Dois e dois são quatro
Ferreira Gullar
Como dois e dois são quatro
Sei que a vida vale a pena
Embora o pão seja caro
E a liberdade pequena
Como teus olhos são claros
E a tua pele, morena
como é azul o oceano
E a lagoa, serena
Como um tempo de alegria
Por trás do terror me acena
E a noite carrega o dia
No seu colo de açucena
- sei que dois e dois são quatro
sei que a vida vale a pena
mesmo que o pão seja caro
e a liberdade pequena.
13 de dezembro de 2009
Melhores poemas que eu li
Mar Portuguez
Fernando Pessoa
Ó mar salgado, quanto do teu sal
São lágrimas de Portugal!
Por te cruzarmos, quantas mães choraram,
Quantos filhos em vão rezaram!
Quantas noivas ficaram por casar
Para que fosses nosso, ó mar!
Valeu a pena? Tudo vale a pena
Se a alma não é pequena.
Quem quer passar além do Bojador
Tem que passar além da dor.
Deus ao mar o perigo e o abismo deu,
Mas nele é que espelhou o céu.
Fernando Pessoa
Ó mar salgado, quanto do teu sal
São lágrimas de Portugal!
Por te cruzarmos, quantas mães choraram,
Quantos filhos em vão rezaram!
Quantas noivas ficaram por casar
Para que fosses nosso, ó mar!
Valeu a pena? Tudo vale a pena
Se a alma não é pequena.
Quem quer passar além do Bojador
Tem que passar além da dor.
Deus ao mar o perigo e o abismo deu,
Mas nele é que espelhou o céu.
4 de dezembro de 2009
Meus poemas
Para Lêdo Ivo ao modo de Sidney Wanderley
Iremar Marinho
Ninguém sai do poema de Lêdo
Sem o mar estético
Sem as várzeas fluidas
Sem as raparigas do Cavalo Morto
Ninguém sai do poema de Lêdo
Sem lama lacustre
Sem dormir com as putas
Dos velhos sobrados
De Jaraguá redivivo
Ninguém sai do poema de Lêdo
Sem o açúcar bruto
Do porão das naves
No porto ancoradas
Iremar Marinho
Ninguém sai do poema de Lêdo
Sem o mar estético
Sem as várzeas fluidas
Sem as raparigas do Cavalo Morto
Ninguém sai do poema de Lêdo
Sem lama lacustre
Sem dormir com as putas
Dos velhos sobrados
De Jaraguá redivivo
Ninguém sai do poema de Lêdo
Sem o açúcar bruto
Do porão das naves
No porto ancoradas
Meus poemas
Moto-poema
Iremar Marinho
Tive um poema
sua forma era
seu vazio-noite
Tive um poema
seu motivo era
seu moto-perene
Tive um poema
que persigo a mim
do fundo do espelho
Tive um poema
que perdi na aura
da morfometase
Tive um poema
de raro segundo
que me esvaiu
Tive um poema
que vida não tive
(um tema-revide)
Iremar Marinho
Tive um poema
sua forma era
seu vazio-noite
Tive um poema
seu motivo era
seu moto-perene
Tive um poema
que persigo a mim
do fundo do espelho
Tive um poema
que perdi na aura
da morfometase
Tive um poema
de raro segundo
que me esvaiu
Tive um poema
que vida não tive
(um tema-revide)
3 de dezembro de 2009
Poema de Cícero Melo
Conspiração das musas, por certo.
Ao levantar-me para caminhar,
hoje, às 5 horas, "enquanto a chaleira
chiava", liguei o computador e abri
este Bestiário e o e-mail, deparando-me
com o aviso lacônico do poeta:
"Nasceu agora. Pode publicar".
Eis aí:
O perfume da ternura
Cicero Melo
Ventos perfumados com
Ternuras vestidas de
Leitos de sedento som.
Amores amargos a me
Dar sombra; passava por
Seios e sonhos, entre
Vargens de velada cor,
Vozes de vinhoso ventre.
Amores voavam, pois
Nos desejos ocos, em
Volta do sonho depois
Do que nada nunca vem.
Ao levantar-me para caminhar,
hoje, às 5 horas, "enquanto a chaleira
chiava", liguei o computador e abri
este Bestiário e o e-mail, deparando-me
com o aviso lacônico do poeta:
"Nasceu agora. Pode publicar".
Eis aí:
O perfume da ternura
Cicero Melo
Ventos perfumados com
Ternuras vestidas de
Leitos de sedento som.
Amores amargos a me
Dar sombra; passava por
Seios e sonhos, entre
Vargens de velada cor,
Vozes de vinhoso ventre.
Amores voavam, pois
Nos desejos ocos, em
Volta do sonho depois
Do que nada nunca vem.
1 de dezembro de 2009
Poemas de Cícero Melo
O poeta Cícero Melo, alagoano de União dos Palmares,
radicado no Recife, é, sem favor algum, um dos fortes
poetas em atividade em Pernambuco.
Como genuíno artista da palavra, nada tem de vulgar,
nada concede ao fácil. Com ele renova-se o nosso
melhor lirismo — em imagens, em musicalidade,
em domínio de técnica.
