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31 de janeiro de 2010

Melhores poemas que eu li

Os ombros suportam o mundo

Carlos Drummond de Andrade

Chega um tempo em que não se diz mais: meu Deus.
Tempo de absoluta depuração.
Tempo em que não se diz mais: meu amor.
Porque o amor resultou inútil.
E os olhos não choram.
E as mãos tecem apenas o rude trabalho.
E o coração está seco.

Em vão mulheres batem à porta, não abrirás.
Ficaste sozinho, a luz apagou-se,
mas na sombra teus olhos resplandecem enormes.
És todo certeza, já não sabes sofrer.
E nada esperas de teus amigos.

Pouco importa venha a velhice, que é a velhice?
Teus ombros suportam o mundo
e ele não pesa mais que a mão de uma criança.
As guerras, as fomes,
as discussões dentro dos edifícios
provam apenas que a vida prossegue
e nem todos se libertaram ainda.
Alguns, achando bárbaro o espetáculo
prefeririam (os delicados) morrer.
Chegou um tempo em que não adianta morrer.
Chegou um tempo em que a vida é uma ordem.
A vida apenas, sem mistificação.

Melhores poemas que eu li

Procura da Poesia

Carlos Drummond de Andrade

Não faças versos sobre acontecimentos.
Não há criação nem morte perante a poesia.
Diante dela, a vida é um sol estático,
não aquece nem ilumina.
As afinidades, os aniversários,
os incidentes pessoais não contam.
Não faças poesia com o corpo,
esse excelente, completo e confortável corpo,
tão infenso à efusão lírica.
Tua gota de bile, tua careta de gozo
ou de dor no escuro são indiferentes.
Nem me reveles teus sentimentos,
que se prevalecem do equívoco
e tentam a longa viagem.
O que pensas e sentes, isso ainda não é poesia.
Não cantes tua cidade, deixa-a em paz.
O canto não é o movimento das máquinas
nem o segredo das casas.
Não é música ouvida de passagem,
rumor do mar nas ruas junto à linha de espuma.
O canto não é a natureza
nem os homens em sociedade.
Para ele, chuva e noite,
fadiga e esperança nada significam.
A poesia (não tires poesia das coisas)
elide sujeito e objeto.
Não dramatizes, não invoques,
não indagues. Não percas tempo em mentir.
Não te aborreças.
Teu iate de marfim, teu sapato de diamante,
vossas mazurcas e abusões,
vossos esqueletos de família
desaparecem na curva do tempo,
é algo imprestável.
Não recomponhas
tua sepultada e merencória infância.
Não osciles entre o espelho e a
memória em dissipação.
Que se dissipou, não era poesia.
Que se partiu, cristal não era.
Penetra surdamente no reino das palavras.
Lá estão os poemas que esperam ser escritos.
Estão paralisados, mas não há desespero,
há calma e frescura na superfície intata.
Ei-los sós e mudos, em estado de dicionário.
Convive com teus poemas, antes de escrevê-los.
Tem paciência se obscuros. Calma, se te provocam.
Espera que cada um se realize e consume
com seu poder de palavra
e seu poder de silêncio.
Não forces o poema a desprender-se do limbo.
Não colhas no chão o poema que se perdeu.
Não adules o poema. Aceita-o
como ele aceitará sua forma definitiva
e concentrada no espaço.
Chega mais perto e contempla as palavras.
Cada uma tem mil faces secretas sob a face neutra
e te pergunta, sem interesse pela resposta,
pobre ou terrível, que lhe deres:
Trouxeste a chave?
Repara:
ermas de melodia e conceito
elas se refugiaram na noite, as palavras.
Ainda úmidas e impregnadas de sono,
rolam num rio difícil e se transformam em desprezo.

26 de janeiro de 2010

Poema de alagoano

Madorna de Iaiá

Jorge de Lima

Iaiá está na rede de tucum.
A mucama de Iaiá tange os piuns,
Balança a rede,
Canta um lundum
Tão bambo, tão molengo, tão dengoso,
Que Iaiá tem vontade de dormir

Com quem?

Rem-rem.

Que preguiça, que calor!
Iaiá tira a camisa,
Toma aluá
Prende o cocó,
Limpa o suor
Pula pra rede.

Mas que cheiro gostoso tem Iaiá!
Que vontade doida de dormir,,,

Com quem?

Cheiro de mel da casa das caldeiras!
O saguim de Iaiá dorme num coco.

Iaiá ferra no sono
Pende a cabeça,
Abre-se a rede
Como uma ingá.

Para a mucama de cantar,
Tange os piuns,
Cala o ram-rem,
Abre a janela,
Olha o curral:
- um bruto sossego no curral!

