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27 de dezembro de 2009

Poema de Natal

Carlos Pena Filho

- Sino, claro sino, tocas para quem?
- Para o Deus menino que de longe vem.

- Pois se o encontrares, traze-o ao meu amor.
- E o que lhe ofereces, velho pecador?

- Minha fé cansada, meu vinho, meu pão,
- Meu silêncio limpo, minha solidão.

PENA FILHO, Carlos. Livro Geral - Poemas, Recife, Ed. Liceu, 1999.

24 de dezembro de 2009

Poema de Natal

Jorge de Lima

Ó Meu Jesus, quando você
ficar assim maiorzinho
venha para darmos um passeio
que eu também gosto de crianças.

Iremos ver as feras mansas
que há no jardim zoológico.
E em qualquer dia feriado
iremos, então, por exemplo,
ver Cristo Rei do Corcovado.

E quem passar vendo o menino
há de dizer: ali vai o filho
de Nossa Senhora da Conceição!

– Aquele menino que vai ali
(diversos homens logo dirão)
sabe mais coisas que todos nós!
– Bom dia, Jesus! – dirá uma voz.

E outras vozes cochicharão:
– É o belo menino que está no livro
da minha primeira comunhão!

– Como está forte! – Nada mudou!
– Que boa saúde! Que boas cores!
(Dirão adiante outros senhores.)

Mas outra gente de aspecto vário
há de dizer ao ver você:
– É o menino do carpinteiro!

E vendo esses modos de operário
que sai aos domingos para passear,
nos convidarão para irmos juntos
os camaradas visitar.

E quando voltarmos pra casa, à noite,
e forem para o vício os pecadores,
eles sem dúvida me convidarão.

Eu hei de inventar pretextos sutis
pra você me deixar sozinho ir.
Menino Jesus, miserere nobis,
segure com força a minha mão.

Soneto de Natal

Machado de Assis

Um homem, — era aquela noite amiga,
Noite cristã, berço no Nazareno, —
Ao relembrar os dias de pequeno,
E a viva dança, e a lépida cantiga,

Quis transportar ao verso doce e ameno
As sensações da sua idade antiga,
Naquela mesma velha noite amiga,
Noite cristã, berço do Nazareno.

Escolheu o soneto... A folha branca
Pede-lhe a inspiração; mas, frouxa e manca,
A pena não acode ao gesto seu.

E, em vão lutando contra o metro adverso,
Só lhe saiu este pequeno verso:
"Mudaria o Natal ou mudei eu?"

(Texto extraído do livro "Poesias Completas - Ocidentais", 1901)

21 de dezembro de 2009

Poema de Cícero Melo

Albedo

Cicero Melo

Apenas sou o que cala,
A cicatriz.
Um soco porco que estala
Pela raiz.

Eu sou aquele que entala
Pelo nariz
O vinho tinto da bala,
Escrava, atriz.

Eu sou o falo da fala,
O meretriz.

(Recife, 21 de dezembro de 2009)

18 de dezembro de 2009

Poemas alagoanos

Noturno em Jaraguá

Norton Sarmento Filho

Night and day, São Jorge, Tabariz,
Rua Sá e Albuquerque, marinheiros gregos,
noruegueses, finlandeses, indianos,
filipinos, etc ..................................
e o porto em frente testemunhando
a devassidão de corpos ébrios –
naufragados de sonhos e erotismo.

Os antigos casarões concupiscentes
eram os eternos coniventes do amor,
e nas suas fesceninas alcovas
eros perpetrou o solitário orgasmo,
no monte de vênus da sedenta meretriz.

Night and Day, São Jorge, Tabariz,
Rua Sá e Albuquerque, marinheiros gregos,
noruegueses, finlandeses, indianos,
filipinos, etc ...................................
e a noite do tempo não passou ainda,
nem o charleston nem o tango, o bolero,
o samba, o rock, o twist, a pop music
e todos os corpos que se amaram
em Jaraguá nightorrentemente.


En memória de César Figueiredo

Héctor Pellizzi

Me duele la noticia de la muerte de Cesar
el petiso que tenía estrellas em la mirada.
Claro y simple, com su bohemia prendida
en el azul de sus manos.

