Calvário nas ruas de Maceió
Iremar Marinho
Para que matar o Cristo,
todos os anos, nas ruas
de Maceió, como em Gólgota?
Não bastou a imolação?
Cada esquina, uma estação.
Velhas crentes, moços gaios
acompanham ao Calvário
o Cristo sem Cireneu.
A Rua do Sol é nova
Via Sacra: a turba quer
o Cristo crucificar,
sem dó nem apelação,
no Largo do Livramento
(diante do Bar do Chopp).
Mas o Senhor jaz (é morto!)
entre rubros paramentos.
Mourão
Iremar Marinho
Cavalgo potros etéreos,
vaquejando bois postiços,
na fazenda ilusória.
Abro porteiras, mas há
sempre mais terras cercadas
no grande cercado-mundo.
Pastam bois de Vitalino,
passam bois, passa boiada,
passa o cavalo do tempo.
Bate o baque da porteira,
passa o vaqueiro das horas,
passa o destino dos homens.
Minha cidade bovina,
na vaquejada ilusória,
rumina o pasto do gado.
O berro do gado-homem,
no curral do matadouro,
é meu destino cercado.
3 de abril de 2010
19 de março de 2010
Melhores poemas que eu li
UIVO
Allen Ginsberg
Para Carl Solomon
(Trecho inicial)
Eu vi os expoentes de minha geração destruídos pela loucura,
morrendo de fome, histéricos, nus, arrastando-se pelas ruas
do bairro negro de madrugada em busca de uma dose violenta
de qualquer coisa, "hipsters" com cabeça de anjo ansiando
pelo antigo contato celestial com o dínamo estrelado
da maquinaria da noite, que pobres, esfarrapados e olheiras fundas,
viajaram fumando sentados na sobrenatural escuridão dos miseráveis
apartamentos sem água quente, flutuando sobre os tetos das cidades
contemplando jazz, que desnudaram seus cérebros ao céu sob o Elevado
e viram anjos maometanos cambaleando iluminados nos telhados
das casas de cômodos, que passaram por universidades
com os olhos frios e radiantes alucinando Arkansas
e tragédias à luz de William Blake entre os estudiosos da guerra,
que foram expulsos das universidades por serem loucos
e publicarem odes obscenas nas janelas do crânio,
que se refugiaram em quartos de paredes de pintura descascada,
em roupa de baixo, queimando seu dinheiro em cestas de papel,
escutando o Terror através da parede, que foram detidos
em suas barbas públicas voltando por Laredo
com um cinturão de marijuana para Nova York,
que comeram fogo em hotéis mal-pintados
ou beberam terebentina em Paradise Alley,
morreram ou flagelaram seus torsos noite após noite
(Tradução: Cláudio Willer)
Allen Ginsberg
Para Carl Solomon
(Trecho inicial)
Eu vi os expoentes de minha geração destruídos pela loucura,
morrendo de fome, histéricos, nus, arrastando-se pelas ruas
do bairro negro de madrugada em busca de uma dose violenta
de qualquer coisa, "hipsters" com cabeça de anjo ansiando
pelo antigo contato celestial com o dínamo estrelado
da maquinaria da noite, que pobres, esfarrapados e olheiras fundas,
viajaram fumando sentados na sobrenatural escuridão dos miseráveis
apartamentos sem água quente, flutuando sobre os tetos das cidades
contemplando jazz, que desnudaram seus cérebros ao céu sob o Elevado
e viram anjos maometanos cambaleando iluminados nos telhados
das casas de cômodos, que passaram por universidades
com os olhos frios e radiantes alucinando Arkansas
e tragédias à luz de William Blake entre os estudiosos da guerra,
que foram expulsos das universidades por serem loucos
e publicarem odes obscenas nas janelas do crânio,
que se refugiaram em quartos de paredes de pintura descascada,
em roupa de baixo, queimando seu dinheiro em cestas de papel,
escutando o Terror através da parede, que foram detidos
em suas barbas públicas voltando por Laredo
com um cinturão de marijuana para Nova York,
que comeram fogo em hotéis mal-pintados
ou beberam terebentina em Paradise Alley,
morreram ou flagelaram seus torsos noite após noite
(Tradução: Cláudio Willer)
14 de março de 2010
Meus poemas
Réquiem para alma baldia
Iremar Marinho
Divina Pastora guarda
o corpo crivado d’alma
baldada surpreendida
dentro do beco baldio.
Divina Pastora vela
o corpo (saldo esquecido)
na vala da morte balda
(alma de vida evadida).
Divina Pastora guarda
o corpo sem nome d’alma
baldia (vida homônima/
baldada morte sinônima).
Divina Pastora, tende
piedade d’alma baldia
da vida tão descuidada
(baldada vida vadia).
