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19 de novembro de 2013

Três "Poemas Negros" de Jorge de Lima

Ola! Negro 

Jorge de Lima

Os netos de teus mulatos e de teus cafuzos e a quarta e a quinta

gerações de teu sangue sofredor tentarão apagar tua cor!
E as gerações dessas gerações quando apagarem não apagarão 
de suas almas, a tua alma , negro!
Pai-João, Mãe-Negra, Fulo, Zumbi,
negro-fujão, negro cativo, negro rebelde
negro cabinda, negro congo, negro ioruba,
negro que foste para o algodão de U.S.A
para os canaviais do Brasil,
para o tronco, para o colar de ferro, para a canga
de todos os senhores do mundo;
eu melhor compreendo agora os teus blues
nesta hora triste da raça branca, negro!

Olá, Negro! Olá, Negro!

A raça que te enforca, enforca-se de tédio, negro!
E és tu que a alegras ainda com os teus jazzes,
com os teus sons, com os teus lundus!
Os poetas, os libertadores, os que derramaram
babosas torrentes de falsa piedade
não compreendiam que tu ias rir!
E o teu riso, e a tua virgindade e os teus medos e a tua bondade
mudariam a alma branca cansada de todas as ferocidades!

Olá, Negro!

Pai-João, Mã-Negra, Fulo, Zumbi
que traíste as Sinhás nas Casas Grandes,
que cantaste para o sinhô dormir,
que te revoltaste também contra o Sinhô;
quantos séculos há passado
e quantos sobre a tua noite,
sobre as tuas mandingas, sobre os teus medos, sobre tuas alegrias!

Olá, Negro!

negro que foste para o algodão de U.S.A
para os canaviais do Brasil,
quantas vezes as carapinhas hão de embranquecer
para que os canaviais possam dar mais doçura à alma humana?

Olá, Negro!

Negro, ó proletário sem perdão,
proletário, bom,
proletário bom!
Blues
Jazzes,
songs,
lundus…
Apanhavas com vontade de cantar,
choravas com vontade de sorrir
com vontade de fazer mandinga para o branco ficar bom,
para o chicote doer menos,
para o dia acabar e negro dormir!
Não basta iluminares hoje as noites dos brancos com teus jazzes
com tuas danças, com tuas gargalhadas!
Olá, Negro! O dia está nascendo!
O dia está nascendo ou será a tua gargalhada que vem vindo?

Olá, Negro!
Olá, Negro!


História

Jorge de Lima

Era princesa.
Um libata a adquiriu por um caco de espelho.
Veio encangada para o litoral,
arrastada pelos comboieiros
Peça muito boa: não faltava um dente
e era mais bonita que qualquer inglesa.
No tombadilho o capitão deflorou-a.
Em nagô elevou a voz para Oxalá.
Pôs-se a coçar-se porque ele não ouviu.
Navio negreiro? não; navio tumbeiro.
Depois foi ferrada com uma âncora nas ancas,
depois foi possuída pelos marinheiros,
depois passou pela alfândega,
depois saiu do Valongo,
entrou no amor do feitor,
apaixonou o Sinhô,
enciumou a Sinhá,
apanhou, apanhou, apanhou.
Fugiu para o mato.
Capitão do campo a levou.
Pegou-se com os orixás:
fez bobó de inhame
para Sinhô comer,
fez aluá para ele beber;
fez mandinga para o Sinhô a amar.
A Sinhá mandou arrebentar-lhe os dentes:
Fute, Cafute, Pé-de-pato, Não-sei-que-diga,
avança na branca e me vinga.
Exu escangalha ela, amofina ela,
amuxila ela que eu não tenho defesa de homem,
sou só uma mulher perdida neste mundão.
Neste mundão.
Louvado seja Oxalá.
Para sempre seja louvado..


Serra da Barriga

Jorge de Lima

Serra da Barriga!
Barriga de negra-mina!
As outras montanhas se cobrem de neve,
de noiva, de nuvem, de verde!
E tu, de Loanda, de panos-da-costa,
de argolas, de contas, de quilombos!

