Cidade Atlântica
Iremar Marinho
Uma vazante tardia
alaga a Cidade Atlântica.
Seres anfíbios, acossados,
povoam os bancos de areia.
Maré de caranguejos tortos
(o peso da lama e salsugem)
emerge Brejal adentro.
Os maceioenses,
com a vida torta
dos goiamuns,
entram e saem dos becos, das tocas,
aos encontrões nas ruas tortas.
Entre o mar – a sua cruz –
e as lagoas – a espada
de Dâmocles da tiborna –
Maceió se espreme,
vaporosa e alagadiça.
No embate de mar e água doce,
só os caranguejos sobrevivem,
chafurdando na areia traiçoeira.
A terra prometida –
uma ilha no mapa da restinga –
é dos seres anfíbios afinal.
A redenção é dos caranguejos.
Tapagem do Alagadiço
Iremar Marinho
Maceió tem o seu mapa
traçado num berço de águas.
Entre o mar e a lagoa,
flutua a terra movediça.
Seu povo (seres anfíbios)
afunda e emerge
(afoga-se e revive)
A Cidade Atlântica
é porto de sereias
que aplacam a ira do mar
com orgasmos de sargaços.
Poema a um cão
Iremar Marinho
Ladra o cão na noite,
guardando a entrada
do inferno-horror.
A noite penetra
os cantos escuros
(seus encantos-muros).
O cão irreflexo
(o corpo inflexo)
morde a cauda em círculo.
A noite cai sobre o cão
(os gestos alertas
e negra penugem).
Com o cão na pálpebra,
não espero o dia
de pálida aurora.
Sonho madrugadas
e manhãs perdidas
(encardidos sonhos).
Na noite ferida,
ladra o cão vazio,
rosna vão vadio.
Vaga o cão sem-noite.
Na rua sem-dia,
tomba sob açoites.
21 de maio de 2010
14 de maio de 2010
Melhores poemas que eu li
A alma escolhe
Emily Dickinson
A alma escolhe sua companhia
E fecha os portais.
Em sua divina soberania
Não se entra mais.
Impassível, reconhece a carruagem
Parando à entrada;
Impassível, vê um rei que se ajoelha
No seu tapete.
Sei que escolheu de uma grande nação
Um só, a dedo.
Depois fechou as valvas da atenção
Como um rochedo.
Eu vi um homem perseguindo o horizonte
Stephen Crane
Eu vi um homem perseguindo o horizonte;
Giravam e giravam à toa.
Aquilo me perturbou;
Aproximei-me do homem.
“É tolice”, murmurei,
“Você jamais poderá...”
“Você mente”, gritou ele,
E continuou correndo.
(Traduções de Jorge Wanderley, in Antologia da Nova Poesia Norte-Americana)
Emily Dickinson
A alma escolhe sua companhia
E fecha os portais.
Em sua divina soberania
Não se entra mais.
Impassível, reconhece a carruagem
Parando à entrada;
Impassível, vê um rei que se ajoelha
No seu tapete.
Sei que escolheu de uma grande nação
Um só, a dedo.
Depois fechou as valvas da atenção
Como um rochedo.
Eu vi um homem perseguindo o horizonte
Stephen Crane
Eu vi um homem perseguindo o horizonte;
Giravam e giravam à toa.
Aquilo me perturbou;
Aproximei-me do homem.
“É tolice”, murmurei,
“Você jamais poderá...”
“Você mente”, gritou ele,
E continuou correndo.
(Traduções de Jorge Wanderley, in Antologia da Nova Poesia Norte-Americana)
8 de maio de 2010
Poema de Cícero Melo
Para mamãe fazendo uma omelete
Mamãe, eu te reflito como um lago
A cor do céu estende na água clara.
No teu olhar esconde-se minha alma,
Quando cansado de viver naufrago.
E quando a solidão, à noite, afago,
A noite crespa que me fere a palma,
Meus cabelos de dor teu canto espalma,
E, menino de novo, durmo e vago.
Mamãe – foi tão errada a rota e vã
A batalha tecida em meu afã,
Que de tanto morrer não me sei morto;
Pois, sempre que me vejo ao léu da vida,
Busco-te a vela que não sei perdida,
Ó nau primeira do primeiro porto!
(Este soneto foi escrito em 09/05/87. Minha mãe morreu no Natal do ano passado. C.M.)
Mamãe, eu te reflito como um lago
A cor do céu estende na água clara.
No teu olhar esconde-se minha alma,
Quando cansado de viver naufrago.
E quando a solidão, à noite, afago,
A noite crespa que me fere a palma,
Meus cabelos de dor teu canto espalma,
E, menino de novo, durmo e vago.
Mamãe – foi tão errada a rota e vã
A batalha tecida em meu afã,
Que de tanto morrer não me sei morto;
Pois, sempre que me vejo ao léu da vida,
Busco-te a vela que não sei perdida,
Ó nau primeira do primeiro porto!
(Este soneto foi escrito em 09/05/87. Minha mãe morreu no Natal do ano passado. C.M.)
4 de maio de 2010
Poemas alagoanos
Preparação da manhã
Gonzaga Leão
É duro dizer, criança
filho do triste operário
do sofrido camponês
que em vez dos belos brinquedos
que te fariam feliz,
dar-te-ei canhões fuzis
e a noite feita de medo;
contar-te-ei em segredo
(não histórias pra dormir)
que neste imenso país
somente o rico é feliz
só o rico tem porvir;
e contar-te-ei também
que o pão que falta em teu prato
sobra no prato de alguém;
que tua roupa nenhuma
não mais serve a quem a tem.
Mas direi no entanto a ti
(rudemente enquanto falo)
que nessa estrada de agora
não muito distante a aurora
já avia seus cavalos
com seu jaezes de fogo
e ardentes ferros nos cascos
com sua fonte de sol
a celebrar-se nos olhos,
que deixarão claridades
de manhãs onde passarem:
- e não haverá mais sede
boca não dessendentada
rios que não tenham ponte
de paz e fraternidade.
