O Analfabeto Político
Bertolt Brecht
O pior analfabeto é o analfabeto político.
Ele não ouve, não fala, nem participa dos acontecimentos políticos.
Ele não sabe que o custo de vida, o preço do feijão,
do peixe, da farinha, do aluguel, do sapato e do remédio dependem das decisões políticas.
O analfabeto político é tão burro que se orgulha e estufa o peito dizendo que odeia a política.
Não sabe o imbecil que da sua ignorância política nascem a prostituta, o menor abandonado,
e o pior de todos os bandidos que é o político vigarista,
pilantra, o corrupto e lacaio dos exploradores do povo.
A Aurora
Federico Garcia Lorca
A aurora de Nova York tem
quatro colunas de lodo
e um furacão de negras pombas
que chacoalham as águas podres.
A aurora de Nova York geme pelas imensas escadarias
a buscar entre as arestas
nardos de angústia esboçada.
A aurora chega e ninguém a recebe na boca
porque ali não há manhã nem esperança possível.
Às vezes as moedas em enxames furiosos
traspassam e devoram bebês abandonados.
Os primeiros a sair compreendem com seus ossos
que não haverá paraíso nem amores desfolhados;
sabem que vão ao lodo de números e leis,
a brinquedos sem arte, a suores sem fruto.
A luz é sepultada por correntes e ruídos
em impudico reto de ciência sem raízes.
Pelos bairros há gentes que vacilam insones
como recém-saídas de um naufrágio de sangue.
(De “Romanceiro Gitano e Outros Poemas” -
Tradução de Oscar Mendes – Aguilar – INL - 1973)
A Aurora de Nova York
(Versão para música de Chico Buarque
de Holanda e Raimundo Fagner)
Federico Garcia Lorca
A aurora de nova York tem
Quatro colunas de lodo
E um furacão de pombas
Que explode as águas podres.
A aurora de nova York geme
Nas vastas escadarias
A buscar entre as arestas
Angústias indefinidas.
A aurora chega e ninguém em sua boca a recebe
Porque ali a esperança nem a manhã são possíveis.
E as moedas, como enxames, devoram recém-nascidos.
Os que primeiro se erguem, em seus ossos adivinham:
Não haverá paraíso nem amores desfolhados;
Só números, leis e o lodo de tanto esforço baldado.
A barulheira das ruas sepulta a luz na cidade
E as pessoas pelos bairros vão cambaleando insones
Como se houvessem saído de um naufrágio de sangue.
10 de setembro de 2010
3 de setembro de 2010
Poemas de Cicero Melo
A poesia está morta *
Cicero Melo
A Poesia está morta
E, por enquanto, a enterro,
Não, numa pequena aorta,
Mas numa paixão de ferro.
De ferro que não enferruja.
Ou será tudo ilusão?
Talvez, um dia me fuja,
Quando acabar a paixão.
Mesmo assim, direi, amado:
A paixão é tudo, sê
Para sempre apaixonado,
O olho da amada lê
Teu poema assassinado.
* Poema escrito por Cícero Melo
em 11 de setenbro de 2010:
O casaco de raposa
Cicero Melo
Tudo tão impertinente:
O sul se casa ao silêncio.
A casa, agora, é acaso.
Um mar espelhado espera.
"O poema a seguir é um retorno,
fiz agora (santa inspiração!)"
(Cícero Melo):
Aos encantos de Circe
Cicero Melo
Um sonho de salsugem e saudade
Me reconduz ao cais dos meus perigos.
Meus marujos e naves são antigos.
Uns estão mortos, outros sem idade.
Mortos, também, estão meus inimigos:
Morreram todos: tanta crueldade!
Seus nomes decompostos da cidade,
Sem coração, sem armas, sem abrigos.
Mesmo assim os reclamo mar afora,
Ao retorno do encanto já perdido,
Mas pelo qual meu coração implora.
Feiticeira, devolvo, aqui rendido,
O teu segredo, a sedutora flora,
Nas varizes do tempo envelhecido.
"Este poema, que inspirou o anterior,
já faz parte de diversas antologias":
Sob os encantos de Circe
Cicero Melo
Até regresso ao lar me foi negado,
Eu que vivo ancorado no teu porto.
Feiticeira do mar me tens atado
A teus cabelos de onda, vento morto.
Quando o mar abdiquei por tuas ilhas
Não pensava nas celas dos teus seios,
Levava embarcações de azedas quilhas
Que frágeis acolheram teus enleios.
Agora a lamentar-me o continente
Dos feitos que, guerreiro, lavorei,
Salgas-me os olhos de um cantar nubente
Seduções de sereia, o que me sei
É que o amor fendido vou demente
Singrando a solidão de amargo rei.
Enquanto nos apunhalamos
Cicero Melo
O que é a guerra, senão
Um assalto à mão armada?
Toda paixão quando acaba
A mão sedosa da amada?
O que é a guerra, enfim?
Uma ternura viscosa,
Uma neblina sem fim,
A rosa no fim da rosa.
Enquanto o sol desova
Cicero Melo
Mas tudo mesmo se acaba:
O tempo dentro da vida,
O vinho dentro da taça.
É tudo assim como uma página
Faminta na manhã:
As letras devoram
A traça.
Enquanto nos enganamos
Cicero Melo
A mulher nova
Aquece
O coração do homem velho.
E incendeia o seu bolso.
Cicero Melo
A Poesia está morta
E, por enquanto, a enterro,
Não, numa pequena aorta,
Mas numa paixão de ferro.
De ferro que não enferruja.
Ou será tudo ilusão?
Talvez, um dia me fuja,
Quando acabar a paixão.
Mesmo assim, direi, amado:
A paixão é tudo, sê
Para sempre apaixonado,
O olho da amada lê
Teu poema assassinado.
* Poema escrito por Cícero Melo
em 11 de setenbro de 2010:
O casaco de raposa
Cicero Melo
Tudo tão impertinente:
O sul se casa ao silêncio.
A casa, agora, é acaso.
Um mar espelhado espera.
"O poema a seguir é um retorno,
fiz agora (santa inspiração!)"
(Cícero Melo):
Aos encantos de Circe
Cicero Melo
Um sonho de salsugem e saudade
Me reconduz ao cais dos meus perigos.
Meus marujos e naves são antigos.
Uns estão mortos, outros sem idade.
Mortos, também, estão meus inimigos:
Morreram todos: tanta crueldade!
Seus nomes decompostos da cidade,
Sem coração, sem armas, sem abrigos.
Mesmo assim os reclamo mar afora,
Ao retorno do encanto já perdido,
Mas pelo qual meu coração implora.
Feiticeira, devolvo, aqui rendido,
O teu segredo, a sedutora flora,
Nas varizes do tempo envelhecido.
"Este poema, que inspirou o anterior,
já faz parte de diversas antologias":
Sob os encantos de Circe
Cicero Melo
Até regresso ao lar me foi negado,
Eu que vivo ancorado no teu porto.
Feiticeira do mar me tens atado
A teus cabelos de onda, vento morto.
Quando o mar abdiquei por tuas ilhas
Não pensava nas celas dos teus seios,
Levava embarcações de azedas quilhas
Que frágeis acolheram teus enleios.
Agora a lamentar-me o continente
Dos feitos que, guerreiro, lavorei,
Salgas-me os olhos de um cantar nubente
Seduções de sereia, o que me sei
É que o amor fendido vou demente
Singrando a solidão de amargo rei.
Enquanto nos apunhalamos
Cicero Melo
O que é a guerra, senão
Um assalto à mão armada?
Toda paixão quando acaba
A mão sedosa da amada?
O que é a guerra, enfim?
Uma ternura viscosa,
Uma neblina sem fim,
A rosa no fim da rosa.
