e sei que o mundo é muito grande.
Pela mão, levam-me as palavras
a geografias absolutas.


Lêdo Ivo, jornalista, poeta, romancista, contista, cronista e ensaísta, nasceu em Maceió, AL, em 18 de fevereiro de 1924. É membro da Academia Brasileira de Letras. Eleito em 13 de novembro de 1986 para a Cadeira n. 10, sucedendo a Orígenes Lessa, foi recebido em 7 de abril de 1987, pelo acadêmico Dom Marcos Barbosa.
Obras: As Imaginações (1944), Ode e Elegia (1945), As Alianças (1947), Acontecimento do Soneto (1948), O Caminho sem Aventura (1948), Ode ao Crepúsculo (1948), Cântico (1949), Linguagem (1951), Lição de Mário de Andrade (1951), Ode Equatorial (1951), Um Brasileiro em Paris e O Rei da Europa (1955), O Preto no Branco (1955), A Cidade e os Dias (1957), Magias (1960), O Girassol às Avessas (1960), Use a Passagem Subterrânea (1961), Paraísos de Papel (1961), Uma Lira dos Vinte Anos (1962), Ladrão de Flor (1963), O Universo Poético de Raul Pompéia (1963), O Sobrinho do General (1964), Estação Central (1964), Poesia Observada (1967), Finisterra (1972), Modernismo e Modernidade (1972), Ninho de Cobras (1973), O Sinal Semafórico (1974), Teoria e Celebração (1976), Alagoas (1976), Confissões de um Poeta (1979), O Soldado Raso (1980), A Ética da Aventura (1982), A Noite Misteriosa (1982), A Morte do Brasil (1984), Calabar (1985), Mar Oceano (1987), Crepúsculo Civil (1990), O Aluno Relapso (1991), A República das Desilusões (1995), Curral de Peixe (1995).

25 de maio de 2010

Poema para Cícero Melo

A Idade da Carne

Paulo Gustavo

Nunca tivemos nem teremos a idade do ouro.
O que temos é a idade da carne.
Pouco importa chamarmos as estrelas,
A constelação preferida, a luz remota,
Os adjetivos do cosmos.
Nossa gramática é a carne: suas pirâmides, seus desvãos,
Seus súbitos pontos finais.
Nunca teremos ouro no cofre sangrento do coração.
Nosso reino é a carne, nosso governo é a carne,
Nossa miragem é a carne, mais esplêndida
que o ouro dos séculos,
Mais florida que os jardins do Éden.
É só o que temos: a efêmera idade da carne.
É nela que atravessamos a floresta da vida
Até a clareira de nossa morte.

21 de maio de 2010

Meus Poemas

Cidade Atlântica

Iremar Marinho

Uma vazante tardia
alaga a Cidade Atlântica.
Seres anfíbios, acossados,
povoam os bancos de areia.

Maré de caranguejos tortos
(o peso da lama e salsugem)
emerge Brejal adentro.

Os maceioenses,
com a vida torta
dos goiamuns,
entram e saem dos becos, das tocas,
aos encontrões nas ruas tortas.

Entre o mar – a sua cruz –
e as lagoas – a espada
de Dâmocles da tiborna –
Maceió se espreme,
vaporosa e alagadiça.

No embate de mar e água doce,
só os caranguejos sobrevivem,
chafurdando na areia traiçoeira.

A terra prometida –
uma ilha no mapa da restinga –
é dos seres anfíbios afinal.
A redenção é dos caranguejos.


Tapagem do Alagadiço

Iremar Marinho

Maceió tem o seu mapa
traçado num berço de águas.

Entre o mar e a lagoa,
flutua a terra movediça.

Seu povo (seres anfíbios)
afunda e emerge
(afoga-se e revive)

A Cidade Atlântica
é porto de sereias
que aplacam a ira do mar
com orgasmos de sargaços.


Poema a um cão

Iremar Marinho

Ladra o cão na noite,
guardando a entrada
do inferno-horror.

A noite penetra
os cantos escuros
(seus encantos-muros).

O cão irreflexo
(o corpo inflexo)
morde a cauda em círculo.

A noite cai sobre o cão
(os gestos alertas
e negra penugem).

Com o cão na pálpebra,
não espero o dia
de pálida aurora.

Sonho madrugadas
e manhãs perdidas
(encardidos sonhos).

Na noite ferida,
ladra o cão vazio,
rosna vão vadio.

Vaga o cão sem-noite.
Na rua sem-dia,
tomba sob açoites.