E no chão de todo o mundo
transformado em bem comum
rebentarão as sementes
e o pão será permanente
na mesa de qualquer um.
(Maceió/Alagoas - Fevereiro de 1963)
Soneto elegíaco
Francisco Valois
O meu olhar, insone, devassando
o silêncio da sombra refletida:
- no ventre do cristal se congelando
os vestígios da imagem consumida.
Na linguagem das mãos, enclausurando
o momento da morte acontecida,
há, transparente e vaga, modulando
uma canção fugaz e indefinida.
No espelho, formas de luar estáticas
e, no longínquo sono, mãos aquáticas
são o apelo da morta que naufraga.
Supero dimensões de continentes:
- na salsugem dos olhos languescentes,
Envolto o morto amor desfeito em vaga.
Gonzaga Leão
É duro dizer, criança
filho do triste operário
do sofrido camponês
que em vez dos belos brinquedos
que te fariam feliz,
dar-te-ei canhões fuzis
e a noite feita de medo;
contar-te-ei em segredo
(não histórias pra dormir)
que neste imenso país
somente o rico é feliz
só o rico tem porvir;
e contar-te-ei também
que o pão que falta em teu prato
sobra no prato de alguém;
que tua roupa nenhuma
não mais serve a quem a tem.
Mas direi no entanto a ti
(rudemente enquanto falo)
que nessa estrada de agora
não muito distante a aurora
já avia seus cavalos
com seu jaezes de fogo
e ardentes ferros nos cascos
com sua fonte de sol
a celebrar-se nos olhos,
que deixarão claridades
de manhãs onde passarem:
- e não haverá mais sede
boca não dessendentada
rios que não tenham ponte
de paz e fraternidade.
E no chão de todo o mundo
transformado em bem comum
rebentarão as sementes
e o pão será permanente
na mesa de qualquer um.
(Maceió/Alagoas - Fevereiro de 1963)
Soneto elegíaco
Francisco Valois
O meu olhar, insone, devassando
o silêncio da sombra refletida:
- no ventre do cristal se congelando
os vestígios da imagem consumida.
Na linguagem das mãos, enclausurando
o momento da morte acontecida,
há, transparente e vaga, modulando
uma canção fugaz e indefinida.
No espelho, formas de luar estáticas
e, no longínquo sono, mãos aquáticas
são o apelo da morta que naufraga.
Supero dimensões de continentes:
- na salsugem dos olhos languescentes,
Envolto o morto amor desfeito em vaga.
23 de abril de 2010
Poemas de Jorge de Lima
A garupa da vaca era palustre e bela
Jorge de Lima
Canto XV - Invenção de Orfeu
A garupa da vaca era palustre e bela,
uma penugem havia em seu queixo formoso;
e na fronte lunada onde ardia uma estrela
pairava um pensamento em constante repouso.
Esta a imagem da vaca, a mais pura e singela
que do fundo do sonho eu às vezes esposo
e confunde-se à noite à outra imagem daquela
que ama me amamentou e jaz no último pouso.
Escuto-lhe o mugido, era o meu acalanto,
e seu olhar tão doce inda sinto no meu:
o seio e o ubre natais irrigam-me em seus veios.
Confundo-os nessa ganga informe que é meu canto:
semblante e leite, a vaca e a mulher que me deu
o leite e a suavidade a manar de dois seios.
Essa infanta
Jorge de Lima
Essa infanta boreal era a defunta
em noturna pavana sempre ungida,
colorida de galos silenciosos,
extrema-ungida de óleos renovados.
Hoje é rosa distante prenunciada,
cujos cabelos de Altair são dela;
dela é a visão dos homens subterrâneos,
consolo como chuva desejada.
Tendo-a a insônia dos tempos despertado,
ontem houve enforcados, hoje guerras,
amanhã surgirão campos mais mortos.
Ó antípodas, ó pólos, somos trégua,
reconciliemo-nos na noite dessa
eterna infanta para sempre amada.
O poeta Jorge Mateus de Lima nasceu há 117 anos (23 de abril de 1893), na então Vila Nova da Imperatriz (hoje, União dos Palmares), no Estado de Alagoas.
Jorge de Lima
Canto XV - Invenção de Orfeu
A garupa da vaca era palustre e bela,
uma penugem havia em seu queixo formoso;
e na fronte lunada onde ardia uma estrela
pairava um pensamento em constante repouso.
Esta a imagem da vaca, a mais pura e singela
que do fundo do sonho eu às vezes esposo
e confunde-se à noite à outra imagem daquela
que ama me amamentou e jaz no último pouso.
Escuto-lhe o mugido, era o meu acalanto,
e seu olhar tão doce inda sinto no meu:
o seio e o ubre natais irrigam-me em seus veios.
Confundo-os nessa ganga informe que é meu canto:
semblante e leite, a vaca e a mulher que me deu
o leite e a suavidade a manar de dois seios.
Essa infanta
Jorge de Lima
Essa infanta boreal era a defunta
em noturna pavana sempre ungida,
colorida de galos silenciosos,
extrema-ungida de óleos renovados.
Hoje é rosa distante prenunciada,
cujos cabelos de Altair são dela;
dela é a visão dos homens subterrâneos,
consolo como chuva desejada.
Tendo-a a insônia dos tempos despertado,
ontem houve enforcados, hoje guerras,
amanhã surgirão campos mais mortos.
Ó antípodas, ó pólos, somos trégua,
reconciliemo-nos na noite dessa
eterna infanta para sempre amada.
O poeta Jorge Mateus de Lima nasceu há 117 anos (23 de abril de 1893), na então Vila Nova da Imperatriz (hoje, União dos Palmares), no Estado de Alagoas.