Sob esse último aspecto,
é visível seu gosto pela métrica e de extremo
bom senso o uso do verso livre com o necessário
rigor que este merece.
Foi o que fez desde mais jovem para abrir clareiras
à melopeia que permeia a sua poesia.
Ler e reler a poesia desse poeta tão inteligente
quanto avesso à chamada “vida literária”
é um permanente prazer. Vejam fragmentos
de seus livros Poemas da Escuridão
e O Verbo Sitiado, publicados
pelas Edições Bagaço, no Recife.
(Quem é esse que traz os pés cativos
À sentença de acasos e de meses,
Vago morto que aprende com os vivos?
Quem é esse de sonhos insepulto?)
Me perguntaram e neguei três vezes
Que era eu mesmo pelo mundo oculto.
Vênus Furiosa
A semente do amor rebenta a chama
E transita de novo o ser amado.
Ardor de mar sem foz, torpor alado.
Mas se Eros te foge, o amor reclama.
É sedosa a casa de quem ama
E sedento o jardim do seu cuidado.
Moldura
Desce rumo à infância
A morte despertada.
Pó e pesadelo
Nunca envelhecem.
Todos os pintassilgos morrerão
Todos os pintassilgos morrerão.
Morrerão todos os cantares.
Todos luminares morrerão.
Cegarão todos os olhos.
Todos os ossos secarão.
Ninguém se evadirá:
Todos serão sequestrados.
Esta é a cruz calcificaada
Em todas as mentes e margens.
Todos os pintassilgos morrerão.
Morrerão todos os monarcas.
Todas as menarcas cessarão.
Matarão todos os morgues.
Todos os morbos medrarão.
Não haverá anistia:
Todos serão executados.
Amarga fotografia enforcada na insônia...
radicado no Recife, é, sem favor algum, um dos fortes
poetas em atividade em Pernambuco.
Como genuíno artista da palavra, nada tem de vulgar,
nada concede ao fácil. Com ele renova-se o nosso
melhor lirismo — em imagens, em musicalidade,
em domínio de técnica.
Sob esse último aspecto,
é visível seu gosto pela métrica e de extremo
bom senso o uso do verso livre com o necessário
rigor que este merece.
Foi o que fez desde mais jovem para abrir clareiras
à melopeia que permeia a sua poesia.
Ler e reler a poesia desse poeta tão inteligente
quanto avesso à chamada “vida literária”
é um permanente prazer. Vejam fragmentos
de seus livros Poemas da Escuridão
e O Verbo Sitiado, publicados
pelas Edições Bagaço, no Recife.
(Quem é esse que traz os pés cativos
À sentença de acasos e de meses,
Vago morto que aprende com os vivos?
Quem é esse de sonhos insepulto?)
Me perguntaram e neguei três vezes
Que era eu mesmo pelo mundo oculto.
Vênus Furiosa
A semente do amor rebenta a chama
E transita de novo o ser amado.
Ardor de mar sem foz, torpor alado.
Mas se Eros te foge, o amor reclama.
É sedosa a casa de quem ama
E sedento o jardim do seu cuidado.
Moldura
Desce rumo à infância
A morte despertada.
Pó e pesadelo
Nunca envelhecem.
Todos os pintassilgos morrerão
Todos os pintassilgos morrerão.
Morrerão todos os cantares.
Todos luminares morrerão.
Cegarão todos os olhos.
Todos os ossos secarão.
Ninguém se evadirá:
Todos serão sequestrados.
Esta é a cruz calcificaada
Em todas as mentes e margens.
Todos os pintassilgos morrerão.
Morrerão todos os monarcas.
Todas as menarcas cessarão.
Matarão todos os morgues.
Todos os morbos medrarão.
Não haverá anistia:
Todos serão executados.
Amarga fotografia enforcada na insônia...
24 de novembro de 2009
Melhores poemas que eu li
Tecendo a Manhã
João Cabral de Melo Neto
1
Um galo sozinho não tece uma manhã:
ele precisará sempre de outros galos.
De um que apanhe esse grito que ele
e o lance a outro; de um outro galo
que apanhe o grito de um galo antes
e o lance a outro; e de outros galos
que com muitos outros galos se cruzem
os fios de sol de seus gritos de galo,
para que a manhã, desde uma teia tênue,
se vá tecendo, entre todos os galos.
2
E se encorpando em tela, entre todos,
se erguendo tenda, onde entrem todos,
se entretendendo para todos, no toldo
(a manhã) que plana livre de armação.
A manhã, toldo de um tecido tão aéreo
que, tecido, se eleva por si: luz balão.
(A Educação pela Pedra)
João Cabral de Melo Neto
1
Um galo sozinho não tece uma manhã:
ele precisará sempre de outros galos.
De um que apanhe esse grito que ele
e o lance a outro; de um outro galo
que apanhe o grito de um galo antes
e o lance a outro; e de outros galos
que com muitos outros galos se cruzem
os fios de sol de seus gritos de galo,
para que a manhã, desde uma teia tênue,
se vá tecendo, entre todos os galos.