Enquanto o sol desova
Cicero Melo
Mas tudo mesmo se acaba:
O tempo dentro da vida,
O vinho dentro da taça.
É tudo assim como uma página
Faminta na manhã:
As letras devoram
A traça.
Enquanto nos enganamos
Cicero Melo
A mulher nova
Aquece
O coração do homem velho.
E incendeia o seu bolso.
29 de agosto de 2010
Poemas alagoanos
afluente & afluentes*
Ronaldo de Andrade
Cientes calmarias e alagoas
a que porto me destinais?
Causais escândalos no meu peito inflado
de mangues e verde azul.
No entrave das orgias e urubus
negra vocação de mistério e nuvens
é concha calcária este meu corpo ilha.
Foi em jangadas que resolveu dormir
as mundaús
que em mundaú eu vim
filha de afluente – Canhoto
tenho a tiborna do sangue peixe.
Tremendo choro o soluço augusto
- de morte inconsciente usina
- de vida a beleza finda
é nada o nadando ir-se.
(*Do livro "Sombras de Mata e Flecha" -
Coleção Viventes das Alagoas - 1991).
O Gogó-da-Ema
Rosalvo Acioli Júnior*
Ó Gogó-da-Ema dos coqueiros,
o desnaturado – misteriosa e átima
dissimetria que assombra
o vasto coração dos ares.
Em seu ardoroso fetiche vegetal,
ó desnaturado, oprimes as criaturas
(imperador dos pesadelos do estendal),
fluindo transfigurado, dissoluto,
na lúcida memória dos mares.
Ó Gogó-da-Ema, dos coqueiros o desnaturado.
Eterno totem luminoso da Pajuçara.
(*Do livro "Maceió" - Editora Senha - 1987)
Marítimo
Nilton Resende*
O solitário repousa à pedra
o seu corpo de âncora e algas.
Sentindo os dedos das ondas diz
baixo: te peço: me afaga.
Diz baixo e é como se dissessem
a pele, os ossos, a alma.
Já perto vêm uns errantes,
envoltos em capas, em cotas.
O homem levanta um dos braços,
e todo, inteiro, invoca:
meu Deus, salvai-me, cobri-me,
deixa-me liberto da horda.
A tropa, ó talho e gume!,
começa o escárnio, a não dança.
Toma de facas, de maças,
golpeia o que a fúria alcança.
O homem se estende, sorvido,
Tritão destituído da lança.
A ira, agora contida,
contente de seu linguajar,
sorri vendo o homem, seu peso,
que o impede de se levantar.
Também a dele leveza,
levada ao jugo do mar.
(*Do livro "A Poesia das Alagoas" - Edições Bagaço,
organizado por Edilma Bomfim e Carlito Lima – 2007)
Ronaldo de Andrade
Cientes calmarias e alagoas
a que porto me destinais?
Causais escândalos no meu peito inflado
de mangues e verde azul.
No entrave das orgias e urubus
negra vocação de mistério e nuvens
é concha calcária este meu corpo ilha.
Foi em jangadas que resolveu dormir
as mundaús
que em mundaú eu vim
filha de afluente – Canhoto
tenho a tiborna do sangue peixe.
Tremendo choro o soluço augusto
- de morte inconsciente usina
- de vida a beleza finda
é nada o nadando ir-se.
(*Do livro "Sombras de Mata e Flecha" -
Coleção Viventes das Alagoas - 1991).
O Gogó-da-Ema
Rosalvo Acioli Júnior*
Ó Gogó-da-Ema dos coqueiros,
o desnaturado – misteriosa e átima
dissimetria que assombra
o vasto coração dos ares.
Em seu ardoroso fetiche vegetal,
ó desnaturado, oprimes as criaturas
(imperador dos pesadelos do estendal),
fluindo transfigurado, dissoluto,
na lúcida memória dos mares.
Ó Gogó-da-Ema, dos coqueiros o desnaturado.
Eterno totem luminoso da Pajuçara.
(*Do livro "Maceió" - Editora Senha - 1987)
Marítimo
Nilton Resende*
O solitário repousa à pedra
o seu corpo de âncora e algas.
Sentindo os dedos das ondas diz
baixo: te peço: me afaga.
Diz baixo e é como se dissessem
a pele, os ossos, a alma.
Já perto vêm uns errantes,
envoltos em capas, em cotas.
O homem levanta um dos braços,
e todo, inteiro, invoca:
meu Deus, salvai-me, cobri-me,
deixa-me liberto da horda.
A tropa, ó talho e gume!,
começa o escárnio, a não dança.
Toma de facas, de maças,
golpeia o que a fúria alcança.
O homem se estende, sorvido,
Tritão destituído da lança.
A ira, agora contida,
contente de seu linguajar,
sorri vendo o homem, seu peso,
que o impede de se levantar.
Também a dele leveza,
levada ao jugo do mar.
(*Do livro "A Poesia das Alagoas" - Edições Bagaço,
organizado por Edilma Bomfim e Carlito Lima – 2007)
11 de agosto de 2010
Meus poemas
Cabo das Tormentas
Iremar Marinho
Há um Cabo das Tormentas a passar
Há uma vida de tormentos a vencer
Há esquadras sobrepostas para o mar
Há o tempo para o império perecer
Há um reino que não volta do Alcácer
Há o poeta que espera o rei voltar
Há o nauta que naufraga ao Bojador
Há o império que sucumbe além da dor
Não consigo atravessar o Tenebroso
Mar Atlante. Como Sísifo e sua pedra
eu não passo o Cabo Não de cansaços
14 de julho de 2010
Conchavo para sopro e cordas
Iremar Marinho
Junte o lixo das palavras.
Para o poema vale tanto
quanto ouro vem da lavra.
Junte signos, emblemas.
Valem chaves para o abismo
no desenredar do tema.
Junte ritmos, assonâncias,
o eco das sinfonias.
Tudo serve à orquestração
de toda dessintonia.
Junte o não o nada nem
para fazer poesia.
Silêncio e palavra
Iremar Marinho
Como expressar horror
com palavras? Estão presas
ao papel (palavras sofrem)
à espera do meu grito.
Como alardear a dor
em fonemas, se as palavras,
já cegas, só ferem quando
manejadas, como facas?
Como viver no escrito,
se, já mortas, as palavras
são sepultadas na lápide
do meu sonho derradeiro?
Iremar Marinho
Há um Cabo das Tormentas a passar
Há uma vida de tormentos a vencer
Há esquadras sobrepostas para o mar
Há o tempo para o império perecer
Há um reino que não volta do Alcácer
Há o poeta que espera o rei voltar
Há o nauta que naufraga ao Bojador
Há o império que sucumbe além da dor
Não consigo atravessar o Tenebroso
Mar Atlante. Como Sísifo e sua pedra
eu não passo o Cabo Não de cansaços
14 de julho de 2010
Conchavo para sopro e cordas
Iremar Marinho
Junte o lixo das palavras.
Para o poema vale tanto
quanto ouro vem da lavra.
Junte signos, emblemas.
Valem chaves para o abismo
no desenredar do tema.
Junte ritmos, assonâncias,
o eco das sinfonias.
Tudo serve à orquestração
de toda dessintonia.
Junte o não o nada nem
para fazer poesia.
Silêncio e palavra
Iremar Marinho
Como expressar horror
com palavras? Estão presas
ao papel (palavras sofrem)
à espera do meu grito.
Como alardear a dor
em fonemas, se as palavras,
já cegas, só ferem quando
manejadas, como facas?
Como viver no escrito,
se, já mortas, as palavras
são sepultadas na lápide
do meu sonho derradeiro?