20 de abril de 2010
Tradução de Cícero Melo
A FESTA DA NEVE
Derek Mahon
Bashô, vindo
para a cidade de Nagoya,
é convidado para uma festa de neve.
Há um tilintar de louça fina
e chá na louça fina;
há apresentações.
Então, todo mundo
se amontoa na janela
para olhar a neve caindo.
A neve está caindo em Nagoya
e mais para o sul
nos telhados de Kyoto.
Mais a leste, além de Irago,
ela cai
como folhas no mar frio.
Em algum lugar, estão queimando
feiticeiras e heréticos
nas praças ferventes.
Milhares morreram desde a madrugada
no serviço
de reis bárbaros.
Mas, há silêncio
nas casa de Nagoya
e nas colinas de Ise.
----------------------------------------
DEREK MAHON nasceu em Belfast em 1941. É um dos maiores nomes da poesia em língua inglesa. Este poema foi traduzido de The Snow Party (1975), por Cicero Melo.
Derek Mahon
Bashô, vindo
para a cidade de Nagoya,
é convidado para uma festa de neve.
Há um tilintar de louça fina
e chá na louça fina;
há apresentações.
Então, todo mundo
se amontoa na janela
para olhar a neve caindo.
A neve está caindo em Nagoya
e mais para o sul
nos telhados de Kyoto.
Mais a leste, além de Irago,
ela cai
como folhas no mar frio.
Em algum lugar, estão queimando
feiticeiras e heréticos
nas praças ferventes.
Milhares morreram desde a madrugada
no serviço
de reis bárbaros.
Mas, há silêncio
nas casa de Nagoya
e nas colinas de Ise.
----------------------------------------
DEREK MAHON nasceu em Belfast em 1941. É um dos maiores nomes da poesia em língua inglesa. Este poema foi traduzido de The Snow Party (1975), por Cicero Melo.
18 de abril de 2010
Poemas alagoanos
Poema
Jorge Cooper
Fui o auditório de meu pai
Dele ouvi coisas
com que a vida teci
Ele me ensinou a não saber
precipitar amizades
A não viver dentro do círculo de giz
A inverter a ilusão
e a querer bem à humanidade
Sorver o sal e o mel do acaso
Não me procurar esperar-me
- E ainda há quem diga por aí
ser um zero à esquerda do nada
a vida por mim levada
Mundaú (a Lagoa)
Jorge Cooper
Ontem
deu-me de rever a Mundaú
O sol ainda era a metade
no outro lado do mundo
e já nos galhos do mangue
às centenas posava de sangue-de-boi
o aratu
- Mas por lá não vi as canoas
nas coroas de sururu
É que a Mundaú imerge
torna-se quimera
pântano
lamarão da lagoa que era
- Nem sequer continua a ser
o poema à miséria
Lágrima seca nos olhos do povo
esperança enganada
- a Mundaú se faz chão
Mais nada
"Jorge Cooper, pela sua poesia sem arremedos provincianos, destituída de ranços acadêmicos, situa-se no limite entre os “Metaphisical poets” e o lirismo cavalheiresco e palaciano da poesia trovadoresca dos Minnesanger alemães da Idade Média. Isto tudo com pitadas dos goliardos, “poemas proletários”, pois Cooper, em momento algum, sacraliza a oralidade burguesa." (Marcos de Farias Costa – “Jorge Cooper: o Minnesanger Alagoano” – Artigo publicado no Jornal de Alagoas, em 21 de abril de 1987.
Jorge Cooper
Fui o auditório de meu pai
Dele ouvi coisas
com que a vida teci
Ele me ensinou a não saber
precipitar amizades
A não viver dentro do círculo de giz
A inverter a ilusão
e a querer bem à humanidade
Sorver o sal e o mel do acaso
Não me procurar esperar-me
- E ainda há quem diga por aí
ser um zero à esquerda do nada
a vida por mim levada
Mundaú (a Lagoa)
Jorge Cooper
Ontem
deu-me de rever a Mundaú
O sol ainda era a metade
no outro lado do mundo
e já nos galhos do mangue
às centenas posava de sangue-de-boi
o aratu
- Mas por lá não vi as canoas
nas coroas de sururu
É que a Mundaú imerge
torna-se quimera
pântano
lamarão da lagoa que era
- Nem sequer continua a ser
o poema à miséria
Lágrima seca nos olhos do povo
esperança enganada
- a Mundaú se faz chão
Mais nada
"Jorge Cooper, pela sua poesia sem arremedos provincianos, destituída de ranços acadêmicos, situa-se no limite entre os “Metaphisical poets” e o lirismo cavalheiresco e palaciano da poesia trovadoresca dos Minnesanger alemães da Idade Média. Isto tudo com pitadas dos goliardos, “poemas proletários”, pois Cooper, em momento algum, sacraliza a oralidade burguesa." (Marcos de Farias Costa – “Jorge Cooper: o Minnesanger Alagoano” – Artigo publicado no Jornal de Alagoas, em 21 de abril de 1987.
3 de abril de 2010
Meus Poemas
Calvário nas ruas de Maceió
Iremar Marinho
Para que matar o Cristo,
todos os anos, nas ruas
de Maceió, como em Gólgota?
Não bastou a imolação?
Cada esquina, uma estação.
Velhas crentes, moços gaios
acompanham ao Calvário
o Cristo sem Cireneu.
A Rua do Sol é nova
Via Sacra: a turba quer
o Cristo crucificar,
sem dó nem apelação,
no Largo do Livramento
(diante do Bar do Chopp).
Mas o Senhor jaz (é morto!)
entre rubros paramentos.
Mourão
Iremar Marinho
Cavalgo potros etéreos,
vaquejando bois postiços,
na fazenda ilusória.
Abro porteiras, mas há
sempre mais terras cercadas
no grande cercado-mundo.
Pastam bois de Vitalino,
passam bois, passa boiada,
passa o cavalo do tempo.