Discurso das pedras
Iremar Marinho
As pedras livres discursam
o seu sermão de dureza:
parábolas de impenetrável
compreensão - uma retórica
de silêncio assustador
As pedras brutas comandam
a mudez do mundo imóvel
(Estão) estáticas e ferem
com o seu verbo profano
Mars Sojourner ou Embolada Sideral
Iremar Marinho
(Para ser lida ou recitada ao som de
“Liz”, do violonista Marco Pereira)
Pé no tempo
pé na estrada
pé na rota das estrelas
pé na poeira do tempo
pé no rastro dos cometas
REFRÃO CORAL
Conluio de meteoros
abraço de girassóis
aconchego de anos-luz
JOGRAL 1
(HALE-BOPP)
Um catafalco de bólidos
para um funeral de luas
JOGRAL 2
(14 BIS)
Nem deuses nem fantasias
Mero homem (oh! quimeras)
feito máquina de avoar
REFRÃO CORAL
Conluio de meteoros,
abraço de girassóis,
aconchego de anos-luz.
Iremar Marinho
Divina Pastora guarda
o corpo crivado d’alma
baldada surpreendida
dentro do beco baldio.
Divina Pastora vela
o corpo (saldo esquecido)
na vala da morte balda
(alma de vida evadida).
Divina Pastora guarda
o corpo sem nome d’alma
baldia (vida homônima/
baldada morte sinônima).
Divina Pastora, tende
piedade d’alma baldia
da vida tão descuidada
(baldada vida vadia).
Discurso das pedras
Iremar Marinho
As pedras livres discursam
o seu sermão de dureza:
parábolas de impenetrável
compreensão - uma retórica
de silêncio assustador
As pedras brutas comandam
a mudez do mundo imóvel
(Estão) estáticas e ferem
com o seu verbo profano
Mars Sojourner ou Embolada Sideral
Iremar Marinho
(Para ser lida ou recitada ao som de
“Liz”, do violonista Marco Pereira)
Pé no tempo
pé na estrada
pé na rota das estrelas
pé na poeira do tempo
pé no rastro dos cometas
REFRÃO CORAL
Conluio de meteoros
abraço de girassóis
aconchego de anos-luz
JOGRAL 1
(HALE-BOPP)
Um catafalco de bólidos
para um funeral de luas
JOGRAL 2
(14 BIS)
Nem deuses nem fantasias
Mero homem (oh! quimeras)
feito máquina de avoar
REFRÃO CORAL
Conluio de meteoros,
abraço de girassóis,
aconchego de anos-luz.
14 de fevereiro de 2010
Poemas Alagoanos - Soneto de Carlos Moliterno
Soneto da Viagem
Carlos Moliterno
Sobre as ondas, afoito, direcionou a quilha
e abriu, venturoso, as velas do veleiro,
que longe havia, além da fantasia, a Ilha
que nele incendiava o astuto timoneiro.
Foi que era Sol na hora da viagem,
pois o poeta, sempre irmão da claridade,
nutria-se, astuto, da luz e da miragem
com as quais teceu a sua eternidade.
Nem tanto o inquietava a hora de chegar:
Antegozava, sim, a vertigem da viagem,
que viver também lhe era parar de navegar,
num dia de tempestade, ou numa noite de luar.
Daí, ter avistado na Ilha uma paragem:
se o continente o entediasse. E precisasse amar!
CARLOS MOLITERNO poeta, jornalista, crítico literário, foi presidente da Academia Alagoana de Letras por seis mandatos consecutivos, autor dos livros Desencontro, Notas Sobre Poesia Moderna em Alagoas e do festejado A Ilha, considerado um clássico da poesia alagoana. Membro do Instituto Histórico e Geográfico de Alagoas, autor da letra do Hino de Maceió, faleceu no dia 19 de maio de 1998, aos 86 anos.
(Post original JAC VERSO&REVERSO http://jac-versoreverso.blogspot.com)
Carlos Moliterno
Sobre as ondas, afoito, direcionou a quilha
e abriu, venturoso, as velas do veleiro,
que longe havia, além da fantasia, a Ilha
que nele incendiava o astuto timoneiro.
Foi que era Sol na hora da viagem,
pois o poeta, sempre irmão da claridade,
nutria-se, astuto, da luz e da miragem
com as quais teceu a sua eternidade.
Nem tanto o inquietava a hora de chegar:
Antegozava, sim, a vertigem da viagem,
que viver também lhe era parar de navegar,
num dia de tempestade, ou numa noite de luar.
Daí, ter avistado na Ilha uma paragem:
se o continente o entediasse. E precisasse amar!
CARLOS MOLITERNO poeta, jornalista, crítico literário, foi presidente da Academia Alagoana de Letras por seis mandatos consecutivos, autor dos livros Desencontro, Notas Sobre Poesia Moderna em Alagoas e do festejado A Ilha, considerado um clássico da poesia alagoana. Membro do Instituto Histórico e Geográfico de Alagoas, autor da letra do Hino de Maceió, faleceu no dia 19 de maio de 1998, aos 86 anos.