Muito longe uma peitica faz si-dó....
Si-dó.....si-dó......si-dó....

Antes que Iaiá corte a madorna
A moleca de Iaiá
Balança a rede,
Tange os piuns,
Canta um lundum
Tão bambo,
Tão molengo,
Tão dengoso,
Que Iaiá sem se acordar,
Se coça,
Se estira
E se abre toda, na rede de tucum.

Sonha com quem?

20 de janeiro de 2010

Meus poemas

Antes que tarde

Iremar Marinho

Antes que tarde
sem alarde
tu vens louca
rouca

Em cada porto
(cada povo
que vistes)
sentistes
a vida
exuberante
como era antes

(Teu pecado
ao lado
do meu perdão -
coração
de gelo)

Apelo
à pedra
deste segredo
(degredo
que vivo e vives):

pela vida
exuberante
como era antes
Antes que tarde

14 de janeiro de 2010

Lamento pelo Haiti

Iremar Marinho

Ai de ti
Haiti
Ai de ti
IT&T


Este micropoma escrevi há 15 anos,
diante da crise política permanente
no país dos tontons macoutes,
e no rescaldo da exploração multinacional
dos países do terceiro mundo.
Publico agora como lamento
pelas vítimas do terremoto, no Hayti.


Nota: A expressão “Ai de ti, Haiti”
não pertence a nenhum poeta
ou a outra qualquer espécie de criador.
Trata-se de expressão oral comum
de lamento e advertência,
tambémm usada em livros e poemas.

3 de janeiro de 2010

Meus poemas

O barqueiro

Iremar Marinho

Sei o perigo que corres, Caronte.
Sei o inevitável do Aqueronte.

Não sei como te salvar.

Um dia não retornarás
do inferno-porto.

Dante perde para sempre Beatriz.


Ofício de Advertência

Iremar Marinho

Cuidado com a bandalheira,
as olheiras!

O poeta revolve o caldo,
o saldo.

O poeta mantém o sentimento,
o pensamento

Contra a máquina que devora
as horas,

Contra o massacre do homem
pelo lobisomem.

O poeta é carbonário,
panfletário.

Cuidado com a cordilheira
da Mantiqueira!

Cuidado com o Santuário
do Rosário!


Cantar cigano para Garcia Lorca

Iremar Marinho

Eu tenho um nacarado no chapéu,
luzindo no profundo azul do céu.

Eu vejo um véu de nardos no bordel,
guardo sonhos do poeta, no papel.

Aura de estrelas iluminando
o bailado de meninas de aluguel.

Luar do sono, quando me acordo,
com a viola, da menina me recordo.

Eu vejo dos cavalos o tropel,
as capas negras, o rufar dos tamboris

Vejo o poeta, nas entrelinhas,
beijando a morte na mirada dos fuzis.

27 de dezembro de 2009

Poema de Natal

Carlos Pena Filho

- Sino, claro sino, tocas para quem?
- Para o Deus menino que de longe vem.

- Pois se o encontrares, traze-o ao meu amor.
- E o que lhe ofereces, velho pecador?

- Minha fé cansada, meu vinho, meu pão,
- Meu silêncio limpo, minha solidão.

PENA FILHO, Carlos. Livro Geral - Poemas, Recife, Ed. Liceu, 1999.

24 de dezembro de 2009

Poema de Natal

Jorge de Lima

Ó Meu Jesus, quando você
ficar assim maiorzinho
venha para darmos um passeio
que eu também gosto de crianças.

Iremos ver as feras mansas
que há no jardim zoológico.
E em qualquer dia feriado
iremos, então, por exemplo,
ver Cristo Rei do Corcovado.

E quem passar vendo o menino
há de dizer: ali vai o filho
de Nossa Senhora da Conceição!

– Aquele menino que vai ali
(diversos homens logo dirão)
sabe mais coisas que todos nós!
– Bom dia, Jesus! – dirá uma voz.

E outras vozes cochicharão:
– É o belo menino que está no livro
da minha primeira comunhão!

– Como está forte! – Nada mudou!
– Que boa saúde! Que boas cores!
(Dirão adiante outros senhores.)

Mas outra gente de aspecto vário
há de dizer ao ver você:
– É o menino do carpinteiro!

E vendo esses modos de operário
que sai aos domingos para passear,
nos convidarão para irmos juntos
os camaradas visitar.

E quando voltarmos pra casa, à noite,
e forem para o vício os pecadores,
eles sem dúvida me convidarão.

Eu hei de inventar pretextos sutis
pra você me deixar sozinho ir.
Menino Jesus, miserere nobis,
segure com força a minha mão.