Bate o baque da porteira,
passa o vaqueiro das horas,
passa o destino dos homens.
Minha cidade bovina,
na vaquejada ilusória,
rumina o pasto do gado.
O berro do gado-homem,
no curral do matadouro,
é meu destino cercado.
Iremar Marinho
Para que matar o Cristo,
todos os anos, nas ruas
de Maceió, como em Gólgota?
Não bastou a imolação?
Cada esquina, uma estação.
Velhas crentes, moços gaios
acompanham ao Calvário
o Cristo sem Cireneu.
A Rua do Sol é nova
Via Sacra: a turba quer
o Cristo crucificar,
sem dó nem apelação,
no Largo do Livramento
(diante do Bar do Chopp).
Mas o Senhor jaz (é morto!)
entre rubros paramentos.
Mourão
Iremar Marinho
Cavalgo potros etéreos,
vaquejando bois postiços,
na fazenda ilusória.
Abro porteiras, mas há
sempre mais terras cercadas
no grande cercado-mundo.
Pastam bois de Vitalino,
passam bois, passa boiada,
passa o cavalo do tempo.
Bate o baque da porteira,
passa o vaqueiro das horas,
passa o destino dos homens.
Minha cidade bovina,
na vaquejada ilusória,
rumina o pasto do gado.
O berro do gado-homem,
no curral do matadouro,
é meu destino cercado.
19 de março de 2010
Melhores poemas que eu li
UIVO
Allen Ginsberg
Para Carl Solomon
(Trecho inicial)
Eu vi os expoentes de minha geração destruídos pela loucura,
morrendo de fome, histéricos, nus, arrastando-se pelas ruas
do bairro negro de madrugada em busca de uma dose violenta
de qualquer coisa, "hipsters" com cabeça de anjo ansiando
pelo antigo contato celestial com o dínamo estrelado
da maquinaria da noite, que pobres, esfarrapados e olheiras fundas,
viajaram fumando sentados na sobrenatural escuridão dos miseráveis
apartamentos sem água quente, flutuando sobre os tetos das cidades
contemplando jazz, que desnudaram seus cérebros ao céu sob o Elevado
e viram anjos maometanos cambaleando iluminados nos telhados
das casas de cômodos, que passaram por universidades
com os olhos frios e radiantes alucinando Arkansas
e tragédias à luz de William Blake entre os estudiosos da guerra,
que foram expulsos das universidades por serem loucos
e publicarem odes obscenas nas janelas do crânio,
que se refugiaram em quartos de paredes de pintura descascada,
em roupa de baixo, queimando seu dinheiro em cestas de papel,
escutando o Terror através da parede, que foram detidos
em suas barbas públicas voltando por Laredo
com um cinturão de marijuana para Nova York,
que comeram fogo em hotéis mal-pintados
ou beberam terebentina em Paradise Alley,
morreram ou flagelaram seus torsos noite após noite
(Tradução: Cláudio Willer)
Allen Ginsberg
Para Carl Solomon
(Trecho inicial)
Eu vi os expoentes de minha geração destruídos pela loucura,
morrendo de fome, histéricos, nus, arrastando-se pelas ruas
do bairro negro de madrugada em busca de uma dose violenta
de qualquer coisa, "hipsters" com cabeça de anjo ansiando
pelo antigo contato celestial com o dínamo estrelado
da maquinaria da noite, que pobres, esfarrapados e olheiras fundas,
viajaram fumando sentados na sobrenatural escuridão dos miseráveis
apartamentos sem água quente, flutuando sobre os tetos das cidades
contemplando jazz, que desnudaram seus cérebros ao céu sob o Elevado
e viram anjos maometanos cambaleando iluminados nos telhados
das casas de cômodos, que passaram por universidades
com os olhos frios e radiantes alucinando Arkansas
e tragédias à luz de William Blake entre os estudiosos da guerra,
que foram expulsos das universidades por serem loucos
e publicarem odes obscenas nas janelas do crânio,
que se refugiaram em quartos de paredes de pintura descascada,
em roupa de baixo, queimando seu dinheiro em cestas de papel,
escutando o Terror através da parede, que foram detidos
em suas barbas públicas voltando por Laredo
com um cinturão de marijuana para Nova York,
que comeram fogo em hotéis mal-pintados
ou beberam terebentina em Paradise Alley,
morreram ou flagelaram seus torsos noite após noite
(Tradução: Cláudio Willer)
14 de março de 2010
Meus poemas
Réquiem para alma baldia
Iremar Marinho
Divina Pastora guarda
o corpo crivado d’alma
baldada surpreendida
dentro do beco baldio.
Divina Pastora vela
o corpo (saldo esquecido)
na vala da morte balda
(alma de vida evadida).
Divina Pastora guarda
o corpo sem nome d’alma
baldia (vida homônima/
baldada morte sinônima).
Divina Pastora, tende
piedade d’alma baldia
da vida tão descuidada
(baldada vida vadia).
Discurso das pedras
Iremar Marinho
As pedras livres discursam
o seu sermão de dureza:
parábolas de impenetrável
compreensão - uma retórica
de silêncio assustador
As pedras brutas comandam
a mudez do mundo imóvel
(Estão) estáticas e ferem
com o seu verbo profano
Mars Sojourner ou Embolada Sideral
Iremar Marinho
(Para ser lida ou recitada ao som de
“Liz”, do violonista Marco Pereira)
Pé no tempo
pé na estrada
pé na rota das estrelas
pé na poeira do tempo
pé no rastro dos cometas
REFRÃO CORAL
Conluio de meteoros
abraço de girassóis
aconchego de anos-luz
JOGRAL 1
(HALE-BOPP)
Um catafalco de bólidos
para um funeral de luas
JOGRAL 2
(14 BIS)
Nem deuses nem fantasias
Mero homem (oh! quimeras)
feito máquina de avoar
REFRÃO CORAL
Conluio de meteoros,
abraço de girassóis,
aconchego de anos-luz.