(Post original JAC VERSO&REVERSO http://jac-versoreverso.blogspot.com)
31 de janeiro de 2010
Melhores poemas que eu li
Os ombros suportam o mundo
Carlos Drummond de Andrade
Chega um tempo em que não se diz mais: meu Deus.
Tempo de absoluta depuração.
Tempo em que não se diz mais: meu amor.
Porque o amor resultou inútil.
E os olhos não choram.
E as mãos tecem apenas o rude trabalho.
E o coração está seco.
Em vão mulheres batem à porta, não abrirás.
Ficaste sozinho, a luz apagou-se,
mas na sombra teus olhos resplandecem enormes.
És todo certeza, já não sabes sofrer.
E nada esperas de teus amigos.
Pouco importa venha a velhice, que é a velhice?
Teus ombros suportam o mundo
e ele não pesa mais que a mão de uma criança.
As guerras, as fomes,
as discussões dentro dos edifícios
provam apenas que a vida prossegue
e nem todos se libertaram ainda.
Alguns, achando bárbaro o espetáculo
prefeririam (os delicados) morrer.
Chegou um tempo em que não adianta morrer.
Chegou um tempo em que a vida é uma ordem.
A vida apenas, sem mistificação.
Carlos Drummond de Andrade
Chega um tempo em que não se diz mais: meu Deus.
Tempo de absoluta depuração.
Tempo em que não se diz mais: meu amor.
Porque o amor resultou inútil.
E os olhos não choram.
E as mãos tecem apenas o rude trabalho.
E o coração está seco.
Em vão mulheres batem à porta, não abrirás.
Ficaste sozinho, a luz apagou-se,
mas na sombra teus olhos resplandecem enormes.
És todo certeza, já não sabes sofrer.
E nada esperas de teus amigos.
Pouco importa venha a velhice, que é a velhice?
Teus ombros suportam o mundo
e ele não pesa mais que a mão de uma criança.
As guerras, as fomes,
as discussões dentro dos edifícios
provam apenas que a vida prossegue
e nem todos se libertaram ainda.
Alguns, achando bárbaro o espetáculo
prefeririam (os delicados) morrer.
Chegou um tempo em que não adianta morrer.
Chegou um tempo em que a vida é uma ordem.
A vida apenas, sem mistificação.
Melhores poemas que eu li
Procura da Poesia
Carlos Drummond de Andrade
Não faças versos sobre acontecimentos.
Não há criação nem morte perante a poesia.
Diante dela, a vida é um sol estático,
não aquece nem ilumina.
As afinidades, os aniversários,
os incidentes pessoais não contam.
Não faças poesia com o corpo,
esse excelente, completo e confortável corpo,
tão infenso à efusão lírica.
Tua gota de bile, tua careta de gozo
ou de dor no escuro são indiferentes.
Nem me reveles teus sentimentos,
que se prevalecem do equívoco
e tentam a longa viagem.
O que pensas e sentes, isso ainda não é poesia.
Não cantes tua cidade, deixa-a em paz.
O canto não é o movimento das máquinas
nem o segredo das casas.
Não é música ouvida de passagem,
rumor do mar nas ruas junto à linha de espuma.
O canto não é a natureza
nem os homens em sociedade.
Para ele, chuva e noite,
fadiga e esperança nada significam.
A poesia (não tires poesia das coisas)
elide sujeito e objeto.
Não dramatizes, não invoques,
não indagues. Não percas tempo em mentir.
Não te aborreças.
Teu iate de marfim, teu sapato de diamante,
vossas mazurcas e abusões,
vossos esqueletos de família
desaparecem na curva do tempo,
é algo imprestável.
Não recomponhas
tua sepultada e merencória infância.
Não osciles entre o espelho e a
memória em dissipação.
Que se dissipou, não era poesia.
Que se partiu, cristal não era.
Penetra surdamente no reino das palavras.
Lá estão os poemas que esperam ser escritos.
Estão paralisados, mas não há desespero,
há calma e frescura na superfície intata.
Ei-los sós e mudos, em estado de dicionário.
Convive com teus poemas, antes de escrevê-los.
Tem paciência se obscuros. Calma, se te provocam.
Espera que cada um se realize e consume
com seu poder de palavra
e seu poder de silêncio.
Não forces o poema a desprender-se do limbo.
Não colhas no chão o poema que se perdeu.
Não adules o poema. Aceita-o
como ele aceitará sua forma definitiva
e concentrada no espaço.
Chega mais perto e contempla as palavras.
Cada uma tem mil faces secretas sob a face neutra
e te pergunta, sem interesse pela resposta,
pobre ou terrível, que lhe deres:
Trouxeste a chave?
Repara:
ermas de melodia e conceito
elas se refugiaram na noite, as palavras.
