24 de outubro de 2014
5 de setembro de 2014
Poemas de Cicero Melo
V TAVERNA ALÉM
Cicero Melo
Como o tempo corre e cansa
no relógio do meu peito:
Hoje eu sou uma criança,
ontem era um homem feito.
Como o tempo recupera
os outros tempos do sonho,
o longo quintal da espera
do menino que reponho.
Sou menino recomposto
de tempo, sonho e enfado.
Nas tendas de um rei deposto
todo o presente é passado
no relógio do meu peito:
Hoje eu sou uma criança,
ontem era um homem feito.
Como o tempo recupera
os outros tempos do sonho,
o longo quintal da espera
do menino que reponho.
Sou menino recomposto
de tempo, sonho e enfado.
Nas tendas de um rei deposto
todo o presente é passado
A TERCEIRA PELE
Cicero Melo
Procuro a carne da palavra adusta,
Aquela que insorvida se consome,
Aquela cujo selo cai à fronte
Das palavras irmãs e se incrusta
Nas pedras da razão, no verbo nômade,
No dedilhar de febres e de angústias,
No delírio senil da sombra rústica,
Longa noite de sal e medo insone.
Procuro a carne da palavra augusta,
Aquela que se eleve e se prolongue
Em mistério sutil, sedosa e onde
Repouse mar, celebração e bússola.
Procuro a carne da palavra morta
Que se aviva, me bate e me conforta.
Aquela que insorvida se consome,
Aquela cujo selo cai à fronte
Das palavras irmãs e se incrusta
Nas pedras da razão, no verbo nômade,
No dedilhar de febres e de angústias,
No delírio senil da sombra rústica,
Longa noite de sal e medo insone.
Procuro a carne da palavra augusta,
Aquela que se eleve e se prolongue
Em mistério sutil, sedosa e onde
Repouse mar, celebração e bússola.
Procuro a carne da palavra morta
Que se aviva, me bate e me conforta.
A MOTIVAÇÃO ROSA
Cicero Melo
O que motiva essa rosa
além da acesa ternura,
senão o rubro que dosa
minha paixão e loucura?
O que teceu essa dor
que rosa essa rosa ativa,
senão os ventos do amor
em minha face cativa?
Casta rosa, que neblina
a rama de amar me tosa!
Vem cintilante assassina!
Rosa rosa rosa rosa!
além da acesa ternura,
senão o rubro que dosa
minha paixão e loucura?
O que teceu essa dor
que rosa essa rosa ativa,
senão os ventos do amor
em minha face cativa?
Casta rosa, que neblina
a rama de amar me tosa!
Vem cintilante assassina!
Rosa rosa rosa rosa!
PSIQUÊ
Cicero Melo
Asas desnudas, sempre ao som do outono,
lasciva à sombra, tecelã sem véu;
silvestre acende de fragrância, um céu
aos deuses ébrios, frenesi de sono.
Perfumes, poros, cortesãos sem dono,
O púbis plúvio, reiterado réu.
Eros inflama junto ao peito ao léu
os caminhos sedosos do abandono.
O botão da manhã enfarta a flor.
A alegria projeta a sombra rosa
nos doces sítios em que repousa amor.
E despertas, paisagem deleitosa,
os orgasmos finais de luz e ardor
da borboleta ao vento, incestuosa.
silvestre acende de fragrância, um céu
aos deuses ébrios, frenesi de sono.
Perfumes, poros, cortesãos sem dono,
O púbis plúvio, reiterado réu.
Eros inflama junto ao peito ao léu
os caminhos sedosos do abandono.
O botão da manhã enfarta a flor.
A alegria projeta a sombra rosa
nos doces sítios em que repousa amor.
E despertas, paisagem deleitosa,
os orgasmos finais de luz e ardor
da borboleta ao vento, incestuosa.
O GOLEM
Cicero Melo
Guardo o poema da Criação
E as faces dos deuses
Em minha memória de argila
E nudez primogênita.
O primeiro vento deu-me o espaço,
com corpos celestiais,
e uma casa.
O segundo, o tempo e o nada.
E as faces dos deuses
Em minha memória de argila
E nudez primogênita.
O primeiro vento deu-me o espaço,
com corpos celestiais,
e uma casa.
O segundo, o tempo e o nada.
16 de agosto de 2014
Três poemas de Fernando Fiúza
Maceiota
Fernando
Fiúza
Onde Mangabeiras,
ora cimenteira, concreteira, vidraceiral;
onde Poço,
sempre um córrego podre;
onde Farol,
ora candeias furando o escuro
(como de resto o país);
onde Ponta Verde,
ora ponta pardo-fumê;
onde Jatiúca,
ora baldio balneário
emporcalhado de sobras
de pão e plástico;
onde Centro,
hoje roída franja
quarada de deambulantes;
onde mirantes,
hoje monturos;
onde menina acanhada,
hoje putinha assanhada, cartãodescreditada.
Do
livro Alagoado (2008)
Novelo
Fernando
Fiúza
Não se entra a soco no jardim da musa:
uma ponta de faca sai da porta
na direção da sua mão que confusa
já não sabe se escreve ou se se corta.
Sossega, deixa o verso aparecer
– agulha de sol na poça de chuva
incide na moeda que fissura
teus olhos tão cansados de beber.
Bem sei que toda insônia é pesadelo;
levanta, rega as plantas, faz um chá,
acende outro cigarro, vai no espelho
– Teus olhos tão cansados de chorar –
e o verso desce às cordas num novelo
feito de sangue e nuvem, devagar.