Iremar Marinho
Divina Pastora guarda
o corpo crivado d’alma
baldada surpreendida
dentro do beco baldio.
Divina Pastora vela
o corpo (saldo esquecido)
na vala da morte balda
(alma de vida evadida).
Divina Pastora guarda
o corpo sem nome d’alma
baldia (vida homônima/
baldada morte sinônima).
Divina Pastora, tende
piedade d’alma baldia
da vida tão descuidada
(baldada vida vadia).
Discurso das pedras
Iremar Marinho
As pedras livres discursam
o seu sermão de dureza:
parábolas de impenetrável
compreensão - uma retórica
de silêncio assustador
As pedras brutas comandam
a mudez do mundo imóvel
(Estão) estáticas e ferem
com o seu verbo profano
Mars Sojourner ou Embolada Sideral
Iremar Marinho
(Para ser lida ou recitada ao som de
“Liz”, do violonista Marco Pereira)
Pé no tempo
pé na estrada
pé na rota das estrelas
pé na poeira do tempo
pé no rastro dos cometas
REFRÃO CORAL
Conluio de meteoros
abraço de girassóis
aconchego de anos-luz
JOGRAL 1
(HALE-BOPP)
Um catafalco de bólidos
para um funeral de luas
JOGRAL 2
(14 BIS)
Nem deuses nem fantasias
Mero homem (oh! quimeras)
feito máquina de avoar
REFRÃO CORAL
Conluio de meteoros,
abraço de girassóis,
aconchego de anos-luz.
14 de fevereiro de 2010
Poemas Alagoanos - Soneto de Carlos Moliterno
Soneto da Viagem
Carlos Moliterno
Sobre as ondas, afoito, direcionou a quilha
e abriu, venturoso, as velas do veleiro,
que longe havia, além da fantasia, a Ilha
que nele incendiava o astuto timoneiro.
Foi que era Sol na hora da viagem,
pois o poeta, sempre irmão da claridade,
nutria-se, astuto, da luz e da miragem
com as quais teceu a sua eternidade.
Nem tanto o inquietava a hora de chegar:
Antegozava, sim, a vertigem da viagem,
que viver também lhe era parar de navegar,
num dia de tempestade, ou numa noite de luar.
Daí, ter avistado na Ilha uma paragem:
se o continente o entediasse. E precisasse amar!
CARLOS MOLITERNO poeta, jornalista, crítico literário, foi presidente da Academia Alagoana de Letras por seis mandatos consecutivos, autor dos livros Desencontro, Notas Sobre Poesia Moderna em Alagoas e do festejado A Ilha, considerado um clássico da poesia alagoana. Membro do Instituto Histórico e Geográfico de Alagoas, autor da letra do Hino de Maceió, faleceu no dia 19 de maio de 1998, aos 86 anos.
(Post original JAC VERSO&REVERSO http://jac-versoreverso.blogspot.com)
Carlos Moliterno
Sobre as ondas, afoito, direcionou a quilha
e abriu, venturoso, as velas do veleiro,
que longe havia, além da fantasia, a Ilha
que nele incendiava o astuto timoneiro.
Foi que era Sol na hora da viagem,
pois o poeta, sempre irmão da claridade,
nutria-se, astuto, da luz e da miragem
com as quais teceu a sua eternidade.
Nem tanto o inquietava a hora de chegar:
Antegozava, sim, a vertigem da viagem,
que viver também lhe era parar de navegar,
num dia de tempestade, ou numa noite de luar.
Daí, ter avistado na Ilha uma paragem:
se o continente o entediasse. E precisasse amar!
CARLOS MOLITERNO poeta, jornalista, crítico literário, foi presidente da Academia Alagoana de Letras por seis mandatos consecutivos, autor dos livros Desencontro, Notas Sobre Poesia Moderna em Alagoas e do festejado A Ilha, considerado um clássico da poesia alagoana. Membro do Instituto Histórico e Geográfico de Alagoas, autor da letra do Hino de Maceió, faleceu no dia 19 de maio de 1998, aos 86 anos.
(Post original JAC VERSO&REVERSO http://jac-versoreverso.blogspot.com)
31 de janeiro de 2010
Melhores poemas que eu li
Os ombros suportam o mundo
Carlos Drummond de Andrade
Chega um tempo em que não se diz mais: meu Deus.
Tempo de absoluta depuração.
Tempo em que não se diz mais: meu amor.
Porque o amor resultou inútil.
E os olhos não choram.
E as mãos tecem apenas o rude trabalho.
E o coração está seco.
Em vão mulheres batem à porta, não abrirás.
Ficaste sozinho, a luz apagou-se,
mas na sombra teus olhos resplandecem enormes.
És todo certeza, já não sabes sofrer.
E nada esperas de teus amigos.
Pouco importa venha a velhice, que é a velhice?
Teus ombros suportam o mundo
e ele não pesa mais que a mão de uma criança.
As guerras, as fomes,
as discussões dentro dos edifícios
provam apenas que a vida prossegue
e nem todos se libertaram ainda.
Alguns, achando bárbaro o espetáculo
prefeririam (os delicados) morrer.
Chegou um tempo em que não adianta morrer.
Chegou um tempo em que a vida é uma ordem.
A vida apenas, sem mistificação.
Carlos Drummond de Andrade
Chega um tempo em que não se diz mais: meu Deus.
Tempo de absoluta depuração.
Tempo em que não se diz mais: meu amor.
Porque o amor resultou inútil.
E os olhos não choram.
E as mãos tecem apenas o rude trabalho.
E o coração está seco.
Em vão mulheres batem à porta, não abrirás.
Ficaste sozinho, a luz apagou-se,
mas na sombra teus olhos resplandecem enormes.
És todo certeza, já não sabes sofrer.
E nada esperas de teus amigos.