2
E se encorpando em tela, entre todos,
se erguendo tenda, onde entrem todos,
se entretendendo para todos, no toldo
(a manhã) que plana livre de armação.
A manhã, toldo de um tecido tão aéreo
que, tecido, se eleva por si: luz balão.
(A Educação pela Pedra)
18 de novembro de 2009
Quilombo Brasil
Iremar Marinho
"Faremos um povo de igual rebeldia.
Faremos um povo de bantus iguais.
Faremos de todos os lares fraternas senzalas sem mais.
Faremos a negra utopia do novo Palmares..."
(Missa dos Quilombos, Dom Pedro Casaldáliga, Pedro Tierra e Milton Nascimento)
"Zumbi poderia salvar Palmares, mas já não tenho esperanças".
Esta confissão de desesperança do professor palmarino Dílson Moreira da Costa, na comemoração dos 300 anos de Zumbi, acentuou a expectativa dos afrodescendentes, no vasto quilombo Brasil.
Precisamos esperar 300 anos para ouvir ecoar o grito de Palmares e constatar que a senzala resiste, diante dos quilombolas dispersos. O sistema econômico injusto é nada mais que a oficialização do regime de capatazia, que perpetua a escravidão dos baixos salários, do analfabetismo e da discriminação.
Os mesmos senhores feudais concentram as riquezas, alargando o fosso das diferenças entre as origens nobres européias e o porão dos navios negreiros. A abolição da escravatura não inclui a abolição da fome, da miséria e do preconceito. A servidão das senzalas continuou nas favelas, que são guetos à espera da libertação.
O apartheid brasileiro é ainda mais avassalador, porque lança seus fundamementos perversos na história oficial do país, para a qual a resistência quilombola foi apenas um episódio romântico e heróico, repassado com a perspectiva de que não se repetiria hoje, por não existirem mais os pressupostos da escravidão.
A própria comemoração dos 300 anos de Palmares soou como mais um embuste para encobrir as causas e os efeitos do massacre dos negros, aliado à perenização das desigualdades econômicas, políticas e sociais. Uma faixa, na estátua de Zumbi, no alto da Serra da Barriga, demonstra a traição da história: “Aqui repousa um grande herói do passado”.
Ora, Zumbi é um herói do passado, mas, sobretudo, do presente. Zumbi é o assalariado, o favelado, os humilhados e ofendidos, os sem-eira-nem-beira, os deserdados do Brasil que só existe nas estatísticas da prosperidade. Zumbi somos todos nós, anônimos, nos mocambos do vasto quilombo Brasil.
“Ninguém quer esta vida assim não, Zambi” (Martinho da Vila).
"Faremos um povo de igual rebeldia.
Faremos um povo de bantus iguais.
Faremos de todos os lares fraternas senzalas sem mais.
Faremos a negra utopia do novo Palmares..."
(Missa dos Quilombos, Dom Pedro Casaldáliga, Pedro Tierra e Milton Nascimento)
"Zumbi poderia salvar Palmares, mas já não tenho esperanças".
Esta confissão de desesperança do professor palmarino Dílson Moreira da Costa, na comemoração dos 300 anos de Zumbi, acentuou a expectativa dos afrodescendentes, no vasto quilombo Brasil.
Precisamos esperar 300 anos para ouvir ecoar o grito de Palmares e constatar que a senzala resiste, diante dos quilombolas dispersos. O sistema econômico injusto é nada mais que a oficialização do regime de capatazia, que perpetua a escravidão dos baixos salários, do analfabetismo e da discriminação.
Os mesmos senhores feudais concentram as riquezas, alargando o fosso das diferenças entre as origens nobres européias e o porão dos navios negreiros. A abolição da escravatura não inclui a abolição da fome, da miséria e do preconceito. A servidão das senzalas continuou nas favelas, que são guetos à espera da libertação.
O apartheid brasileiro é ainda mais avassalador, porque lança seus fundamementos perversos na história oficial do país, para a qual a resistência quilombola foi apenas um episódio romântico e heróico, repassado com a perspectiva de que não se repetiria hoje, por não existirem mais os pressupostos da escravidão.
A própria comemoração dos 300 anos de Palmares soou como mais um embuste para encobrir as causas e os efeitos do massacre dos negros, aliado à perenização das desigualdades econômicas, políticas e sociais. Uma faixa, na estátua de Zumbi, no alto da Serra da Barriga, demonstra a traição da história: “Aqui repousa um grande herói do passado”.
Ora, Zumbi é um herói do passado, mas, sobretudo, do presente. Zumbi é o assalariado, o favelado, os humilhados e ofendidos, os sem-eira-nem-beira, os deserdados do Brasil que só existe nas estatísticas da prosperidade. Zumbi somos todos nós, anônimos, nos mocambos do vasto quilombo Brasil.
“Ninguém quer esta vida assim não, Zambi” (Martinho da Vila).
14 de novembro de 2009
Meus poemas
O mundo impossível dos meninos
Iremar Marinho
“Ó terra em que nasci e morri,
o seu Mundaú, suas lagoas,
minha mocidade.”
(Jorge de Lima)
Poeta Jorge de Lima,
universal e tão próximo.