Ainda úmidas e impregnadas de sono,
rolam num rio difícil e se transformam em desprezo.
Carlos Drummond de Andrade
Não faças versos sobre acontecimentos.
Não há criação nem morte perante a poesia.
Diante dela, a vida é um sol estático,
não aquece nem ilumina.
As afinidades, os aniversários,
os incidentes pessoais não contam.
Não faças poesia com o corpo,
esse excelente, completo e confortável corpo,
tão infenso à efusão lírica.
Tua gota de bile, tua careta de gozo
ou de dor no escuro são indiferentes.
Nem me reveles teus sentimentos,
que se prevalecem do equívoco
e tentam a longa viagem.
O que pensas e sentes, isso ainda não é poesia.
Não cantes tua cidade, deixa-a em paz.
O canto não é o movimento das máquinas
nem o segredo das casas.
Não é música ouvida de passagem,
rumor do mar nas ruas junto à linha de espuma.
O canto não é a natureza
nem os homens em sociedade.
Para ele, chuva e noite,
fadiga e esperança nada significam.
A poesia (não tires poesia das coisas)
elide sujeito e objeto.
Não dramatizes, não invoques,
não indagues. Não percas tempo em mentir.
Não te aborreças.
Teu iate de marfim, teu sapato de diamante,
vossas mazurcas e abusões,
vossos esqueletos de família
desaparecem na curva do tempo,
é algo imprestável.
Não recomponhas
tua sepultada e merencória infância.
Não osciles entre o espelho e a
memória em dissipação.
Que se dissipou, não era poesia.
Que se partiu, cristal não era.
Penetra surdamente no reino das palavras.
Lá estão os poemas que esperam ser escritos.
Estão paralisados, mas não há desespero,
há calma e frescura na superfície intata.
Ei-los sós e mudos, em estado de dicionário.
Convive com teus poemas, antes de escrevê-los.
Tem paciência se obscuros. Calma, se te provocam.
Espera que cada um se realize e consume
com seu poder de palavra
e seu poder de silêncio.
Não forces o poema a desprender-se do limbo.
Não colhas no chão o poema que se perdeu.
Não adules o poema. Aceita-o
como ele aceitará sua forma definitiva
e concentrada no espaço.
Chega mais perto e contempla as palavras.
Cada uma tem mil faces secretas sob a face neutra
e te pergunta, sem interesse pela resposta,
pobre ou terrível, que lhe deres:
Trouxeste a chave?
Repara:
ermas de melodia e conceito
elas se refugiaram na noite, as palavras.
Ainda úmidas e impregnadas de sono,
rolam num rio difícil e se transformam em desprezo.
26 de janeiro de 2010
Poema de alagoano
Madorna de Iaiá
Jorge de Lima
Iaiá está na rede de tucum.
A mucama de Iaiá tange os piuns,
Balança a rede,
Canta um lundum
Tão bambo, tão molengo, tão dengoso,
Que Iaiá tem vontade de dormir
Com quem?
Rem-rem.
Que preguiça, que calor!
Iaiá tira a camisa,
Toma aluá
Prende o cocó,
Limpa o suor
Pula pra rede.
Mas que cheiro gostoso tem Iaiá!
Que vontade doida de dormir,,,
Com quem?
Cheiro de mel da casa das caldeiras!
O saguim de Iaiá dorme num coco.
Iaiá ferra no sono
Pende a cabeça,
Abre-se a rede
Como uma ingá.
Para a mucama de cantar,
Tange os piuns,
Cala o ram-rem,
Abre a janela,
Olha o curral:
- um bruto sossego no curral!
Muito longe uma peitica faz si-dó....
Si-dó.....si-dó......si-dó....
Antes que Iaiá corte a madorna
A moleca de Iaiá
Balança a rede,
Tange os piuns,
Canta um lundum
Tão bambo,
Tão molengo,
Tão dengoso,
Que Iaiá sem se acordar,
Se coça,
Se estira
E se abre toda, na rede de tucum.
Sonha com quem?
Jorge de Lima
Iaiá está na rede de tucum.
A mucama de Iaiá tange os piuns,
Balança a rede,
Canta um lundum
Tão bambo, tão molengo, tão dengoso,
Que Iaiá tem vontade de dormir
Com quem?
Rem-rem.
Que preguiça, que calor!
Iaiá tira a camisa,
Toma aluá
Prende o cocó,
Limpa o suor
Pula pra rede.
Mas que cheiro gostoso tem Iaiá!
Que vontade doida de dormir,,,
Com quem?
Cheiro de mel da casa das caldeiras!
O saguim de Iaiá dorme num coco.
Iaiá ferra no sono
Pende a cabeça,
Abre-se a rede
Como uma ingá.
Para a mucama de cantar,
Tange os piuns,
Cala o ram-rem,
Abre a janela,
Olha o curral:
- um bruto sossego no curral!