Serra da Barriga!
Te vejo da casa em que nasci.
Que medo danado de negro fujão!

Serra da Barriga, buchuda, redonda,
de jeito de mama, de anca, de ventre de negra!
Mundaú te lambeu! Mundaú te lambeu!
Cadê teus bumbuns, teus sambas, teus jongos?
Serra da Barriga,
Serra da Barriga, as tuas noites de mandinga,
cheirando a maconha, cheirando a liamba?
Os teus meio-dias: tibum nos peraus!
Tibum nas lagoas!

Pixains que saem secos, cobrindo
sovacos de sucupira,
barrigas de baraúna!
Mundaú te lambeu! Mundaú te lambeu!
De noite: tantãs, curros-curros
e bumbas, batuques e baques!
E bumbas!
E cucas: ô ô!
E bantos: ê ê
Aqui não há cangas, nem troncos, nem banzos!
Aqui é Zumbi!
Barriga da África! Serra da minha terra!
Te vejo bulindo, mexendo, gozando Zumbi!
Depois, minha serra, tu desabando, caindo,
levando nos braços Zumbi!


(De “Poemas Negros”)

7 de novembro de 2013

Poemas de Solange Berard Lages Chalita


Desejos verbais


Solange Berard Lages Chalita


Quisera indisciplinar-se

Contra a sintaxe

E já pela manhã colher

Frases frescas

Feitas com sobras de orvalho


Nessas terras tórridas

Onde até o Amor estorrica

Quisera amolecer-se e render-se à verdura

Certa vez sonhada

Para povoar a linguagem

De símbolos renovados


(De "Canto Mínimo", Editora Scortecci - São Paulo - 2008)




No amanhecer de junho


Solange Berard Lages Chalita


Meu coração desenganado

Clinicamente

Afetivamente

Afetado

Meu coração desnudado

Baudelerianamente

Desesperado



Sem medicamento

Sem afeição

Literariamente

Safenado



Então

Quando a dor

Definitivamente

Quis matar-me



Tua lembrança

Deu-me um beijo

De amor 

De salvação 


(De "Canto Efêmero", Editora Scortecci - São Paulo -  2011) 

15 de outubro de 2013

Poemas de Juareiz Correya

ARTE DO PODER

Juareiz Correya

Os romanos inventaram
com leões e cristãos
o circo com pão.
Os brasileiros bolaram
com samba e com sol
o circo sem pão
                  do futebol.
Hoje o Brasil
descoberto de novo,
inventado de novo,
decretou o Estado de Circo
- sem picadeiro, sem palco
                  e sem pão,
com panos coloridos tapando o céu
um mágico desgovernado no planalto
e uma platéia de 140 milhões
de bestas e de palhaços.



 MENSAGEM DOS QUE VÃO MORRER

Juareiz Correya

Senhores do Mundo,
Irmãos da Guerra,
Deuses do Holocausto,
poderosos proprietários do Arsenal Atômico
que apagará os milênios
e destruirá a Terra cem vezes!
Governantes,
Bestas-feras suicidas,
com os seus Estados Unidos,
as suas Rússias, as suas Chinas,
as suas Organizadas Nações Unidas:
O Apocalipse não tem dia seguinte,
e para que todas as vidas da Terra
- ao alcance de suas maquinações -
sejam destruídas,
basta programar o Fim Nuclear
UMA ÚNICA VEZ
  


INTIMIDADE

Juareiz Correya

eu gosto
do teu cheiro de dentro
de dizer que te mato
de prazer de cansaço
de perder os meus braços
navegando em teu mar
eu gosto
dessa carne que arde
mais cedo e mais tarde
pelos cantos da casa
de fazer minha rede
no vai-vem dessas pernas
(no aconchego das coxas)
de cair de cabeça
nos segredos da gruta
eu gosto
desse gosto mais doce
que o teu corpo oferece
de tanto gozar
do teu longo arrepio
dessas voltas do cio
desse amor sem parar


Juarez Barbosa Correia nasceu em Palmares, Pernambuco, em 1951. Atualmente radicado em Recife. Poeta e editor. Definir Juareiz apenas como poeta e editor seria restringir seu importantíssimo trabalho como agitador cultural no Estado de Pernambuco, a partir da década de 1970, consolidando-se na década seguinte através da sua editora Nordestal, selo pela qual publicou os 10 números da revista Poesia, divulgando autores locais e de outros Estados.