7 de agosto de 2010
Três poemas de Cicero Melo
A Canção do Afogado
Cicero Melo
Para Antônio Botelho
Filha das fontes,
Dos bosques,
Dos rios sagrados,
Que fazes transposta?
Este é lado das brumas,
Dos pântanos e do Estiges.
Que fazes ao meu lado?
Filha dos bosques,
Dos rios e das fontes,
Que fazes transposta
Ao meu lado?
Este é um lado sem bordas,
Sem sombra e sem corpo,
Um lúdico lago.
Filha dos rios,
Que fazes ao lado
Do afogado?
Os malares e as pálpebras
Cicero Melo
O que é realidade para um fauno?
Nós somos o nada sonhando.
Ergo a última taça
Aos olhos de pedra do suicida.
Estado de conservação
Cicero Melo
Bom.
Cara e lombada com manchas do tempo.
Danos nas bordas e nos bordos.
Corte com manchas:
Anotações à mão amada.
Marca de carimbo na folha de rosto.
Miolos em péssimo estado.
Cicero Melo
Para Antônio Botelho
Filha das fontes,
Dos bosques,
Dos rios sagrados,
Que fazes transposta?
Este é lado das brumas,
Dos pântanos e do Estiges.
Que fazes ao meu lado?
Filha dos bosques,
Dos rios e das fontes,
Que fazes transposta
Ao meu lado?
Este é um lado sem bordas,
Sem sombra e sem corpo,
Um lúdico lago.
Filha dos rios,
Que fazes ao lado
Do afogado?
Os malares e as pálpebras
Cicero Melo
O que é realidade para um fauno?
Nós somos o nada sonhando.
Ergo a última taça
Aos olhos de pedra do suicida.
Estado de conservação
Cicero Melo
Bom.
Cara e lombada com manchas do tempo.
Danos nas bordas e nos bordos.
Corte com manchas:
Anotações à mão amada.
Marca de carimbo na folha de rosto.
Miolos em péssimo estado.
Poema de Antônio Botelho
Soneto da antecedência
Antônio Botelho
Meu pai era coluna enlouquecida
Procurando no céu a morte exata.
Meu pai era gravura apodrecida
Ferida a reabrir na mão do nada.
Meu pai então escuna já partida
A saudade de um mar rondando a praia
Levantava, lembrança retorcida,
Da valsa que na carne encarcerara.
Meu pai, rosa de ferro e da loucura,
Transportava em seu corpo a tenra imagem
Do outro que no peito a fera instiga.
Espada ferindo o corpo e a ternura
Corcel azul correndo pela aragem
Meu pai, vitral na morte, já cintila.
Antônio Botelho é um dos maiores poetas do Brasil, hoje. Detentor de vários prêmios e livros publicados, é o mais jovem daquilo que denomino Geração 80. É pernambucano do Recife. Procurador Federal, reside atualmente em Sergipe. (Cicero Melo)
Antônio Botelho
Meu pai era coluna enlouquecida
Procurando no céu a morte exata.
Meu pai era gravura apodrecida
Ferida a reabrir na mão do nada.
Meu pai então escuna já partida
A saudade de um mar rondando a praia
Levantava, lembrança retorcida,
Da valsa que na carne encarcerara.
Meu pai, rosa de ferro e da loucura,
Transportava em seu corpo a tenra imagem
Do outro que no peito a fera instiga.
Espada ferindo o corpo e a ternura
Corcel azul correndo pela aragem
Meu pai, vitral na morte, já cintila.
Antônio Botelho é um dos maiores poetas do Brasil, hoje. Detentor de vários prêmios e livros publicados, é o mais jovem daquilo que denomino Geração 80. É pernambucano do Recife. Procurador Federal, reside atualmente em Sergipe. (Cicero Melo)
26 de julho de 2010
Poemas de Maurício de Macedo
Kaváfis
Maurício de Macedo
Helênica sensualidade pagã,
abriga do poeta o desterrado coração
que é pequena e pobre a amargura cristã
para a vibração da carne viril
fazendo-se verbo e canção.
Repentista
Maurício de Macedo
De repente,de repente.
O metro e a rima,de repente
- tudo está no ouvido.
Tudo está no diálogo da natureza
no ouvido
e não há espaço para o silêncio do homem
falando consigo mesmo.
A palavra pela cauda
- cavaleiro pegando boi brabo.
E a rima como os cascos do cavalo
percutindo no peito da terra.
De repente,de repente,
a natureza a pulsar
no diálogo dos ouvidos,
antes da queda do homem.
Alagoano de Maceió, onde reside, Maurício de Macedo publicou os seguintes livros de poesia: Cinzel da Língua (1996), Sínteses da Sombra (1997), Aventuras da Negra Fulô (1998), Esfinge Caeté (1999), Onde a vida fere mais fundo (1999), A palavra feito brasa (2000), Canção dos Orixás (2001), A poesia no cordão seguido de Pastoril (2002), A ostra e a pérola (2003), Das Alagoas seguido de Guerreiro (2003), Tear da palavra (2004), Escorial do Açúcar (2004), À Beira do Silêncio (2005), A água e a pedra (2005), Epifania (2006), À sombra das palavras (2006), Fragmento (2007) e Dispnéia (2008)
Maurício de Macedo
Helênica sensualidade pagã,
abriga do poeta o desterrado coração
que é pequena e pobre a amargura cristã
para a vibração da carne viril
fazendo-se verbo e canção.
Repentista
Maurício de Macedo
De repente,de repente.
O metro e a rima,de repente
- tudo está no ouvido.
Tudo está no diálogo da natureza
no ouvido
e não há espaço para o silêncio do homem
falando consigo mesmo.
A palavra pela cauda
- cavaleiro pegando boi brabo.
E a rima como os cascos do cavalo
percutindo no peito da terra.
De repente,de repente,
a natureza a pulsar
no diálogo dos ouvidos,
antes da queda do homem.
Alagoano de Maceió, onde reside, Maurício de Macedo publicou os seguintes livros de poesia: Cinzel da Língua (1996), Sínteses da Sombra (1997), Aventuras da Negra Fulô (1998), Esfinge Caeté (1999), Onde a vida fere mais fundo (1999), A palavra feito brasa (2000), Canção dos Orixás (2001), A poesia no cordão seguido de Pastoril (2002), A ostra e a pérola (2003), Das Alagoas seguido de Guerreiro (2003), Tear da palavra (2004), Escorial do Açúcar (2004), À Beira do Silêncio (2005), A água e a pedra (2005), Epifania (2006), À sombra das palavras (2006), Fragmento (2007) e Dispnéia (2008)
18 de julho de 2010
Poemas de Arriete Vilela
POEMA N. 21
Arriete Vilela
Hoje farejas indícios
de novas trilhas,
velas o teu coração tornado
ríspido, brumoso,
e vais às praças públicas colher
um súbito rosto.
Hoje tenho nos olhos
somente a dança das
estrelas cadentes
fazendo-se mar e poesia:
a minha melhor
porção diária de vida.
POEMA N. 26
Da janela sobre o mar,
sem saudades eu dou adeus
a mim mesma;
faço-me outra,
e nova.
Quero trazer-me alegre
à luz do dia ou da noite,
sossegar-me nas trovoadas,
evitar as esporas do vento
nos meus cabelos.
Inútil esforço,
Sei. Aos meus olhos
ola-se, diariamente,
uma alma de estopa áspera,
embora rara.
POEMA N. 28
Os meninos de rua
Parecem pardais urbanos:
em ligeiros vôos
acham-se em toda parte,
aproveitam restos de toda sorte.
Tropical
é algazarra de suas vozes,
quando se ajuntam;
seus gestos e jeitos,
de uma graça desavisada,
assustam e comovem.
Atentíssimo dever ser
o anjo da guarda dos meninos de rua,
esses tantos pardais urbanos.