Do
livro O Vazio e a Rocha (1992)
Palavras
do Vento
Fernando
Fiúza
Levo o que posso, o que não, quebro, tenho remorso,
volto, faço-me fresca, assobio na janela e dou golpes mortais. Sou como Deus:
sabe-se que existo, mas ninguém me vê, só o que animo até a destruição – pela
tosse, pela água, pelo fogo – de tudo que tomba e voa. Cachorro da moléstia,
mordo o homem e o que ele fez – de um penteado ligeiro ao Coliseu. Folheio
livros, mas prefiro jornais, na rua ou no deserto. Gosto muito de pó, de entranhá-lo
na pele, nas ventas do cavalo corredor e na cabeça das mulheres vazias; também
gosto de bandeiras, de dar vida às cores fazendo-as tremer. A água quis me peitar,
mas sendo fêmea e boa de ver, corria contra o tempo – cruel com tudo que é
belo. Um dia aqui, outro amanhã e nada restará sobre a Terra, só eu, sonhando
com o vácuo, lembrando a febre dos homens, a foda entre as flores e as palavras
que levava quando havia primavera.”
7 de junho de 2014
Poemas de Jacinta Passos
Cantigas das mães
Jacinta Passos
(para minha mãe)
Fruto quando
amadurece
cai das
árvores no chão,
e filho
depois que cresce
não é mais
da gente, não.
Eu tive
cinco filhinhos
e hoje
sozinha estou.
Não foi a
morte, não foi,
oi!
foi a vida
que roubou.
Tão lindos,
tão pequeninos,
como
cresceram depressa,
antes
ficassem meninos
os filhos do
sangue meu,
que meu
ventre concebeu,
que meu
leite alimentou.
Não foi a
morte, não foi,
oi!
foi a vida
que roubou.
Muitas vidas
a mãe vive.
Os cinco
filhos que tive
por cinco
multiplicaram
minha dor,
minha alegria.
Viver de
novo eu queria
pois já hoje
mãe não sou.
Não foi a
morte, não foi,
oi!
foi a vida
que roubou.
Foram viver
seus destinos,
sempre,
sempre foi assim.
Filhos
juntinhos de mim,
Berço, riso,
coisas puras,
briga,
estudos, travessuras,
tudo isso já
passou.
Não foi a
morte, não foi,
oi!
foi a vida
que roubou.
Do livro Nossos poemas, Salvador: A
Editora Bahiana, 1942
Canção da alegria
Jacinta Passos
Urupemba
urupemba
mandioca
aipim!
peneirar
peneirou
que restou
no fim?
Peneira
massa peneira,
peneira
peneiradinha,
(Ai! vida
tão peneirada)
peneira
nossa farinha.
Olhe o rombo
olhe o rombo
olhe o rombo
arrombou!
olhe o cisco
olhe o risco
urupemba
furou!
Eh! sai
espantalho
da ponta do
galho!
Escorra!
Escorra!
Tirai essa
borra!
Urupemba
urupemba
mandioca
aipim!
peneirar
peneirou
que restou
no fim?
Farinha
fininha
peneiradinha!
Ai! vida,
que vida
nuinha!
nuinha!
Diálogo na sombra
Jacinta Passos
– Que
dissestes, meu bem?
Esse gosto.
Donde será
que ele vem?
Corpo
mortal.
Águas
marinhas.
Virá da
morte ou do sal?
Esses dois
que moram no fundo e no fim.
– De quem
falas amor, do mar ou de mim?
Do livro Canção da partida, S. Paulo,
Edições Gaveta, 1945
Canção atual
Jacinta Passos
Plantei meus
pés foi aqui
amor, neste
chão.
Não quero a
rosa do tempo
aberta
nem o cavalo
de nuvem
não quero
as tranças
de Julieta.
Este chão já
comeu coisa
tanta que eu
mesma nem sei,
bicho
pedra
lixo
lume
muita cabeça
de rei.
Muita cidade
madura
e muito
livro da lei.
Quanto deus
caiu do céu
tanto riso
neste chão,
fala de
servo calado
pisado
soluço de
multidão.
Coisas de
nome trocado
– fome e
guerra, amor e medo –
Tanta dor de
solidão.
Muito
segredo guardado
aqui dentro
deste chão.
Coisa até
que ninguém viu
ai! tanta
ruminação
quanto
sangue derramado
vai
crescendo deste chão.
Não quero a
sina de Deus
nem a que
trago na mão.
Plantei meus
pés foi aqui
amor, neste
chão.
Canção do amor livre
Jacinta Passos
Se me
quiseres amar
não despe
somente a roupa.
Eu digo:
também a crosta
feita de
escamas de pedra
e limo
dentro de ti,
pelo sangue
recebida
tecida
de medo e
ganância má.
Ar de
pântano diário
nos pulmões.
Raiz de
gestos legais
e limbo do
homem só
numa ilha.
Eu digo:
também a crosta
essa que a
classe gerou
vil,
tirânica, escamenta.
Se me
quiseres amar.
Agora teu
corpo é fruto.
Peixe e
pássaro, cabelos
de fogo e
cobre. Madeira
e água
deslizante, fuga
ai rija
cintura de
potro bravo.
Teu corpo.
Relâmpago
depois repouso
sem memória,
noturno.
O rio
Jacinta Passos
Tantos rios
como eu abriram leito de pedras
e pranto. Um
dia perguntávamos:
– Dizei-me,
curva, onde vou? casa trono rocha sois
aqueles que
ficam, minha lei é não parar. Sigo
fio de água,
água humilde sou, para onde? Ó curva,
falai. Água
de revolta, espuma e ódio nos poros
na garganta
no útero, pranto de mulher, água
de fel
antigo, quem é meu semelhante? Dizei, onde vou?