Soneto de Natal

Machado de Assis

Um homem, — era aquela noite amiga,
Noite cristã, berço no Nazareno, —
Ao relembrar os dias de pequeno,
E a viva dança, e a lépida cantiga,

Quis transportar ao verso doce e ameno
As sensações da sua idade antiga,
Naquela mesma velha noite amiga,
Noite cristã, berço do Nazareno.

Escolheu o soneto... A folha branca
Pede-lhe a inspiração; mas, frouxa e manca,
A pena não acode ao gesto seu.

E, em vão lutando contra o metro adverso,
Só lhe saiu este pequeno verso:
"Mudaria o Natal ou mudei eu?"

(Texto extraído do livro "Poesias Completas - Ocidentais", 1901)

21 de dezembro de 2009

Poema de Cícero Melo

Albedo

Cicero Melo

Apenas sou o que cala,
A cicatriz.
Um soco porco que estala
Pela raiz.

Eu sou aquele que entala
Pelo nariz
O vinho tinto da bala,
Escrava, atriz.

Eu sou o falo da fala,
O meretriz.

(Recife, 21 de dezembro de 2009)

18 de dezembro de 2009

Poemas alagoanos

Noturno em Jaraguá

Norton Sarmento Filho

Night and day, São Jorge, Tabariz,
Rua Sá e Albuquerque, marinheiros gregos,
noruegueses, finlandeses, indianos,
filipinos, etc ..................................
e o porto em frente testemunhando
a devassidão de corpos ébrios –
naufragados de sonhos e erotismo.

Os antigos casarões concupiscentes
eram os eternos coniventes do amor,
e nas suas fesceninas alcovas
eros perpetrou o solitário orgasmo,
no monte de vênus da sedenta meretriz.

Night and Day, São Jorge, Tabariz,
Rua Sá e Albuquerque, marinheiros gregos,
noruegueses, finlandeses, indianos,
filipinos, etc ...................................
e a noite do tempo não passou ainda,
nem o charleston nem o tango, o bolero,
o samba, o rock, o twist, a pop music
e todos os corpos que se amaram
em Jaraguá nightorrentemente.


En memória de César Figueiredo

Héctor Pellizzi

Me duele la noticia de la muerte de Cesar
el petiso que tenía estrellas em la mirada.
Claro y simple, com su bohemia prendida
en el azul de sus manos.

Yo lo recuerdo bajo la noche de Maceió,
en aquel bar, com Wanderley y Marcos Farias,
me acuerdo de la última copa,
de su ultima sonrisa, de sus espaldas doloridas.

Pero más me acuerdo de la primera vez,
quando me dió su libro, e um abrazo
y la borrachera de alegria y de cerveza
que compartimos com Norton
aquel barbado y lúcido alagoano...

Me duele su muerte com puñahales
incomprensibles e se me atraviesa
em la garganta la impotencia
de volver a Maceió y no encontrarlo.

(Escrito pelo poeta argentino em homenagem ao escritor alagoano)

13 de dezembro de 2009

Melhores poemas que eu li

Dois e dois são quatro

Ferreira Gullar

Como dois e dois são quatro
Sei que a vida vale a pena
Embora o pão seja caro
E a liberdade pequena

Como teus olhos são claros
E a tua pele, morena
como é azul o oceano
E a lagoa, serena

Como um tempo de alegria
Por trás do terror me acena
E a noite carrega o dia
No seu colo de açucena

- sei que dois e dois são quatro
sei que a vida vale a pena
mesmo que o pão seja caro
e a liberdade pequena.

Melhores poemas que eu li

Mar Portuguez

Fernando Pessoa

Ó mar salgado, quanto do teu sal
São lágrimas de Portugal!
Por te cruzarmos, quantas mães choraram,
Quantos filhos em vão rezaram!
Quantas noivas ficaram por casar
Para que fosses nosso, ó mar!

Valeu a pena? Tudo vale a pena
Se a alma não é pequena.
Quem quer passar além do Bojador
Tem que passar além da dor.
Deus ao mar o perigo e o abismo deu,
Mas nele é que espelhou o céu.