Fonte: Interpoética

12 de setembro de 2013

Poemas de Márcia Sanchez Luz

Entre quatro paredes

Márcia Sanchez Luz

Entre quatro paredes
Esqueço-te.
Faço de mim companheira
Guardiã de meus sentidos.
Digo pra mim mesma
Que a ninguém é permitido
Violar o meu silêncio.
Meu espaço é sagrado!
Entre quatro paredes
Não tenho defeitos...
Não sou acusada
Nem fico acuada.
Violar meu santuário
É invadir-me por inteira.
Guardo-me e, portanto
Não tentes me destruir.
Entre quatro paredes
Desvendo quimeras
Transcendo esferas
Estratosferas
Biosferas
Esperas
Eras...


Transformação

Márcia Sanchez  Luz

Vejo em teus passos
Pedaços de um todo
De um tudo jogado
Em cantos, quebrado.
Sinto em teus olhos
O medo do incerto
Do tempo que passa
Da luz que se afasta.
Repassas tua vida
Com ferro em brasa
Ateias fogo, jogas água
Não te bastas.
Procura então
Em meio aos pedaços
Unir-te inteiro.
Teus primeiros passos
Vão te machucar
Vais gritar de dor
Vais querer parar.
Porém continua!
O medo vai cessar
Vais achar teu rumo
Encontrar saída
Pra essa escuridão.
Não ateies fogo
Onde o ar é leve
Onde a tarde deve
Te dar solução.


O ser e a mente

Márcia Sanchez Luz

Profícua mente escancarada
Doce mente estilizada
Elitizada e profanada
Insana e temerosa
Criação do nada
Que se esconde
Em prantos.
Em cantos
Se esgueira
Espreita calada
A cada segundo
Do ser e do mundo
Seu perfeito modo de ser
Atribulada mente... solitária.


(Transcritos de: Blocos Online)

22 de julho de 2013

Para um amor perdido

Ubirajara Mello de Almeida

Desejava apenas a forma
esculturada nas lembranças
pra saciar a sede da memória
quando um corpo sobre outro corpo
desemboca num lago inebriante
de pragas incestuosas.
A visão do espetáculo
acalmava-me na polução
angustiada dos desejos.
Na solidão do copo de wísque
bebo goles desesperados
na diluição sonora dos gemidos.
Agarro-me a sombra molhada nos lençóis
para acalmar os sentidos
que se devoravam na agonia
da volúpia nas últimas tensões.
Decantei em vão o suor
que escorria pelos transes epiléticos
para a embriaguês das manhãs delicadas
de odores alucinatórios.
Escorregava pelas pernas
perfumadas de prazeres onde jaz
o segredo da eternidade
na busca da comédia humana
enclausurada na perversão.
O que fazer com o sentimento
a envenenar-me na medida do desespero?

18 de junho de 2013

ÓRFICO

(Poema para Cicero Melo)

Inaldo Cavalcanti


A teologia aprende contigo.

Os pássaros voam,
Aprendem contigo.

Os anjos, em greve,
Aprendem contigo.

O inferno, chamado palavra,
Aprende contigo.

A dor, prova ou castigo,
Tumor da esperança,
Aprende contigo.

Bailarina louca de cisne
Aprende contigo.

Totem maior da Aurora.

7 de junho de 2013

Melhores poemas que eu li

Si pudiera vivir nuevamente ...