Leito de
pedras e pranto. Súbito, próximo,
Atravessou,
olhai, ele!
ali na
frente, vivo, tão vivo,
ele sim! o
rio das águas inúmeras. Correi
doçuras e
dores, punhos, Partido, esperança nossa…
1935
Jacinta Passos
Tenso como
rede de nervos
pressentindo
ah! novembro
de esperança
e precipício.
Fruto peco.
Novembro de
sangue e de heróis.
Grito de
assombro morto na garganta,
soluço seco
dor sem nome. Ferido.
De morte
ferido. Como um animal ferido. Luta
de entranhas
e dentes. Natal.
Sangue.
Praia Vermelha.
Sangue.
Sangue. É
quase um fio
escorrendo
sangrento
tenaz
por dentro
dos cárceres,
nas ilhas
e nos
corações que a esperança guardaram.
Do livro Poemas políticos, Rio de
Janeiro: Livraria-Editora Casa do Estudante do Brasil, 1951
Uma vida tumultuada - Biografia
A baiana Jacinta Passos nasceu em Cruz das Almas, na região do Recôncavo da Bahia, em 1914, filha de Berila Eloy e Manuel Caetano da Rocha Passos, pertencentes a famílias tradicionais da região, muito católicas. Seu avô paterno, Themístocles da Rocha Passos, duas vezes Senador na Província (depois Estado) da Bahia, é hoje nome da principal praça da cidade. Seu pai, também político, foi eleito deputado estadual quatro vezes, as duas últimas pela UDN.
Jacinta passou a infância entre o núcleo urbano de Cruz das Almas e a fazenda Campo Limpo, de propriedade do pai, onde nascera e morava com a família, mergulhada na cultura do fumo, das tradições africanas e das canções infantis que marcariam sua poesia. Após a transferência da família para Salvador, cursou a Escola Normal, onde se formou com láurea. Trabalhou como professora de matemática, dando aulas particulares e, depois, na prestigiosa Escola Normal onde se formara. Nessa época, era muito religiosa. Praticava a religião com uma entrega total, dedicando-se com fervor e buscando uma união profunda e direta com Deus.
Desde o final da década de 1920 escrevia poemas, em geral de conteúdo religioso. Nos anos 30, ao lado do irmão, o estudante de medicina e também poeta Manoel Caetano Filho, participou de círculos e grupos literários de Salvador, como a Ala das Letras e das Artes (ALA), chefiada pelo crítico Carlos Chiacchio. Seus poemas começaram a circular entre os intelectuais da cidade. Continuava religiosa, mas, à medida que o tempo passava, sua religiosidade ia adquirindo conteúdo social e militante.
A partir da eclosão da Segunda Guerra Mundial, em 1939, envolveu-se fortemente com política. Ao lado do irmão, assumiu posições públicas e participou de movimentos a favor da paz mundial e do final da ditadura do Estado Novo. Denunciou as opressões que pesavam sobre as mulheres, defendendo mudanças imediatas na condição feminina. Continuava católica, porém cada vez mais afastada das posições ortodoxas da Igreja.
Após a entrada do Brasil na guerra, em 1942, participou intensamente da luta antinazista e antifascista, envolvendo-se com grupos de esquerda. Tornou-se também uma ativa jornalista, escrevendo sobre temáticas sobretudo sociais. Foi uma das poucas mulheres da Bahia, à época, a assumir posições políticas públicas e a desenvolver uma intensa e regular atividade jornalística, publicando artigos e poesias no jornal O Imparcial e na revista cultural Seiva. Publicou semanalmente em O Imparcial uma “Página Feminina”, que ampliava muito os assuntos habitualmente reservados às mulheres, introduzindo discussões políticas e literárias.
Jacinta alargou seus contatos literários, dedicando-se com afinco à poesia. Em 1942, publicou o livro Nossos poemas (Salvador, A Editora Bahiana), cuja primeira parte, "Momentos de Poesia", contém poemas seus, enquanto a segunda, "Mundo em Agonia", reúne poemas do irmão, Manoel Caetano Filho. O volume mereceu boas críticas na imprensa, firmando os nomes dos dois poetas no meio intelectual baiano.
Jacinta Passos tornou-se amiga de intelectuais comunistas, como Jorge Amado, que no final de 1942 retornara à Bahia, aprofundando a participação em movimentos sociais e feministas. Nessa época, abandonou o catolicismo.
Mudou-se em 1944 para São Paulo, onde se casou com o jornalista e escritor James Amado. No ano seguinte, publicou seu segundo livro, Canção da Partida (São Paulo, Edições Gaveta), contendo dezoito poemas, três transcritos do livro anterior. A edição, extremamente bem cuidada, foi de apenas duzentos exemplares, numerados e assinados pela autora e ilustrados pelo grande artista Lasar Segall. Canção da Partida recebeu críticas muito elogiosas de intelectuais expressivos como Aníbal Machado, Antonio Candido, Gabriela Mistral, José Geraldo Vieira, Mário de Andrade, Roger Bastide e Sérgio Milliet, firmando o nome da poeta no cenário nacional.
Jacinta Passos continuou fortemente envolvida com política. Lutou pelo final da guerra, pela redemocratização do Brasil, pela liberdade de expressão, pela anistia aos presos políticos e pela ampliação dos direitos das mulheres. Em 1945, ano em que o Partido Comunista Brasileiro (PCB) foi legalizado e lançou uma grande campanha de filiação de novos membros, ingressou oficialmente nesse partido, nele permanecendo até morrer.
De volta a Salvador, foi candidata a deputada federal e a deputada estadual pelo PCB, não se elegendo. Contribuiu para o jornal comunista O Momento e continuou participando ativamente da política. Em 1947, após uma gravidez muito difícil, deu à luz sua filha única. Com o marido e a filha, viveu alguns anos em uma fazenda no sul da Bahia, onde se dedicou à família e à escrita.