Yo lo recuerdo bajo la noche de Maceió,
en aquel bar, com Wanderley y Marcos Farias,
me acuerdo de la última copa,
de su ultima sonrisa, de sus espaldas doloridas.

Pero más me acuerdo de la primera vez,
quando me dió su libro, e um abrazo
y la borrachera de alegria y de cerveza
que compartimos com Norton
aquel barbado y lúcido alagoano...

Me duele su muerte com puñahales
incomprensibles e se me atraviesa
em la garganta la impotencia
de volver a Maceió y no encontrarlo.

(Escrito pelo poeta argentino em homenagem ao escritor alagoano)

13 de dezembro de 2009

Melhores poemas que eu li

Dois e dois são quatro

Ferreira Gullar

Como dois e dois são quatro
Sei que a vida vale a pena
Embora o pão seja caro
E a liberdade pequena

Como teus olhos são claros
E a tua pele, morena
como é azul o oceano
E a lagoa, serena

Como um tempo de alegria
Por trás do terror me acena
E a noite carrega o dia
No seu colo de açucena

- sei que dois e dois são quatro
sei que a vida vale a pena
mesmo que o pão seja caro
e a liberdade pequena.

Melhores poemas que eu li

Mar Portuguez

Fernando Pessoa

Ó mar salgado, quanto do teu sal
São lágrimas de Portugal!
Por te cruzarmos, quantas mães choraram,
Quantos filhos em vão rezaram!
Quantas noivas ficaram por casar
Para que fosses nosso, ó mar!

Valeu a pena? Tudo vale a pena
Se a alma não é pequena.
Quem quer passar além do Bojador
Tem que passar além da dor.
Deus ao mar o perigo e o abismo deu,
Mas nele é que espelhou o céu.

4 de dezembro de 2009

Meus poemas

Para Lêdo Ivo ao modo de Sidney Wanderley

Iremar Marinho

Ninguém sai do poema de Lêdo
Sem o mar estético
Sem as várzeas fluidas
Sem as raparigas do Cavalo Morto

Ninguém sai do poema de Lêdo
Sem lama lacustre
Sem dormir com as putas
Dos velhos sobrados
De Jaraguá redivivo

Ninguém sai do poema de Lêdo
Sem o açúcar bruto
Do porão das naves
No porto ancoradas

Meus poemas

Moto-poema

Iremar Marinho

Tive um poema
sua forma era
seu vazio-noite

Tive um poema
seu motivo era
seu moto-perene

Tive um poema
que persigo a mim
do fundo do espelho

Tive um poema
que perdi na aura
da morfometase

Tive um poema
de raro segundo
que me esvaiu

Tive um poema
que vida não tive
(um tema-revide)

3 de dezembro de 2009

Poema de Cícero Melo

Conspiração das musas, por certo.
Ao levantar-me para caminhar,
hoje, às 5 horas, "enquanto a chaleira
chiava", liguei o computador e abri
este Bestiário e o e-mail, deparando-me
com o aviso lacônico do poeta:
"Nasceu agora. Pode publicar".
Eis aí:

O perfume da ternura

Cicero Melo

Ventos perfumados com
Ternuras vestidas de
Leitos de sedento som.
Amores amargos a me
Dar sombra; passava por
Seios e sonhos, entre
Vargens de velada cor,
Vozes de vinhoso ventre.
Amores voavam, pois
Nos desejos ocos, em
Volta do sonho depois
Do que nada nunca vem.

1 de dezembro de 2009

Poemas de Cícero Melo

O poeta Cícero Melo, alagoano de União dos Palmares,
radicado no Recife, é, sem favor algum, um dos fortes
poetas em atividade em Pernambuco.

Como genuíno artista da palavra, nada tem de vulgar,
nada concede ao fácil. Com ele renova-se o nosso
melhor lirismo — em imagens, em musicalidade,
em domínio de técnica.

Sob esse último aspecto,
é visível seu gosto pela métrica e de extremo
bom senso o uso do verso livre com o necessário
rigor que este merece.