POEMA N. 29
Vou me sabendo sem remansos.
Por vezes o mar estronda
dentro de mim
e tempestades medonhas me obrigam
a descer aos porões, a reconhecer-me
nas escotilhas fechadas da minha
incômoda solidão.
Difícil reconhecimento, porém.
Eu já sou muitas.
Meus olhos, é verdade,
ainda se mantêm amorosamente
indiscretos, e minha alma busca
da palavra as seduções segredosas
que me ardem no peito.
Mas já não me deixo
Possuir.
Arriete Vilela
Hoje farejas indícios
de novas trilhas,
velas o teu coração tornado
ríspido, brumoso,
e vais às praças públicas colher
um súbito rosto.
Hoje tenho nos olhos
somente a dança das
estrelas cadentes
fazendo-se mar e poesia:
a minha melhor
porção diária de vida.
POEMA N. 26
Da janela sobre o mar,
sem saudades eu dou adeus
a mim mesma;
faço-me outra,
e nova.
Quero trazer-me alegre
à luz do dia ou da noite,
sossegar-me nas trovoadas,
evitar as esporas do vento
nos meus cabelos.
Inútil esforço,
Sei. Aos meus olhos
ola-se, diariamente,
uma alma de estopa áspera,
embora rara.
POEMA N. 28
Os meninos de rua
Parecem pardais urbanos:
em ligeiros vôos
acham-se em toda parte,
aproveitam restos de toda sorte.
Tropical
é algazarra de suas vozes,
quando se ajuntam;
seus gestos e jeitos,
de uma graça desavisada,
assustam e comovem.
Atentíssimo dever ser
o anjo da guarda dos meninos de rua,
esses tantos pardais urbanos.
POEMA N. 29
Vou me sabendo sem remansos.
Por vezes o mar estronda
dentro de mim
e tempestades medonhas me obrigam
a descer aos porões, a reconhecer-me
nas escotilhas fechadas da minha
incômoda solidão.
Difícil reconhecimento, porém.
Eu já sou muitas.
Meus olhos, é verdade,
ainda se mantêm amorosamente
indiscretos, e minha alma busca
da palavra as seduções segredosas
que me ardem no peito.
Mas já não me deixo
Possuir.
6 de julho de 2010
Poema de Roberto Piva
Jorge de Lima, panfletário do Caos
Roberto Piva
Foi no dia 31 de dezembro de 1961 que te compreendi Jorge de Lima
enquanto eu caminhava pelas praças agitadas pela melancolia presente
na minha memória devorada pelo azul eu soube decifrar
os teus jogos noturnos indisfarçável entre as flores
uníssonos em tua cabeça de prata e plantas ampliadas
como teus olhos crescem na paisagem Jorge de Lima e como tua boca
palpita nos bulevares oxidados pela névoa
uma constelação de cinza esboroa-se na contemplação inconsútil
de tua túnica
e um milhão de vagalumes trazendo estranhas tatuagens no ventre
se despedaçam contra os ninhos da Eternidade
é neste momento de fermento e agonia que te invoco grande alucinado
querido e estranho professor do Caos sabendo que teu nome deve
estar como uma talismã nos lábios de todos os meninos.
O poeta Roberto Piva morreu em São Paulo, no dia 3 de junho de 2010
aos 72 anos. Ele estava internado no Incor (Instituto do Coraçao)
desde o dia 13 de maio. A causa da morte foi falência múltipla
de órgãos em decorrência de uma insuficiência renal.
Piva nasceu em São Paulo, aos 22 anos já era poeta reconhecido.
Foi descoberto pelo editor Massao Ohno e, aos 23 anos,
publicou sua obra-prima, Paranóia (1963).
O livro se esgotou em duas semanas e hoje é artigo de luxo
entre colecionadores. Depois disso, a obra Piazzas (1980),
confirmou seu talento. Quem perdeu aquela edição,
hoje pode encontrar esse e outros livros do poeta
em uma compilação da editora Globo de três volumes.
O último deles, Estranhos Sinais de Saturno, foi lançado em 2008.
O poeta tinha a alma inquieta.
Nadou incansavelmente contra a corrente e por isso é o principal nome -
junto com seu parceiro e amigo Cláudio Willer - da poesia marginal.
Para sobreviver, ele deu aulas de filosofia e produziu shows de rock.
Do Terra
Roberto Piva
Foi no dia 31 de dezembro de 1961 que te compreendi Jorge de Lima
enquanto eu caminhava pelas praças agitadas pela melancolia presente
na minha memória devorada pelo azul eu soube decifrar
os teus jogos noturnos indisfarçável entre as flores
uníssonos em tua cabeça de prata e plantas ampliadas
como teus olhos crescem na paisagem Jorge de Lima e como tua boca
palpita nos bulevares oxidados pela névoa
uma constelação de cinza esboroa-se na contemplação inconsútil
de tua túnica
e um milhão de vagalumes trazendo estranhas tatuagens no ventre
se despedaçam contra os ninhos da Eternidade
é neste momento de fermento e agonia que te invoco grande alucinado
querido e estranho professor do Caos sabendo que teu nome deve
estar como uma talismã nos lábios de todos os meninos.
O poeta Roberto Piva morreu em São Paulo, no dia 3 de junho de 2010
aos 72 anos. Ele estava internado no Incor (Instituto do Coraçao)
desde o dia 13 de maio. A causa da morte foi falência múltipla
de órgãos em decorrência de uma insuficiência renal.
Piva nasceu em São Paulo, aos 22 anos já era poeta reconhecido.
Foi descoberto pelo editor Massao Ohno e, aos 23 anos,
publicou sua obra-prima, Paranóia (1963).
O livro se esgotou em duas semanas e hoje é artigo de luxo
entre colecionadores. Depois disso, a obra Piazzas (1980),
confirmou seu talento. Quem perdeu aquela edição,
hoje pode encontrar esse e outros livros do poeta
em uma compilação da editora Globo de três volumes.
O último deles, Estranhos Sinais de Saturno, foi lançado em 2008.
O poeta tinha a alma inquieta.
Nadou incansavelmente contra a corrente e por isso é o principal nome -
junto com seu parceiro e amigo Cláudio Willer - da poesia marginal.
Para sobreviver, ele deu aulas de filosofia e produziu shows de rock.
Do Terra
Melhores poemas que eu li
Desmantelo azul
Carlos Pena Filho
Então pintei de azul os meus sapatos
por não poder de azul pintar as ruas
depois vesti meus gestos insensatos
e colori as minhas mãos e as tuas
Para extinguir de nós o azul ausente
e aprisionar o azul nas coisas gratas
Enfim, nós derramamos simplesmente
azul sobre os vestidos e as gravatas
E afogados em nós nem nos lembramos
que no excesso que havia em nosso espaço
pudesse haver de azul também cansaço
E perdidos no azul nos contemplamos
e vimos que entre nós nascia um sul
vertiginosamente azul: azul.
A encantação pelo riso
Velimir Khléblinikov
Ride, ridentes!
Derride, derridentes!
Risonhai aos risos, rimente risandai!
Derride sorrimente!
Risos sobrerrisos - risadas de sorrideiros risores!
Hílare esrir, risos de sobrerridores riseiros!
Sorrisonhos, risonhos,
Sorride, ridiculai, risando, risantes,
Hilariando, riando,
Ride, ridentes!
Derride, derridentes!
1910
(Tradução: Haroldo de Campos)
Subversiva
Ferreira Gullar
A poesia
Quando chega
Não respeita nada.
Nem pai nem mãe.
Quando ela chega
De qualquer de seus abismos
Desconhece o Estado e a Sociedade Civil
Infringe o Código de Águas
Relincha
Como puta
Nova
Em frente ao Palácio da Alvorada.