4 de dezembro de 2009

Meus poemas

Para Lêdo Ivo ao modo de Sidney Wanderley

Iremar Marinho

Ninguém sai do poema de Lêdo
Sem o mar estético
Sem as várzeas fluidas
Sem as raparigas do Cavalo Morto

Ninguém sai do poema de Lêdo
Sem lama lacustre
Sem dormir com as putas
Dos velhos sobrados
De Jaraguá redivivo

Ninguém sai do poema de Lêdo
Sem o açúcar bruto
Do porão das naves
No porto ancoradas

Meus poemas

Moto-poema

Iremar Marinho

Tive um poema
sua forma era
seu vazio-noite

Tive um poema
seu motivo era
seu moto-perene

Tive um poema
que persigo a mim
do fundo do espelho

Tive um poema
que perdi na aura
da morfometase

Tive um poema
de raro segundo
que me esvaiu

Tive um poema
que vida não tive
(um tema-revide)

3 de dezembro de 2009

Poema de Cícero Melo

Conspiração das musas, por certo.
Ao levantar-me para caminhar,
hoje, às 5 horas, "enquanto a chaleira
chiava", liguei o computador e abri
este Bestiário e o e-mail, deparando-me
com o aviso lacônico do poeta:
"Nasceu agora. Pode publicar".
Eis aí:

O perfume da ternura

Cicero Melo

Ventos perfumados com
Ternuras vestidas de
Leitos de sedento som.
Amores amargos a me
Dar sombra; passava por
Seios e sonhos, entre
Vargens de velada cor,
Vozes de vinhoso ventre.
Amores voavam, pois
Nos desejos ocos, em
Volta do sonho depois
Do que nada nunca vem.

1 de dezembro de 2009

Poemas de Cícero Melo

O poeta Cícero Melo, alagoano de União dos Palmares,
radicado no Recife, é, sem favor algum, um dos fortes
poetas em atividade em Pernambuco.

Como genuíno artista da palavra, nada tem de vulgar,
nada concede ao fácil. Com ele renova-se o nosso
melhor lirismo — em imagens, em musicalidade,
em domínio de técnica.

Sob esse último aspecto,
é visível seu gosto pela métrica e de extremo
bom senso o uso do verso livre com o necessário
rigor que este merece.

Foi o que fez desde mais jovem para abrir clareiras
à melopeia que permeia a sua poesia.
Ler e reler a poesia desse poeta tão inteligente
quanto avesso à chamada “vida literária”
é um permanente prazer. Vejam fragmentos
de seus livros Poemas da Escuridão
e O Verbo Sitiado, publicados
pelas Edições Bagaço, no Recife.

(Quem é esse que traz os pés cativos
À sentença de acasos e de meses,
Vago morto que aprende com os vivos?
Quem é esse de sonhos insepulto?)
Me perguntaram e neguei três vezes
Que era eu mesmo pelo mundo oculto.


Vênus Furiosa

A semente do amor rebenta a chama
E transita de novo o ser amado.
Ardor de mar sem foz, torpor alado.

Mas se Eros te foge, o amor reclama.

É sedosa a casa de quem ama
E sedento o jardim do seu cuidado.


Moldura

Desce rumo à infância
A morte despertada.
Pó e pesadelo
Nunca envelhecem.


Todos os pintassilgos morrerão

Todos os pintassilgos morrerão.
Morrerão todos os cantares.
Todos luminares morrerão.
Cegarão todos os olhos.
Todos os ossos secarão.
Ninguém se evadirá:
Todos serão sequestrados.

Esta é a cruz calcificaada
Em todas as mentes e margens.

Todos os pintassilgos morrerão.
Morrerão todos os monarcas.
Todas as menarcas cessarão.
Matarão todos os morgues.
Todos os morbos medrarão.
Não haverá anistia:
Todos serão executados.

Amarga fotografia enforcada na insônia...

24 de novembro de 2009

Melhores poemas que eu li

Tecendo a Manhã

João Cabral de Melo Neto

1

Um galo sozinho não tece uma manhã:
ele precisará sempre de outros galos.
De um que apanhe esse grito que ele
e o lance a outro; de um outro galo
que apanhe o grito de um galo antes
e o lance a outro; e de outros galos
que com muitos outros galos se cruzem
os fios de sol de seus gritos de galo,
para que a manhã, desde uma teia tênue,
se vá tecendo, entre todos os galos.

2

E se encorpando em tela, entre todos,
se erguendo tenda, onde entrem todos,
se entretendendo para todos, no toldo
(a manhã) que plana livre de armação.
A manhã, toldo de um tecido tão aéreo
que, tecido, se eleva por si: luz balão.

(A Educação pela Pedra)

18 de novembro de 2009

Quilombo Brasil

Iremar Marinho

"Faremos um povo de igual rebeldia.
Faremos um povo de bantus iguais.
Faremos de todos os lares fraternas senzalas sem mais.
Faremos a negra utopia do novo Palmares..."
(Missa dos Quilombos, Dom Pedro Casaldáliga, Pedro Tierra e Milton Nascimento)

"Zumbi poderia salvar Palmares, mas já não tenho esperanças".
Esta confissão de desesperança do professor palmarino Dílson Moreira da Costa, na comemoração dos 300 anos de Zumbi, acentuou a expectativa dos afrodescendentes, no vasto quilombo Brasil.