Mudou-se em 1951, com a família, para o Rio de Janeiro, onde lançou seu terceiro livro, Poemas políticos (Rio de Janeiro, Livraria-Editora da Casa do Estudante do Brasil). Contendo dez poemas inéditos, políticos e líricos, além de uma seleção de poesias anteriores, Poemas políticos ampliou o prestígio da escritora, tornando-a mais conhecida nos círculos literários do Rio de Janeiro, a capital do país.
No final desse ano sofreu grave crise nervosa, com delírios persecutórios. Ficou vários meses internada em sanatórios do Rio, onde foi diagnosticada como portadora de esquizofrenia paranóide, considerada então uma doença progressiva e irrecuperável. Durante essa internação e nas seguintes, foi tratada à base de choques elétricos, injeções de insulina e barbitúricos. Transferida para a Clínica Psiquiátrica Charcot, em São Paulo, teve o diagnóstico confirmado.
Em 1955, separada do marido e da filha, regressou a Salvador, voltando a residir com os pais. Continuou militando no PCB, um partido em crise, ensinou em comunidades pobres de Salvador e publicou artigos sobre literatura no jornal comunista O Momento, onde, durante alguns meses, foi também responsável por uma página literária. Continuou escrevendo poesias. Recebeu a visita da filha durante duas férias escolares e a visitou, no Rio de Janeiro.
Publicou em 1957 seu quarto livro, A Coluna (Rio de Janeiro, A. Coelho Branco Fº Editor). O volume contém um longo poema épico, de quinze cantos, sobre a Coluna Prestes, marcha de cerca de vinte e cinco mil quilômetros, empreendida na década de 1920, e liderada, entre outros, por Luiz Carlos Prestes, que buscava mudanças políticas profundas para o Brasil. O livro foi bem recebido por críticos como Paulo Dantas. Vários de seus trechos foram transcritos em publicações de esquerda do país, até 1964.
Após permanecer cerca de dois anos na cidade pernambucana de Petrolina, onde vivia sozinha e em extrema pobreza, transferiu-se em 1962 para Aracaju, em Sergipe. Ali morou, também sozinha, em Barra dos Coqueiros, povoação de pescadores situada em frente à cidade. Vivia muito pobremente, em um barraco de madeira, à beira do rio. Possuía uma máquina de escrever, onde, à noite, datilografava poemas e textos políticos, que distribuía pelas ruas durante o dia. Numa época de grande agitação e polarização política, desenvolveu, sozinha e ao lado de integrantes do PCB local, intensa militância junto a pescadores, estudantes e trabalhadores, inclusive após o golpe militar de 1964.
Foi detida em 1965, quando pichava nos muros da cidade palavras de ordem contrárias à ditadura. Recolhida ao 28º BC de Aracaju, graças à interferência da família Passos foi transferida para um sanatório particular da mesma cidade, a Casa de Saúde Santa Maria, onde permaneceu até sua morte, em 28 de fevereiro de 1973, aos cinqüenta e sete anos de idade.
23 de abril de 2014
Quatro poemas de Jorge de Lima
Um monstro flui nesse poema
Jorge de Lima
Um monstro flui nesse poema
feito de úmido sal-gema.
A abóbada estreita mana
a loucura cotidiana.
Pra me salvar da loucura
como sal-gema. Eis a cura.
O ar imenso amadurece,
a água nasce, a pedra cresce.
Mas desde quando esse rio
corre no leito vazio?
Vede que arrasta cabeças,
frontes sumidas, espessas.
E são minhas as medusas,
cabeças de estranhas musas.
Mas nem tristeza e alegria
cindem a noite, do dia.
Se vós não tendes sal-gema,
não entreis nesse poema.
feito de úmido sal-gema.
A abóbada estreita mana
a loucura cotidiana.
Pra me salvar da loucura
como sal-gema. Eis a cura.
O ar imenso amadurece,
a água nasce, a pedra cresce.
Mas desde quando esse rio
corre no leito vazio?
Vede que arrasta cabeças,
frontes sumidas, espessas.
E são minhas as medusas,
cabeças de estranhas musas.
Mas nem tristeza e alegria
cindem a noite, do dia.
Se vós não tendes sal-gema,
não entreis nesse poema.
(Invenção
de Orfeu, Canto Quarto, Poema I)
Este poema de amor não é lamento
Jorge de Lima
Este poema de amor não é
lamento
Nem tristeza distante, nem saudade,
Nem queixume traído nem o lento
Perpassar da paixão ou pranto que há de
Nem tristeza distante, nem saudade,
Nem queixume traído nem o lento
Perpassar da paixão ou pranto que há de
Transformar-se em dorido
pensamento,
Em tortura querida ou em piedade
Ou simplesmente em mito, doce invento,
E exalta visão da adversidade.
Em tortura querida ou em piedade
Ou simplesmente em mito, doce invento,
E exalta visão da adversidade.
É a memória ondulante da mais
pura
E doce face (intérmina e tranquila)
Da eterna bem-amada que eu procuro;
E doce face (intérmina e tranquila)
Da eterna bem-amada que eu procuro;
Mas tão real, tão presente
criatura
Que é preciso não vê-la nem possuí-la
Mas procurá-la nesse vale obscuro.
Que é preciso não vê-la nem possuí-la
Mas procurá-la nesse vale obscuro.