Na invenção da infância,
criamos o mesmo mundo
impossível dos meninos.
Nós percorremos a mesma
Cidade da Madalena
(ex-Vila da Imperatriz),
o nosso burgo natal):
Rua da Apertada Hora,
Rua do Jatobazinho;
a Rua da Cachoeira,
a Rua do Virador,
Rua da Matança Velha,
Rua do Boi, do Carvão,
Rego da Guida, Pedreiras,
Rua do Consome Homem.
Sou da Rua do Cangote.
És do Largo da Matriz
(da esquina do Comércio,
olhando a Rua de Cima).
Nós passeamos a esmo
pelos “caminhos que ainda
têm orvalhos e sonâmbulos
bacuraus”, “ninhos suspensos”.
Vagueamos no Cruzeiro
do Século, no Jatobá,
no Sueca, no Bolão,
Tobiba, Terra-Cavada,
lá no Fundo do Surrão,
Brejo do Capim, Muquém,
no Cafuxi, Amolar,
no Caboje, na Jurema,
Várzea Grande, Mão Direita,
Cana Brava, Sapucaia,
no Caípe, no Mocambo,
no Ximenes, no Cajá,
no Riachão, nos Esconsos,
Serra Grande das Canoas,
Serras do Frio, da Laje,
da Barriga (do Quilombo).
Tomamos banho no mesmo
Mundaú, das “lavadeiras
seminuas “, curiosos
de ver aquelas “mocinhas
nuinhas, de pé... com frio...”
Na mesma feira de sábado
(eu me perdi do meu pai),
fostes guia da menina
cega que pedia esmolas.
Na estrada Great Western
(“balduínas sonolentas”),
os meninos de “alma lírica”
aprenderam ver paisagem.
Nossos mundos impossíveis
unem-se pelas lembranças
indeléveis como nódoas
nas almas destes meninos.
Eu te peço por empréstimo
tuas raízes (são nossas)
para deixá-las plantadas
para sempre na União.
Empresta-me teu sublime
Acendedor de Lampiões.
Empresta-me Santa Dica.
Empresta-me Pai João.
Empresta-me Quichimbi.
Empresta-me Janaína.
Tua Mulher Proletária.
Empresta-me Negra Fulô.
Só não tomo por empréstimo
tua grandeza de poeta
universal. Minha dívida
contigo é muito grande.
Dever-te-ei para sempre.
Iremar Marinho
“Ó terra em que nasci e morri,
o seu Mundaú, suas lagoas,
minha mocidade.”
(Jorge de Lima)
Poeta Jorge de Lima,
universal e tão próximo.
Na invenção da infância,
criamos o mesmo mundo
impossível dos meninos.
Nós percorremos a mesma
Cidade da Madalena
(ex-Vila da Imperatriz),
o nosso burgo natal):
Rua da Apertada Hora,
Rua do Jatobazinho;
a Rua da Cachoeira,
a Rua do Virador,
Rua da Matança Velha,
Rua do Boi, do Carvão,
Rego da Guida, Pedreiras,
Rua do Consome Homem.
Sou da Rua do Cangote.
És do Largo da Matriz
(da esquina do Comércio,
olhando a Rua de Cima).
Nós passeamos a esmo
pelos “caminhos que ainda
têm orvalhos e sonâmbulos
bacuraus”, “ninhos suspensos”.
Vagueamos no Cruzeiro
do Século, no Jatobá,
no Sueca, no Bolão,
Tobiba, Terra-Cavada,
lá no Fundo do Surrão,
Brejo do Capim, Muquém,
no Cafuxi, Amolar,
no Caboje, na Jurema,
Várzea Grande, Mão Direita,
Cana Brava, Sapucaia,
no Caípe, no Mocambo,
no Ximenes, no Cajá,
no Riachão, nos Esconsos,
Serra Grande das Canoas,
Serras do Frio, da Laje,
da Barriga (do Quilombo).
Tomamos banho no mesmo
Mundaú, das “lavadeiras
seminuas “, curiosos
de ver aquelas “mocinhas
nuinhas, de pé... com frio...”
Na mesma feira de sábado
(eu me perdi do meu pai),
fostes guia da menina
cega que pedia esmolas.
Na estrada Great Western
(“balduínas sonolentas”),
os meninos de “alma lírica”
aprenderam ver paisagem.
Nossos mundos impossíveis
unem-se pelas lembranças
indeléveis como nódoas
nas almas destes meninos.
Eu te peço por empréstimo
tuas raízes (são nossas)
para deixá-las plantadas
para sempre na União.
Empresta-me teu sublime
Acendedor de Lampiões.
Empresta-me Santa Dica.
Empresta-me Pai João.
Empresta-me Quichimbi.
Empresta-me Janaína.
Tua Mulher Proletária.
Empresta-me Negra Fulô.
Só não tomo por empréstimo
tua grandeza de poeta
universal. Minha dívida
contigo é muito grande.
Dever-te-ei para sempre.
10 de novembro de 2009
Melhores poemas que eu li
Marinha
Arthur Rimbaud
As carroças de prata e de cobre -
As proas de aço e de prata -
Batem a espuma,-
Levantam as cepas das sarças.