Foi o que fez desde mais jovem para abrir clareiras
à melopeia que permeia a sua poesia.
Ler e reler a poesia desse poeta tão inteligente
quanto avesso à chamada “vida literária”
é um permanente prazer. Vejam fragmentos
de seus livros Poemas da Escuridão
e O Verbo Sitiado, publicados
pelas Edições Bagaço, no Recife.

(Quem é esse que traz os pés cativos
À sentença de acasos e de meses,
Vago morto que aprende com os vivos?
Quem é esse de sonhos insepulto?)
Me perguntaram e neguei três vezes
Que era eu mesmo pelo mundo oculto.


Vênus Furiosa

A semente do amor rebenta a chama
E transita de novo o ser amado.
Ardor de mar sem foz, torpor alado.

Mas se Eros te foge, o amor reclama.

É sedosa a casa de quem ama
E sedento o jardim do seu cuidado.


Moldura

Desce rumo à infância
A morte despertada.
Pó e pesadelo
Nunca envelhecem.


Todos os pintassilgos morrerão

Todos os pintassilgos morrerão.
Morrerão todos os cantares.
Todos luminares morrerão.
Cegarão todos os olhos.
Todos os ossos secarão.
Ninguém se evadirá:
Todos serão sequestrados.

Esta é a cruz calcificaada
Em todas as mentes e margens.

Todos os pintassilgos morrerão.
Morrerão todos os monarcas.
Todas as menarcas cessarão.
Matarão todos os morgues.
Todos os morbos medrarão.
Não haverá anistia:
Todos serão executados.

Amarga fotografia enforcada na insônia...

24 de novembro de 2009

Melhores poemas que eu li

Tecendo a Manhã

João Cabral de Melo Neto

1

Um galo sozinho não tece uma manhã:
ele precisará sempre de outros galos.
De um que apanhe esse grito que ele
e o lance a outro; de um outro galo
que apanhe o grito de um galo antes
e o lance a outro; e de outros galos
que com muitos outros galos se cruzem
os fios de sol de seus gritos de galo,
para que a manhã, desde uma teia tênue,
se vá tecendo, entre todos os galos.

2

E se encorpando em tela, entre todos,
se erguendo tenda, onde entrem todos,
se entretendendo para todos, no toldo
(a manhã) que plana livre de armação.
A manhã, toldo de um tecido tão aéreo
que, tecido, se eleva por si: luz balão.

(A Educação pela Pedra)

18 de novembro de 2009

Quilombo Brasil

Iremar Marinho

"Faremos um povo de igual rebeldia.
Faremos um povo de bantus iguais.
Faremos de todos os lares fraternas senzalas sem mais.
Faremos a negra utopia do novo Palmares..."
(Missa dos Quilombos, Dom Pedro Casaldáliga, Pedro Tierra e Milton Nascimento)

"Zumbi poderia salvar Palmares, mas já não tenho esperanças".
Esta confissão de desesperança do professor palmarino Dílson Moreira da Costa, na comemoração dos 300 anos de Zumbi, acentuou a expectativa dos afrodescendentes, no vasto quilombo Brasil.

Precisamos esperar 300 anos para ouvir ecoar o grito de Palmares e constatar que a senzala resiste, diante dos quilombolas dispersos. O sistema econômico injusto é nada mais que a oficialização do regime de capatazia, que perpetua a escravidão dos baixos salários, do analfabetismo e da discriminação.

Os mesmos senhores feudais concentram as riquezas, alargando o fosso das diferenças entre as origens nobres européias e o porão dos navios negreiros. A abolição da escravatura não inclui a abolição da fome, da miséria e do preconceito. A servidão das senzalas continuou nas favelas, que são guetos à espera da libertação.

O apartheid brasileiro é ainda mais avassalador, porque lança seus fundamementos perversos na história oficial do país, para a qual a resistência quilombola foi apenas um episódio romântico e heróico, repassado com a perspectiva de que não se repetiria hoje, por não existirem mais os pressupostos da escravidão.

A própria comemoração dos 300 anos de Palmares soou como mais um embuste para encobrir as causas e os efeitos do massacre dos negros, aliado à perenização das desigualdades econômicas, políticas e sociais. Uma faixa, na estátua de Zumbi, no alto da Serra da Barriga, demonstra a traição da história: “Aqui repousa um grande herói do passado”.