Jorge Luís Borges

"Si pudiera vivir nuevamente mi vida
en la próxima trataría de cometer más errores.
No intentaría ser tan perfecto, me relajaría más.
Sería más tonto de lo que he sido.
De hecho tomaría muy pocas cosas com seriedad.

Sería menos higiénico; correría más riesgos,
haría más viajes, contemplaría más atardeceres,
subiría más montañas, nadaría más rios.
Iría a más lugares a donde nunca he ido,
tendería más problemas reales y menos imaginarios.

Yo fui una de esas personas que vivió sensata y
prolíficamente cada minuto de su vida,
claro que tuve momentos de alegria,
pero si pudiera volver atrás,
trataría de tener solamente buenos momentos.

Pero si no saben, de eso esta hecha la vida,
solo de momentos;  no te pierdas el de ahora.

Yo era uno de esos que nunca van a ninguna parte sin un
termómetro, una bolsa de agua caliente, um paraguas y un
paracaídas; si pudiera volver a vivir, viajaría más liviano.

Si pudiera volver a vivir comenzaría a andar descalzo a
principios de la primavera y seguiría así hasta concluir el otoño.
Daría más vueltas en calesita, contemplaría más amaneceres
y jugaría com más niños, si tuviera outra vez la vida delante.

Pero yá vem, tengo 85 años y sé me estoy muriendo!..."



15 de dezembro de 2012

Poemas alagoanos

Quem sou

José Alberto Costa

Sou daqui das Alagoas,
da Terra dos Marechais,
das praias, dos coqueirais,
sertão, canais e lagoas,
caju, cocadas das boas,
cana, melaço cheiroso,
sururu mais que gostoso,
se duvidar faça um teste.
Sou filho deste Nordeste
por isso sou orgulhoso.

Meu versejar nordestino
vem dos coqueiros da praia
como o mar que se espraia
sobre areal cristalino,
riso doce do menino
suspiro de sonhador
é santo sobre o andor
é tema de cantoria
um arrebol de alegria
na boca do cantador.

Vem do mar de Pajuçara
de beleza sem igual
princesa do litoral
que a natureza prepara,
coisa fina, joia rara,
que hora é azul-turquesa
logo pra sua surpresa
toma o verde da esmeralda
formando bela grinalda
para uma nobre princesa.


A borboleta e a menina

José Alberto Costa

A borboleta amarela
veio da rosa pra mim,
em minha mão calejada,
deixou olor do jasmim,
um momento comovente
que só se vê num jardim.

A borboleta e a rosa
se confundem na folhagem,
uma nasce perfumada,
outra parece miragem,
uma vive no jardim,
a outra está de passagem.

A menina acompanhou
aquela cena tão bela
desejando criar asas
e sair pela janela
beijando todas as flores
qual borboleta amarela.


Síndrome do medo

José Alberto Costa

Fecho-me em casa.
Fecho-me no carro.
Fecho-me no trabalho.
O medo me cerca,
a noite me apavora.
Perco a liberdade,
esqueço de viver,
aos poucos me fecho
dentro de mim mesmo.

JOSÉ ALBERTO COSTA – O jornalista, fotógrafo e poeta alagoano José Alberto Costa, também conhecido como Jac, é ex-bancário e executivo de empresas estaduais. Foi secretário de Comunicação do governador Theobaldo Barbosa. Foi fotógrafo de cena do primeiro filme de Joaquim Alves, "Crise", premiado no 1º Festival de Cinema Brasileiro de Penedo. É membro da Academia Maceioense de Letras, de vários grupos culturais e autor do blog Verso@Reverso.