14 de maio de 2010

Melhores poemas que eu li

A alma escolhe

Emily Dickinson

A alma escolhe sua companhia
E fecha os portais.
Em sua divina soberania
Não se entra mais.

Impassível, reconhece a carruagem
Parando à entrada;
Impassível, vê um rei que se ajoelha
No seu tapete.

Sei que escolheu de uma grande nação
Um só, a dedo.
Depois fechou as valvas da atenção
Como um rochedo.


Eu vi um homem perseguindo o horizonte

Stephen Crane

Eu vi um homem perseguindo o horizonte;
Giravam e giravam à toa.
Aquilo me perturbou;
Aproximei-me do homem.
“É tolice”, murmurei,
“Você jamais poderá...”
“Você mente”, gritou ele,
E continuou correndo.

(Traduções de Jorge Wanderley, in Antologia da Nova Poesia Norte-Americana)

8 de maio de 2010

Poema de Cícero Melo

Para mamãe fazendo uma omelete

Mamãe, eu te reflito como um lago
A cor do céu estende na água clara.
No teu olhar esconde-se minha alma,
Quando cansado de viver naufrago.

E quando a solidão, à noite, afago,
A noite crespa que me fere a palma,
Meus cabelos de dor teu canto espalma,
E, menino de novo, durmo e vago.

Mamãe – foi tão errada a rota e vã
A batalha tecida em meu afã,
Que de tanto morrer não me sei morto;

Pois, sempre que me vejo ao léu da vida,
Busco-te a vela que não sei perdida,
Ó nau primeira do primeiro porto!

(Este soneto foi escrito em 09/05/87. Minha mãe morreu no Natal do ano passado. C.M.)

4 de maio de 2010

Poemas alagoanos

Preparação da manhã

Gonzaga Leão

É duro dizer, criança
filho do triste operário
do sofrido camponês
que em vez dos belos brinquedos
que te fariam feliz,
dar-te-ei canhões fuzis
e a noite feita de medo;
contar-te-ei em segredo
(não histórias pra dormir)
que neste imenso país
somente o rico é feliz
só o rico tem porvir;
e contar-te-ei também
que o pão que falta em teu prato
sobra no prato de alguém;
que tua roupa nenhuma
não mais serve a quem a tem.

Mas direi no entanto a ti
(rudemente enquanto falo)
que nessa estrada de agora
não muito distante a aurora
já avia seus cavalos
com seu jaezes de fogo
e ardentes ferros nos cascos
com sua fonte de sol
a celebrar-se nos olhos,
que deixarão claridades
de manhãs onde passarem:
- e não haverá mais sede
boca não dessendentada
rios que não tenham ponte
de paz e fraternidade.

E no chão de todo o mundo
transformado em bem comum
rebentarão as sementes
e o pão será permanente
na mesa de qualquer um.

(Maceió/Alagoas - Fevereiro de 1963)


Soneto elegíaco

Francisco Valois

O meu olhar, insone, devassando
o silêncio da sombra refletida:
- no ventre do cristal se congelando
os vestígios da imagem consumida.

Na linguagem das mãos, enclausurando
o momento da morte acontecida,
há, transparente e vaga, modulando
uma canção fugaz e indefinida.

No espelho, formas de luar estáticas
e, no longínquo sono, mãos aquáticas
são o apelo da morta que naufraga.

Supero dimensões de continentes:
- na salsugem dos olhos languescentes,
Envolto o morto amor desfeito em vaga.

23 de abril de 2010

Poemas de Jorge de Lima

A garupa da vaca era palustre e bela

Jorge de Lima

Canto XV - Invenção de Orfeu

A garupa da vaca era palustre e bela,
uma penugem havia em seu queixo formoso;
e na fronte lunada onde ardia uma estrela
pairava um pensamento em constante repouso.

Esta a imagem da vaca, a mais pura e singela
que do fundo do sonho eu às vezes esposo
e confunde-se à noite à outra imagem daquela
que ama me amamentou e jaz no último pouso.

Escuto-lhe o mugido, era o meu acalanto,
e seu olhar tão doce inda sinto no meu:
o seio e o ubre natais irrigam-me em seus veios.

Confundo-os nessa ganga informe que é meu canto:
semblante e leite, a vaca e a mulher que me deu
o leite e a suavidade a manar de dois seios.


Essa infanta

Jorge de Lima

Essa infanta boreal era a defunta
em noturna pavana sempre ungida,
colorida de galos silenciosos,
extrema-ungida de óleos renovados.