As correntes no campo
E os sulcos imensos do refluxo
Soltam-se circularmente rumo ao este,
Rumo aos pilares da floresta,-
Rumo às hastes do quebra-mar,
Cujo ângulo é batido por turbilhões de luz.
Arthur Rimbaud
As carroças de prata e de cobre -
As proas de aço e de prata -
Batem a espuma,-
Levantam as cepas das sarças.
As correntes no campo
E os sulcos imensos do refluxo
Soltam-se circularmente rumo ao este,
Rumo aos pilares da floresta,-
Rumo às hastes do quebra-mar,
Cujo ângulo é batido por turbilhões de luz.
Melhores poemas que eu li
As Flores do Mal
Spleen e Ideal
II - O Albatroz
Charles Baudelaire
Às vezes, por folgar, os homens da equipagem
Pegam de um albatroz, enorme ave do mar,
Que segue - companheiro indolente de viagem -
O navio no abismo amargo a deslizar.
E por sobre o convés, mal estendido apenas,
O imperador do azul, canhestro e envergonhado,
Asas que enchem de dó, grandes e de alvas penas,
Eis que deixa arrastar como remos ao lado.
O alado viajor tomba como num limbo!
Hoje é cômico e feio, ontem tanto agradava!
Um ao seu bico leva o irritante cachimbo,
Outro imita a coxear o enfermo que voava!
O Poeta é semelhante ao príncipe do céu
Que do arqueiro se ri e da tormenta no ar;
Exilado na terra e em meio do escarcéu,
As asas de gigante impedem-no de andar.
Spleen e Ideal
II - O Albatroz
Charles Baudelaire
Às vezes, por folgar, os homens da equipagem
Pegam de um albatroz, enorme ave do mar,
Que segue - companheiro indolente de viagem -
O navio no abismo amargo a deslizar.
E por sobre o convés, mal estendido apenas,
O imperador do azul, canhestro e envergonhado,
Asas que enchem de dó, grandes e de alvas penas,
Eis que deixa arrastar como remos ao lado.
O alado viajor tomba como num limbo!
Hoje é cômico e feio, ontem tanto agradava!
Um ao seu bico leva o irritante cachimbo,
Outro imita a coxear o enfermo que voava!
O Poeta é semelhante ao príncipe do céu
Que do arqueiro se ri e da tormenta no ar;
Exilado na terra e em meio do escarcéu,
As asas de gigante impedem-no de andar.
27 de outubro de 2009
Poemas de alagoanos
Felicidade
Jorge de Lima
Tão bonita a Lagoa Mundaú!
Eu vi os meninos pobres que iam tirar sururu.
Um bando deles. Uns tinham doze ou treze anos e pareciam ter oito.
Amarelos. Perto da Satuba tem um massapê ótimo.
Eles amassam, amassam, fazem balas.
Cozidas são mais gostosas que sururu.
E quem não sabe comer barro não sabe tirar sururu, com gosto.
Comer terra! Quando a bala vermelhinha cor de telha toca na
língua a boca se enche d’água para a bala se embeber.
Os meninos amarelos têm água por demais na boca.
Gosto de terra não é gosto de comida, de sal, de açúcar, de carne.
É gosto diferente. De terra! É um gosto doente como gosto de maleita.
Também quem não tem maleita não sabe tirar sururu com gosto.
O frio da maleita não se importa com sol nem com chuva
nem com o frio que está por fora da gente, no ar.
É um frio que vem de dentro.
Dá-se a mão e a mão está com 40.
Mas o frio é bom porque é diferente dos outros frios.
Os meninos que vão tirar sururu têm os olhos sumidos.
Mãe-maleita dorme com eles no jirau de pau-cundu.
Mãe-maleita dá-lhes sonhos de febre.
Os meninos sonham coisas doidas.
Que uma inglesinha que passou uma vez
numa lancha-automóvel veio urinar no massapê.
Eles sentem o gosto da inglesinha,
sonhando com o gosto do massapê mijado.
Têm outros sonhos, todos gostosos.
Os meninos tiram sururu com gosto. Ao meio dia o sol tine.
A água está morna e suja.
Ali pertinho já é a lama do sururu. Que gosto pisar na lama!
É diferente de pisar nas praias, na neve, na grama.
Os pés dos meninos têm sensibilidades inéditas.
A lama abarca o pé, entra entre os dedos,
mais grossa do que baba de boi, gruda-se na pele,
dá uma coceira boa nas frieiras.
Os meninos entram mais. A lama sobe.
É uma carícia peganhenta pelo corpo.
As mãos descem na lama. As canoas afundam de sururu.
O sol está tinindo, mas ninguém sente calor.
Tudo é bom. A miséria é boa. A lama é amorosa.
Parece que a vida é uma feitiçaria de sonho de maleita.
Jorge de Lima
Tão bonita a Lagoa Mundaú!
Eu vi os meninos pobres que iam tirar sururu.
Um bando deles. Uns tinham doze ou treze anos e pareciam ter oito.
Amarelos. Perto da Satuba tem um massapê ótimo.