18 de novembro de 2012

Poemas de Vera Romariz


Campo minado

Vera Romariz

Campo minado, coração
de mulher
bala explosiva em tempo
de repouso

Pise devagar
ou não pise
erga as mãos em ninho
e segure com dedos
de casca de ovo

Campo minado, coração
de mulher
a fúria do temporal
antes de parir chuvas
nuvens densas
fúria reservada

E atrás dos olhos
na história do antes
das janelas abertas
retrato da fêmea
face fada
varinha de condão
mas - atenção ! -
que muda
e medra
terra em ensaio de terremoto
atenção!
a mina medra
e é rastro na mão
que mexe

Campo minado, coração
de mulher
pise devagar
ou não pise
erga as mãos em ninho
e segure com dedos
de casca de ovo


Sem óculos

Vera Romariz

Na cama te quero
sem óculos
esquadro e régua
sem limites nas dobras
dos lençóis
mais moderno
selvagem
das entradas e bandeiras
petróleo sem surpresas
ciências plataformas
correntes colossais

Na cama te faço
objeto de pesquisa
sem financiamento
externo
materialista dialético
de roucas práxis
rituais
diabólico jeito de ser Deus
sem cruz
cruzando corpos desiguais

Na cama te quero
vivendo papéis profanos
motor ligado
jato de gás em fogo
fósforo que vira tocha
no sair da caixa
e incendeia jardins, plantas, flores
canaviais


Penúltima Edição

Vera Romariz

A linguagem espreita
e ataca
livro é sempre
penúltima edição
da estória da rua

A criança toca o próprio corpo
e constrói poemas sem letra
no proibido desejo
e o diário é parte pequena
do gozo primeiro
que conta sem levar em conta
incontável

A penúltima edição
é mais que a antepenúltima
parcela, apenas, da linguagem
que espreita e ataca
na tela dos loucos
asilados e libertos
que pintam demônios
com as mãos impregnadas
de barbitúricos
no silêncio dos olhos arregalados
da vítima de estupro

Livro é sempre
penúltima edição da estória da rua
e do corpo inteiro
olhos apenas vêem
a edição antiga

VERA ROMARIZ nasceu em Maceió. É Doutora em Letras, professora, pesquisadora e crítica literária. Neta do poeta penedense Sabino Romariz (1873-1913). Vera Romariz tem publicados os livros: "Quase Pássaro" (1986), "Campo Minado" (1986), "Amor aos Cinqüenta" (2004) e "Película" (2008).doença pulmÃo, cÂncer

4 de outubro de 2012

MEUS POEMAS


Golpes/galopes


Iremar Marinho


Uma faca
vertical
(raio
do sol)
parte o dia
em quatro cantos

Bate no peito
(a galope)
o martelo
alagoano

A faca do sol
(a golpes)
parte a vida
em quantos prantos?



Repique 


Iremar Marinho

Para Joana Gajuru, Mestre Eurico e Manoel da Marinheira, artistas do povo

tam-bô-tam-bô-tam-bô-tam-bô-tam-bô-tam 
bô-tam-bô-tam-tam-tam-tam-tam-bô-tam-bô 
tam-bô-tam-bô-tam-bô-tam-bô-tam-bô-tam 
bô-tam-tam-tam-bô-tam-tam-tam-bô-tam-bô 

- Pisa! 

Dona Celsa vive 

e domina o Guerreiro de São José.


Deus vos salve, Mestra Santa.




Dois poetas vão ao Paraíso

Iremar Marinho


Dois poetas foram
a Nova York e Washington,
beber coca-cola
e sentir o cheiro de dólar.

Divertiram-se no Central Park
e correram dos ratos de Manhattan.

Registraram a passagem
nas metrópoles, 
vomitando poemas de êxtase.

Em holocausto,
pularam da Golden Gate.

Foram ignorados
no Time e no Post.

20 de setembro de 2012

Poemas de Luiz Gonzaga Leão


Soneto à Rosa Acontecida

Gonzaga Leão 

Ela nasceu de abismo e foi rosa
ante o luar - lírio no céu se abrindo
leitoso e virgem, as sombras deglutindo;
lírio que a noite clara e imaginosa
                       
criou para realce dela, a rosa:
chaga de luz e sangue (a estou sentindo
ferir as minhas mãos, a alma ferindo...)
que vem a madrugada silenciosa-

mente solver, e vem ditando rotas
de paisagens pretéritas e ignotas
por que meus olhos tristes e magoados

todos os dias sofrem e adoecem.
Rosa por que jardins mortos florescem,
cambiantes de luz, ressuscitados.