Vereis que o poema cresce independente
Jorge de Lima
Vereis que o poema cresce independente
e tirânico. Ó irmãos, banhistas, brisas,
algas e peixes lívidos sem dentes,
veleiros mortos, coisas imprecisas,
coisas neutras de aspecto suficiente
a evocar afogados, Lúcias, Isas,
Celidônias... Parai sombras e gentes!
Que este poema é poema sem balizas.
Mas que venham de vós perplexidades
entre as noites e os dias, entre as vagas
e as pedras, entre o sonho e a verdade, entre...
Qualquer poema é talvez essas metades:
essas indecisões das coisas vagas
que isso tudo lhe nutre sangue e ventre.
e tirânico. Ó irmãos, banhistas, brisas,
algas e peixes lívidos sem dentes,
veleiros mortos, coisas imprecisas,
coisas neutras de aspecto suficiente
a evocar afogados, Lúcias, Isas,
Celidônias... Parai sombras e gentes!
Que este poema é poema sem balizas.
Mas que venham de vós perplexidades
entre as noites e os dias, entre as vagas
e as pedras, entre o sonho e a verdade, entre...
Qualquer poema é talvez essas metades:
essas indecisões das coisas vagas
que isso tudo lhe nutre sangue e ventre.
(De Livro
de Sonetos - 1949)
O cavalo em chamas
Jorge de Lima
Era um cavalo todo feito em chamas
alastrado de insânias esbraseadas;
pelas tardes sem tempo ele surgia
e lia a mesma página que eu lia.
Depois lambia os signos e assoprava
a luz intermitente, destronada,
então a escuridão cobria o rei
Nabucodonosor que eu ressonhei.
Bem se sabia que ele não sabia
a lembrança do sonho subsistido
e transformado em musas sublevadas.
Bem se sabia: a noite que o cobria
era a insânia do rei já transformado
no cavalo de fogo que o seguia.
alastrado de insânias esbraseadas;
pelas tardes sem tempo ele surgia
e lia a mesma página que eu lia.
Depois lambia os signos e assoprava
a luz intermitente, destronada,
então a escuridão cobria o rei
Nabucodonosor que eu ressonhei.
Bem se sabia que ele não sabia
a lembrança do sonho subsistido
e transformado em musas sublevadas.
Bem se sabia: a noite que o cobria
era a insânia do rei já transformado
no cavalo de fogo que o seguia.
Era um cavalo todo feito em lavas
recoberto de brasas e de espinhos.
Pelas tardes amenas ele vinha
e lia o mesmo livro que eu folheava.
Depois lambia a página, e apagava
a memória dos versos mais doridos;
então a escuridão cobria o livro,
e o cavalo de fogo se encantava.
Bem se sabia que ele ainda ardia
na salsugem do livro subsistido
e transformado em vagas sublevadas.
Bem se sabia: o livro que ele lia
era a loucura do homem agoniado
em que o íncubo cavalo se nutria.
recoberto de brasas e de espinhos.
Pelas tardes amenas ele vinha
e lia o mesmo livro que eu folheava.
Depois lambia a página, e apagava
a memória dos versos mais doridos;
então a escuridão cobria o livro,
e o cavalo de fogo se encantava.
Bem se sabia que ele ainda ardia
na salsugem do livro subsistido
e transformado em vagas sublevadas.
Bem se sabia: o livro que ele lia
era a loucura do homem agoniado
em que o íncubo cavalo se nutria.
(Invenção de Orfeu,
Canto Quarto, poemas II e IV)
1 de abril de 2014
Gonzaga Leão
A poesia engajada contra o obscurantismo do regime autoritário
Veja artigo em http://reporteralagoas.com.br/novo/?p=75330
A praça *
Gonzaga
Leão
Não te chamo a passeio pela
praça
porque a praça morreu e está cercada
de muros. Há estranhos operários
trabalhando:
em lugar de pá e enxada
usam feios fuzis e sabres
sujos.
E as árvores da praça assassinada
já não podem dar flor nem dar mais fruto
nem
mesmo a sombra amiga e desejada.
Por isso não te chamo para a
praça
com este céu de manhã quase noturno
e
operários estranhos e fardados.
Peço-te apenas que me dês a mão
e juntos amassemos nosso pão que se é feito de amor não sai amargo.
* Composto pelo poeta, em julho de 1964, quando da
visita aos amigos presos, na antiga penitenciária da Praça da Independência.
Preparação da manhã
Gonzaga
Leão
É duro dizer, criança
filho do triste operário
do sofrido camponês
que em vez dos belos brinquedos
que te fariam feliz,
dar-te-ei canhões fuzis
e a noite feita de medo;
contar-te-ei em segredo
(não histórias pra dormir)
que neste imenso país
somente o rico é feliz
só o rico tem porvir;
e contar-te-ei também
que o pão que falta em teu prato
sobra no prato de alguém;
que tua roupa nenhuma
não mais serve a quem a tem.
filho do triste operário
do sofrido camponês
que em vez dos belos brinquedos
que te fariam feliz,
dar-te-ei canhões fuzis
e a noite feita de medo;
contar-te-ei em segredo
(não histórias pra dormir)
que neste imenso país
somente o rico é feliz
só o rico tem porvir;
e contar-te-ei também
que o pão que falta em teu prato
sobra no prato de alguém;
que tua roupa nenhuma
não mais serve a quem a tem.
Mas direi no entanto a ti
(rudemente enquanto falo)
que nessa estrada de agora
não muito distante a aurora
já avia seus cavalos
com seu jaezes de fogo
e ardentes ferros nos cascos
com sua fonte de sol
a celebrar-se nos olhos,
que deixarão claridades
de manhãs onde passarem:
- e não haverá mais sede
boca não dessedentada
rios que não tenham ponte
de paz e fraternidade.