Eles amassam, amassam, fazem balas.
Cozidas são mais gostosas que sururu.
E quem não sabe comer barro não sabe tirar sururu, com gosto.
Comer terra! Quando a bala vermelhinha cor de telha toca na
língua a boca se enche d’água para a bala se embeber.
Os meninos amarelos têm água por demais na boca.
Gosto de terra não é gosto de comida, de sal, de açúcar, de carne.
É gosto diferente. De terra! É um gosto doente como gosto de maleita.
Também quem não tem maleita não sabe tirar sururu com gosto.
O frio da maleita não se importa com sol nem com chuva
nem com o frio que está por fora da gente, no ar.
É um frio que vem de dentro.
Dá-se a mão e a mão está com 40.
Mas o frio é bom porque é diferente dos outros frios.
Os meninos que vão tirar sururu têm os olhos sumidos.
Mãe-maleita dorme com eles no jirau de pau-cundu.
Mãe-maleita dá-lhes sonhos de febre.
Os meninos sonham coisas doidas.
Que uma inglesinha que passou uma vez
numa lancha-automóvel veio urinar no massapê.
Eles sentem o gosto da inglesinha,
sonhando com o gosto do massapê mijado.
Têm outros sonhos, todos gostosos.
Os meninos tiram sururu com gosto. Ao meio dia o sol tine.
A água está morna e suja.
Ali pertinho já é a lama do sururu. Que gosto pisar na lama!
É diferente de pisar nas praias, na neve, na grama.
Os pés dos meninos têm sensibilidades inéditas.
A lama abarca o pé, entra entre os dedos,
mais grossa do que baba de boi, gruda-se na pele,
dá uma coceira boa nas frieiras.
Os meninos entram mais. A lama sobe.
É uma carícia peganhenta pelo corpo.
As mãos descem na lama. As canoas afundam de sururu.
O sol está tinindo, mas ninguém sente calor.
Tudo é bom. A miséria é boa. A lama é amorosa.
Parece que a vida é uma feitiçaria de sonho de maleita.
Poemas de alagoanos
Chuva e não (II)
Sidney Wanderley
Há dias em que chove poesia.
Dias em que pinga.
Dias em que não.
Cautela para os primeiros.
Atenção para os segundos.
Dos últimos, o áspero
aprendizado do silêncio,
a dura ração da recusa.
Alheios a chuva e poesia,
os dias prosseguirão.
Sidney Wanderley
Há dias em que chove poesia.
Dias em que pinga.
Dias em que não.
Cautela para os primeiros.
Atenção para os segundos.
Dos últimos, o áspero
aprendizado do silêncio,
a dura ração da recusa.
Alheios a chuva e poesia,
os dias prosseguirão.
20 de outubro de 2009
Meus poemas
Canto-chão
Iremar Marinho
Desta matéria se faz poesia.
Desta areia, desta maresia
Faz-se o plano do meu canto-chão.
Deste charco forjado de pânico
Brotam seres palavras que são
Pura estesia de mundo botânico.
Desta terra nascem bois alados,
Planta bovina que alimenta arados,
Nesta seara-mundos divididos.
Nesta vala homens são sulcados.
Desta horta são frutos caídos
De suas mesas fartas de ausência.
Iremar Marinho
Desta matéria se faz poesia.
Desta areia, desta maresia
Faz-se o plano do meu canto-chão.
Deste charco forjado de pânico
Brotam seres palavras que são
Pura estesia de mundo botânico.
Desta terra nascem bois alados,
Planta bovina que alimenta arados,
Nesta seara-mundos divididos.
Nesta vala homens são sulcados.
Desta horta são frutos caídos
De suas mesas fartas de ausência.
Meus poemas
Atenção para o poema
Iremar Marinho
Atenção para o poema
sem águas do Ipanema.
Atenção à ladainha
dos hereges de lapinha.
Atenção para o fonema.
Atenção para a lagoa
(a borra da usina escoa)
Atenção para meninas
perdizes (perdidas rimas)
Atenção para Alagoas.
Atenção para a ferrugem
na ponte (no mar, salsugem)
Atenção para emboscada
e “passos no vão da escada”.
Atenção ao véu de nuvem.
Atenção para o fuzil
e à pólvora no barril
Atenção para gaivotas
no rumo de Garça Torta
Atenção para o Brasil.
Iremar Marinho
Atenção para o poema
sem águas do Ipanema.
Atenção à ladainha
dos hereges de lapinha.
Atenção para o fonema.
Atenção para a lagoa
(a borra da usina escoa)
Atenção para meninas
perdizes (perdidas rimas)
Atenção para Alagoas.
Atenção para a ferrugem
na ponte (no mar, salsugem)
Atenção para emboscada
e “passos no vão da escada”.
Atenção ao véu de nuvem.
Atenção para o fuzil
e à pólvora no barril
Atenção para gaivotas
no rumo de Garça Torta
Atenção para o Brasil.
14 de outubro de 2009
Melhores poemas que eu li
E assim em Nínive
Ezra Pound
“Sim, sou um poeta e sobre a minha tumba
Donzelas hão de espalhar pétalas de rosas
E os homens, mirto, antes que a noite
Degole o dia com a espada escura.