Hoje é rosa distante prenunciada,
cujos cabelos de Altair são dela;
dela é a visão dos homens subterrâneos,
consolo como chuva desejada.

Tendo-a a insônia dos tempos despertado,
ontem houve enforcados, hoje guerras,
amanhã surgirão campos mais mortos.

Ó antípodas, ó pólos, somos trégua,
reconciliemo-nos na noite dessa
eterna infanta para sempre amada.


O poeta Jorge Mateus de Lima nasceu há 117 anos (23 de abril de 1893), na então Vila Nova da Imperatriz (hoje, União dos Palmares), no Estado de Alagoas.

20 de abril de 2010

Tradução de Cícero Melo

A FESTA DA NEVE

Derek Mahon

Bashô, vindo
para a cidade de Nagoya,
é convidado para uma festa de neve.

Há um tilintar de louça fina
e chá na louça fina;
há apresentações.

Então, todo mundo
se amontoa na janela
para olhar a neve caindo.

A neve está caindo em Nagoya
e mais para o sul
nos telhados de Kyoto.

Mais a leste, além de Irago,
ela cai
como folhas no mar frio.

Em algum lugar, estão queimando
feiticeiras e heréticos
nas praças ferventes.

Milhares morreram desde a madrugada
no serviço
de reis bárbaros.

Mas, há silêncio
nas casa de Nagoya
e nas colinas de Ise.
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DEREK MAHON nasceu em Belfast em 1941. É um dos maiores nomes da poesia em língua inglesa. Este poema foi traduzido de The Snow Party (1975), por Cicero Melo.

18 de abril de 2010

Poemas alagoanos

Poema

Jorge Cooper

Fui o auditório de meu pai
Dele ouvi coisas
com que a vida teci
Ele me ensinou a não saber
precipitar amizades
A não viver dentro do círculo de giz
A inverter a ilusão
e a querer bem à humanidade
Sorver o sal e o mel do acaso
Não me procurar esperar-me

- E ainda há quem diga por aí
ser um zero à esquerda do nada
a vida por mim levada


Mundaú (a Lagoa)

Jorge Cooper

Ontem
deu-me de rever a Mundaú
O sol ainda era a metade
no outro lado do mundo
e já nos galhos do mangue
às centenas posava de sangue-de-boi
o aratu
- Mas por lá não vi as canoas
nas coroas de sururu

É que a Mundaú imerge
torna-se quimera
pântano
lamarão da lagoa que era
- Nem sequer continua a ser
o poema à miséria

Lágrima seca nos olhos do povo
esperança enganada
- a Mundaú se faz chão
Mais nada


"Jorge Cooper, pela sua poesia sem arremedos provincianos, destituída de ranços acadêmicos, situa-se no limite entre os “Metaphisical poets” e o lirismo cavalheiresco e palaciano da poesia trovadoresca dos Minnesanger alemães da Idade Média. Isto tudo com pitadas dos goliardos, “poemas proletários”, pois Cooper, em momento algum, sacraliza a oralidade burguesa." (Marcos de Farias Costa – “Jorge Cooper: o Minnesanger Alagoano” – Artigo publicado no Jornal de Alagoas, em 21 de abril de 1987.

3 de abril de 2010

Meus Poemas

Calvário nas ruas de Maceió

Iremar Marinho

Para que matar o Cristo,
todos os anos, nas ruas
de Maceió, como em Gólgota?
Não bastou a imolação?

Cada esquina, uma estação.
Velhas crentes, moços gaios
acompanham ao Calvário
o Cristo sem Cireneu.

A Rua do Sol é nova
Via Sacra: a turba quer
o Cristo crucificar,
sem dó nem apelação,

no Largo do Livramento
(diante do Bar do Chopp).
Mas o Senhor jaz (é morto!)
entre rubros paramentos.


Mourão

Iremar Marinho

Cavalgo potros etéreos,
vaquejando bois postiços,
na fazenda ilusória.

Abro porteiras, mas há
sempre mais terras cercadas
no grande cercado-mundo.

Pastam bois de Vitalino,
passam bois, passa boiada,
passa o cavalo do tempo.

Bate o baque da porteira,
passa o vaqueiro das horas,
passa o destino dos homens.

Minha cidade bovina,
na vaquejada ilusória,
rumina o pasto do gado.

O berro do gado-homem,
no curral do matadouro,
é meu destino cercado.