E no chão de todo o mundo
transformado em bem comum
rebentarão as sementes
e o pão será permanente
na mesa de qualquer um.
Fevereiro de 1963
(rudemente enquanto falo)
que nessa estrada de agora
não muito distante a aurora
já avia seus cavalos
com seu jaezes de fogo
e ardentes ferros nos cascos
com sua fonte de sol
a celebrar-se nos olhos,
que deixarão claridades
de manhãs onde passarem:
- e não haverá mais sede
boca não dessedentada
rios que não tenham ponte
de paz e fraternidade.
E no chão de todo o mundo
transformado em bem comum
rebentarão as sementes
e o pão será permanente
na mesa de qualquer um.
Fevereiro de 1963
11 de março de 2014
Poemas de Ubirajara Almeida
Cânticos
( I )
Ubirajara
Almeida
Ceifei a juventude em noites
encantadas de álcool, música,
com intermináveis mulheres.
Embriagado vivi na opulência
de sensações amorosas
a deslizar sobre o corpo.
Vivam os dias que se foram
nos perfumes destilados
pelos desejos ternos
de variados sabores.
Nunca dei um dia
de trabalho feliz
mas as horas de prazeres
enfeitavam mais e mais
a vontade da sobrevivência.
Basta-me um lápis, um papel
e uma Musa. Não existe
riqueza maior do que esta
revelação emocional.
(De Dez
Lírios & Tremifusas – Maceió 2012)
Cantata
Nº 2
Ubirajara
Almeida
Entre alegres numes e doces ninfas
Certamente estou com deuses no Olimpo
A beber goles de encantadas linfas
No vítreo corpo do cristal mais limpo.
Do sopro de Pã, valsa em semifusa
Uma feminina forma brejeira
De cor divinal com seu olhar de musa
Numa pintura luso-brasileira.
A iguaria farta ao som dos açoites
Nasce nas folhas das mil e uma noites
Para saciar o sonho cortesão.
Dança a deusa tão leve que flutua
Nos perfumados tons vindos da lua
Onde palpita a solene invenção.
(De
Inventário do Silêncio – Maceió 2012)
19 de novembro de 2013
Três "Poemas Negros" de Jorge de Lima
Ola! Negro
Jorge de Lima
Os netos de teus mulatos e de teus cafuzos e a quarta e a quinta
gerações de teu sangue sofredor tentarão apagar tua cor!
E as gerações dessas gerações quando apagarem não apagarão
de suas almas, a tua
alma , negro!
Pai-João, Mãe-Negra, Fulo, Zumbi,
negro-fujão, negro cativo, negro rebelde
negro cabinda, negro congo, negro ioruba,
negro que foste para o algodão de U.S.A
para os canaviais do Brasil,
para o tronco, para o colar de ferro, para a canga
de todos os senhores do mundo;
eu melhor compreendo agora os teus blues
nesta hora triste da raça branca, negro!
Olá, Negro! Olá, Negro!
A raça que te enforca, enforca-se de tédio, negro!
E és tu que a alegras ainda com os teus jazzes,
com os teus sons, com os teus lundus!
Os poetas, os libertadores, os que derramaram
babosas torrentes de falsa piedade
não compreendiam que tu ias rir!
E o teu riso, e a tua virgindade e os teus medos e a tua bondade
mudariam a alma branca cansada de todas as ferocidades!
Olá, Negro!
Pai-João, Mã-Negra, Fulo, Zumbi
que traíste as Sinhás nas Casas Grandes,
que cantaste para o sinhô dormir,
que te revoltaste também contra o Sinhô;
quantos séculos há passado
e quantos sobre a tua noite,
sobre as tuas mandingas, sobre os teus medos, sobre tuas alegrias!
Olá, Negro!
negro que foste para o algodão de U.S.A
para os canaviais do Brasil,
quantas vezes as carapinhas hão de embranquecer
para que os canaviais possam dar mais doçura à alma humana?
Olá, Negro!
Negro, ó proletário sem perdão,
proletário, bom,
proletário bom!
Blues
Jazzes,
songs,
lundus…
Apanhavas com vontade de cantar,
choravas com vontade de sorrir
com vontade de fazer mandinga para o branco ficar bom,
para o chicote doer menos,
para o dia acabar e negro dormir!
Não basta iluminares hoje as noites dos brancos com teus jazzes
com tuas danças, com tuas gargalhadas!
Olá, Negro! O dia está nascendo!
O dia está nascendo ou será a tua gargalhada que vem vindo?
Olá, Negro!
Olá, Negro!
Pai-João, Mãe-Negra, Fulo, Zumbi,
negro-fujão, negro cativo, negro rebelde
negro cabinda, negro congo, negro ioruba,
negro que foste para o algodão de U.S.A
para os canaviais do Brasil,
para o tronco, para o colar de ferro, para a canga
de todos os senhores do mundo;
eu melhor compreendo agora os teus blues
nesta hora triste da raça branca, negro!
Olá, Negro! Olá, Negro!
A raça que te enforca, enforca-se de tédio, negro!
E és tu que a alegras ainda com os teus jazzes,
com os teus sons, com os teus lundus!
Os poetas, os libertadores, os que derramaram
babosas torrentes de falsa piedade
não compreendiam que tu ias rir!
E o teu riso, e a tua virgindade e os teus medos e a tua bondade
mudariam a alma branca cansada de todas as ferocidades!
Olá, Negro!
Pai-João, Mã-Negra, Fulo, Zumbi
que traíste as Sinhás nas Casas Grandes,
que cantaste para o sinhô dormir,
que te revoltaste também contra o Sinhô;
quantos séculos há passado
e quantos sobre a tua noite,
sobre as tuas mandingas, sobre os teus medos, sobre tuas alegrias!