“Vê! Não cabe a mim
Nem a ti objetar,
Pois o costume é antigo
E aqui em Nínive já observei
Mais de um cantor passar e ir habitar
O horto sombrio onde ninguém perturba
Seu sono ou canto.
E mais de um cantou suas canções
Com mais arte e mais alma do que eu;
E mais de um agora sobrepassa
Com seu laurel de flores
Minha beleza combalida pelas ondas,
Mas eu sou um poeta e sobre a minha tumba
Todos os homens hão de espalhar pétalas de rosas
Antes que a noite mate a luz
Com sua espada azul.
“Não é, Raana, que eu soe mais alto
Ou mais doce que os outros. É que eu
Sou um Poeta, e bebo vida
Como os homens menores bebem vinho.”
Poética
Manuel Bandeira
Estou farto do lirismo comedido
Do lirismo bem comportado
Do lirismo funcionário público
com livro de ponto expediente protocolo
e manifestações de apreço ao sr. diretor.
Estou farto do lirismo que pára
e vai averiguar no dicionário
o cunho vernáculo de um vocábulo
Abaixo os puristas
Todas as palavras sobretudo os barbarismos universais
Todas as construções sobretudo as sintaxes de exceção
Todos os ritmos sobretudo os inumeráveis
Estou farto do lirismo namorador
Político
Raquítico
Sifilítico
De todo lirismo que capitula
ao que quer que seja fora de si mesmo.
De resto não é lirismo
Será contabilidade de co-senos secretário
do amante exemplar com cem modelos de cartas
e as diferentes maneiras de agradar às mulheres, etc.
Quero antes o lirismo dos loucos
O lirismo dos bêbados
O lirismo difícil e pungente dos bêbados
O lirismo dos clowns de Shakespeare
- Não quero mais saber do lirismo que não é libertação.
Ezra Pound
“Sim, sou um poeta e sobre a minha tumba
Donzelas hão de espalhar pétalas de rosas
E os homens, mirto, antes que a noite
Degole o dia com a espada escura.
“Vê! Não cabe a mim
Nem a ti objetar,
Pois o costume é antigo
E aqui em Nínive já observei
Mais de um cantor passar e ir habitar
O horto sombrio onde ninguém perturba
Seu sono ou canto.
E mais de um cantou suas canções
Com mais arte e mais alma do que eu;
E mais de um agora sobrepassa
Com seu laurel de flores
Minha beleza combalida pelas ondas,
Mas eu sou um poeta e sobre a minha tumba
Todos os homens hão de espalhar pétalas de rosas
Antes que a noite mate a luz
Com sua espada azul.
“Não é, Raana, que eu soe mais alto
Ou mais doce que os outros. É que eu
Sou um Poeta, e bebo vida
Como os homens menores bebem vinho.”
Poética
Manuel Bandeira
Estou farto do lirismo comedido
Do lirismo bem comportado
Do lirismo funcionário público
com livro de ponto expediente protocolo
e manifestações de apreço ao sr. diretor.
Estou farto do lirismo que pára
e vai averiguar no dicionário
o cunho vernáculo de um vocábulo
Abaixo os puristas
Todas as palavras sobretudo os barbarismos universais
Todas as construções sobretudo as sintaxes de exceção
Todos os ritmos sobretudo os inumeráveis
Estou farto do lirismo namorador
Político
Raquítico
Sifilítico
De todo lirismo que capitula
ao que quer que seja fora de si mesmo.
De resto não é lirismo
Será contabilidade de co-senos secretário
do amante exemplar com cem modelos de cartas
e as diferentes maneiras de agradar às mulheres, etc.
Quero antes o lirismo dos loucos
O lirismo dos bêbados
O lirismo difícil e pungente dos bêbados
O lirismo dos clowns de Shakespeare
- Não quero mais saber do lirismo que não é libertação.
11 de outubro de 2009
Poesia alagoana
O Mapa
Fernando Fiúza
Há quem perceba no mapa
geográfico de Alagoas
o formato de um revólver.
O lado externo do cabo
é de esmeralda corrente
e um morno colar de areia;
O de dentro, também verde,
de canaviais e mangue,
lagoa, riacho e rio.
O cão seria em Penedo
e a mira na Paulo Afonso
onde Delmiro se fez.
O lado externo do cano
é também feito de água
cansada do São Francisco.
O gatilho mais preciso
presisamente em Palmeira
- ou seria em Quebrangulo?
Searas gracilianas
- agrestes de talo e prego,
rifle, cinema e calor.
Mas não foi arma que vi
no mapa das Alagoas,
foi um alvo negro e úmido.
A virilha da direita
é de esmeralda corrente
e um morno colar de espuma;
Da sinistra sabe o rio
que dá diamba e melão
e na foz fez um deserto.
Sob os pelos afiados
- palha de cana e caatinga
- dorme uma carne macia.
- Pedra mole e massapé –
sangue velho, muita rima,
rendado, ostra e espelho.
Mas a greta é imprecisa:
Paraíba ou Mundaú?