Muito longe uma peitica faz si-dó....
Si-dó.....si-dó......si-dó....
Antes que Iaiá corte a madorna
A moleca de Iaiá
Balança a rede,
Tange os piuns,
Canta um lundum
Tão bambo,
Tão molengo,
Tão dengoso,
Que Iaiá sem se acordar,
Se coça,
Se estira
E se abre toda, na rede de tucum.
Sonha com quem?
20 de janeiro de 2010
Meus poemas
Antes que tarde
Iremar Marinho
Antes que tarde
sem alarde
tu vens louca
rouca
Em cada porto
(cada povo
que vistes)
sentistes
a vida
exuberante
como era antes
(Teu pecado
ao lado
do meu perdão -
coração
de gelo)
Apelo
à pedra
deste segredo
(degredo
que vivo e vives):
pela vida
exuberante
como era antes
Antes que tarde
Iremar Marinho
Antes que tarde
sem alarde
tu vens louca
rouca
Em cada porto
(cada povo
que vistes)
sentistes
a vida
exuberante
como era antes
(Teu pecado
ao lado
do meu perdão -
coração
de gelo)
Apelo
à pedra
deste segredo
(degredo
que vivo e vives):
pela vida
exuberante
como era antes
Antes que tarde
14 de janeiro de 2010
Lamento pelo Haiti
Iremar Marinho
Ai de ti
Haiti
Ai de ti
IT&T
Este micropoma escrevi há 15 anos,
diante da crise política permanente
no país dos tontons macoutes,
e no rescaldo da exploração multinacional
dos países do terceiro mundo.
Publico agora como lamento
pelas vítimas do terremoto, no Hayti.
Nota: A expressão “Ai de ti, Haiti”
não pertence a nenhum poeta
ou a outra qualquer espécie de criador.
Trata-se de expressão oral comum
de lamento e advertência,
tambémm usada em livros e poemas.
Ai de ti
Haiti
Ai de ti
IT&T
Este micropoma escrevi há 15 anos,
diante da crise política permanente
no país dos tontons macoutes,
e no rescaldo da exploração multinacional
dos países do terceiro mundo.
Publico agora como lamento
pelas vítimas do terremoto, no Hayti.
Nota: A expressão “Ai de ti, Haiti”
não pertence a nenhum poeta
ou a outra qualquer espécie de criador.
Trata-se de expressão oral comum
de lamento e advertência,
tambémm usada em livros e poemas.
3 de janeiro de 2010
Meus poemas
O barqueiro
Iremar Marinho
Sei o perigo que corres, Caronte.
Sei o inevitável do Aqueronte.
Não sei como te salvar.
Um dia não retornarás
do inferno-porto.
Dante perde para sempre Beatriz.
Ofício de Advertência
Iremar Marinho
Cuidado com a bandalheira,
as olheiras!
O poeta revolve o caldo,
o saldo.
O poeta mantém o sentimento,
o pensamento
Contra a máquina que devora
as horas,
Contra o massacre do homem
pelo lobisomem.
O poeta é carbonário,
panfletário.
Cuidado com a cordilheira
da Mantiqueira!
Cuidado com o Santuário
do Rosário!
Cantar cigano para Garcia Lorca
Iremar Marinho
Eu tenho um nacarado no chapéu,
luzindo no profundo azul do céu.
Eu vejo um véu de nardos no bordel,
guardo sonhos do poeta, no papel.
Aura de estrelas iluminando
o bailado de meninas de aluguel.
Luar do sono, quando me acordo,
com a viola, da menina me recordo.
Eu vejo dos cavalos o tropel,
as capas negras, o rufar dos tamboris
Vejo o poeta, nas entrelinhas,
beijando a morte na mirada dos fuzis.
Iremar Marinho
Sei o perigo que corres, Caronte.
Sei o inevitável do Aqueronte.
Não sei como te salvar.
Um dia não retornarás
do inferno-porto.
Dante perde para sempre Beatriz.
Ofício de Advertência
Iremar Marinho
Cuidado com a bandalheira,
as olheiras!
O poeta revolve o caldo,
o saldo.
O poeta mantém o sentimento,
o pensamento
Contra a máquina que devora
as horas,
Contra o massacre do homem
pelo lobisomem.
O poeta é carbonário,
panfletário.
Cuidado com a cordilheira
da Mantiqueira!
Cuidado com o Santuário
do Rosário!
Cantar cigano para Garcia Lorca
Iremar Marinho
Eu tenho um nacarado no chapéu,
luzindo no profundo azul do céu.
Eu vejo um véu de nardos no bordel,
guardo sonhos do poeta, no papel.
Aura de estrelas iluminando
o bailado de meninas de aluguel.
Luar do sono, quando me acordo,
com a viola, da menina me recordo.