Olá, Negro!
negro que foste para o algodão de U.S.A
para os canaviais do Brasil,
quantas vezes as carapinhas hão de embranquecer
para que os canaviais possam dar mais doçura à alma humana?
Olá, Negro!
Negro, ó proletário sem perdão,
proletário, bom,
proletário bom!
Blues
Jazzes,
songs,
lundus…
Apanhavas com vontade de cantar,
choravas com vontade de sorrir
com vontade de fazer mandinga para o branco ficar bom,
para o chicote doer menos,
para o dia acabar e negro dormir!
Não basta iluminares hoje as noites dos brancos com teus jazzes
com tuas danças, com tuas gargalhadas!
Olá, Negro! O dia está nascendo!
O dia está nascendo ou será a tua gargalhada que vem vindo?
Olá, Negro!
Olá, Negro!
História
Jorge de Lima
Era princesa.
Um libata a adquiriu por um caco de espelho.
Veio encangada para o litoral,
arrastada pelos comboieiros
Peça muito boa: não faltava um dente
e era mais bonita que qualquer inglesa.
No tombadilho o capitão deflorou-a.
Em nagô elevou a voz para Oxalá.
Pôs-se a coçar-se porque ele não ouviu.
Navio negreiro? não; navio tumbeiro.
Depois foi ferrada com uma âncora nas ancas,
depois foi possuída pelos marinheiros,
depois passou pela alfândega,
depois saiu do Valongo,
entrou no amor do feitor,
apaixonou o Sinhô,
enciumou a Sinhá,
apanhou, apanhou, apanhou.
Fugiu para o mato.
Capitão do campo a levou.
Pegou-se com os orixás:
fez bobó de inhame
para Sinhô comer,
fez aluá para ele beber;
fez mandinga para o Sinhô a amar.
A Sinhá mandou arrebentar-lhe os dentes:
Fute, Cafute, Pé-de-pato, Não-sei-que-diga,
avança na branca e me vinga.
Exu escangalha ela, amofina ela,
amuxila ela que eu não tenho defesa de homem,
sou só uma mulher perdida neste mundão.
Neste mundão.
Louvado seja Oxalá.
Para sempre seja louvado..
Era princesa.
Um libata a adquiriu por um caco de espelho.
Veio encangada para o litoral,
arrastada pelos comboieiros
Peça muito boa: não faltava um dente
e era mais bonita que qualquer inglesa.
No tombadilho o capitão deflorou-a.
Em nagô elevou a voz para Oxalá.
Pôs-se a coçar-se porque ele não ouviu.
Navio negreiro? não; navio tumbeiro.
Depois foi ferrada com uma âncora nas ancas,
depois foi possuída pelos marinheiros,
depois passou pela alfândega,
depois saiu do Valongo,
entrou no amor do feitor,
apaixonou o Sinhô,
enciumou a Sinhá,
apanhou, apanhou, apanhou.
Fugiu para o mato.
Capitão do campo a levou.
Pegou-se com os orixás:
fez bobó de inhame
para Sinhô comer,
fez aluá para ele beber;
fez mandinga para o Sinhô a amar.
A Sinhá mandou arrebentar-lhe os dentes:
Fute, Cafute, Pé-de-pato, Não-sei-que-diga,
avança na branca e me vinga.
Exu escangalha ela, amofina ela,
amuxila ela que eu não tenho defesa de homem,
sou só uma mulher perdida neste mundão.
Neste mundão.
Louvado seja Oxalá.
Para sempre seja louvado..
Serra da
Barriga
Jorge de Lima
Serra da Barriga!
Barriga de negra-mina!
As outras montanhas se cobrem de neve,
de noiva, de nuvem, de verde!
E tu, de Loanda, de panos-da-costa,
de argolas, de contas, de quilombos!
Serra da Barriga!
Te vejo da casa em que nasci.
Que medo danado de negro fujão!
Serra da Barriga, buchuda, redonda,
de jeito de mama, de anca, de ventre de negra!
Mundaú te lambeu! Mundaú te lambeu!
Cadê teus bumbuns, teus sambas, teus jongos?
Serra da Barriga,
Serra da Barriga, as tuas noites de mandinga,
cheirando a maconha, cheirando a liamba?
Os teus meio-dias: tibum nos peraus!
Tibum nas lagoas!
Pixains que saem secos, cobrindo
sovacos de sucupira,
barrigas de baraúna!
Mundaú te lambeu! Mundaú te lambeu!
De noite: tantãs, curros-curros
e bumbas, batuques e baques!
E bumbas!
E cucas: ô ô!
E bantos: ê ê
Aqui não há cangas, nem troncos, nem banzos!
Aqui é Zumbi!
Barriga da África! Serra da minha terra!
Te vejo bulindo, mexendo, gozando Zumbi!
Depois, minha serra, tu desabando, caindo,
levando nos braços Zumbi!
Serra da Barriga!
Barriga de negra-mina!
As outras montanhas se cobrem de neve,
de noiva, de nuvem, de verde!
E tu, de Loanda, de panos-da-costa,
de argolas, de contas, de quilombos!
Serra da Barriga!
Te vejo da casa em que nasci.
Que medo danado de negro fujão!
Serra da Barriga, buchuda, redonda,
de jeito de mama, de anca, de ventre de negra!
Mundaú te lambeu! Mundaú te lambeu!
Cadê teus bumbuns, teus sambas, teus jongos?
Serra da Barriga,
Serra da Barriga, as tuas noites de mandinga,
cheirando a maconha, cheirando a liamba?
Os teus meio-dias: tibum nos peraus!
Tibum nas lagoas!