Ora, Zumbi é um herói do passado, mas, sobretudo, do presente. Zumbi é o assalariado, o favelado, os humilhados e ofendidos, os sem-eira-nem-beira, os deserdados do Brasil que só existe nas estatísticas da prosperidade. Zumbi somos todos nós, anônimos, nos mocambos do vasto quilombo Brasil.
“Ninguém quer esta vida assim não, Zambi” (Martinho da Vila).

14 de novembro de 2009

Meus poemas

O mundo impossível dos meninos

Iremar Marinho

“Ó terra em que nasci e morri,
o seu Mundaú, suas lagoas,
minha mocidade.”

(Jorge de Lima)

Poeta Jorge de Lima,
universal e tão próximo.
Na invenção da infância,
criamos o mesmo mundo
impossível dos meninos.

Nós percorremos a mesma
Cidade da Madalena
(ex-Vila da Imperatriz),
o nosso burgo natal):

Rua da Apertada Hora,
Rua do Jatobazinho;
a Rua da Cachoeira,
a Rua do Virador,

Rua da Matança Velha,
Rua do Boi, do Carvão,
Rego da Guida, Pedreiras,
Rua do Consome Homem.

Sou da Rua do Cangote.
És do Largo da Matriz
(da esquina do Comércio,
olhando a Rua de Cima).

Nós passeamos a esmo
pelos “caminhos que ainda
têm orvalhos e sonâmbulos
bacuraus”, “ninhos suspensos”.

Vagueamos no Cruzeiro
do Século, no Jatobá,
no Sueca, no Bolão,
Tobiba, Terra-Cavada,

lá no Fundo do Surrão,
Brejo do Capim, Muquém,
no Cafuxi, Amolar,
no Caboje, na Jurema,

Várzea Grande, Mão Direita,
Cana Brava, Sapucaia,
no Caípe, no Mocambo,
no Ximenes, no Cajá,

no Riachão, nos Esconsos,
Serra Grande das Canoas,
Serras do Frio, da Laje,
da Barriga (do Quilombo).

Tomamos banho no mesmo
Mundaú, das “lavadeiras
seminuas “, curiosos
de ver aquelas “mocinhas
nuinhas, de pé... com frio...”

Na mesma feira de sábado
(eu me perdi do meu pai),
fostes guia da menina
cega que pedia esmolas.

Na estrada Great Western
(“balduínas sonolentas”),
os meninos de “alma lírica”
aprenderam ver paisagem.

Nossos mundos impossíveis
unem-se pelas lembranças
indeléveis como nódoas
nas almas destes meninos.

Eu te peço por empréstimo
tuas raízes (são nossas)
para deixá-las plantadas
para sempre na União.

Empresta-me teu sublime
Acendedor de Lampiões.
Empresta-me Santa Dica.
Empresta-me Pai João.

Empresta-me Quichimbi.
Empresta-me Janaína.
Tua Mulher Proletária.
Empresta-me Negra Fulô.

Só não tomo por empréstimo
tua grandeza de poeta
universal. Minha dívida
contigo é muito grande.

Dever-te-ei para sempre.

10 de novembro de 2009

Melhores poemas que eu li

Marinha

Arthur Rimbaud

As carroças de prata e de cobre -
As proas de aço e de prata -
Batem a espuma,-
Levantam as cepas das sarças.
As correntes no campo
E os sulcos imensos do refluxo
Soltam-se circularmente rumo ao este,
Rumo aos pilares da floresta,-
Rumo às hastes do quebra-mar,
Cujo ângulo é batido por turbilhões de luz.

Melhores poemas que eu li

As Flores do Mal

Spleen e Ideal

II - O Albatroz

Charles Baudelaire

Às vezes, por folgar, os homens da equipagem
Pegam de um albatroz, enorme ave do mar,
Que segue - companheiro indolente de viagem -
O navio no abismo amargo a deslizar.

E por sobre o convés, mal estendido apenas,
O imperador do azul, canhestro e envergonhado,
Asas que enchem de dó, grandes e de alvas penas,
Eis que deixa arrastar como remos ao lado.

O alado viajor tomba como num limbo!
Hoje é cômico e feio, ontem tanto agradava!
Um ao seu bico leva o irritante cachimbo,
Outro imita a coxear o enfermo que voava!