Pouco importa venha a velhice, que é a velhice?
Teus ombros suportam o mundo
e ele não pesa mais que a mão de uma criança.
As guerras, as fomes,
as discussões dentro dos edifícios
provam apenas que a vida prossegue
e nem todos se libertaram ainda.
Alguns, achando bárbaro o espetáculo
prefeririam (os delicados) morrer.
Chegou um tempo em que não adianta morrer.
Chegou um tempo em que a vida é uma ordem.
A vida apenas, sem mistificação.
Melhores poemas que eu li
Procura da Poesia
Carlos Drummond de Andrade
Não faças versos sobre acontecimentos.
Não há criação nem morte perante a poesia.
Diante dela, a vida é um sol estático,
não aquece nem ilumina.
As afinidades, os aniversários,
os incidentes pessoais não contam.
Não faças poesia com o corpo,
esse excelente, completo e confortável corpo,
tão infenso à efusão lírica.
Tua gota de bile, tua careta de gozo
ou de dor no escuro são indiferentes.
Nem me reveles teus sentimentos,
que se prevalecem do equívoco
e tentam a longa viagem.
O que pensas e sentes, isso ainda não é poesia.
Não cantes tua cidade, deixa-a em paz.
O canto não é o movimento das máquinas
nem o segredo das casas.
Não é música ouvida de passagem,
rumor do mar nas ruas junto à linha de espuma.
O canto não é a natureza
nem os homens em sociedade.
Para ele, chuva e noite,
fadiga e esperança nada significam.
A poesia (não tires poesia das coisas)
elide sujeito e objeto.
Não dramatizes, não invoques,
não indagues. Não percas tempo em mentir.
Não te aborreças.
Teu iate de marfim, teu sapato de diamante,
vossas mazurcas e abusões,
vossos esqueletos de família
desaparecem na curva do tempo,
é algo imprestável.
Não recomponhas
tua sepultada e merencória infância.
Não osciles entre o espelho e a
memória em dissipação.
Que se dissipou, não era poesia.
Que se partiu, cristal não era.
Penetra surdamente no reino das palavras.
Lá estão os poemas que esperam ser escritos.
Estão paralisados, mas não há desespero,
há calma e frescura na superfície intata.
Ei-los sós e mudos, em estado de dicionário.
Convive com teus poemas, antes de escrevê-los.
Tem paciência se obscuros. Calma, se te provocam.
Espera que cada um se realize e consume
com seu poder de palavra
e seu poder de silêncio.
Não forces o poema a desprender-se do limbo.
Não colhas no chão o poema que se perdeu.
Não adules o poema. Aceita-o
como ele aceitará sua forma definitiva
e concentrada no espaço.
Chega mais perto e contempla as palavras.
Cada uma tem mil faces secretas sob a face neutra
e te pergunta, sem interesse pela resposta,
pobre ou terrível, que lhe deres:
Trouxeste a chave?
Repara:
ermas de melodia e conceito
elas se refugiaram na noite, as palavras.
Ainda úmidas e impregnadas de sono,
rolam num rio difícil e se transformam em desprezo.
Carlos Drummond de Andrade
Não faças versos sobre acontecimentos.
Não há criação nem morte perante a poesia.
Diante dela, a vida é um sol estático,
não aquece nem ilumina.
As afinidades, os aniversários,
os incidentes pessoais não contam.
Não faças poesia com o corpo,
esse excelente, completo e confortável corpo,
tão infenso à efusão lírica.
Tua gota de bile, tua careta de gozo
ou de dor no escuro são indiferentes.
Nem me reveles teus sentimentos,
que se prevalecem do equívoco
e tentam a longa viagem.
O que pensas e sentes, isso ainda não é poesia.
Não cantes tua cidade, deixa-a em paz.
O canto não é o movimento das máquinas
nem o segredo das casas.
Não é música ouvida de passagem,
rumor do mar nas ruas junto à linha de espuma.
O canto não é a natureza
nem os homens em sociedade.
Para ele, chuva e noite,
fadiga e esperança nada significam.
A poesia (não tires poesia das coisas)
elide sujeito e objeto.
Não dramatizes, não invoques,
não indagues. Não percas tempo em mentir.
Não te aborreças.
Teu iate de marfim, teu sapato de diamante,
vossas mazurcas e abusões,
vossos esqueletos de família
desaparecem na curva do tempo,
é algo imprestável.
Não recomponhas
tua sepultada e merencória infância.
Não osciles entre o espelho e a
memória em dissipação.
Que se dissipou, não era poesia.
Que se partiu, cristal não era.
Penetra surdamente no reino das palavras.
Lá estão os poemas que esperam ser escritos.
Estão paralisados, mas não há desespero,
há calma e frescura na superfície intata.
Ei-los sós e mudos, em estado de dicionário.
Convive com teus poemas, antes de escrevê-los.
Tem paciência se obscuros. Calma, se te provocam.
Espera que cada um se realize e consume
com seu poder de palavra
e seu poder de silêncio.
Não forces o poema a desprender-se do limbo.
Não colhas no chão o poema que se perdeu.
Não adules o poema. Aceita-o
como ele aceitará sua forma definitiva
e concentrada no espaço.
Chega mais perto e contempla as palavras.
Cada uma tem mil faces secretas sob a face neutra
e te pergunta, sem interesse pela resposta,
pobre ou terrível, que lhe deres:
Trouxeste a chave?
Repara:
ermas de melodia e conceito
elas se refugiaram na noite, as palavras.
Ainda úmidas e impregnadas de sono,
rolam num rio difícil e se transformam em desprezo.
26 de janeiro de 2010
Poema de alagoano
Madorna de Iaiá
Jorge de Lima
Iaiá está na rede de tucum.
A mucama de Iaiá tange os piuns,
Balança a rede,
Canta um lundum
Tão bambo, tão molengo, tão dengoso,
Que Iaiá tem vontade de dormir
Com quem?