Pixains que saem secos, cobrindo
sovacos de sucupira,
barrigas de baraúna!
Mundaú te lambeu! Mundaú te lambeu!
De noite: tantãs, curros-curros
e bumbas, batuques e baques!
E bumbas!
E cucas: ô ô!
E bantos: ê ê
Aqui não há cangas, nem troncos, nem banzos!
Aqui é Zumbi!
Barriga da África! Serra da minha terra!
Te vejo bulindo, mexendo, gozando Zumbi!
Depois, minha serra, tu desabando, caindo,
levando nos braços Zumbi!
(De “Poemas Negros”)
7 de novembro de 2013
Poemas de Solange Berard Lages Chalita
Desejos verbais
Solange
Berard Lages Chalita
Quisera indisciplinar-se
Contra a sintaxe
E já pela manhã colher
Frases frescas
Feitas com sobras de orvalho
Nessas terras tórridas
Onde até o Amor estorrica
Quisera amolecer-se e render-se à verdura
Certa vez sonhada
Para povoar a linguagem
De símbolos renovados
(De "Canto Mínimo", Editora Scortecci - São Paulo - 2008)
No amanhecer de junho
Solange
Berard Lages Chalita
Meu coração desenganado
Clinicamente
Afetivamente
Afetado
Meu coração desnudado
Baudelerianamente
Desesperado
Sem medicamento
Sem afeição
Literariamente
Safenado
Então
Quando a dor
Definitivamente
Quis matar-me
Tua lembrança
Deu-me um beijo
De amor
De salvação
Meu coração desenganado
Clinicamente
Afetivamente
Afetado
Meu coração desnudado
Baudelerianamente
Desesperado
Sem medicamento
Sem afeição
Literariamente
Safenado
Então
Quando a dor
Definitivamente
Quis matar-me
Tua lembrança
Deu-me um beijo
De amor
De salvação
(De "Canto Efêmero", Editora
Scortecci - São Paulo - 2011)
15 de outubro de 2013
Poemas de Juareiz Correya
ARTE DO
PODER
Juareiz Correya
Os romanos
inventaram
com leões e cristãos
o circo com pão.
Os brasileiros bolaram
com samba e com sol
o circo sem pão
do futebol.
Hoje o Brasil
descoberto de novo,
inventado de novo,
decretou o Estado de Circo
- sem picadeiro, sem palco
e sem pão,
com panos coloridos tapando o céu
um mágico desgovernado no planalto
e uma platéia de 140 milhões
de bestas e de palhaços.
com leões e cristãos
o circo com pão.
Os brasileiros bolaram
com samba e com sol
o circo sem pão
do futebol.
Hoje o Brasil
descoberto de novo,
inventado de novo,
decretou o Estado de Circo
- sem picadeiro, sem palco
e sem pão,
com panos coloridos tapando o céu
um mágico desgovernado no planalto
e uma platéia de 140 milhões
de bestas e de palhaços.
MENSAGEM
DOS QUE VÃO MORRER
Juareiz Correya
Senhores do
Mundo,
Irmãos da Guerra,
Deuses do Holocausto,
poderosos proprietários do Arsenal Atômico
que apagará os milênios
e destruirá a Terra cem vezes!
Governantes,
Bestas-feras suicidas,
com os seus Estados Unidos,
as suas Rússias, as suas Chinas,
as suas Organizadas Nações Unidas:
O Apocalipse não tem dia seguinte,
e para que todas as vidas da Terra
- ao alcance de suas maquinações -
sejam destruídas,
basta programar o Fim Nuclear
UMA ÚNICA VEZ
Irmãos da Guerra,
Deuses do Holocausto,
poderosos proprietários do Arsenal Atômico
que apagará os milênios
e destruirá a Terra cem vezes!
Governantes,
Bestas-feras suicidas,
com os seus Estados Unidos,
as suas Rússias, as suas Chinas,
as suas Organizadas Nações Unidas:
O Apocalipse não tem dia seguinte,
e para que todas as vidas da Terra
- ao alcance de suas maquinações -
sejam destruídas,
basta programar o Fim Nuclear
UMA ÚNICA VEZ
INTIMIDADE
Juareiz Correya
eu gosto
do teu cheiro de dentro
de dizer que te mato
de prazer de cansaço
de perder os meus braços
navegando em teu mar
do teu cheiro de dentro
de dizer que te mato
de prazer de cansaço
de perder os meus braços
navegando em teu mar
eu gosto
dessa carne que arde
mais cedo e mais tarde
pelos cantos da casa
de fazer minha rede
no vai-vem dessas pernas
(no aconchego das coxas)
de cair de cabeça
nos segredos da gruta
dessa carne que arde
mais cedo e mais tarde
pelos cantos da casa
de fazer minha rede
no vai-vem dessas pernas
(no aconchego das coxas)
de cair de cabeça
nos segredos da gruta
eu gosto
desse gosto mais doce
que o teu corpo oferece
de tanto gozar
do teu longo arrepio
dessas voltas do cio
desse amor sem parar
desse gosto mais doce
que o teu corpo oferece
de tanto gozar
do teu longo arrepio
dessas voltas do cio
desse amor sem parar
Juarez Barbosa Correia nasceu em
Palmares, Pernambuco, em 1951. Atualmente radicado em Recife. Poeta e editor.
Definir Juareiz apenas como poeta e editor seria restringir seu importantíssimo
trabalho como agitador cultural no Estado de Pernambuco, a partir da década de
1970, consolidando-se na década seguinte através da sua editora Nordestal, selo
pela qual publicou os 10 números da revista Poesia, divulgando
autores locais e de outros Estados.
Fonte: Interpoética
Assinar:
Postagens (Atom)