Eu vejo dos cavalos o tropel,
as capas negras, o rufar dos tamboris
Vejo o poeta, nas entrelinhas,
beijando a morte na mirada dos fuzis.
27 de dezembro de 2009
Poema de Natal
Carlos Pena Filho
- Sino, claro sino, tocas para quem?
- Para o Deus menino que de longe vem.
- Pois se o encontrares, traze-o ao meu amor.
- E o que lhe ofereces, velho pecador?
- Minha fé cansada, meu vinho, meu pão,
- Meu silêncio limpo, minha solidão.
PENA FILHO, Carlos. Livro Geral - Poemas, Recife, Ed. Liceu, 1999.
- Sino, claro sino, tocas para quem?
- Para o Deus menino que de longe vem.
- Pois se o encontrares, traze-o ao meu amor.
- E o que lhe ofereces, velho pecador?
- Minha fé cansada, meu vinho, meu pão,
- Meu silêncio limpo, minha solidão.
PENA FILHO, Carlos. Livro Geral - Poemas, Recife, Ed. Liceu, 1999.
24 de dezembro de 2009
Poema de Natal
Jorge de Lima
Ó Meu Jesus, quando você
ficar assim maiorzinho
venha para darmos um passeio
que eu também gosto de crianças.
Iremos ver as feras mansas
que há no jardim zoológico.
E em qualquer dia feriado
iremos, então, por exemplo,
ver Cristo Rei do Corcovado.
E quem passar vendo o menino
há de dizer: ali vai o filho
de Nossa Senhora da Conceição!
– Aquele menino que vai ali
(diversos homens logo dirão)
sabe mais coisas que todos nós!
– Bom dia, Jesus! – dirá uma voz.
E outras vozes cochicharão:
– É o belo menino que está no livro
da minha primeira comunhão!
– Como está forte! – Nada mudou!
– Que boa saúde! Que boas cores!
(Dirão adiante outros senhores.)
Mas outra gente de aspecto vário
há de dizer ao ver você:
– É o menino do carpinteiro!
E vendo esses modos de operário
que sai aos domingos para passear,
nos convidarão para irmos juntos
os camaradas visitar.
E quando voltarmos pra casa, à noite,
e forem para o vício os pecadores,
eles sem dúvida me convidarão.
Eu hei de inventar pretextos sutis
pra você me deixar sozinho ir.
Menino Jesus, miserere nobis,
segure com força a minha mão.
Ó Meu Jesus, quando você
ficar assim maiorzinho
venha para darmos um passeio
que eu também gosto de crianças.
Iremos ver as feras mansas
que há no jardim zoológico.
E em qualquer dia feriado
iremos, então, por exemplo,
ver Cristo Rei do Corcovado.
E quem passar vendo o menino
há de dizer: ali vai o filho
de Nossa Senhora da Conceição!
– Aquele menino que vai ali
(diversos homens logo dirão)
sabe mais coisas que todos nós!
– Bom dia, Jesus! – dirá uma voz.
E outras vozes cochicharão:
– É o belo menino que está no livro
da minha primeira comunhão!
– Como está forte! – Nada mudou!
– Que boa saúde! Que boas cores!
(Dirão adiante outros senhores.)
Mas outra gente de aspecto vário
há de dizer ao ver você:
– É o menino do carpinteiro!
E vendo esses modos de operário
que sai aos domingos para passear,
nos convidarão para irmos juntos
os camaradas visitar.
E quando voltarmos pra casa, à noite,
e forem para o vício os pecadores,
eles sem dúvida me convidarão.
Eu hei de inventar pretextos sutis
pra você me deixar sozinho ir.
Menino Jesus, miserere nobis,
segure com força a minha mão.
Soneto de Natal
Machado de Assis
Um homem, — era aquela noite amiga,
Noite cristã, berço no Nazareno, —
Ao relembrar os dias de pequeno,
E a viva dança, e a lépida cantiga,
Quis transportar ao verso doce e ameno
As sensações da sua idade antiga,
Naquela mesma velha noite amiga,
Noite cristã, berço do Nazareno.
Escolheu o soneto... A folha branca
Pede-lhe a inspiração; mas, frouxa e manca,
A pena não acode ao gesto seu.
E, em vão lutando contra o metro adverso,
Só lhe saiu este pequeno verso:
"Mudaria o Natal ou mudei eu?"
(Texto extraído do livro "Poesias Completas - Ocidentais", 1901)
Um homem, — era aquela noite amiga,
Noite cristã, berço no Nazareno, —
Ao relembrar os dias de pequeno,
E a viva dança, e a lépida cantiga,
Quis transportar ao verso doce e ameno
As sensações da sua idade antiga,
Naquela mesma velha noite amiga,
Noite cristã, berço do Nazareno.
Escolheu o soneto... A folha branca
Pede-lhe a inspiração; mas, frouxa e manca,
A pena não acode ao gesto seu.