Rem-rem.
Que preguiça, que calor!
Iaiá tira a camisa,
Toma aluá
Prende o cocó,
Limpa o suor
Pula pra rede.
Mas que cheiro gostoso tem Iaiá!
Que vontade doida de dormir,,,
Com quem?
Cheiro de mel da casa das caldeiras!
O saguim de Iaiá dorme num coco.
Iaiá ferra no sono
Pende a cabeça,
Abre-se a rede
Como uma ingá.
Para a mucama de cantar,
Tange os piuns,
Cala o ram-rem,
Abre a janela,
Olha o curral:
- um bruto sossego no curral!
Muito longe uma peitica faz si-dó....
Si-dó.....si-dó......si-dó....
Antes que Iaiá corte a madorna
A moleca de Iaiá
Balança a rede,
Tange os piuns,
Canta um lundum
Tão bambo,
Tão molengo,
Tão dengoso,
Que Iaiá sem se acordar,
Se coça,
Se estira
E se abre toda, na rede de tucum.
Sonha com quem?
Jorge de Lima
Iaiá está na rede de tucum.
A mucama de Iaiá tange os piuns,
Balança a rede,
Canta um lundum
Tão bambo, tão molengo, tão dengoso,
Que Iaiá tem vontade de dormir
Com quem?
Rem-rem.
Que preguiça, que calor!
Iaiá tira a camisa,
Toma aluá
Prende o cocó,
Limpa o suor
Pula pra rede.
Mas que cheiro gostoso tem Iaiá!
Que vontade doida de dormir,,,
Com quem?
Cheiro de mel da casa das caldeiras!
O saguim de Iaiá dorme num coco.
Iaiá ferra no sono
Pende a cabeça,
Abre-se a rede
Como uma ingá.
Para a mucama de cantar,
Tange os piuns,
Cala o ram-rem,
Abre a janela,
Olha o curral:
- um bruto sossego no curral!
Muito longe uma peitica faz si-dó....
Si-dó.....si-dó......si-dó....
Antes que Iaiá corte a madorna
A moleca de Iaiá
Balança a rede,
Tange os piuns,
Canta um lundum
Tão bambo,
Tão molengo,
Tão dengoso,
Que Iaiá sem se acordar,
Se coça,
Se estira
E se abre toda, na rede de tucum.
Sonha com quem?
20 de janeiro de 2010
Meus poemas
Antes que tarde
Iremar Marinho
Antes que tarde
sem alarde
tu vens louca
rouca
Em cada porto
(cada povo
que vistes)
sentistes
a vida
exuberante
como era antes
(Teu pecado
ao lado
do meu perdão -
coração
de gelo)
Apelo
à pedra
deste segredo
(degredo
que vivo e vives):
pela vida
exuberante
como era antes
Antes que tarde
Iremar Marinho
Antes que tarde
sem alarde
tu vens louca
rouca
Em cada porto
(cada povo
que vistes)
sentistes
a vida
exuberante
como era antes
(Teu pecado
ao lado
do meu perdão -
coração
de gelo)
Apelo
à pedra
deste segredo
(degredo
que vivo e vives):
pela vida
exuberante
como era antes
Antes que tarde
14 de janeiro de 2010
Lamento pelo Haiti
Iremar Marinho
Ai de ti
Haiti
Ai de ti
IT&T
Este micropoma escrevi há 15 anos,
diante da crise política permanente
no país dos tontons macoutes,
e no rescaldo da exploração multinacional
dos países do terceiro mundo.
Publico agora como lamento
pelas vítimas do terremoto, no Hayti.
Nota: A expressão “Ai de ti, Haiti”
não pertence a nenhum poeta
ou a outra qualquer espécie de criador.
Trata-se de expressão oral comum
de lamento e advertência,
tambémm usada em livros e poemas.
Ai de ti
Haiti
Ai de ti
IT&T
Este micropoma escrevi há 15 anos,
diante da crise política permanente
no país dos tontons macoutes,
e no rescaldo da exploração multinacional
dos países do terceiro mundo.
Publico agora como lamento
pelas vítimas do terremoto, no Hayti.
Nota: A expressão “Ai de ti, Haiti”
não pertence a nenhum poeta
ou a outra qualquer espécie de criador.
Trata-se de expressão oral comum
de lamento e advertência,
tambémm usada em livros e poemas.
3 de janeiro de 2010
Meus poemas
O barqueiro
Iremar Marinho
Sei o perigo que corres, Caronte.
Sei o inevitável do Aqueronte.
Não sei como te salvar.
Um dia não retornarás
do inferno-porto.
Dante perde para sempre Beatriz.
Ofício de Advertência
Iremar Marinho
Cuidado com a bandalheira,
as olheiras!
O poeta revolve o caldo,
o saldo.
O poeta mantém o sentimento,
o pensamento
Contra a máquina que devora
as horas,
Contra o massacre do homem
pelo lobisomem.
O poeta é carbonário,
panfletário.
Cuidado com a cordilheira
da Mantiqueira!
Cuidado com o Santuário
do Rosário!
Cantar cigano para Garcia Lorca
Iremar Marinho
Eu tenho um nacarado no chapéu,
luzindo no profundo azul do céu.
Eu vejo um véu de nardos no bordel,
guardo sonhos do poeta, no papel.
Aura de estrelas iluminando
o bailado de meninas de aluguel.
Luar do sono, quando me acordo,
com a viola, da menina me recordo.
Eu vejo dos cavalos o tropel,
as capas negras, o rufar dos tamboris
Vejo o poeta, nas entrelinhas,
beijando a morte na mirada dos fuzis.
Iremar Marinho
Sei o perigo que corres, Caronte.
Sei o inevitável do Aqueronte.
Não sei como te salvar.
Um dia não retornarás
do inferno-porto.
Dante perde para sempre Beatriz.