E só depois
Reconsidera: beija
Nos olhos os que ganham mal
Embala no colo
Os que têm sede de felicidade
E de justiça.
E promete incendiar o país.
Carlos Pena Filho
Então pintei de azul os meus sapatos
por não poder de azul pintar as ruas
depois vesti meus gestos insensatos
e colori as minhas mãos e as tuas
Para extinguir de nós o azul ausente
e aprisionar o azul nas coisas gratas
Enfim, nós derramamos simplesmente
azul sobre os vestidos e as gravatas
E afogados em nós nem nos lembramos
que no excesso que havia em nosso espaço
pudesse haver de azul também cansaço
E perdidos no azul nos contemplamos
e vimos que entre nós nascia um sul
vertiginosamente azul: azul.
A encantação pelo riso
Velimir Khléblinikov
Ride, ridentes!
Derride, derridentes!
Risonhai aos risos, rimente risandai!
Derride sorrimente!
Risos sobrerrisos - risadas de sorrideiros risores!
Hílare esrir, risos de sobrerridores riseiros!
Sorrisonhos, risonhos,
Sorride, ridiculai, risando, risantes,
Hilariando, riando,
Ride, ridentes!
Derride, derridentes!
1910
(Tradução: Haroldo de Campos)
Subversiva
Ferreira Gullar
A poesia
Quando chega
Não respeita nada.
Nem pai nem mãe.
Quando ela chega
De qualquer de seus abismos
Desconhece o Estado e a Sociedade Civil
Infringe o Código de Águas
Relincha
Como puta
Nova
Em frente ao Palácio da Alvorada.
E só depois
Reconsidera: beija
Nos olhos os que ganham mal
Embala no colo
Os que têm sede de felicidade
E de justiça.
E promete incendiar o país.
20 de junho de 2010
Novos poemas de Cicero Melo
Enquanto nos apunhalamos
Cícero Melo
O que é a guerra, senão
Um assalto à mão armada?
Toda paixão quando acaba
A mão sedosa da amada?
O que é a guerra, enfim?
Uma ternura viscosa,
Uma neblina sem fim,
A rosa no fim da rosa.
O jogo
Cicero Melo
Está se aproximando o último sono.
Aquele que nunca sonhei,
E ninguém quer sonhar.
Mas, uma cama ou qualquer horizontal
Nos fará ir, ir, ir, dormir.
"Mãe, ainda é cedo! Deixe-me jogar mais um pouco!"
Sombra
Cicero Melo
Havia uma mulher fora do espelho
Em que habitava meu corpo esquecido.
Havia uma mulher fora de mim.
Havia, com certeza, uma mulher lá fora.
Não digam que sonhei. Havia uma mulher
Fora de mim. E eu a amava.
Havia uma mulher fora do espelho
E dentro dela outro espelho havia.
Cícero Melo
O que é a guerra, senão
Um assalto à mão armada?
Toda paixão quando acaba
A mão sedosa da amada?
O que é a guerra, enfim?
Uma ternura viscosa,
Uma neblina sem fim,
A rosa no fim da rosa.
O jogo
Cicero Melo
Está se aproximando o último sono.
Aquele que nunca sonhei,
E ninguém quer sonhar.
Mas, uma cama ou qualquer horizontal
Nos fará ir, ir, ir, dormir.
"Mãe, ainda é cedo! Deixe-me jogar mais um pouco!"
Sombra
Cicero Melo
Havia uma mulher fora do espelho
Em que habitava meu corpo esquecido.
Havia uma mulher fora de mim.
Havia, com certeza, uma mulher lá fora.
Não digam que sonhei. Havia uma mulher
Fora de mim. E eu a amava.
Havia uma mulher fora do espelho
E dentro dela outro espelho havia.
9 de junho de 2010
Poemas de Lêdo Ivo
Cemitério dos Navios
Lêdo Ivo
Aqui os navios se escondem para morrer.
Nos porões vazios, só ficaram os ratos
à espera da impossível ressurreição.
E do esplendor do mundo sequer restou
o zarcão nos beiços do tempo.
O vento raspa as letras
dos nomes que os meninos soletravam.
A noite canina lambe
as cordoalhas esfarinhadas
sob o vôo das gaivotas estridentes
que, no cio, se ajuntam no fundo da baía.
Clareando madeiras podres e águas estagnadas,
o dia, com o seu olho cego, devora o gancho
que marca no casco as cicatrizes
do portaló que era um degrau do universo.
E a tarde prenhe de estrelas
inclina-se sobre a cabine onde, antigamente,
um casal aturdido pelo amor mais carnal
erguia no silêncio negras paliçadas.
Ó navios perdidos, velhos surdos
que, dormitando, escutam os seus próprios apitos
varando a neblina, no porto onde os barcos
eram como um rebanho atravessando a treva!
Canto Grande
Lêdo Ivo
Não tenho mais canções de amor.
Joguei tudo pela janela.
Em companhia da linguagem
fiquei, e o mundo se elucida.
Do mar guardei a melhor onda
que é menos móvel que o amor.
E da vida, guardei a dor
de todos os que estão sofrendo.
Sou um homem que perdeu tudo
mas criou a realidade,
fogueira de imagens, depósito
de coisas que jamais explodem.
De tudo quero o essencial:
o aqueduto de uma cidade,
rodovia do litoral,
o refluxo de uma palavra.
Longe dos céus, mesmo dos próximos,
e perto dos confins da terra,
aqui estou. Minha canção
enfrenta o inverno, é de concreto.
Meu coração está batendo
sua canção de amor maior.
Bate por toda a humanidade,
em verdade não estou só.
Posso agora comunicar-me
e sei que o mundo é muito grande.
Pela mão, levam-me as palavras
a geografias absolutas.
Lêdo Ivo, jornalista, poeta, romancista, contista, cronista e ensaísta, nasceu em Maceió, AL, em 18 de fevereiro de 1924. É membro da Academia Brasileira de Letras. Eleito em 13 de novembro de 1986 para a Cadeira n. 10, sucedendo a Orígenes Lessa, foi recebido em 7 de abril de 1987, pelo acadêmico Dom Marcos Barbosa.
Obras: As Imaginações (1944), Ode e Elegia (1945), As Alianças (1947), Acontecimento do Soneto (1948), O Caminho sem Aventura (1948), Ode ao Crepúsculo (1948), Cântico (1949), Linguagem (1951), Lição de Mário de Andrade (1951), Ode Equatorial (1951), Um Brasileiro em Paris e O Rei da Europa (1955), O Preto no Branco (1955), A Cidade e os Dias (1957), Magias (1960), O Girassol às Avessas (1960), Use a Passagem Subterrânea (1961), Paraísos de Papel (1961), Uma Lira dos Vinte Anos (1962), Ladrão de Flor (1963), O Universo Poético de Raul Pompéia (1963), O Sobrinho do General (1964), Estação Central (1964), Poesia Observada (1967), Finisterra (1972), Modernismo e Modernidade (1972), Ninho de Cobras (1973), O Sinal Semafórico (1974), Teoria e Celebração (1976), Alagoas (1976), Confissões de um Poeta (1979), O Soldado Raso (1980), A Ética da Aventura (1982), A Noite Misteriosa (1982), A Morte do Brasil (1984), Calabar (1985), Mar Oceano (1987), Crepúsculo Civil (1990), O Aluno Relapso (1991), A República das Desilusões (1995), Curral de Peixe (1995).
Lêdo Ivo
Aqui os navios se escondem para morrer.
Nos porões vazios, só ficaram os ratos
à espera da impossível ressurreição.
E do esplendor do mundo sequer restou
o zarcão nos beiços do tempo.
O vento raspa as letras
dos nomes que os meninos soletravam.