Precisamos esperar 300 anos para ouvir ecoar o grito de Palmares e constatar que a senzala resiste, diante dos quilombolas dispersos. O sistema econômico injusto é nada mais que a oficialização do regime de capatazia, que perpetua a escravidão dos baixos salários, do analfabetismo e da discriminação.

Os mesmos senhores feudais concentram as riquezas, alargando o fosso das diferenças entre as origens nobres européias e o porão dos navios negreiros. A abolição da escravatura não inclui a abolição da fome, da miséria e do preconceito. A servidão das senzalas continuou nas favelas, que são guetos à espera da libertação.

O apartheid brasileiro é ainda mais avassalador, porque lança seus fundamementos perversos na história oficial do país, para a qual a resistência quilombola foi apenas um episódio romântico e heróico, repassado com a perspectiva de que não se repetiria hoje, por não existirem mais os pressupostos da escravidão.

A própria comemoração dos 300 anos de Palmares soou como mais um embuste para encobrir as causas e os efeitos do massacre dos negros, aliado à perenização das desigualdades econômicas, políticas e sociais. Uma faixa, na estátua de Zumbi, no alto da Serra da Barriga, demonstra a traição da história: “Aqui repousa um grande herói do passado”.

Ora, Zumbi é um herói do passado, mas, sobretudo, do presente. Zumbi é o assalariado, o favelado, os humilhados e ofendidos, os sem-eira-nem-beira, os deserdados do Brasil que só existe nas estatísticas da prosperidade. Zumbi somos todos nós, anônimos, nos mocambos do vasto quilombo Brasil.
“Ninguém quer esta vida assim não, Zambi” (Martinho da Vila).

14 de novembro de 2009

Meus poemas

O mundo impossível dos meninos

Iremar Marinho

“Ó terra em que nasci e morri,
o seu Mundaú, suas lagoas,
minha mocidade.”

(Jorge de Lima)

Poeta Jorge de Lima,
universal e tão próximo.
Na invenção da infância,
criamos o mesmo mundo
impossível dos meninos.

Nós percorremos a mesma
Cidade da Madalena
(ex-Vila da Imperatriz),
o nosso burgo natal):

Rua da Apertada Hora,
Rua do Jatobazinho;
a Rua da Cachoeira,
a Rua do Virador,

Rua da Matança Velha,
Rua do Boi, do Carvão,
Rego da Guida, Pedreiras,
Rua do Consome Homem.

Sou da Rua do Cangote.
És do Largo da Matriz
(da esquina do Comércio,
olhando a Rua de Cima).

Nós passeamos a esmo
pelos “caminhos que ainda
têm orvalhos e sonâmbulos
bacuraus”, “ninhos suspensos”.

Vagueamos no Cruzeiro
do Século, no Jatobá,
no Sueca, no Bolão,
Tobiba, Terra-Cavada,

lá no Fundo do Surrão,
Brejo do Capim, Muquém,
no Cafuxi, Amolar,
no Caboje, na Jurema,

Várzea Grande, Mão Direita,
Cana Brava, Sapucaia,
no Caípe, no Mocambo,
no Ximenes, no Cajá,

no Riachão, nos Esconsos,
Serra Grande das Canoas,
Serras do Frio, da Laje,
da Barriga (do Quilombo).

Tomamos banho no mesmo
Mundaú, das “lavadeiras
seminuas “, curiosos
de ver aquelas “mocinhas
nuinhas, de pé... com frio...”

Na mesma feira de sábado
(eu me perdi do meu pai),
fostes guia da menina
cega que pedia esmolas.

Na estrada Great Western
(“balduínas sonolentas”),
os meninos de “alma lírica”
aprenderam ver paisagem.

Nossos mundos impossíveis
unem-se pelas lembranças
indeléveis como nódoas
nas almas destes meninos.

Eu te peço por empréstimo
tuas raízes (são nossas)
para deixá-las plantadas
para sempre na União.

Empresta-me teu sublime
Acendedor de Lampiões.
Empresta-me Santa Dica.
Empresta-me Pai João.

Empresta-me Quichimbi.
Empresta-me Janaína.
Tua Mulher Proletária.
Empresta-me Negra Fulô.

Só não tomo por empréstimo
tua grandeza de poeta
universal. Minha dívida
contigo é muito grande.

Dever-te-ei para sempre.