A morte do pássaro

Gonzaga Leão

Voo cego de pássaro no escuro,
de si precipitado, solto no ar,
caindo sobre o chão do bulevar
como um fruto que cai quando maduro.

Suicídio do azul de encontro ao muro,
do azul salino que emigrou do mar,
cansado do poder de viajar.
Suicídio do azul tornado impuro.

Tomba o pássaro: a sombra sobre o rio,
as crianças na praça e o casario
que lhe ditavam voo e itinerário.

E o tempo muda, se desfaz a espera,
a noite pinta o mundo e a primavera
inverna em sua cor no calendário.



Primeiro soneto sobre a casa

Gonzaga Leão

No chão, marcas de pés sujos de lama;
o alpendre para o sonho e para a rede;
janelas para a fuga; na parede
o salto do telhado; a noite e a cama

com destinos iguais para quem ama:
água e fonte servindo à mesma sede.
A casa em construção ainda, que de
suor e barro se edifica, chama

para se completar, seus moradores.
Fumo de chaminé nos arredores
da noite terminada. E no profundo

silêncio com que a vida se cobria,
um galo bate as asas e anuncia
a casa e a manhã dentro do mundo.

Luiz Gonzaga Leão (Gonzaga Leão) nasceu em União dos Palmares, Alagoas, no dia 5 de junho de 1929. Formado pela Faculdade de Direito de Alagoas. Funcionário aposentado do Banco do Brasil. Membro da Academia Alagoana de Letras e da Academia de Letras e Artes do Nordeste Brasileiro. Publicou os livros de poemas: "A Rosa Acontecida" (1955); "Mar de Encanto" (1957) e "Casa Somente Canto/Casa Somente Palavra" (1995). Participou das antologias "14 Poetas Alagoanos" (organizada por Valdemar Cavalcanti -1974) e Artesanias da Palavra" (2001) - com Arriete Vilela - José Geraldo W. Marques - Otávio Cabral - Sidney Wanderley. 

9 de setembro de 2012

Melhores poemas que eu li


Cogito

Torquato Neto

eu sou como eu sou
pronome
pessoal intransferível
do homem que iniciei
na medida do impossível

eu sou como eu sou
agora
sem grandes segredos dantes
sem novos secretos dentes
nesta hora

eu sou como eu sou
presente
desferrolhado indecente
feito um pedaço de mim

eu sou como eu sou
vidente
e vivo tranqüilamente
todas as horas do fim

27 de agosto de 2012

Melhores poemas que eu li

O Barco Bêbado

Arthur Rimbaud

Quando eu atravessava os Rios impassíveis,
Senti-me libertar dos meus rebocadores.
Cruéis peles-vermelhas com uivos terríveis
Os espetaram nus em postes multicores.

Eu era indiferente à carga que trazia,
Gente, trigo flamengo ou algodão inglês.
Morta a tripulação e finda a algaravia,
Os Rios para mim se abriram de uma vez.

Imerso no furor do marulho oceânico,
No inverno, eu, surdo como um cérebro infantil,
Deslizava, enquanto as Penínsulas em pânico
viam turbilhonar marés de verde e anil.

O vento abençoou minhas manhãs marítimas.
Mais leve que uma rolha eu dancei nos lençóis
das ondas a rolar atrás de suas vítimas,
dez noites, sem pensar nos olhos dos faróis!

Mais doce que as maçãs parecem aos pequenos,
A água verde infiltrou-se no meu casco ao léu
E das manchas azulejantes dos venenos
E vinhos me lavou, livre de leme e arpéu.