Ofício de Advertência
Iremar Marinho
Cuidado com a bandalheira,
as olheiras!
O poeta revolve o caldo,
o saldo.
O poeta mantém o sentimento,
o pensamento
Contra a máquina que devora
as horas,
Contra o massacre do homem
pelo lobisomem.
O poeta é carbonário,
panfletário.
Cuidado com a cordilheira
da Mantiqueira!
Cuidado com o Santuário
do Rosário!
Cantar cigano para Garcia Lorca
Iremar Marinho
Eu tenho um nacarado no chapéu,
luzindo no profundo azul do céu.
Eu vejo um véu de nardos no bordel,
guardo sonhos do poeta, no papel.
Aura de estrelas iluminando
o bailado de meninas de aluguel.
Luar do sono, quando me acordo,
com a viola, da menina me recordo.
Eu vejo dos cavalos o tropel,
as capas negras, o rufar dos tamboris
Vejo o poeta, nas entrelinhas,
beijando a morte na mirada dos fuzis.
27 de dezembro de 2009
Poema de Natal
Carlos Pena Filho
- Sino, claro sino, tocas para quem?
- Para o Deus menino que de longe vem.
- Pois se o encontrares, traze-o ao meu amor.
- E o que lhe ofereces, velho pecador?
- Minha fé cansada, meu vinho, meu pão,
- Meu silêncio limpo, minha solidão.
PENA FILHO, Carlos. Livro Geral - Poemas, Recife, Ed. Liceu, 1999.
- Sino, claro sino, tocas para quem?
- Para o Deus menino que de longe vem.
- Pois se o encontrares, traze-o ao meu amor.
- E o que lhe ofereces, velho pecador?
- Minha fé cansada, meu vinho, meu pão,
- Meu silêncio limpo, minha solidão.
PENA FILHO, Carlos. Livro Geral - Poemas, Recife, Ed. Liceu, 1999.
24 de dezembro de 2009
Poema de Natal
Jorge de Lima
Ó Meu Jesus, quando você
ficar assim maiorzinho
venha para darmos um passeio
que eu também gosto de crianças.
Iremos ver as feras mansas
que há no jardim zoológico.
E em qualquer dia feriado
iremos, então, por exemplo,
ver Cristo Rei do Corcovado.
E quem passar vendo o menino
há de dizer: ali vai o filho
de Nossa Senhora da Conceição!
– Aquele menino que vai ali
(diversos homens logo dirão)
sabe mais coisas que todos nós!
– Bom dia, Jesus! – dirá uma voz.
E outras vozes cochicharão:
– É o belo menino que está no livro
da minha primeira comunhão!
– Como está forte! – Nada mudou!
– Que boa saúde! Que boas cores!
(Dirão adiante outros senhores.)
Mas outra gente de aspecto vário
há de dizer ao ver você:
– É o menino do carpinteiro!
E vendo esses modos de operário
que sai aos domingos para passear,
nos convidarão para irmos juntos
os camaradas visitar.
E quando voltarmos pra casa, à noite,
e forem para o vício os pecadores,
eles sem dúvida me convidarão.
Eu hei de inventar pretextos sutis
pra você me deixar sozinho ir.
Menino Jesus, miserere nobis,
segure com força a minha mão.
Ó Meu Jesus, quando você
ficar assim maiorzinho
venha para darmos um passeio
que eu também gosto de crianças.
Iremos ver as feras mansas
que há no jardim zoológico.
E em qualquer dia feriado
iremos, então, por exemplo,
ver Cristo Rei do Corcovado.
E quem passar vendo o menino
há de dizer: ali vai o filho
de Nossa Senhora da Conceição!
– Aquele menino que vai ali
(diversos homens logo dirão)
sabe mais coisas que todos nós!
– Bom dia, Jesus! – dirá uma voz.
E outras vozes cochicharão:
– É o belo menino que está no livro
da minha primeira comunhão!
– Como está forte! – Nada mudou!
– Que boa saúde! Que boas cores!
(Dirão adiante outros senhores.)
Mas outra gente de aspecto vário
há de dizer ao ver você:
– É o menino do carpinteiro!
E vendo esses modos de operário
que sai aos domingos para passear,
nos convidarão para irmos juntos
os camaradas visitar.
E quando voltarmos pra casa, à noite,
e forem para o vício os pecadores,
eles sem dúvida me convidarão.
Eu hei de inventar pretextos sutis
pra você me deixar sozinho ir.
Menino Jesus, miserere nobis,
segure com força a minha mão.
Soneto de Natal
Machado de Assis
Um homem, — era aquela noite amiga,
Noite cristã, berço no Nazareno, —
Ao relembrar os dias de pequeno,
E a viva dança, e a lépida cantiga,
Quis transportar ao verso doce e ameno
As sensações da sua idade antiga,
Naquela mesma velha noite amiga,
Noite cristã, berço do Nazareno.
Escolheu o soneto... A folha branca
Pede-lhe a inspiração; mas, frouxa e manca,
A pena não acode ao gesto seu.
E, em vão lutando contra o metro adverso,
Só lhe saiu este pequeno verso:
"Mudaria o Natal ou mudei eu?"
(Texto extraído do livro "Poesias Completas - Ocidentais", 1901)
Um homem, — era aquela noite amiga,
Noite cristã, berço no Nazareno, —
Ao relembrar os dias de pequeno,
E a viva dança, e a lépida cantiga,
Quis transportar ao verso doce e ameno
As sensações da sua idade antiga,
Naquela mesma velha noite amiga,
Noite cristã, berço do Nazareno.
Escolheu o soneto... A folha branca
Pede-lhe a inspiração; mas, frouxa e manca,
A pena não acode ao gesto seu.
E, em vão lutando contra o metro adverso,
Só lhe saiu este pequeno verso:
"Mudaria o Natal ou mudei eu?"
(Texto extraído do livro "Poesias Completas - Ocidentais", 1901)
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