O Poeta é semelhante ao príncipe do céu
Que do arqueiro se ri e da tormenta no ar;
Exilado na terra e em meio do escarcéu,
As asas de gigante impedem-no de andar.

27 de outubro de 2009

Poemas de alagoanos

Felicidade

Jorge de Lima

Tão bonita a Lagoa Mundaú!
Eu vi os meninos pobres que iam tirar sururu.
Um bando deles. Uns tinham doze ou treze anos e pareciam ter oito.
Amarelos. Perto da Satuba tem um massapê ótimo.
Eles amassam, amassam, fazem balas.
Cozidas são mais gostosas que sururu.
E quem não sabe comer barro não sabe tirar sururu, com gosto.
Comer terra! Quando a bala vermelhinha cor de telha toca na
língua a boca se enche d’água para a bala se embeber.
Os meninos amarelos têm água por demais na boca.
Gosto de terra não é gosto de comida, de sal, de açúcar, de carne.
É gosto diferente. De terra! É um gosto doente como gosto de maleita.
Também quem não tem maleita não sabe tirar sururu com gosto.
O frio da maleita não se importa com sol nem com chuva
nem com o frio que está por fora da gente, no ar.
É um frio que vem de dentro.
Dá-se a mão e a mão está com 40.
Mas o frio é bom porque é diferente dos outros frios.
Os meninos que vão tirar sururu têm os olhos sumidos.
Mãe-maleita dorme com eles no jirau de pau-cundu.
Mãe-maleita dá-lhes sonhos de febre.
Os meninos sonham coisas doidas.
Que uma inglesinha que passou uma vez
numa lancha-automóvel veio urinar no massapê.
Eles sentem o gosto da inglesinha,
sonhando com o gosto do massapê mijado.
Têm outros sonhos, todos gostosos.
Os meninos tiram sururu com gosto. Ao meio dia o sol tine.
A água está morna e suja.
Ali pertinho já é a lama do sururu. Que gosto pisar na lama!
É diferente de pisar nas praias, na neve, na grama.
Os pés dos meninos têm sensibilidades inéditas.
A lama abarca o pé, entra entre os dedos,
mais grossa do que baba de boi, gruda-se na pele,
dá uma coceira boa nas frieiras.
Os meninos entram mais. A lama sobe.
É uma carícia peganhenta pelo corpo.
As mãos descem na lama. As canoas afundam de sururu.
O sol está tinindo, mas ninguém sente calor.
Tudo é bom. A miséria é boa. A lama é amorosa.
Parece que a vida é uma feitiçaria de sonho de maleita.

Poemas de alagoanos

Chuva e não (II)

Sidney Wanderley

Há dias em que chove poesia.
Dias em que pinga.
Dias em que não.

Cautela para os primeiros.
Atenção para os segundos.
Dos últimos, o áspero
aprendizado do silêncio,
a dura ração da recusa.

Alheios a chuva e poesia,
os dias prosseguirão.

20 de outubro de 2009

Meus poemas

Canto-chão

Iremar Marinho

Desta matéria se faz poesia.
Desta areia, desta maresia
Faz-se o plano do meu canto-chão.

Deste charco forjado de pânico
Brotam seres palavras que são
Pura estesia de mundo botânico.

Desta terra nascem bois alados,
Planta bovina que alimenta arados,
Nesta seara-mundos divididos.

Nesta vala homens são sulcados.
Desta horta são frutos caídos
De suas mesas fartas de ausência.

Meus poemas

Atenção para o poema

Iremar Marinho

Atenção para o poema
sem águas do Ipanema.

Atenção à ladainha
dos hereges de lapinha.

Atenção para o fonema.

Atenção para a lagoa
(a borra da usina escoa)

Atenção para meninas
perdizes (perdidas rimas)

Atenção para Alagoas.

Atenção para a ferrugem
na ponte (no mar, salsugem)

Atenção para emboscada
e “passos no vão da escada”.

Atenção ao véu de nuvem.

Atenção para o fuzil
e à pólvora no barril

Atenção para gaivotas
no rumo de Garça Torta

Atenção para o Brasil.