Então eu mergulhei nas águas do Poema
do Mar, sarcófago de estrelas, latescente,
Devorando os azuis, onde às vezes – dilema
Lívido – um afogado afunda lentamente;

Onde, tingindo azulidades com quebrantos
E ritmos lentos sob o rutilante albor,
Mais fortes que o álcool, mais vastas que os nossos prantos,
fermentam de amargura as rubéolas do amor!

Conheço os céus crivados de clarões, as trombas,
Ressacas e marés: conheço o entardecer,
A Aurora em explosão como um bando de pombas,
E algumas vezes vi o que o homem quis ver!

Eu vi o sol baixar, sujo de horrores místicos,
Iluminando os longos glaciais;
Como atrizes senis em palcos cabalísticos,
Ondas rolando ao longe os frêmitos de umbrais!

Sonhei que a noite verde em neves alvacentas
Beijava, lenta, o olhar dos mares com mil coros,
Soube a circulação das seivas suculentas
E o acordar louro e azul dos fósforos canoros!

Por meses eu segui, tropel de vacarias
Histéricas, o mar estuprando as areias,
Sem esperar que aos pés de ouro das Marias
Esmorecesse o ardor dos Oceanos sem peias!

Cheguei a visitar as Flóridas perdidas
Com olhos de jaguar florindo em epidermes
De homens! Arco-íris tensos como bridas
No horizonte do mar de glaucos paquidermes.

Vi fermentarem pântanos imensos, ansas
Onde apodrecem Leviatãs distantes!
O desmoronamento da água nas bonanças
E abismos a se abrir no caos, cataratantes!

Geleiras, sóis de prata, ondas e céus cadentes!
Náufragos abissais na tumba dos negrumes,
Onde, pasto de insetos, tombam as serpentes
Dos curvos cipoais, com pérfidos perfumes!

Ah! se as crianças vissem o dourar das ondas,
Áureos peixes do mar azul, peixes cantantes...
– As espumas em flor ninaram minhas rondas
E as brisas da ilusão me alaram por instantes.

Mártir de pólos e de zonas misteriosas,
O mar a soluçar cobria os meus artelhos
Com flores fantasmais de pálidas ventosas
e eu, como uma mulher, me punha de joelhos...

Quase ilha a balouçar entre borras e brados
De gralhas tagarelas com olhar de gelo,
Eu vogava, e por minha rede os afogados
Passavam, a dormir, descendo a contrapelo.

Mas eu, barco perdido em baías e danças,
Lançado no ar sem pássaros pela torrente,
De quem os Monitores e os arpões das Hansas
Não teriam pescado o casco de água ardente;

Livre, fumando em meio às virações inquietas,
Eu que furava o céu violáceo como um muro
Que mancham, acepipe raro aos bons poetas,
Líquens de sol vômitos de azul escuro;

Prancha louca a correr com lúnulas e faíscas
E hipocampos de breu, numa escolta de espuma,
Quando os sóis estivais estilhaçam em riscas
O céu ultramarino e seus funis de bruma;

Eu que tremia ouvindo, ao longe, a estertorar,
O cio dos Behemóts e dos Maelstroms febris,
Fiandeiro sem fim dos marasmos do mar,
Anseio pela Europa e os velhos peitoris!

Eu vi os arquipélagos astrais! e as ilhas
Que o delírio dos céus desvela ao viajor:
– É nas noites sem cor que te esqueces e te ilhas,
Milhão de aves de ouro, ó futuro Vigor?

Sim, chorar eu chorei! São mornas as Auroras!
Toda lua é cruel e todo sol, engano:
O amargo amor opiou de ócios minhas horas.
Ah! que esta quilha rompa! Ah! que me engula o oceano!

Da Europa a água que eu quero é só o charco
Negro e gelado onde, ao crepúsculo violeta,
Um menino tristonho arremesse o seu barco
trêmulo como a asa de uma borboleta.

No meu torpor, não posso, ó vagas, as esteiras
Ultrapassar das naves cheias de algodões,
Nem vencer a altivez das velas e bandeiras,
Nem navegar sob o olho torvo dos pontões.

(Tradução de Augusto de Campos)