A noite canina lambe
as cordoalhas esfarinhadas
sob o vôo das gaivotas estridentes
que, no cio, se ajuntam no fundo da baía.
Clareando madeiras podres e águas estagnadas,
o dia, com o seu olho cego, devora o gancho
que marca no casco as cicatrizes
do portaló que era um degrau do universo.
E a tarde prenhe de estrelas
inclina-se sobre a cabine onde, antigamente,
um casal aturdido pelo amor mais carnal
erguia no silêncio negras paliçadas.
Ó navios perdidos, velhos surdos
que, dormitando, escutam os seus próprios apitos
varando a neblina, no porto onde os barcos
eram como um rebanho atravessando a treva!
Canto Grande
Lêdo Ivo
Não tenho mais canções de amor.
Joguei tudo pela janela.
Em companhia da linguagem
fiquei, e o mundo se elucida.
Do mar guardei a melhor onda
que é menos móvel que o amor.
E da vida, guardei a dor
de todos os que estão sofrendo.
Sou um homem que perdeu tudo
mas criou a realidade,
fogueira de imagens, depósito
de coisas que jamais explodem.
De tudo quero o essencial:
o aqueduto de uma cidade,
rodovia do litoral,
o refluxo de uma palavra.
Longe dos céus, mesmo dos próximos,
e perto dos confins da terra,
aqui estou. Minha canção
enfrenta o inverno, é de concreto.
Meu coração está batendo
sua canção de amor maior.
Bate por toda a humanidade,
em verdade não estou só.
Posso agora comunicar-me
e sei que o mundo é muito grande.
Pela mão, levam-me as palavras
a geografias absolutas.
Lêdo Ivo, jornalista, poeta, romancista, contista, cronista e ensaísta, nasceu em Maceió, AL, em 18 de fevereiro de 1924. É membro da Academia Brasileira de Letras. Eleito em 13 de novembro de 1986 para a Cadeira n. 10, sucedendo a Orígenes Lessa, foi recebido em 7 de abril de 1987, pelo acadêmico Dom Marcos Barbosa.
Obras: As Imaginações (1944), Ode e Elegia (1945), As Alianças (1947), Acontecimento do Soneto (1948), O Caminho sem Aventura (1948), Ode ao Crepúsculo (1948), Cântico (1949), Linguagem (1951), Lição de Mário de Andrade (1951), Ode Equatorial (1951), Um Brasileiro em Paris e O Rei da Europa (1955), O Preto no Branco (1955), A Cidade e os Dias (1957), Magias (1960), O Girassol às Avessas (1960), Use a Passagem Subterrânea (1961), Paraísos de Papel (1961), Uma Lira dos Vinte Anos (1962), Ladrão de Flor (1963), O Universo Poético de Raul Pompéia (1963), O Sobrinho do General (1964), Estação Central (1964), Poesia Observada (1967), Finisterra (1972), Modernismo e Modernidade (1972), Ninho de Cobras (1973), O Sinal Semafórico (1974), Teoria e Celebração (1976), Alagoas (1976), Confissões de um Poeta (1979), O Soldado Raso (1980), A Ética da Aventura (1982), A Noite Misteriosa (1982), A Morte do Brasil (1984), Calabar (1985), Mar Oceano (1987), Crepúsculo Civil (1990), O Aluno Relapso (1991), A República das Desilusões (1995), Curral de Peixe (1995).
25 de maio de 2010
Poema para Cícero Melo
A Idade da Carne
Paulo Gustavo
Nunca tivemos nem teremos a idade do ouro.
O que temos é a idade da carne.
Pouco importa chamarmos as estrelas,
A constelação preferida, a luz remota,
Os adjetivos do cosmos.
Nossa gramática é a carne: suas pirâmides, seus desvãos,
Seus súbitos pontos finais.
Nunca teremos ouro no cofre sangrento do coração.
Nosso reino é a carne, nosso governo é a carne,
Nossa miragem é a carne, mais esplêndida
que o ouro dos séculos,
Mais florida que os jardins do Éden.
É só o que temos: a efêmera idade da carne.
É nela que atravessamos a floresta da vida
Até a clareira de nossa morte.
Paulo Gustavo
Nunca tivemos nem teremos a idade do ouro.
O que temos é a idade da carne.
Pouco importa chamarmos as estrelas,
A constelação preferida, a luz remota,
Os adjetivos do cosmos.
Nossa gramática é a carne: suas pirâmides, seus desvãos,
Seus súbitos pontos finais.
Nunca teremos ouro no cofre sangrento do coração.
Nosso reino é a carne, nosso governo é a carne,
Nossa miragem é a carne, mais esplêndida
que o ouro dos séculos,
Mais florida que os jardins do Éden.
É só o que temos: a efêmera idade da carne.
É nela que atravessamos a floresta da vida
Até a clareira de nossa morte.
21 de maio de 2010
Meus Poemas
Cidade Atlântica
Iremar Marinho
Uma vazante tardia
alaga a Cidade Atlântica.
Seres anfíbios, acossados,
povoam os bancos de areia.
Maré de caranguejos tortos
(o peso da lama e salsugem)
emerge Brejal adentro.
Os maceioenses,
com a vida torta
dos goiamuns,
entram e saem dos becos, das tocas,
aos encontrões nas ruas tortas.
Entre o mar – a sua cruz –
e as lagoas – a espada
de Dâmocles da tiborna –
Maceió se espreme,
vaporosa e alagadiça.
No embate de mar e água doce,
só os caranguejos sobrevivem,
chafurdando na areia traiçoeira.
A terra prometida –
uma ilha no mapa da restinga –
é dos seres anfíbios afinal.
A redenção é dos caranguejos.
Tapagem do Alagadiço
Iremar Marinho
Maceió tem o seu mapa
traçado num berço de águas.
Entre o mar e a lagoa,
flutua a terra movediça.
Seu povo (seres anfíbios)
afunda e emerge
(afoga-se e revive)
A Cidade Atlântica
é porto de sereias
que aplacam a ira do mar
com orgasmos de sargaços.
Poema a um cão
Iremar Marinho
Ladra o cão na noite,
guardando a entrada
do inferno-horror.
A noite penetra
os cantos escuros
(seus encantos-muros).
O cão irreflexo
(o corpo inflexo)
morde a cauda em círculo.
A noite cai sobre o cão
(os gestos alertas
e negra penugem).
Com o cão na pálpebra,
não espero o dia
de pálida aurora.
Sonho madrugadas
e manhãs perdidas
(encardidos sonhos).
Na noite ferida,
ladra o cão vazio,
rosna vão vadio.
Vaga o cão sem-noite.
Na rua sem-dia,
tomba sob açoites.
Iremar Marinho
Uma vazante tardia
alaga a Cidade Atlântica.
Seres anfíbios, acossados,
povoam os bancos de areia.
Maré de caranguejos tortos
(o peso da lama e salsugem)
emerge Brejal adentro.
Os maceioenses,
com a vida torta
dos goiamuns,
entram e saem dos becos, das tocas,
aos encontrões nas ruas tortas.
Entre o mar – a sua cruz –
e as lagoas – a espada
de Dâmocles da tiborna –
Maceió se espreme,
vaporosa e alagadiça.
No embate de mar e água doce,
só os caranguejos sobrevivem,
chafurdando na areia traiçoeira.
A terra prometida –
uma ilha no mapa da restinga –
é dos seres anfíbios afinal.
A redenção é dos caranguejos.
Tapagem do Alagadiço
Iremar Marinho
Maceió tem o seu mapa
traçado num berço de águas.
Entre o mar e a lagoa,
flutua a terra movediça.
Seu povo (seres anfíbios)
afunda e emerge
(afoga-se e revive)
A Cidade Atlântica
é porto de sereias
que aplacam a ira do mar
com orgasmos de sargaços.