19 de março de 2010

Melhores poemas que eu li

UIVO

Allen Ginsberg

Para Carl Solomon

(Trecho inicial)

Eu vi os expoentes de minha geração destruídos pela loucura,
morrendo de fome, histéricos, nus, arrastando-se pelas ruas
do bairro negro de madrugada em busca de uma dose violenta
de qualquer coisa, "hipsters" com cabeça de anjo ansiando
pelo antigo contato celestial com o dínamo estrelado
da maquinaria da noite, que pobres, esfarrapados e olheiras fundas,
viajaram fumando sentados na sobrenatural escuridão dos miseráveis
apartamentos sem água quente, flutuando sobre os tetos das cidades
contemplando jazz, que desnudaram seus cérebros ao céu sob o Elevado
e viram anjos maometanos cambaleando iluminados nos telhados
das casas de cômodos, que passaram por universidades
com os olhos frios e radiantes alucinando Arkansas
e tragédias à luz de William Blake entre os estudiosos da guerra,
que foram expulsos das universidades por serem loucos
e publicarem odes obscenas nas janelas do crânio,
que se refugiaram em quartos de paredes de pintura descascada,
em roupa de baixo, queimando seu dinheiro em cestas de papel,
escutando o Terror através da parede, que foram detidos
em suas barbas públicas voltando por Laredo
com um cinturão de marijuana para Nova York,
que comeram fogo em hotéis mal-pintados
ou beberam terebentina em Paradise Alley,
morreram ou flagelaram seus torsos noite após noite


(Tradução: Cláudio Willer)

14 de março de 2010

Meus poemas

Réquiem para alma baldia

Iremar Marinho

Divina Pastora guarda
o corpo crivado d’alma
baldada surpreendida
dentro do beco baldio.

Divina Pastora vela
o corpo (saldo esquecido)
na vala da morte balda
(alma de vida evadida).

Divina Pastora guarda
o corpo sem nome d’alma
baldia (vida homônima/
baldada morte sinônima).

Divina Pastora, tende
piedade d’alma baldia
da vida tão descuidada
(baldada vida vadia).


Discurso das pedras

Iremar Marinho

As pedras livres discursam
o seu sermão de dureza:

parábolas de impenetrável
compreensão - uma retórica
de silêncio assustador

As pedras brutas comandam
a mudez do mundo imóvel

(Estão) estáticas e ferem
com o seu verbo profano


Mars Sojourner ou Embolada Sideral

Iremar Marinho

(Para ser lida ou recitada ao som de
“Liz”, do violonista Marco Pereira)


Pé no tempo
pé na estrada
pé na rota das estrelas
pé na poeira do tempo
pé no rastro dos cometas

REFRÃO CORAL

Conluio de meteoros
abraço de girassóis
aconchego de anos-luz

JOGRAL 1
(HALE-BOPP)


Um catafalco de bólidos
para um funeral de luas

JOGRAL 2
(14 BIS)


Nem deuses nem fantasias
Mero homem (oh! quimeras)
feito máquina de avoar

REFRÃO CORAL

Conluio de meteoros,
abraço de girassóis,
aconchego de anos-luz.

14 de fevereiro de 2010

Poemas Alagoanos - Soneto de Carlos Moliterno

Soneto da Viagem

Carlos Moliterno

Sobre as ondas, afoito, direcionou a quilha
e abriu, venturoso, as velas do veleiro,
que longe havia, além da fantasia, a Ilha
que nele incendiava o astuto timoneiro.

Foi que era Sol na hora da viagem,
pois o poeta, sempre irmão da claridade,
nutria-se, astuto, da luz e da miragem
com as quais teceu a sua eternidade.

Nem tanto o inquietava a hora de chegar:
Antegozava, sim, a vertigem da viagem,
que viver também lhe era parar de navegar,

num dia de tempestade, ou numa noite de luar.
Daí, ter avistado na Ilha uma paragem:
se o continente o entediasse. E precisasse amar!


CARLOS MOLITERNO poeta, jornalista, crítico literário, foi presidente da Academia Alagoana de Letras por seis mandatos consecutivos, autor dos livros Desencontro, Notas Sobre Poesia Moderna em Alagoas e do festejado A Ilha, considerado um clássico da poesia alagoana. Membro do Instituto Histórico e Geográfico de Alagoas, autor da letra do Hino de Maceió, faleceu no dia 19 de maio de 1998, aos 86 anos.

(Post original JAC VERSO&REVERSO http://jac-versoreverso.blogspot.com)