E, em vão lutando contra o metro adverso,
Só lhe saiu este pequeno verso:
"Mudaria o Natal ou mudei eu?"
(Texto extraído do livro "Poesias Completas - Ocidentais", 1901)
21 de dezembro de 2009
Poema de Cícero Melo
Albedo
Cicero Melo
Apenas sou o que cala,
A cicatriz.
Um soco porco que estala
Pela raiz.
Eu sou aquele que entala
Pelo nariz
O vinho tinto da bala,
Escrava, atriz.
Eu sou o falo da fala,
O meretriz.
(Recife, 21 de dezembro de 2009)
Cicero Melo
Apenas sou o que cala,
A cicatriz.
Um soco porco que estala
Pela raiz.
Eu sou aquele que entala
Pelo nariz
O vinho tinto da bala,
Escrava, atriz.
Eu sou o falo da fala,
O meretriz.
(Recife, 21 de dezembro de 2009)
18 de dezembro de 2009
Poemas alagoanos
Noturno em Jaraguá
Norton Sarmento Filho
Night and day, São Jorge, Tabariz,
Rua Sá e Albuquerque, marinheiros gregos,
noruegueses, finlandeses, indianos,
filipinos, etc ..................................
e o porto em frente testemunhando
a devassidão de corpos ébrios –
naufragados de sonhos e erotismo.
Os antigos casarões concupiscentes
eram os eternos coniventes do amor,
e nas suas fesceninas alcovas
eros perpetrou o solitário orgasmo,
no monte de vênus da sedenta meretriz.
Night and Day, São Jorge, Tabariz,
Rua Sá e Albuquerque, marinheiros gregos,
noruegueses, finlandeses, indianos,
filipinos, etc ...................................
e a noite do tempo não passou ainda,
nem o charleston nem o tango, o bolero,
o samba, o rock, o twist, a pop music
e todos os corpos que se amaram
em Jaraguá nightorrentemente.
En memória de César Figueiredo
Héctor Pellizzi
Me duele la noticia de la muerte de Cesar
el petiso que tenía estrellas em la mirada.
Claro y simple, com su bohemia prendida
en el azul de sus manos.
Yo lo recuerdo bajo la noche de Maceió,
en aquel bar, com Wanderley y Marcos Farias,
me acuerdo de la última copa,
de su ultima sonrisa, de sus espaldas doloridas.
Pero más me acuerdo de la primera vez,
quando me dió su libro, e um abrazo
y la borrachera de alegria y de cerveza
que compartimos com Norton
aquel barbado y lúcido alagoano...
Me duele su muerte com puñahales
incomprensibles e se me atraviesa
em la garganta la impotencia
de volver a Maceió y no encontrarlo.
(Escrito pelo poeta argentino em homenagem ao escritor alagoano)
Norton Sarmento Filho
Night and day, São Jorge, Tabariz,
Rua Sá e Albuquerque, marinheiros gregos,
noruegueses, finlandeses, indianos,
filipinos, etc ..................................
e o porto em frente testemunhando
a devassidão de corpos ébrios –
naufragados de sonhos e erotismo.
Os antigos casarões concupiscentes
eram os eternos coniventes do amor,
e nas suas fesceninas alcovas
eros perpetrou o solitário orgasmo,
no monte de vênus da sedenta meretriz.
Night and Day, São Jorge, Tabariz,
Rua Sá e Albuquerque, marinheiros gregos,
noruegueses, finlandeses, indianos,
filipinos, etc ...................................
e a noite do tempo não passou ainda,
nem o charleston nem o tango, o bolero,
o samba, o rock, o twist, a pop music
e todos os corpos que se amaram
em Jaraguá nightorrentemente.
En memória de César Figueiredo
Héctor Pellizzi
Me duele la noticia de la muerte de Cesar
el petiso que tenía estrellas em la mirada.
Claro y simple, com su bohemia prendida
en el azul de sus manos.
Yo lo recuerdo bajo la noche de Maceió,
en aquel bar, com Wanderley y Marcos Farias,
me acuerdo de la última copa,
de su ultima sonrisa, de sus espaldas doloridas.
Pero más me acuerdo de la primera vez,
quando me dió su libro, e um abrazo
y la borrachera de alegria y de cerveza
que compartimos com Norton
aquel barbado y lúcido alagoano...
Me duele su muerte com puñahales
incomprensibles e se me atraviesa
em la garganta la impotencia
de volver a Maceió y no encontrarlo.
(Escrito pelo poeta argentino em homenagem ao escritor alagoano)
13 de dezembro de 2009
Melhores poemas que eu li
Dois e dois são quatro
Ferreira Gullar
Como dois e dois são quatro
Sei que a vida vale a pena
Embora o pão seja caro
E a liberdade pequena
Como teus olhos são claros
E a tua pele, morena
como é azul o oceano
E a lagoa, serena
Como um tempo de alegria
Por trás do terror me acena
E a noite carrega o dia
No seu colo de açucena
- sei que dois e dois são quatro
sei que a vida vale a pena
mesmo que o pão seja caro
e a liberdade pequena.