Poema a um cão
Iremar Marinho
Ladra o cão na noite,
guardando a entrada
do inferno-horror.
A noite penetra
os cantos escuros
(seus encantos-muros).
O cão irreflexo
(o corpo inflexo)
morde a cauda em círculo.
A noite cai sobre o cão
(os gestos alertas
e negra penugem).
Com o cão na pálpebra,
não espero o dia
de pálida aurora.
Sonho madrugadas
e manhãs perdidas
(encardidos sonhos).
Na noite ferida,
ladra o cão vazio,
rosna vão vadio.
Vaga o cão sem-noite.
Na rua sem-dia,
tomba sob açoites.
14 de maio de 2010
Melhores poemas que eu li
A alma escolhe
Emily Dickinson
A alma escolhe sua companhia
E fecha os portais.
Em sua divina soberania
Não se entra mais.
Impassível, reconhece a carruagem
Parando à entrada;
Impassível, vê um rei que se ajoelha
No seu tapete.
Sei que escolheu de uma grande nação
Um só, a dedo.
Depois fechou as valvas da atenção
Como um rochedo.
Eu vi um homem perseguindo o horizonte
Stephen Crane
Eu vi um homem perseguindo o horizonte;
Giravam e giravam à toa.
Aquilo me perturbou;
Aproximei-me do homem.
“É tolice”, murmurei,
“Você jamais poderá...”
“Você mente”, gritou ele,
E continuou correndo.
(Traduções de Jorge Wanderley, in Antologia da Nova Poesia Norte-Americana)
Emily Dickinson
A alma escolhe sua companhia
E fecha os portais.
Em sua divina soberania
Não se entra mais.
Impassível, reconhece a carruagem
Parando à entrada;
Impassível, vê um rei que se ajoelha
No seu tapete.
Sei que escolheu de uma grande nação
Um só, a dedo.
Depois fechou as valvas da atenção
Como um rochedo.
Eu vi um homem perseguindo o horizonte
Stephen Crane
Eu vi um homem perseguindo o horizonte;
Giravam e giravam à toa.
Aquilo me perturbou;
Aproximei-me do homem.
“É tolice”, murmurei,
“Você jamais poderá...”
“Você mente”, gritou ele,
E continuou correndo.
(Traduções de Jorge Wanderley, in Antologia da Nova Poesia Norte-Americana)
8 de maio de 2010
Poema de Cícero Melo
Para mamãe fazendo uma omelete
Mamãe, eu te reflito como um lago
A cor do céu estende na água clara.
No teu olhar esconde-se minha alma,
Quando cansado de viver naufrago.
E quando a solidão, à noite, afago,
A noite crespa que me fere a palma,
Meus cabelos de dor teu canto espalma,
E, menino de novo, durmo e vago.
Mamãe – foi tão errada a rota e vã
A batalha tecida em meu afã,
Que de tanto morrer não me sei morto;
Pois, sempre que me vejo ao léu da vida,
Busco-te a vela que não sei perdida,
Ó nau primeira do primeiro porto!
(Este soneto foi escrito em 09/05/87. Minha mãe morreu no Natal do ano passado. C.M.)
Mamãe, eu te reflito como um lago
A cor do céu estende na água clara.
No teu olhar esconde-se minha alma,
Quando cansado de viver naufrago.
E quando a solidão, à noite, afago,
A noite crespa que me fere a palma,
Meus cabelos de dor teu canto espalma,
E, menino de novo, durmo e vago.
Mamãe – foi tão errada a rota e vã
A batalha tecida em meu afã,
Que de tanto morrer não me sei morto;
Pois, sempre que me vejo ao léu da vida,
Busco-te a vela que não sei perdida,
Ó nau primeira do primeiro porto!
(Este soneto foi escrito em 09/05/87. Minha mãe morreu no Natal do ano passado. C.M.)
4 de maio de 2010
Poemas alagoanos
Preparação da manhã
Gonzaga Leão
É duro dizer, criança
filho do triste operário
do sofrido camponês
que em vez dos belos brinquedos
que te fariam feliz,
dar-te-ei canhões fuzis
e a noite feita de medo;
contar-te-ei em segredo
(não histórias pra dormir)
que neste imenso país
somente o rico é feliz
só o rico tem porvir;
e contar-te-ei também
que o pão que falta em teu prato
sobra no prato de alguém;
que tua roupa nenhuma
não mais serve a quem a tem.
Mas direi no entanto a ti
(rudemente enquanto falo)
que nessa estrada de agora
não muito distante a aurora
já avia seus cavalos
com seu jaezes de fogo
e ardentes ferros nos cascos
com sua fonte de sol
a celebrar-se nos olhos,
que deixarão claridades
de manhãs onde passarem:
- e não haverá mais sede
boca não dessendentada
rios que não tenham ponte
de paz e fraternidade.
E no chão de todo o mundo
transformado em bem comum
rebentarão as sementes
e o pão será permanente
na mesa de qualquer um.
(Maceió/Alagoas - Fevereiro de 1963)
Soneto elegíaco
Francisco Valois
O meu olhar, insone, devassando
o silêncio da sombra refletida:
- no ventre do cristal se congelando
os vestígios da imagem consumida.
Na linguagem das mãos, enclausurando
o momento da morte acontecida,
há, transparente e vaga, modulando
uma canção fugaz e indefinida.
No espelho, formas de luar estáticas
e, no longínquo sono, mãos aquáticas
são o apelo da morta que naufraga.
Supero dimensões de continentes:
- na salsugem dos olhos languescentes,
Envolto o morto amor desfeito em vaga.
Gonzaga Leão
É duro dizer, criança
filho do triste operário
do sofrido camponês
que em vez dos belos brinquedos
que te fariam feliz,
dar-te-ei canhões fuzis
e a noite feita de medo;
contar-te-ei em segredo
(não histórias pra dormir)
que neste imenso país
somente o rico é feliz
só o rico tem porvir;
e contar-te-ei também
que o pão que falta em teu prato
sobra no prato de alguém;
que tua roupa nenhuma
não mais serve a quem a tem.
Mas direi no entanto a ti
(rudemente enquanto falo)
que nessa estrada de agora
não muito distante a aurora
já avia seus cavalos
com seu jaezes de fogo
e ardentes ferros nos cascos
com sua fonte de sol
a celebrar-se nos olhos,
que deixarão claridades
de manhãs onde passarem:
- e não haverá mais sede
boca não dessendentada
rios que não tenham ponte
de paz e fraternidade.
E no chão de todo o mundo
transformado em bem comum
rebentarão as sementes
e o pão será permanente
na mesa de qualquer um.
(Maceió/Alagoas - Fevereiro de 1963)
Soneto elegíaco
Francisco Valois
O meu olhar, insone, devassando
o silêncio da sombra refletida:
- no ventre do cristal se congelando
os vestígios da imagem consumida.
Na linguagem das mãos, enclausurando
o momento da morte acontecida,
há, transparente e vaga, modulando
uma canção fugaz e indefinida.
No espelho, formas de luar estáticas
e, no longínquo sono, mãos aquáticas
são o apelo da morta que naufraga.
Supero dimensões de continentes:
- na salsugem dos olhos languescentes,
Envolto o morto amor desfeito em vaga.
23 de abril de 2010
Poemas de Jorge de Lima
A garupa da vaca era palustre e bela
Jorge de Lima
Canto XV - Invenção de Orfeu
A garupa da vaca era palustre e bela,
uma penugem havia em seu queixo formoso;
e na fronte lunada onde ardia uma estrela
pairava um pensamento em constante repouso.