Neste aí Jorge de Lima
na leda da margem porosa
fundou seu mundo de luz
sob as mangueiras em flor.
Fernando Fiúza
Há quem perceba no mapa
geográfico de Alagoas
o formato de um revólver.
O lado externo do cabo
é de esmeralda corrente
e um morno colar de areia;
O de dentro, também verde,
de canaviais e mangue,
lagoa, riacho e rio.
O cão seria em Penedo
e a mira na Paulo Afonso
onde Delmiro se fez.
O lado externo do cano
é também feito de água
cansada do São Francisco.
O gatilho mais preciso
presisamente em Palmeira
- ou seria em Quebrangulo?
Searas gracilianas
- agrestes de talo e prego,
rifle, cinema e calor.
Mas não foi arma que vi
no mapa das Alagoas,
foi um alvo negro e úmido.
A virilha da direita
é de esmeralda corrente
e um morno colar de espuma;
Da sinistra sabe o rio
que dá diamba e melão
e na foz fez um deserto.
Sob os pelos afiados
- palha de cana e caatinga
- dorme uma carne macia.
- Pedra mole e massapé –
sangue velho, muita rima,
rendado, ostra e espelho.
Mas a greta é imprecisa:
Paraíba ou Mundaú?
Neste aí Jorge de Lima
na leda da margem porosa
fundou seu mundo de luz
sob as mangueiras em flor.
Poesia alagoana
Sindicato do crime
Maurício de Macedo
A gente não mata por honra.
A gente não mata por Deus.
A gente não mata para roubar.
A gente só mata a soldo,
seja quem for o patrão.
A gente não mata em duelo.
A gente não mata lutando
com faca ou punhal.
A gente só mata de tocaia.
A bala só pega por trás.
A razão do patrão não importa:
disputa política ou terra,
ele não suja as mãos.
E sem razão fica o crime
pela distância que há
entre a mão que puxa o gatilho
e a boca que manda matar,
de modo que a gente pensa
que a gente mata por matar.
Maurício de Macedo
A gente não mata por honra.
A gente não mata por Deus.
A gente não mata para roubar.
A gente só mata a soldo,
seja quem for o patrão.
A gente não mata em duelo.
A gente não mata lutando
com faca ou punhal.
A gente só mata de tocaia.
A bala só pega por trás.
A razão do patrão não importa:
disputa política ou terra,
ele não suja as mãos.
E sem razão fica o crime
pela distância que há
entre a mão que puxa o gatilho
e a boca que manda matar,
de modo que a gente pensa
que a gente mata por matar.
7 de outubro de 2009
Meus poemas
Saltimbanco
Iremar Marinho
No burburinho
cada um por si
vai costurando o mundo
que só de contrários se sustém.
Cada um vai fazendo suas contas
somando percalços
deduzindo alegrias
multiplicando desprezos.
No burburinho
cada um esbarra
na porta fechada de si mesmo.
No burburinho
quero passar com meu estandarte
expor estilhaços
calafetar rachaduras.
Estou sangrando
os pés calejados
as feridas expostas.
Aos trapos
minhas fissuras não comovem.
No burburinho
sou só um saltimbanco.
Iremar Marinho
No burburinho
cada um por si
vai costurando o mundo
que só de contrários se sustém.
Cada um vai fazendo suas contas
somando percalços
deduzindo alegrias
multiplicando desprezos.
No burburinho
cada um esbarra
na porta fechada de si mesmo.
No burburinho
quero passar com meu estandarte
expor estilhaços
calafetar rachaduras.
Estou sangrando
os pés calejados
as feridas expostas.
Aos trapos
minhas fissuras não comovem.
No burburinho
sou só um saltimbanco.
Melhores poemas que eu li - Fragmentos de Altazor
Do Canto II
Vicente Huidobro
Mulher o mundo está mobiliado por teus olhos
Faz-se mais alto o céu em tua presença
A terra se prolonga de rosa em rosa
E o ar se prolonga de paloma em paloma
Ao partires deixas uma estrela em teu lugar
Deixas cair tuas luzes como o barco que passa
Enquanto te segue meu canto enfeitiçado
Como uma serpente fiel e melancólica
E voltas a cabeça por trás de algum astro
Que combate se livra no espaço?
Essas lanças de luz entre planetas
Reflexo de armaduras desapiedadas
Que estrela sanguinária não quer ceder o passo?
Onde estás triste noctâmbula
Doadora de infinito
Que passeias no bosque dos sonhos?
Vicente Huidobro
Mulher o mundo está mobiliado por teus olhos
Faz-se mais alto o céu em tua presença
A terra se prolonga de rosa em rosa
E o ar se prolonga de paloma em paloma
Ao partires deixas uma estrela em teu lugar
Deixas cair tuas luzes como o barco que passa
Enquanto te segue meu canto enfeitiçado
Como uma serpente fiel e melancólica
E voltas a cabeça por trás de algum astro
Que combate se livra no espaço?
Essas lanças de luz entre planetas
Reflexo de armaduras desapiedadas
Que estrela sanguinária não quer ceder o passo?
Onde estás triste noctâmbula
Doadora de infinito
Que passeias no bosque dos sonhos?
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