Ferreira Gullar
Como dois e dois são quatro
Sei que a vida vale a pena
Embora o pão seja caro
E a liberdade pequena
Como teus olhos são claros
E a tua pele, morena
como é azul o oceano
E a lagoa, serena
Como um tempo de alegria
Por trás do terror me acena
E a noite carrega o dia
No seu colo de açucena
- sei que dois e dois são quatro
sei que a vida vale a pena
mesmo que o pão seja caro
e a liberdade pequena.
Melhores poemas que eu li
Mar Portuguez
Fernando Pessoa
Ó mar salgado, quanto do teu sal
São lágrimas de Portugal!
Por te cruzarmos, quantas mães choraram,
Quantos filhos em vão rezaram!
Quantas noivas ficaram por casar
Para que fosses nosso, ó mar!
Valeu a pena? Tudo vale a pena
Se a alma não é pequena.
Quem quer passar além do Bojador
Tem que passar além da dor.
Deus ao mar o perigo e o abismo deu,
Mas nele é que espelhou o céu.
Fernando Pessoa
Ó mar salgado, quanto do teu sal
São lágrimas de Portugal!
Por te cruzarmos, quantas mães choraram,
Quantos filhos em vão rezaram!
Quantas noivas ficaram por casar
Para que fosses nosso, ó mar!
Valeu a pena? Tudo vale a pena
Se a alma não é pequena.
Quem quer passar além do Bojador
Tem que passar além da dor.
Deus ao mar o perigo e o abismo deu,
Mas nele é que espelhou o céu.
4 de dezembro de 2009
Meus poemas
Para Lêdo Ivo ao modo de Sidney Wanderley
Iremar Marinho
Ninguém sai do poema de Lêdo
Sem o mar estético
Sem as várzeas fluidas
Sem as raparigas do Cavalo Morto
Ninguém sai do poema de Lêdo
Sem lama lacustre
Sem dormir com as putas
Dos velhos sobrados
De Jaraguá redivivo
Ninguém sai do poema de Lêdo
Sem o açúcar bruto
Do porão das naves
No porto ancoradas
Iremar Marinho
Ninguém sai do poema de Lêdo
Sem o mar estético
Sem as várzeas fluidas
Sem as raparigas do Cavalo Morto
Ninguém sai do poema de Lêdo
Sem lama lacustre
Sem dormir com as putas
Dos velhos sobrados
De Jaraguá redivivo
Ninguém sai do poema de Lêdo
Sem o açúcar bruto
Do porão das naves
No porto ancoradas
Meus poemas
Moto-poema
Iremar Marinho
Tive um poema
sua forma era
seu vazio-noite
Tive um poema
seu motivo era
seu moto-perene
Tive um poema
que persigo a mim
do fundo do espelho
Tive um poema
que perdi na aura
da morfometase
Tive um poema
de raro segundo
que me esvaiu
Tive um poema
que vida não tive
(um tema-revide)
Iremar Marinho
Tive um poema
sua forma era
seu vazio-noite
Tive um poema
seu motivo era
seu moto-perene
Tive um poema
que persigo a mim
do fundo do espelho
Tive um poema
que perdi na aura
da morfometase
Tive um poema
de raro segundo
que me esvaiu
Tive um poema
que vida não tive
(um tema-revide)
3 de dezembro de 2009
Poema de Cícero Melo
Conspiração das musas, por certo.
Ao levantar-me para caminhar,
hoje, às 5 horas, "enquanto a chaleira
chiava", liguei o computador e abri
este Bestiário e o e-mail, deparando-me
com o aviso lacônico do poeta:
"Nasceu agora. Pode publicar".
Eis aí:
O perfume da ternura
Cicero Melo
Ventos perfumados com
Ternuras vestidas de
Leitos de sedento som.
Amores amargos a me
Dar sombra; passava por
Seios e sonhos, entre
Vargens de velada cor,
Vozes de vinhoso ventre.
Amores voavam, pois
Nos desejos ocos, em
Volta do sonho depois
Do que nada nunca vem.
Ao levantar-me para caminhar,
hoje, às 5 horas, "enquanto a chaleira
chiava", liguei o computador e abri
este Bestiário e o e-mail, deparando-me
com o aviso lacônico do poeta:
"Nasceu agora. Pode publicar".
Eis aí:
O perfume da ternura
Cicero Melo
Ventos perfumados com
Ternuras vestidas de
Leitos de sedento som.
Amores amargos a me
Dar sombra; passava por
Seios e sonhos, entre
Vargens de velada cor,
Vozes de vinhoso ventre.
Amores voavam, pois
Nos desejos ocos, em
Volta do sonho depois
Do que nada nunca vem.
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