Esta a imagem da vaca, a mais pura e singela
que do fundo do sonho eu às vezes esposo
e confunde-se à noite à outra imagem daquela
que ama me amamentou e jaz no último pouso.
Escuto-lhe o mugido, era o meu acalanto,
e seu olhar tão doce inda sinto no meu:
o seio e o ubre natais irrigam-me em seus veios.
Confundo-os nessa ganga informe que é meu canto:
semblante e leite, a vaca e a mulher que me deu
o leite e a suavidade a manar de dois seios.
Essa infanta
Jorge de Lima
Essa infanta boreal era a defunta
em noturna pavana sempre ungida,
colorida de galos silenciosos,
extrema-ungida de óleos renovados.
Hoje é rosa distante prenunciada,
cujos cabelos de Altair são dela;
dela é a visão dos homens subterrâneos,
consolo como chuva desejada.
Tendo-a a insônia dos tempos despertado,
ontem houve enforcados, hoje guerras,
amanhã surgirão campos mais mortos.
Ó antípodas, ó pólos, somos trégua,
reconciliemo-nos na noite dessa
eterna infanta para sempre amada.
O poeta Jorge Mateus de Lima nasceu há 117 anos (23 de abril de 1893), na então Vila Nova da Imperatriz (hoje, União dos Palmares), no Estado de Alagoas.
Jorge de Lima
Canto XV - Invenção de Orfeu
A garupa da vaca era palustre e bela,
uma penugem havia em seu queixo formoso;
e na fronte lunada onde ardia uma estrela
pairava um pensamento em constante repouso.
Esta a imagem da vaca, a mais pura e singela
que do fundo do sonho eu às vezes esposo
e confunde-se à noite à outra imagem daquela
que ama me amamentou e jaz no último pouso.
Escuto-lhe o mugido, era o meu acalanto,
e seu olhar tão doce inda sinto no meu:
o seio e o ubre natais irrigam-me em seus veios.
Confundo-os nessa ganga informe que é meu canto:
semblante e leite, a vaca e a mulher que me deu
o leite e a suavidade a manar de dois seios.
Essa infanta
Jorge de Lima
Essa infanta boreal era a defunta
em noturna pavana sempre ungida,
colorida de galos silenciosos,
extrema-ungida de óleos renovados.
Hoje é rosa distante prenunciada,
cujos cabelos de Altair são dela;
dela é a visão dos homens subterrâneos,
consolo como chuva desejada.
Tendo-a a insônia dos tempos despertado,
ontem houve enforcados, hoje guerras,
amanhã surgirão campos mais mortos.
Ó antípodas, ó pólos, somos trégua,
reconciliemo-nos na noite dessa
eterna infanta para sempre amada.
O poeta Jorge Mateus de Lima nasceu há 117 anos (23 de abril de 1893), na então Vila Nova da Imperatriz (hoje, União dos Palmares), no Estado de Alagoas.
20 de abril de 2010
Tradução de Cícero Melo
A FESTA DA NEVE
Derek Mahon
Bashô, vindo
para a cidade de Nagoya,
é convidado para uma festa de neve.
Há um tilintar de louça fina
e chá na louça fina;
há apresentações.
Então, todo mundo
se amontoa na janela
para olhar a neve caindo.
A neve está caindo em Nagoya
e mais para o sul
nos telhados de Kyoto.
Mais a leste, além de Irago,
ela cai
como folhas no mar frio.
Em algum lugar, estão queimando
feiticeiras e heréticos
nas praças ferventes.
Milhares morreram desde a madrugada
no serviço
de reis bárbaros.
Mas, há silêncio
nas casa de Nagoya
e nas colinas de Ise.
----------------------------------------
DEREK MAHON nasceu em Belfast em 1941. É um dos maiores nomes da poesia em língua inglesa. Este poema foi traduzido de The Snow Party (1975), por Cicero Melo.
Derek Mahon
Bashô, vindo
para a cidade de Nagoya,
é convidado para uma festa de neve.
Há um tilintar de louça fina
e chá na louça fina;
há apresentações.
Então, todo mundo
se amontoa na janela
para olhar a neve caindo.
A neve está caindo em Nagoya
e mais para o sul
nos telhados de Kyoto.
Mais a leste, além de Irago,
ela cai
como folhas no mar frio.
Em algum lugar, estão queimando
feiticeiras e heréticos
nas praças ferventes.
Milhares morreram desde a madrugada
no serviço
de reis bárbaros.
Mas, há silêncio
nas casa de Nagoya
e nas colinas de Ise.
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DEREK MAHON nasceu em Belfast em 1941. É um dos maiores nomes da poesia em língua inglesa. Este poema foi traduzido de The Snow Party (1975), por Cicero Melo.
18 de abril de 2010
Poemas alagoanos
Poema
Jorge Cooper
Fui o auditório de meu pai
Dele ouvi coisas
com que a vida teci
Ele me ensinou a não saber
precipitar amizades
A não viver dentro do círculo de giz
A inverter a ilusão
e a querer bem à humanidade
Sorver o sal e o mel do acaso
Não me procurar esperar-me
- E ainda há quem diga por aí
ser um zero à esquerda do nada
a vida por mim levada
Mundaú (a Lagoa)
Jorge Cooper
Ontem
deu-me de rever a Mundaú
O sol ainda era a metade
no outro lado do mundo
e já nos galhos do mangue
às centenas posava de sangue-de-boi
o aratu
- Mas por lá não vi as canoas
nas coroas de sururu
É que a Mundaú imerge
torna-se quimera
pântano
lamarão da lagoa que era
- Nem sequer continua a ser
o poema à miséria
Lágrima seca nos olhos do povo
esperança enganada
- a Mundaú se faz chão
Mais nada
"Jorge Cooper, pela sua poesia sem arremedos provincianos, destituída de ranços acadêmicos, situa-se no limite entre os “Metaphisical poets” e o lirismo cavalheiresco e palaciano da poesia trovadoresca dos Minnesanger alemães da Idade Média. Isto tudo com pitadas dos goliardos, “poemas proletários”, pois Cooper, em momento algum, sacraliza a oralidade burguesa." (Marcos de Farias Costa – “Jorge Cooper: o Minnesanger Alagoano” – Artigo publicado no Jornal de Alagoas, em 21 de abril de 1987.
Jorge Cooper
Fui o auditório de meu pai
Dele ouvi coisas
com que a vida teci
Ele me ensinou a não saber
precipitar amizades
A não viver dentro do círculo de giz
A inverter a ilusão
e a querer bem à humanidade
Sorver o sal e o mel do acaso
Não me procurar esperar-me
- E ainda há quem diga por aí
ser um zero à esquerda do nada
a vida por mim levada
Mundaú (a Lagoa)
Jorge Cooper
Ontem
deu-me de rever a Mundaú
O sol ainda era a metade
no outro lado do mundo
e já nos galhos do mangue
às centenas posava de sangue-de-boi
o aratu
- Mas por lá não vi as canoas
nas coroas de sururu
É que a Mundaú imerge
torna-se quimera
pântano
lamarão da lagoa que era
- Nem sequer continua a ser
o poema à miséria
Lágrima seca nos olhos do povo
esperança enganada
- a Mundaú se faz chão
Mais nada
"Jorge Cooper, pela sua poesia sem arremedos provincianos, destituída de ranços acadêmicos, situa-se no limite entre os “Metaphisical poets” e o lirismo cavalheiresco e palaciano da poesia trovadoresca dos Minnesanger alemães da Idade Média. Isto tudo com pitadas dos goliardos, “poemas proletários”, pois Cooper, em momento algum, sacraliza a oralidade burguesa." (Marcos de Farias Costa – “Jorge Cooper: o Minnesanger Alagoano” – Artigo publicado no Jornal de Alagoas, em 21 de abril de 1987.
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